quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Partido dos trabalhadores no Congresso Nacional

Em 1980, com o fim do bipartidarismo, o Movimento Democrático Brasileiro-MDB, transformou-se em partido. Ulysses Guimarães seu presidente nacional. A vitória extraordinária da dupla Henrique Santillo e Juarez Bernardes sobre o trio arenista Jonas Duarte, Osires Teixeira e Jarmund Nasser, para o Senado, nas eleições de 1978, destacou Santillo como a maior liderança do Estado. Estava consolidada sua força eleitoral. Qualquer eleição direta que disputasse a partir daquele instante, com certeza sairia vencedor.

Como Henrique Santillo nunca se preocupou em ter comando do partido a nível regional, quando o diretório estadual foi ser estruturado, Iris Rezende Machado, que havia passado 10 anos fora da das disputas eleitorais, por ter perdido seus direitos políticos em 1969, com o término da punição que o levou ao ostracismo, retornou ingressando no PMDB. Com deputados e lideranças conservadoras, Iris Rezende formou o diretório com ampla maioria de simpatizantes seus, para que fosse o candidato ao governo do Estado, nas eleições diretas marcadas para 1982.

Com o golpe, Iris assumindo o controle absoluto do PMDB goiano, o grupo Santillista decidiu ingressar no Partido dos Trabalhadores, abrindo caminho para Henrique Santillo, também disputar a governadoria. Dessa forma Henrique Santillo foi o primeiro senador petista, no Senado. Foi inclusive o secretário da reunião realizada em São Bernardo do Campo, em que o partido se organizou nacionalmente, sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva.

Na Câmara Federal, os ex-emedebistas Airton Soares-SP, Luiz Checchinel-SC, Edson Kahir-RJ, Antônio Carlos de Oliveira-MS e eu de Goiás, formamos a primeira bancada do PT. Os companheiros me indicaram como o primeiro líder petista na Câmara dos Deputados. Fui líder durante o tempo em que estive no partido. Demos ao Partido dos Trabalhadores amplitude nacional. Colaboramos muito para o seu fortalecimento. Além do trabalho parlamentar visitamos quase todos os estados organizando o partido.


Na próxima terça feira, dia 6/12/2011, será inaugurado o painel dos deputados que lideraram o PT na Câmara Federal desde o seu surgimento. Solenidade marcada para às 19 horas, no Salão Verde do Congresso Nacional. Embora não mais pertencendo ao PT, mas por ter sido seu primeiro líder, fui convidado a participar desse acontecimento histórico.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O terceiro lugar

Em 1972, o prefeito Henrique Santillo desejando modernizar e ampliar o serviço de água e esgoto do município de Anápolis, pleiteou financiamento junto à Caixa Econômica Federal. Administrava o serviço, a Superintendência Municipal de Saneamento-Sumsan. Esbarrou na exigência da Caixa, de só financiar projetos que pertencessem às empresas estaduais. Não tendo alternativa, e para não prejudicar a população, o prefeito transferiu para a Saneago o comando do serviço de água e esgoto e todo o patrimônio que pertencia à Sumsan.

Como Governador, em 1987, portanto há 24 anos, o destino reservou a Henrique Santillo realizar o que planejara como prefeito. Implantou no Município importante sistema de captação e tratamento do esgoto domiciliar. Foram aplicados mais de cem milhões de dólares. A maior obra pública realizada em favor da população de Anápolis em todos os tempos. Tudo financiado pela Caixa Econômica Federal. A rede coletora que existia, até então, atendendo precariamente ao setor central da Cidade, foi toda refeita por rede moderna, resistente e de grande vazão. Todos os bairros existentes e minimamente habitados foram beneficiados. Quase toda a área territorial urbana existente recebeu o serviço de esgoto. O sistema recebeu moderníssima estação de tratamento. Sepultado de uma vez por todas o esgotamento, sem qualquer tratamento, esgoto que era despejado no Córrego Antas sem tratamento, agora voltava com águas cristalinas ao leito do referido curso d’água.

Esse serviço extraordinário aliado ao abastecimento de água potável às regiões da Jaiara, Alexandrina, Boa Vista, Santa Isabel, Jardim América, Santa Maria de Nazareth, Fabril e dezenas de outras, pelo sistema do Ribeirão Piancó, realizado na administração de Íris Rezende Machado, foi marcante para se melhorar as condições de vida dos anapolinos. Os mais de quatro milhões de metros quadrados que fizemos de asfaltamento na cidade consolidaram essa melhoria. Mortalidade infantil caiu. Doenças respiratórias e todas aquelas originárias da falta infraestrutura sanitária como diarréia, hepatites, dengue e poliomielite foram reduzidas a níveis das cidades desenvolvidas.

Passados 24 anos da execução daqueles serviços, pouco ou quase nada foi acrescido ao que existia. A extensão do serviço de água potável que houve, foi realizada na administração de Maguito Vilela, governador e nossa como prefeito, em 1998. Aproveitando o excedente da água do Distrito Agro Industrial de Anápolis-DAIA foram atendidos bairros como Santo André, São João, Calixtolândia, Pólo Centro, Vivian Parque, Calixtópolis, Vila União, Paraíso, Novo Paraíso, Parque das Primaveras, Mariana e outros. Atendimento que é emergencial e precário poderá ir ao colapso com a inclusão do Residencial Copacabana, com 1300 residências do programa Minha Casa, Minha Vida, que também será abastecido pelo mesmo sistema do DAIA.

Essa falta de investimento em saneamento em Anápolis nestes últimos 24 anos, conforme dados do Sistema de Informações em Saúde, do Ministério da Saúde, está provocando graves consequências à saúde dos anapolinos. Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, sobre Esgotamento Sanitário Inadequado e Impactos na Saúde da População, em municípios com mais de 300 mil habitantes, revela que Anápolis está entre os município com a maior incidência de diarréia, provocada por falta de saneamento. São 325,7 internações para cada grupo de 100 mil habitantes. Três vezes mais que a média brasileira de 107,4 internações por diarréia, para cada grupo de 100 mil habitantes. O Município ocupa o lamentável 8º lugar, em nível nacional, sobre pessoas com diarréia, por falta de saneamento. Quando se trata dos custos dessas internações para a saúde pública, a diarréia causada pela falta de saneamento em Anápolis fica em 3º lugar. Só gastam mais que Anápolis, no tratamento à diarréia, Vitória da Conquista (BA) e Maceió (AL).

Anápolis em 2003, treze anos após Henrique Santillo ter construído essa importante obra, ocupava o 16º lugar entre os municípios goianos mais bem servidos pelo serviço de esgoto. Em 2008, data em que a pesquisa foi realizada pelo Ministério da Saúde, caiu para a 47ª posição. Culpa da falta de investimento em saneamento e expansão desordenada de novos loteamentos. População convivendo com fossas e cisternas, sofrendo diversas doenças que já não existem no mundo civilizado. Hoje, pelo exagerado crescimento urbano e ausência de saneamento, a situação é mais dramática que em 2008. Está passando da hora de o poder público agir, tomando as necessárias providências. Anápolis que já foi referência de cidade mais bem servida com saneamento em Goiás, ocupa, hoje, o humilhante terceiro lugar no Brasil, em gastos com internações por diarréia, pela falta de infraestrutura sanitária. Essa posição é um dado relevante de alerta. Não podemos deixar que o troféu de campeão nacional da diarréia venha para Anápolis na próxima pesquisa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Volta ao passado

Sábado passado, dia 19 de junho, tive a satisfação e motivo para recordar um pouco do meu tempo de jovem. Época de estudante no colégio estadual José Ludovico de Almeida. Além de estudar militava na política estudantil. Por ser o maior estabelecimento educacional de Anápolis, o colégio estadual, era também o celeiro em que se formavam as grandes lideranças políticas de Anápolis. Estivemos no colégio São Francisco de Assis, um dos mais conceituados de Anápolis, participando de debate com os estudantes, ao lado de Odilon Alves, diretor e redator da revista Planeta Água; Paulo Gonçalves, professor e jornalista; Maria de Lourdes, professora de Alemão e jornalista e Onaide Santillo, radialista e apresentadora de programa na TV-14 de Anápolis. Fomos convidados pelos professores Marcos Aurélio Divino e Wilma. Discutimos temas do momento e sobre a profissão de jornalista com os concluíntes do 3° ano do ensino médio daquele colégio.

Embora não tenha estudado no colégio São Francisco, tive ótimo relacionamento com os estudantes daquele colégio quando militava na política estudantil. Em 1963, juntamente com Eles Alves Nogueira, Levy Schiettini, Valmir Bastos Ribeiro e Jacy Fernandes, acabamos com o isolamento dos estudantes de Anápolis. Transformamos a União Independente dos Estudantes Anapolinos – UIEA em União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis – UESA, vinculada à União Goiana dos Estudantes Secundaristas – UGES. Fui eleito seu primeiro presidente, como candidato único, num pleito direto, com a participação de todos os estudantes secundaristas do município. Dos colégios particulares o mais conceituado e numeroso era o São Francisco. Escolhi meu companheiro de chapa para a vice presidência entre os franciscanos.

A maior emoção ficou por conta de relembrar que por aquelas escadarias pomposas e salas amplas e arejadas do tradicional São Chico, havia passado, por três anos consecutivos, meu irmão Henrique Santillo, que viria se transformar no futuro governador de Goiás. Uma das mais autênticas lideranças políticas do Brasil, no combate à ditadura. Henrique Santillo foi o mais aplicado e dedicado aluno de toda história do Colégio São Francisco de Assis. Fundador do seu grêmio estudantil, Clarim das Letras e das Artes. Foi também seu primeiro presidente. Os colegas de Henrique Santillo, no colégio São Francisco, como Geraldo Fleury Curado, afirmam que ele era para os companheiros de classe o conselheiro e professor que todos consultavam.

Há algum tempo atrás recebi como presente do amigo Mauro Gonzaga Jaime, o Pastinha, alguns exemplares do jornal Arauto dos Reis, órgão informativo do colégio nos anos 50, em que divulgava as melhores notas obtidas pelos alunos em cada mês. Em todos os meses Henrique Santillo figura em primeiro lugar, na sua turma. Era estudioso sem alienação política. Pelo contrário, como estudante secundarista em Anápolis e universitário em Minas Gerais, onde cursou medicina na UFMG, foi atuante politicamente. Presidente do Diretório Acadêmico da faculdade de medicina, presidente do DCE mineiro e presidente da UEE, sem deixar de ser o estudante brilhante dos tempos de secundarista, realizando todo curso de medicina, como o primeiro aluno da turma.

Relembrei todas essas passagens de um cidadão que foi a grande referência da qualidade do ensino do Colégio São Francisco de Anápolis no passado, sob a direção do frei Chicão. Naquele prédio antigo, muito bem conservado e repleto de histórias, eu e os demais convidados, vimos o São Francisco moderno. O Projeto IPOCAR – Investigação, Produção, Opinião, Cidadania, Argumentação e Realidade, do qual participamos, além de preparar os estudantes no conhecimento profundo dos acontecimentos cotidianos, os ajuda na tomada de uma decisão mais segura em busca do seu futuro profissional. Os tempos mudaram, mas o Colégio São Francisco continua moderno e atualizado, formando estudantes cônscios da sua responsabilidade como cidadãos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Queda e retorno da autonomia política

O 28 de agosto de 1973 aparentava ser um dia como outro qualquer. Muito sol, ventava bastante, quando cheguei à Assembléia Legislativa, em Goiânia, para a sessão plenária , que seria realizada pela manhã. A diferença, a novidade, ocorreu em seguida quando fui informado por um telefonema de Brasília, que José Batista Júnior, prefeito de Anápolis, acabara de ter seu mandato cassado, direitos políticos suspensos por 10 anos. O vice prefeito Milton Alves Ferreira não fora cassado, mas impedido de tomar posse, pois no mesmo ato assinado pelo general Emilio Garrastazu Médici, nomeava o engenheiro Irapuan Costa Júnior, como primeiro prefeito nomeado de Anápolis, que naquele dia foi transformada em Área de Interesse à Segurança Nacional.

Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.

Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”

Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.

Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.

Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de 1964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Vale a pena lutar (Parte I)

[Discurso de agradecimento ao título de cidadania anapolina]

Meus amigos,

Eu escrevi algumas palavras aqui, mas eu quero deixar que meu coração fale. Vocês poderão dizer que até pode significar um ato demagógico, mas eu estou realmente emocionado e extremamente agradecido por esse acontecimento.

Já tive oportunidade de experimentar emoções enormes, participar de fatos que foram marcantes na minha vida. Mas, não há dúvida que, esse de hoje, é o coroamento de um trabalho de quase 40 anos - ou mais de 40 anos - na cidade de Anápolis, sempre contando com o apoio total e irrestrito da nossa população.


Éramos meu pai, Virginio Santillo, minha mãe, Elydia Maschietto Santillo, o Henrique (estava com seis anos de idade), eu (com quatro anos) e o Romualdo (com dois anos). Em 1944, nós chegávamos à cidade de Anápolis. Chegávamos à cidade de Anápolis para daqui não sair mais. Só saímos uma única oportunidade. E essa oportunidade foi em 1949, quando nós saímos da sede do município e fomos para o distrito de Matão, hoje considerado município de Ouro Verde. Lá nós fomos trabalhar na zona rural, numa fazenda do Chefinho, na mata dos Criolos. Foi a única vez que saímos e ficamos quase um ano fora - ou um ano aproximadamente - e retornamos para a cidade de Anápolis.

Não é fácil falar a respeito da luta do meu pai. Foi uma luta titânica. Uma luta realmente destemida, violenta, podemos assim dizer, para enfrentar todas as adversidades. Meu pai era um homem simples, de poucos estudos, que veio para Anápolis em 1944 sem saber exatamente o que é que nos esperava aqui nessa cidade. Ele trabalhou aqui em Anápolis e Goiás como ambulante, visitando as cidades de Abadiânia e Trindade, vendendo pernete e outras bebidas para os festeiros, de um modo geral. Depois foi trabalhar em pequeno comércio, com a venda de batatinha e outros legumes. Terminou a sua vida sendo um pequeno comerciante, ali na rua Rui Barbosa, esquina com a rua Quintino Bocaiúva.

Meu pai foi realmente um batalhador, um homem realmente destemido. E, ao seu lado, a minha querida mãe, que também trabalhou bastante. Ela era costureira e ajudava na renda familiar. Eu, Henrique e Romualdo, nós fazíamos parte dessa família. Só nós, mais niguém. Mais nenhum outro parente nosso veio para o estado de Goiás. Só nós cinco. Aqui nos instalamos e fomos extraordinariamente bem recebidos pelo povo, tanto nas atividades profissionais quanto na atividade maior que nós podíamos fazer, que era a atividade política. Por isso, nós somos imensamente gratos ao povo de Goiás e, especialmente, ao povo de Anápolis.

Galgamos os postos mais importantes que poderíamos ter em nossa vida. Henrique foi vereador, prefeito, deputado estadual, senador, governador e ministro da Saúde. Romualdo, deputado estadual por dois mandatos. Eu tive a honra de ser deputado estadual, três vezes deputado federal, duas vezes prefeito, secretário de governo e secretário da Educação. É muito, para uma família sem tradição no estado, que aqui chegou anonimamente. E anonimamente procuramos trabalhar toda nossa existência, a não ser no momento que tínhamos que levar o nosso nome à consideração e à apreciação do eleitor do nosso estado. Assim, essa atividade foi espetacular.

Eu quero falar um pouco de minha vida política. Comecei politicamente no Grêmio Literário Castro Alves do Colégio Estadual. Fui eleito em 1960 numa memorável eleição, em substituição ao queridíssimo e, já saudoso, companheiro Gil Xavier Nunes, quando fui eleito presidente do Grêmio Literário Castro Alves. Contando com o apoio dos estudantes, nós fizemos um trabalho pela valorização da educação. Fizemos um trabalho para equipar a nossa escola, principalmente na área para o atendimento ao ensino de biologia. Fizemos um trabalho para a contrução da quadra de esportes do colégio e todo o equipamento ali existente. Graças a esse trabalho contínuo nosso, fui re-eleito presidente do Grêmio Castro Alves logo em seguida.

Em 1962, nós acabamos com o isolamento do estudante secundarista de Anápolis que era filiado a UIEA, União Independente dos Estudantes de Anápolis. Eu, Jacy Fernandez e Levi Eschetini, fundamos a UESA, da qual eu fui o seu primeiro presidente, na eleição direta feita pelos estudantes secundaristas de Anápolis em 1963. Não terminei meu mandato. Estava apenas no início da administração quando veio o Golpe Militarista de 1964; e eu, pelas minhas posições políticas, fui afastado daquela entidade. Passei então a militar com mais intensidade na área esportiva.

Fui trabalhar, antes disso, na Rádio Carajá, ao lado do companheiro Habib Issa. Comandávamos toda a programação de esporte da Rádio Carajá, tendo também ao lado o companheiro Antônio Afonso de Almeida. De lá, fui fazer o trabalho para a Liga Anapolina de Desportos. Os clubes maiores de Anápolis - Anápolis, a Associação Atlética Anapolina, Ipiranga Atlético Clube - tinham deixado a liga para se increverem diretamente na Federação Goiana de Desportos. Nós criamos a liga só com os clubes de Anápolis. Fui, naquela oportunidade, eleito presidente da entidade, numa eleição onde apenas eu apresentei-me como candidato. Fui re-eleito para o segundo mandato e, mais uma vez, eleito para o terceiro mandato, sempre como candidato único da Liga Anapolina de Desportos. Fizemos o entrosamento total do esporte varzeano de Anápolis com o esporte de Goiânia. Trabalhamos junto a Raul Balduíno para contruir o Estádio dos Amadores, que foi concluído na minha primeira gestão em 1968.

Daí, eu saí para ajudar o meu irmão. Em 1966, foram extintos os partidos políticos, criados apenas dois: A Arena, que dava sustentação ao governo; e MDB, que era o partido contrário. Fui dos primeiros filiados, ao lado do Henrique e Romualdo, no MDB. Naquele mesmo ano de 1966, Henrique foi eleito vereador, o mais votado na história de Anápolis em todos os tempos. Isso a 38 anos atrás, quando ele obteve 1.536 votos num eleitorado que era pouquinho superior a 12 mil eleitores. Teve uma votação fantástica.


A votação que ele teve despertou a ira dos adversários. No dia de sua diplomação, apareceu um calhamaço apócrifo sobre a mesa do juiz eleitoral. O juiz eleitoral diplomou 14 vereadores e mais dois suplentes de cada um dos dois partidos, mas não fez a diplomação do Henrique. Através de questão de ordem, ele (Henrique) quis saber o porquê da sua não diplomação. O juiz simplemente respondeu: "O senhor é comunista! Fichado no G2 da Polícia Militar de Belo Horizonte!" Os companheiros ficaram atônitos. Dois anos apenas após o Golpe, ainda o movimento era efervescente. A caça às bruxas existia. Mas eu me dispús a ir a Belo Horizonte para buscar a documentação para defendê-lo.

Fui a Belo Horizonte. Fiquei dois dias lá, postado a porta do Comando da Polícia Militar. Saí de lá com documento dizendo que, na G2 da Polícia Militar de Belo Horizonte, não havia qualquer registro que desabonasse a figura do Sr. Henrique Santillo. Trouxe o documento e entregamos para o nosso advogado de defesa. Ele fez a anexação dele junto ao processo que estava no Tribunal Regional Eleitoral. Marcaram a audiência para daí uns dias na frente.

No dia do julgamento, nós estávamos lá. O Dr. Rômulo Gonçalves, nosso advogado - advogado de presos políticos do estado de Goiás - estava lá para nos defender. Quando nós chegamos no auditório, fomos informados que, do Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, chegara para o Palácio das Esmeraldas, em Goiânia, de Israel Pinheiro, em Minas Gerais, para Otávio Lage, em Goiás, um telex - naquela epoca não havia fax - dizendo que era para tornar nula a certidão dada pela G2 da Polícia Militar, por que o Henrique estava realmente fichado lá como comunista.

Aí teve, então, um papel importantíssimo, um papel decisivo, o juiz federal de Goiás, Dr. José de Jesus. Ele determinou a formulação da defesa junto aos demais integrantes do Tribunal, quando ele derrotou qualquer argumento, dizendo que não se pode anular uma certidão assinada pelo Comandante da Polícia Militar de Belo Horizonte, com sinete da Corporação, dizendo que nada há contra Henrique Santillo. Essa certidão não pode ser anulada por um telex vindo diretamente do Palácio da Liberdade em Belo Horizonte. Henrique foi por isso mesmo absolvido, e, consequentemente, determinada a sua posse como vereador, isso já em abril do ano seguinte. Mesmo assim, o juiz eleitoral se negou a dar a ele a posse. Foi preciso que o Tribunal Regional Eleitoral determinasse que o Dr. Cir Roriz fosse indicado, e foi dada a posse ao Henrique a vereador.


Então, já foi uma batalha inicial enorme. Mas nós, acreditando na Justiça e sabendo que valia a pena lutar, lutamos para que ele pudesse garantir o seu mandato. Em 1969, ele foi eleito prefeito municipal. Antes de ser eleito, eles impugnaram a candidatura dele; impugnaram a diplomação e impugnaram a posse. Mas nós conseguimos fazer que ele assumisse a Prefeitura Municipal.

Vale a pena lutar (Parte II)

[Discurso de agradecimento ao título de cidadania anapolina]

Já em 1970, eu me candidatei pela primeira vez como deputado estadual. Fui o mais votado do MDB e o terceiro mais votado do estado. Na Assembléia Legislativa, praticamente dediquei meu tempo a defender o meu irmão, que estava sofrendo uma pressão nunca vista aqui na cidade de Anápolis. Nós elegemos dez vereadores. A Câmara era formada por quinze. Nós elegemos dez vereadores contra cinco da Arena. Passada a eleição de 70, três vereadores do MDB aderiram a Arena. Passamos a ter minoria de sete contra oito na Câmara Municipal. Era presidente da Câmara Antônio Marmo Canedo. Sofria de um mal realmente muito grave. Acabou morrendo no exercício da presidência da Câmara Municipal. Assumiu a presidência Valmir Bastos, que era o vice-presidente.

Como eles queriam de toda maneira deturpar o processo eleitoral de Anápolis, fazer uma reviravolta na política anapolina, queriam que Valmir renunciasse ao mandato. O Valmir não renunciava ao mandato. E, por não renunciar ao mandato, Valmir foi preso três vezes. Injustamente, sem qualquer justificativa, sendo que a última prisão do Valmir Bastos ocorreu na minha presença, no meu carro. Foi retirado do carro a base de metralhadora e levado para Brasília, onde ficou lá nas dependências do exército por mais de trinta dias. De lá só saiu quando assinou um documento para o Major Leopoldino, renunciando a presidência da Câmara e renunciando seu mandato. Só que para valer, teria que ser lido no plenário da Câmara Municipal. Esse documento nunca apareceu. Valmir terminou o mandato dele como verador, terminou o mandato como presidente da Câmara Municipal, e o Henrique terminou o seu mandato como prefeito da cidade de Anápolis. Nós estavamos lá na Assembléia, diariamente fazendo a defesa e fazendo também as denúncias gravíssimas do que os nossos adversários aqui queriam fazer contra a Democracia.

Então, foi realmente um trabalho enorme. Em 1972, quando elegemos José Batista Júnior, mais da metade do MDB se auto-entitulou "MDB Positivo." Pulou para o palanque da Arena e foi trabalhar para a candidatura arenista. Nós ficamos do lado de cá, meia-dúzia de gatos pingados. Anapolino de Faria, eu e Henrique Santillo, ficamos na defesa de José Batista Júnior, e tivemos uma vitória extraordinária, com mais de quatro mil votos de frente.

No dia da posse de José Batista Júnior, a Rádio Carajá - que nós haviamos adquirido do Dr. Plínio Jayme, que havia sido deputado estadual - foi invadida por policiais militares, na madrugada, no seu transmissor e nos seus estúdios. Veio uma ordem diretamente do DENTEL, em Brasília, determinando que a emissora voltasse para o seu antigo proprietário. Embora o Dr. Plínio não quisesse isso, foi obrigado a aceitar a emissora de volta, sendo que nós haviamos adquirido o controle da rádio em 1967. Fazíamos, todos os dias, eu e o Romualdo, o programa "O Povo Falou, Tá Falado". Não nos demos por satisfeitos. Fomos e adquirimos a Rádio Santana. Começamos a trabalhar com ela imediatamente. Em 1975, a Rádio Santana foi fechada. Não permitiram mais que nossa voz fosse levada ao ar. Mas nós continuamos a nossa tarefa com o povo de Anápolis.

Estou fazendo isso, amigos, pra dizer da minha satisfação, e como é gostoso poder trabalhar na política. Como deputado estadual, a minha tarefa foi de defender a Democracia, os princípios democráticos. Coloquei quase que todo o meu mandato na defesa do nosso prefeito, meu irmão, que era perseguido aqui em Anápolis. Graças a Deus, ele terminou o seu mandato.

Em 1974, eu era candidato a re-eleição a deputado estadual. Mas, meu irmão, que havia deixado a prefeitura em 1972, querendo re-organizar a sua vida no hospital Santa Paula, me disse: "Adhemar, não tenho condição de sair daqui e ir para Brasília. Portanto, não vou disputar a eleição." Eu falei: "Então vamos fazer o seguinte: eu vou candidato a deputado federal, e você vai candidato a deputado estadual." Ele respondeu: "Deputado estadual dá para mim, dá para eu ir e voltar a Goiânia. Você quer?" Aceitei, e, na última hora, saí candidato a deputado federal. Foi o primeiro ano que tivemos a discussão e debate na televisão, a propaganda gratuita. Então nós fomos fazer o trabalho, eu e ele, através de programas de rádio e televisão, onde fizemos o "Pingue-Pongue da Verdade." O que realmente tomou conta do estado de Goiás, e nos deu realmente uma dimensão maior, e nós fomos eleitos. Ele, deputado estadual de 1974, com 33 mil votos, e eu, deputado federal, com 48 mil votos.

Mas, quando foi fazer o registro da candidatura, o procurador de justiça do estado, no governo Leonino Caiado, simplesmente quis impugnar a nossa candidatura. Terminada a eleição de 70, os nossos adversários fizeram uma informação de que nós, eu e Anapolino de Faria, teríamos usado máquina da prefeitura no município de Goianápolis, no município de Ouro Verde e no município de Petrolina, para nós nos elegermos. Eles, então, mandaram para a Polícia Federal. A Polícia Federal fez um inquérito; não constatou nada. Mas estava preparada para oferecer argumentos para eles. Como ele não tinham condição de nos pegar, deixaram isso amoitado.

Em 74, na hora do registro da candidatura - por que naquela época existia um lei em que o cidadão, para poder ser impugnado, bastava o promotor, o ministério público, oferecer a denúncia e o juiz receber; feito isso, ele já estava impugnado; não precisava ser condenado, bastava oferecer a denúncia e ela ser recebida pelo juiz - tentaram fazer isso em Petrolina. Mas o promotor daquela cidade, o Dr. Decildes Sá Abreu, não aceitou fazer a denúncia por que não havia como oferecer a denúncia. Aí, o processo veio para Anápolis. E, aqui em Anápolis, ele encontraram um promotor que oferecesse a denúncia. O promotor ofereceu a denúncia contra mim e contra o Henrique. Mas ai, o Dr. Clementino Alencar, juiz da cidade, responsável pelos feitos, não concordou e mandou o processo para o arquivo.


Como deputado federal, procurei honrar também os nossos compromissos com a nossa população. Não tegiversar, não dar tréguas ao adversário. Estar permanentemente lá, fazendo um trabalho nas nossas três passagens. Está registrado no livro "Da Mesa Farta à Subnutrição", que falava a respeito das desigualdades sociais. Inclusive, fiz a denúncia contra o ministro do Trabalho daquela ápoca. Foi divulgada nacionalmente pelos principais jornais e revistas, onde o ministro do Trabalho pedia ao povo que "apertasse o cinto", por que ainda não era a hora de dar um salário mínimo digno, e ele consumia por mês mais de mil quilos de carne bovina, suína, frango, peixes e crustáceos. Mais de mil quilos! A ponto do jornal O Estado de São Paulo o publicar carregando uma bandeja e um touro em cima, dizendo que era a refeição do ministro. Foi um trabalho extraordinário que nós realizamos. Em todo o Sul do país, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do SUl, estados em que fui chamado para participar, os candidatos a prefeito e vereador da eleição de 76, apresentavam, atrás de sua propraganda eleitoral, o nosso pronunciamento e a denúncia que fizemos na Câmara Federal.

Fui eleito Vice-Presidente da Câmara no segundo ano do mandato, enfrentando o "Grupo Autêntico" com Getulio Dias e enfrentando o "Grupo Moderado" com Juarez Bernardes. Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e outros mais apoiavam Juarez, enquanto Alencar Furtado, Isâneas Maciel e outros mais do "Grupo Autêntico" apoiavam Getulio Dias. Trabalhei no meio deles e, ao final, estava eleito Vice-Presidente da Câmara Federal, o mais alto posto reservado a bancada oposicionista. Por isso, quero dizer aos amigos que vale a pena lutar. O que não vale é querer o poder pelo poder, e querer ser poder de qualquer jeito. Vale a pena lutar! A luta é dignificante!

Em 78, fui eleito deputado pela segunda vez, e o Henrique, senador. Em 82, o Henrique não foi candidato por que tinha um mandato de senador. Eu fui eleito deputado federal; o Romualdo, deputado estadual. o Henrique continuou como senador, e Íris foi eleito governador do estado de Goiás. Em 86, o Henrique se elegeu governador do nosso estado.

Eu quero dizer que, nessas lutas todas, para mim a grande batalha foi a batalha pela Democracia, a batalha para voltar novamente a ter o direito a escolher nossos representantes, o direito de falar aquilo que quer, o direito de explanar o seu ponto-de-vista da forma que quer. Por isso eu sou um democrata autêntico. Eu não aceito o cidadão falar que é democrata, usar nos discursos a palavra democrata, mas no exercício do poder ser um autoritário, perseguidor. Foi contra isso que nós lutamos e conseguimos fazer com que houvesse a derrocada total dessa qualidade de pessoas, que não podem continuar convivendo no regime democrático.

Vale a pena lutar (Parte III)

[Discurso de agradecimento ao título de cidadania anapolina]

Desta forma, quero dizer ao meus amigos, que passei por outros cargos importantes, como na Secretaria de Educação do Estado. Assumi a Secretaria Estadual da Educação em 1983. Íris Rezende Machado baixou um decreto, chamado "Decretão", onde mais de doze mil funcionários da Secretaria da Educação foram exonerados sumariamente. Eles foram exonerados por que foram contratados no período pré-eleitoral. Naquela época não havia proibição da constituição que alguém pudesse ser contratado, mas o período eleitoral tinha que ser respeitado. Eu, então, comecei o meu trabalho para defender os professores. Mas não defender o professor por interesse de ordem pessoal ou política, por justiça. Falei ao Íris: "Esse professores trabalham há muito tempo nas escolas. Eles estão prestando serviço sem receber sequer pró-labore. Não tem nada que impeça que eles sejam contratados sem concurso. Agora, se eles foram contratados no período pré-eleitoral, eles não tem culpa disso. Por que muitos deles estão aí há mais de dois, três, quatro anos prestando serviço. O seu afastamaneto vai representar uma dupla punição: a punição que foi feita e a punição agora, através do seu decreto." O Íris compreendeu a situação. Nós, então, fizemos com que todos voltassem. Fizemos com que todos os professores atingidos pudessem voltar. Aqui mesmo na cidade de Anápolis, temos algumas das centenas daqueles professores que não perderam o emprego, já estão aposentados e tiveram seu direito garantido, através do trabalho que fizemos na Educação.

Fizemos o plano de cargos e salários, e o mais avançado estatuto do magistério até então existente no estado de Goiás. Realizamos o primeiro concurso público, que foi também uma tarefa enorme para a sua realização. Companheiros do MDB do interior diziam: "Adhemar, nós ficamos esse tempo todo vendo nossos adversários nomearem seus companheiros. Agora que você pode fazer a nomeação dos nosso amigos, você vai fazer concurso?" Adiamos o concurso até que a gente convencesse a todos. Fizemos um concurso para a admissão de mais de doze mil professores em todo o estado de Goiás e do Tocantins, que naquela época pertencia tambem a Goiás.

Fizemos, ainda dentro do nosso trabalho, mil salas de aula através do Multirão. Dobramos o número de salas de aula aqui dentro da cidade de Anápolis. Levamos o segundo grau a todos os bairros mais importantes. Aqui está o companheiro Zé Vieira, que sabe quando levamos lá para o Gomes de Souza Ramos o primeiro e segundo grau, lá na Vila Jaiara. Levamos para a Boa Vista, no colégio Carlos de Pina. Levamos também para o Plínio Jayme, no Recanto do Sol. Levamos para o Padre Fernando, na Vila Formosa. Levamos o segundo grau para o Adolfo Batista, na Vila Fabril. Levamos o segundo grau para todos os setores importantes de Anápolis naquela época.

Acho que a questão mais importante que realizamos foi levar de um para sete os cursos da FACEA, dando o embrião para a formação da futura UNIANA. Henrique, no (seu) governo, criou mais quatro cursos, totalizando os onze, indispensáveis para que fosse criada a universidade. Através de uma lei de autoria do Romualdo Santillo, ele criou a UNIANA, a Universidade Estadual de Anápolis. Fizemos também o trabalho de melhorar a educação no resto do estado. No Tocantins, que não tinha sequer curso de magistério. Fizemos a Universidade de Porangatu, a Universidade de Porto Nacional e a Universidade de Araguaína.


Cheguei à prefeitura de Anápolis. Na prefeitura de Anápolis, nós pudemos fazer um grande trabalho. Fizemos quatro mil metros quadrados de asfalto. Através de um trabalho com o governo estadual, fizemos o esgoto sanitário e levamos a água para bairros como a Jaiara, Alexandrina, Boa Vista, Santa Izabel, que não tinha água naquela época. Levamos água potável através do trabalho com a Saneago. Fizemos na prefeitura municipal um trabalho magnífico também, de outras conquistas para a população. Praças como a Badia Deyer, parque como o parque Onofre Quinan, Mercado do Produtor, feriões cobertos.

Mas aonde nós pontificamos mesmo, foi na área social. E aí eu contei com a ação decisiva da Onaide. Na área social, através da Sociedade Dom Bosco, através do trabalho da minha amiga Diná Murici, Secretéria Municipal de Serviços Sociais, da Angela Faria, que também nos ajudava na Sociedade Dom Bosco, fizemos um trabalho magnífico. Levamos mais de 1.200 meninos para o mercado de trabalho na nossa última administração, no comércio, na indústria e na prestação de serviços. Retiramos os meninos da rua. Não tínhamos meninos pedindo pelas ruas de Anápolis. Mas nunca usamos a violência. Nunca usamos a polícia. Apenas usamos a solidariedade, o amor e a mão estendida. Levamos esse meninos para todos nossos programas, e lá os agasalhamos através de vários programas da Sociedade Dom Bosco. Dávamos 4,000 refeições por dia, na minha última administração, a criancas que estudavam nas escolas do município e também criancas dos bairros de nossa cidade, através do programa AME.

Fizemos o Cursinho Universitário. Quanta gente estudou no Cursinho Universitário gratuitamente e passou nos exames ao vestibular, principalmente aqui na UEG! Estão estudando e alguns já concluiram seu curso. Fizemos o trabalho com a Mulher, o Centro Integrado da Mulher. Fizemos o trabalho com os idosos, através dos clubes de idosos. Então, o trabalho social foi a função mais importante que nos pudemos realizar. Por isso, vale a pena lutar! Vale a pena acreditar! Vale a pena acreditar na vontade popular!

Para todo esse trabalho, eu quero dizer, sempre tive o respaldo da imprensa, do povo de Goiás e, especialmente, do povo de Anápolis, a quem eu quero render a minha mais imorredora gratidão. Na derrota ou na vitória, na vitória ou na derrota, só tenho a agradecer ao povo de Anápolis pela sua independência e pela sua firmeza de comportamento. Não tenho nenhuma mágoa e nenhum ressentimento. Só tenho a agradecer a Deus, em primeiríssimo lugar, ao povo da minha cidade e do meu estado, de forma complementar. Chegamos em lugares jamais imaginados. Chegamos a setores que jamais pensávamos que um dia chegaríamos. Chegamos, acreditando na força do povo e acreditando no valor da luta.

Eu quero nesse instante encerrar minha participação, amigos, agradecendo essa horaria que recebo. Algumas pessoas me perguntam: "Adhemar, eu não sabia que você não era de Anápolis! Trabalhar tanto quanto trabalhou para Anápolis... Você não é de Anápolis e tem toda essa vontade de trabalhar pela cidade!" A nossa vontade de trabalhar nunca parou. Nós sempre procuramos fazer o melhor. Nós sempre estivemos aí, dando o melhor de nossos esforços. É responsabilidade nossa. Para mim, então, é um dever. Quando assumo uma responsabilidade, tenho que cumprir com toda altivez e com toda determinação. Eu era um cidadão anapolino, nunca mudei daqui, sempre lutei por Anápolis. Sempre procurei dignificar Anápolis. Na época da Ditadura, era um prazer viajar para fora e alguém falar: "Anápolis! Cidade de um povo realmente extraordinário! Se dependesse o Brasil de Anápolis, a Ditadura não prosperaria um dia, por que aí ela nunca ganhou." E não ganhou mesmo.

Quero dizer que me sinto envaidecido. Esse título, que me foi dado por solicitação do vereador André Almeida, e apoiado por senhores veradores que aqui se encontram e compõe essa casa, para mim é de um valor inestimável. Eu estou na chapada. Não tenho cargo ou benesse para oferecer. Recebi um título que me foi dado de coração e espontâneamente pelos vereadores. E, principalmente, num momento difícil, como o que nos estávamos atravessando, e, mais do que isso, num instante em que é dificil homenagear um político.

Quero agradecer em meu nome, em nome da Onaide, dos meu três filhos, André, Luis Augusto e Claudio, pela homenagem que vocês me prestam no dia de hoje. Eu sempre recebi o apoio e a homenagem do povo anapolino nestes quase quarenta anos de vida pública em nosso estado. Agora também recebo, dos políticos dos mais diferentes partidos, a homenagem para ser cidadão dessa cidade, o que é um honra extraordinária para mim. Talvez um dos maiores títulos, uma das maiores homenagens, que tenha recebido através de um poder constituído.

Muito obrigado, senhores vereadores! Vamos trabalhar por Anápolis! Obrigado!


Adhemar Santillo
Discurso de agradecimento ao título de cidadania anapolina
28 de abril de 2004
Plenário Teotônio Vilela
Câmara Municipal de Anápolis

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Políticos que confiam na retaguarda

Na atividade de parlamentar, como a que exerci nas décadas de 70 e 80, em pleno regime militar, eram vividas emoções permanentes, tensões constantes. O que deu origem ao "pacote de abril" foi momento histórico de altivez e coragem, exercido pela oposição ao regime militar.

Em 1977, o presidente Geisel encaminhou ao Congresso Nacional projeto de reforma do Judiciário que, de acordo com as principais lideranças do mundo jurídico brasileiro, era agressão total ao Estado de Direito. Para que a matéria fosse aprovada, a bancada do MDB teria que votar favoravelmente. Duas correntes logo surgiram entre deputados e senadores: Tancredo Neves, embora contra, mas preocupado com o retrocesso institucional, defendia que se votasse pela aprovação da reforma. Paulo Brossard, advogado militante, dono também de notável saber jurídico, era totalmente contra a aprovação. Em reunião de bancadas unidas do Senado e Câmara, no auditório Nereu Ramos, após discursos emocionados das forças que defendiam e as que repudiavam a aprovação, a matéria foi à votação e a maioria do MDB foi pela rejeição. No plenário a Arena votou a favor e o MDB contra. Matéria foi para o arquivo.

No dia seguinte, o Congresso Nacional foi fechado por uma semana. Nosso líder, Alencar Furtado foi cassado, tendo os seus direitos políticos suspensos. As eleições diretas para governador, em 78 foram, mais uma vez, transformadas em nomeação e criaram a figura do senador "biônico", ficando para o povo o direito de eleger apenas um dos dois que seriam escolhidos nas eleições de 78.

Na ditadura sabíamos que para cada ato de ousadia de nossa parte, surgiria reação dura da parte contrária. Era preciso resistir. Para ser oposição precisava ter patriotismo, coragem e nenhum tipo de fisiologismo.

Nem só de tensão e sufoco vive o Congresso Nacional. Há momentos de tranqüilidade e até hilariantes.

Quando vivíamos o desdobramento do "pacote de abril de 77", tomei conhecimento, pelo deputado Epitácio Cafeteira, que na década de 50, numa reunião noturna da Câmara dos Deputados, estava em votação projeto de revolução que concedia reajuste de subsídios aos deputados. A votação era nominal, do Sul para o Norte. No início da votação, os parlamentares foram orientados pelo presidente da casa sobre o teor da matéria e os que votassem "Sim" estariam aprovando o aumento e os que fossem contra, votariam "Não". Quando a bancada de Minas Gerais estava votando, o plenário foi surpreendido pelo voto, solitário, de "Não", do deputado Último de Carvalho. O presidente ficou assustado, paralisou o processo de chamada, depois de repetir todas as instruções do início da sessão, entendendo que Último de Carvalho não estava em plenário no início dos trabalhos, voltou a perguntar:

– "Deputado Último de Carvalho, como vota?"

– "Não!"

Agora já não havia dúvida, seu voto foi consciente. O que teria feito o deputado não querer um reajuste de subsídios? Mal terminou a votação da bancada mineira, quatro colegas do PSD mineiro foram ao seu encontro e lhe indagaram:

– "Último, até agora estamos tontos com sua atitude. Você não é pessoa muito rica que possa dispensar aumento de subsídio, qual é a sua?"

– "Eu confio na retaguarda", respondeu.

Até hoje ainda há muita gente confiando na retaguarda. No regime ditatorial de 64 não havia espaço "para fazer de conta" e confiar na retaguarda. Cada um era verdadeiramente responsável pelos seus atos.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Hilton Lucena e Altivo - Exemplos a serem seguidos

Ser oposição no período da Ditadura Militar dependia de coragem, idealismo e muito amor à Democracia. Era difícil para parlamentares e prefeitos exerceram seus mandatos. As perseguições eram constantes e infundáveis. A organização do MDB em alguns municípios era quase que impossível.

Certa vez, numa madrugada, em pleno ano de 1971, fui acordado pelo Romas, Chico Maneco, Eduardo Jorge e outros integrantes do Diretório Municipal do MDB de Estrela do Norte. Hilton Lucena, hoje trabalhando no Tribunal de Contas do Estado e Altivo tiveram prisão preventiva decretada pelo Juiz de Direito local. As Alegações para o Juiz decretar a prisão foram que eles estavam filiando pessoas ao MDB e que se não fossem presos poderiam fugir do município. Foi a primeira vez que percorri a Belém Brasília após a cidade de Ceres.

Chegamos a Estrela do Norte, eu e Dr. Hiram Bezze, no dia seguinte. Fomos direto à cadeia pública, encontrando Hilton, na única cela existente naquele presídio juntamente com outro presidiário, que dias antes havia matado quatro crianças à machadada, no vizinho município de Mutunópolis. Com nossa presença, sabendo que recorreríamos ao Tribunal de Justiça o Juiz relaxou a prisão, colocando nossos "subversivos" em liberdade.

Com nossa ida ao então Médio Norte e o sucesso da missão, passamos a ser procurados pelos companheiros que se sentiam injustiçados. Alguns meses após fui chamado pelo Jair Sapateiro, pessoa humilde que se dispunha a fazer parte do MDB de Formoso. A Arena local era comandada por Felipe Cardoso, o Felipão, pai do atual Deputado Marcos Cardoso. Felipão era líder e bastante querido do povo formosense. Para lá me acompanhou o Dr. Vicente Alencar, um dos mais importantes advogados de Goiás contra a ditadura militar.

Quando andávamos pelas avenidas e ruas de Formoso, o Jair nos relatou o que, no seu entendimento, era falha gravíssima do sistema eleitoral daquela cidade:

– Eu chamei vocês aqui para que denunciem a esculhambação do sistema eleitoral aqui em Formoso.
– Qual é o problema? Indagamos.
– Trago como exemplo o que está acontecendo com meu Título Eleitoral.
– O que está acontecendo? Perguntei:
– Meu Título está com a fotografia de outra pessoa.
– Mas o nome é o seu, não é Jair? Disse Alencar.
– Não. O nome também é de outra pessoa.
– Você já votou com esse Título? Perguntamos.
– Não. Ele é novo!
– Então, Jair vá ao Cartório Eleitoral, deixe lá o Título que está em seu poder e peça ao escrivão o seu, porque você está com Título de outro eleitor.

Assim foi feito e tudo voltou à normalidade, em Formoso.

Quando precisamos hoje, políticos com ou sem mandatos, não resistindo aos favores oficiais dos governantes buscando, a qualquer pretexto forma de adesão, temos que voltar as nossas vistas e atenções ao passado, para rendermos nossas homenagens a companheiros como Altivo e Hilton Lucena, pela coragem e destemor que sempre demonstraram em sua conduta de cidadão e político. Contamos com muita gente como eles, para derrubarmos a ditadura.

domingo, 10 de abril de 2011

APA do Ribeirão João Leite modificando comportamentos

A Área de Proteção Ambiental (APA) do Ribeirão João Leite foi criada em 27 de dezembro de 2002, com cerca de 720 km². Dela fazem parte os municípios de Anápolis, Campo Limpo de Goiás, Goiânia, Goianápolis, Nerópolis, Ouro Verde e Terezópolis de Goiás. Sua implantação levou muita intranquilidade aos proprietários rurais da região. Restrições para o livre manejo da terra os revoltaram. Sem uma clara especificação do que se podia ou não ser feito, trouxe descontentamento geral aos hortifrutigranjeiros. A ideia que se tinha é que o proprietário era o dono, mas não mandava. Deram a volta por cima. No momento a APA já está apresentando resultados positivos.

Para driblarem os impedimentos e restrições, criaram o Consórcio Intermunicipal da Área de Proteção Ambiental do Ribeirão João Leite, incluindo produtores dos municípios de Campo Limpo, Ouro Verde, Nerópolis, Terezópolis e Goianápolis. Embora sendo criado só a partir de 2009, o consórcio coleciona grandes vitórias: estradas vicinais dos cinco municípios estão sendo recuperadas, evitando erosões; as nascentes catalogadas para a preservação e recuperação das matas ciliares; construção de aterros sanitários individuais ou compartilhados, como o de Ouro Verde e Campo Limpo de Goiás; produção de hortaliças sem agrotóxicos e luta incansável para a implantação da rede de esgoto sanitário no setor urbano de todos municípios, são algumas das conquistas obtidas.

O consórcio, presidido pelo prefeito de Terezópolis, Uilton Pereira dos Santos, decidiu que por ocasião da Exposição Agropecuária de Goiás, a ser realizada no próximo mês de maio, em Goiânia, neutralizará toda emissão de carbono, produzida pelos animais expostos à feira, plantando árvores na região da APA do Ribeirão João Leite, acima da quantidade do gás emitido. Querem os integrantes do consórcio conscientizar a população que todo empreendimento econômico, que degrade a natureza, seja imediatamente restaurado.

A Área de Proteção Ambiental do Ribeirão João Leite está modificando também a forma de agir dos ceramistas. A região que vai de Anápolis a Ouro Verde é rica em barro para cerâmica. Durante muitos anos as indústrias produtoras de tijolos, telhas, telhões e lajotas extraíram milhares de toneladas de argila de maneira predatória. Retirando o barro, deixando para trás o rastro de destruição. Crateras abertas e abandonadas. Sob a liderança de Laerte Simão, vice-presidente do Sindicato Estadual dos Proprietários de Cerâmicas e proprietário de cerâmica em Campo Limpo, representantes de 30 indústrias de tijolos localizados na APA do Ribeirão João Leite, se reuniram no dia 30 de setembro do ano passado, aderindo ao projeto para elaboração do Estudo de Impacto Ambiental e do Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), na região. Sem a elaboração do EIA/Rima, as cerâmicas não conseguiriam obter a renovação de licença de funcionamento. Agora só trabalharão nessa atividade as empresas que atenderem o Plano de Manejo Estadual visando a exploração sustentável do minério. O projeto do EIA /Rima foi contratado e pago pelos proprietários das cerâmicas ao custo de R$ 600 mil. Os empresários da APA que não aderirem ao projeto, não terão suas licenças renovadas.

O Sindicer-GO, presidido por Henrique Wilhelm Morg de Andrade, com base no que ocorre na APA do Ribeirão João Leite, decidiu cadastrar todas as cerâmicas do Estado, para que da mesma forma venham o mais rápido possível usar o manejo correto da argila.

Além de Henrique Wilhelm de Andrade, presidente do Sindicer-GO, muito tem trabalhado para mudar os costumes e hábitos dos proprietários de cerâmicas em Goiás, o vice-presidente do sindicato, Laerte Simão. Defensor incansável do desenvolvimento econômico com a preservação do meio ambiente. Para os ceramistas preservar a natureza é obrigação de todos.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O glamour e a realidade da prostituição

Depois do sucesso com seu livro O Doce Veneno do Escorpião, verdadeiro best-seller com mais de 300 mil exemplares vendidos, a ex-garota de programa, Raquel Pacheco, hoje com 26 anos, faz o maior sucesso de bilheteria com o filme de sua história de vida na prostituição. Mais de dois milhões de expectadores já assistiram Bruna Surfistinha. A previsão é que chegue aos três milhões. Um punhado de fatores tem colaborado para isso: a forma espontânea e autêntica de Déborah Secco. Apresenta-se com notável talento artístico. A diferença da história de Raquel em relação a outras prostitutas. Jovens, grande parte dos seus expectadores, querendo saber mais sobre a vida da garota de programas que só teve sucesso como prostituta. Motivos para se assistir o filme não faltam. Corinthianos fanáticos, vibrando com Dentinho, sentado à beira do colchão, apreciando a beleza de Déborah Secco...

Nascida em Sorocaba, interior de São Paulo, Raquel Pacheco foi adotada por uma família da classe média. Tinha uma vida aparentemente feliz e cheia de regalias. Passeava com os pais, ia com a família à praia e estudava nos melhores colégios da cidade. Alegando ser discriminada na escola e ridicularizada pelos colegas, decidiu aos 17 anos abandonar todo conforto do lar que a adotara para ser garota de programa. Até aí nada de extraordinário. Os classificados de quase todos os jornais estão repletos de jovens universitárias se apresentando como acompanhantes, massagitas e para programas. Muitas não abandonaram o lar, mas vieram de outras cidades ou Estados. Alegam aos pais que ganham vida noutras atividades.

O que impressiona nessa história, mais que a interpretação de Déborah Secco, é o fato de Surfistinha não ter sofrido nenhuma agressão ou violência. O filme todo a retrata respeitada, querida, paparicada, desejada e aparentemente feliz. Viveu as aventuras que quis. Verdadeiro mar de rosas. Ganhou projeção na atividade e saiu numa boa. Vida de sucesso e satisfação. Agressões, mesmo que verbais, só das companheiras de profissão e de um parente. Deixou de ser prostituta no instante em que desejou, para casar-se com um ex-cliente. História linda e repleta de glamour. Digna das melhores produções de Hollywood. Sonho que pode induzir milhares de jovens à busca da mesma aventura.

Enquanto Bruna Surfistinha arrasta milhões para conhecerem a vida de sucesso e luxo da prostituta interpretada por Déborah Secco, o rapper paulistano Emicida mostra em seu videoclipe Rua Augusta, o outro lado da prostituição. O lado verdadeiro. Tanto em Santa Efigênia, rua do sexo, em São Paulo, como Vila Mimosa, onde há o maior centro de prostituição no Rio de Janeiro, Emicida mostra imagens reais, impressionantes, de prostitutas narrando seu dia a dia. Reúne depoimentos dramáticos das jovens relatando a violência que sofrem e as mortes que assistem: “Elas trampam com nome falso, ninguém conhece a família delas. O que resta é chamar o IML e enterrar como indigente. Não tem nada de neon nisso”, afirma. Nos versos de Rua Augusta, tema do seu videoclipe, Emicida, enfatiza a vida da garota de programa:

“A maquiagem forte esconde os hematomas na alma. Fumando, calma, ela observa os faróis que vêm e vão. Viver em vão. Os que vêm e não te têm. São, se necessário, homem de bem, fujão. Que não aguentou ser solitário. A mesma grana que compra o sexo mata o amor. Traz a felicidade, também chama o rancor. As madrugas que testemunha. Vermelho sangue na unha. Sem nome, várias alcunhas...”

domingo, 3 de abril de 2011

Precisamos repensar a segurança pública

A questão da segurança pública em Anápolis está chegando ao fundo do poço. Se alguém, integrante da Secretaria Nacional dos Direitos humanos, chegar de surpresa à Delegacia Geral, principalmente à noite, encontrará, sem dúvida nenhuma, pelo menos uma mulher, geralmente usuária de drogas, algemada, sentada à cadeira, passando a noite assim, nessa maneira desumana, aguardando momento de ser deslocada para o presídio de Aparecida de Goiânia. Por certo ficará escandalizada. Não havendo presídio feminino em Anápolis, essa é maneira que são tratadas as detentas. Mas não é só isso. Ai está apenas uma das questões que comprometem o sistema prisional anapolino. Desde o ano passado tem sido debatido o problema, que com R$ 15.000 seria resolvido. Por falta de interesse o assunto não é solucionado, humilhando dezenas de mulheres, geralmente das camadas mais pobres da população, desrespeitando o mais elementar dos direitos da pessoa humana. Presídio que foi construído para abrigar 60 presidiários à disposição da Justiça, na prática abriga mais de 320 presidiários já condenados. Vivem numa situação desumana. Barril de pólvora pronto a explodir a qualquer hora.

O índice de criminalidade, motivado pelo excessivo uso de drogas, principalmente entre os jovens, é cada vez maior. É comum ao andarmos pela cidade encontrar jovens armados, principalmente com facas peixeiras, livremente, sem nenhuma preocupação. A facilidade que encontram para cometer os crimes e deles se livrarem com facilidade, tem servido para o aumento da violência.

Ontem, sábado, dia 2 de abril, a ação dos marginais chegou ao máximo que se pode esperar dos bandidos. Nestor Fernandes de Medeiros, motorista da Rádio Manchester de Anápolis, ao sair da Vila Formosa, onde reside, para pegar a funcionária Renata, da mesma emissora, no Bairro São João, mesma região em que se encontra instalado o Batalhão da Polícia Militar, foi abordado por um cidadão, armado de revolver 38, anunciando ser um assalto:

– Passe os documentos, celular e carteira, rápido! Você é motorista da rádio que critica a gente. Isso é para não falar mais de nós.

Nestor, homem trabalhador, por certo teve todo seu trajeto diário acompanhado pelo bandido que, sozinho, sem veículo, agiu com a certeza da impunidade. O simples assalto já é fato inusitado, por ser praticado contra um motorista cujo carro estampa nas portas da viatura o nome da emissora de rádio. A agressão teve o objetivo de intimidar. Intimidar quem os atrapalha pelo simples fato de noticiar os crimes que cometem. Sabia o assaltante que um motorista de emissora de rádio, de manhã, 6h40, não poderia lhe render bons lucros materiais. O ato teve apenas um motivo: intimidar. O recado foi dado pelo bandido.

Quando até um motorista de emissora de rádio é assaltado à luz do dia, num bairro densamente povoado, bem perto do batalhão que comanda a Polícia Militar, é o fim de tudo. Ou vamos esperar que os bandidos assaltem e prendam integrantes da polícia para reagirmos? Não é só em Goiânia e Entorno de Brasília que a criminalidade cresce. Ela cresce em todo Goiás. É hora de repensar a melhor forma de defender o cidadão goiano. Não se pode esperar mais.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Eurico Barbosa revigorou nossas energias

O advogado, político, escritor e jornalista Eurico Barbosa, no seu artigo “Desolação,” publicado pelo Diário da Manhã, na edição de 15 de março, afirma que a representação popular nos parlamentos brasileiros é abaixo crítica. Ressalta que não é um problema exclusivo do Brasil, mas fenômeno mundial.

Ao citar algumas figuras folclóricas eleitas na atual legislatura para o Congresso Nacional, Eurico deixa claro que pior que esses, são aqueles que foram eleitos pelo poder econômico, pela malversação do dinheiro público e pela propinagem. O oportunismo de donos de partidos, lançando candidatos, figuras folclóricas do mundo artístico, ou expressões consagradas no meio esportivo, escancarou as portas dos parlamentos para o descrédito da atividade política. Lançam os chamados puxadores de votos, para que possam ir às suas costas.

Dentro desse quadro desolador e pouco republicano descrito pelo jornalista em “Desolação,” depois de lamentar pela exclusão de figuras reconhecidamente dotadas de responsabilidade moral e intelectualmente bem preparadas, cedendo lugar aos representantes do populismo de big brother ou da propinagem, lamenta a mediocridade de muitos que têm assento nas casas legislativas.

A citação ao nosso trabalho como políticos que honraram o mandato popular, nos emocionou. Revigorou nossas forças para prosseguirmos nessa caminhada em busca da justiça social, de uma sociedade cada vez mais liberta e democrática. Eurico Barbosa, em “Desolação,” ao lamentar que o poder econômico tenha substituído o mérito moral e intelectual nas disputas eleitorais, arremata: “Parece que nunca mais teremos os Afonso Arinos, os Almino Afonso, os Aleomar Baleeiro, os Franco Montoro, os Ulysses Guimarães, os Simão da Cunha, os Vasco dos Reis, os Paulo Campos, os Celestino Filho, os Peixoto da Silveira, os Wagner Estelíta, os Henrique e Ademar Santillo, centenas de outros políticos pobres mas intelectualmente brilhantes que honraram o Congresso Nacional.”

Essa declaração, verdadeiro manifesto público, nos enche de orgulho e satisfação, porque Eurico, como deputado estadual em 1966, ao lado de Iturival Nascimento, foram as duas únicas vozes que se levantaram a favor de Henrique Santillo, eleito o vereador mais votado de Anápolis, não foi diplomado, por perseguição política, com a conivência da Justiça Eleitoral do Município. A ditadura militar de 64 não aceitava contestações. O MDB de Anápolis de estrutura conservadora não tinha motivação para defender seu membro perseguido. Sabia que Henrique impedido de exercer o mandato os votos ficariam com a legenda. Poucos externaram seu protesto. O MDB estadual, sucessor do PSD, ainda atordoado pela derrota de Peixoto da Silveira e cassação de inúmeras lideranças, simplesmente ignorou o episódio de Anápolis.

Os deputados Eurico Barbosa e Iturival Nascimento formalmente protestaram contra a violência, colaborando para que o TRE reformasse a decisão do juiz eleitoral de Anápolis, diplomando e empossando Henrique Santillo. Essa ação política permitiu que a caminhada prosseguisse. Não morresse no nascedouro. Muitas outras perseguições enfrentamos nestes 45 anos que nos separam daquele fatídico acontecimento.

Processos dolosos montados por adversários e órgãos da repressão, tentativa de cassação dos nossos mandatos, prisões em massa de companheiros, cassação do mandato de José Batista Júnior e transformação de Anápolis em Área de Segurança Nacional, fechamento de emissora de rádio... A tudo resistimos, sempre contando com o apoio popular. Valeu a pena lutar. Uma avaliação como essa feita por Eurico Barbosa é o maior galardão que um político pode receber.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Julgamento que pode firmar jurisprudência

Inúmeros processos envolvendo questões eleitorais ocorridas em Goiás, nos pleitos de 2008 e 2010 tramitam pela Justiça Eleitoral. O de Anápolis, relativo às eleições municipais de 2008, é muito importante. No TRE, está com o Ministério Público para oferecer seu parecer.

Perguntas que precisam de respostas: podem ser distribuídos presentes e outros “agrados” aos eleitores, no período eleitoral, sem que sejam considerados abuso do poder econômico, desde que bancada por um supermercado ou qualquer outra empresa jurídica, mesmo que pertencente a alguém que seja candidato? Estando presentes representantes, candidato e esse ausente, sua propaganda pode ser feita abertamente, com festa, distribuição de presentes, discursos e pedidos de votos? Para ser crime, o público presente à concentração tem que ser superior aos votos que o vencedor teve de frente sobre o adversário, para que seja infração eleitoral?

Isso não se trata de hipótese. Aconteceu no 2º turno das eleições municipais de Anápolis, em 2008. No dia 12 de outubro, no feirão coberto do Bairro de Lourdes, o Supermercado Cedro, pertencente a Domingos Paula de Souza, eleito vereador pelo PTB, realizou festa em homenagem às crianças, com distribuição de 3.412 itens entre bolas, bonecas, mochilas, 11 bicicletas e uma piscina, para um público presente de sete mil pessoas. Além da distribuição dos prêmios e refrigerante à vontade, houve agradecimentos pelos votos dados a Domingos, no primeiro turno, e pedido de votos para o candidato do PT, Antônio Roberto Gomide, no 2º turno.

Tudo ficou amplamente documentado com as provas materiais e testemunhais acostadas ao processo. Domingos Paula de Souza, em depoimento, confirmou a distribuição de 3.412 itens entre brinquedos, bicicletas e piscina. O que não foi distribuído às crianças foi sorteado pelos organizadores e dirigentes do evento. Presentes, além de Domingos e seus assessores, estiveram Frei Valdair, candidato do PTB à prefeitura, no lº turno, e apoiando Gomide, no 2º; Céser Donizete, ex- presidente do PT e Edmar Silva, presidente municipal do PT. O locutor da festa, o tempo todo, dizia: agora é 13. Agora, é Antônio Roberto Gomide. Quem votou em dominguinhos e Frei Valdair agora vota em Antônio Roberto Gomide. Toda festa foi filmada e faz parte de DVD entregue à Justiça.

O PMDB denunciou o crime, no seu programa eleitoral pela televisão e rádio. Entrou com representação junto à Justiça Eleitoral. Passado o 2º turno, com a vitória de Antônio Roberto Gomide, a candidata do PMDB, Onaide Santillo, também presidente municipal do partido, retirou a representação. Alegou que apresentara a representação para impedir que novas festas continuassem sendo realizadas. Como democrata, se dobrava à decisão do eleitorado, reconhecendo a vitória do adversário.

No seu relatório sobre o acontecido no dia 12 de outubro de 2008, no Bairro de Lourdes, realizado pela Polícia Federal de Anápolis, a pedido do Ministério Eleitoral, o delegado Humberto Evangelista, classifica a distribuição de brindes como “agrados” aos eleitores e fazem parte do marketing de campanha. Não viu crime eleitoral no evento festivo. Foi mais longe: pediu que o denunciante - dirigente do PMDB seja processado criminalmente por ter exposto injustamente (Antonio Gomide), o denunciado.

O Ministério Público continuou com a Investigação Judicial Eleitoral. Os quatro promotores eleitorais, diante da contundência das provas e gravidade do ocorrido, ofereceram denúncia pela cassação de diplomas e suspensão dos direitos políticos de Antônio Roberto Gomide e Domingos Paula Souza, por abuso do poder econômico.

O juiz eleitoral da 144ª Zona Eleitoral reconheceu, em argumentações na Sentença, que a festa foi eleitoreira, havendo, portanto, farta distribuição de brindes e infringência à Lei Eleitoral. Suspendeu os direitos políticos de Domingos Paula de Souza, por três anos, mas não cassou seu mandato. Quanto a Antônio Gomide, mesmo reconhecendo infração eleitoral por ele cometida, o absolveu. Para o juiz, o número de eleitores presentes à festa não seria suficiente para alterar o resultado final das eleições, no 2º turno. Só haveria, de acordo com o juiz eleitoral, probabilidade de cassar o mandato do prefeito e suspender seus direitos políticos, caso houvesse continuidade desse tipo de infração. Como foi apenas uma festa, na qual compareceram aproximadamente sete mil pessoas, mesmo que esses votos fossem retirados da sua votação, o petista seria eleito. Como o PMDB já havia saído da ação e o Ministério Público não recorreu da decisão dojuiz Algomiro Carvalho Neto, a ação não subiu ao Tribunal Regional Eleitoral, no que se refere a Antônio Roberto Gomide.

O TRE deve julgar o recurso impetrado por Domingos Paula de Souza, que recorreu da sentença que suspendeu seus direitos políticos por três anos. Na sua decisão, a Justiça diz que Domingos foi beneficiado. Teve menos de dois mil votos. Neste caso, os sete mil presentes à festa alterariam o resultado eleitoral a seu favor. O julgamento desse processo pelo Tribunal Regional Eleitoral, mesmo que parcial, só envolvendo o vereador Domingos Paula de Souza, pode criar jurisprudência para as próximas eleições.

domingo, 20 de março de 2011

Discos que me fazem voltar ao passado

Recentemente fui presenteado pelo amigo José Moreira, o Zuza do Agenor de Uruana, com uma coleção de uns 500 discos 78 rotações por minuto, das décadas de 50/60, com Orlando Silva, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Nora Nei, Francisco Alves e muitos outros astros e estrelas da música popular brasileira e internacional, de todos os tempos. Para ouvi-los, reformei a vitrola que se achava encostada junto a bagulhos, que ainda não encontrei coragem para descartá-los. Ainda bem! Algumas vezes, como agora, podem nos tirar do sufoco.

Vou convidar Mauro Gonzaga Jaime, o Pastinha, para que possamos apreciar alguns clássicos que fazem parte da coleção que ele incentivou Moreira a me presentear. Mauro Pastinha é fanático por música. Maior colecionador goiano das canções de Altemar Dutra, Roberto Carlos e Beatles. Pastinha sabe tudo sobre eles. Conhece as letras e como e para quem foram compostas. Nesse mundo cada vez mais selvagem em que vivemos, valores intelectuais perdendo o sentido, há os que classificam esse conhecimento e gosto por músicas populares do passado, como cultura inútil. Para mim, não. Volto ao passado com prazer e alegria. Passado de criança pobre, com experiência que os meninos de hoje, ricos ou pobres, dificilmente viverão.

Hoje as letras para fazerem sucesso têm que narrar fracassos e frustrações no amor. Fazem apologia à bebida. Quanto mais “ dor de cotovelo” e alusão à bebedeira, mais sucesso alcançam. Não possuem, contudo, a sabedoria e fineza poética de Lupicínio Rodrigues, o inventor da expressão “dor de cotovelo.” Poucos são os poetas, inteligentes e espirituosos, como Lupicínio Rodrigues, Noel Rosa, Chico Buarque, Humberto Teixeira, Pena Branca e Xavantinho e tantos outros que enriqueceram e enriquecem nosso acervo musical. Para muitos, canções do passado ou música de protesto só servem para museu e relatos históricos.

Os discos que incorporei à minha discoteca, levaram meu pensamento ao passado. Passado já bem distante, mas que para mim parece ter sido ontem. Lembranças gostosas e prazerosas. Lembranças da adolescência quando por falta de outras opções de lazer em Anápolis, Jayro Rodrigues, Oara Silva, Altair Garcia Braguinha, Mauro Pastinha, Geraldo Divino, Romualdo e eu, íamos à noite ao parque de diversões do Bené Silva, o Goiá-Parque, instalado à Rua Leopoldo de Bulhões, ao lado da estrada de ferro. Carrosséis, barquinhos, balanços, jogos de argola e músicas, eram suas atrações. Seus potentes alto-falantes ouvidos por todo setor central da cidade, que ainda era pequena. Goiá-Parque, local preferido por jovens de ambos os sexos darem recado à pessoa amada ou pretendida.

Com os chavões até hoje usados nos parques de diversões por todo interior do País, Bené Silva, que além de dono era locutor, fazia isso com precisão e competência: “Ouviremos agora – Empresta-me Teus Olhos -, com Carlos Galhardo. Essa música é dedicada a alguém, esse alguém sabe quem, com amor e carinho!” Ou: “A moça de vestido estampado oferece – Nós Queremos Uma Valsa – com Carlos Galhardo, ao charmoso rapaz de camisa branca e calça preta, com respeito e admiração.” Depois dessas dedicações, a garotada tentava descobrir quais eram os protagonistas daquelas declarações de afeição e amor. Bené era também produtor e redator das propagandas e mensagens que difundia no parque “A, E, I, O, URCA! URCA, o melhor café!”

As atividades no Goiá-Parque se encerravam por volta das 23 horas. Sempre com show do Porã e seus Bonecos Falantes. Timóteo, jogador do Anápolis Futebol Clube, à noite se transformava em Porã. Levava consigo os bonecos Crispim e Marieta. Ventríloco, criava histórias diárias para seus bonecos falantes. Timóteo, ou melhor Porã, Crispim e Marieta eram espetáculo à parte, engraçadíssimos. Bené Silva, antes de encerrar as atividades, fazia propaganda do seu parque:

“Seja belo como galã, forte como Tarzan, balangando nos balangos do Goiá-Parque!”

quarta-feira, 16 de março de 2011

Respeito e amor à vida

O maior terremoto da história do Japão, provocando tsunami com ondas de até 12 metros nas águas do Oceano Pacífico, só não foi mais arrasador, ceifando centenas de milhares de vidas humanas, pelo preparo do seu povo em lidar com esse tipo de catástrofes. Na escola, no trabalho, pelos meios de comunicação de massa e até em casa, a população japonesa é orientada como proceder quando há tremor de terra, o mais frequente dos desastres naturais que ocorrem no país. Mesmo com seu amor à vida, o povo não consegue fugir das destruições naturais. Seria infinitamente pior se não houvesse sua permanente vigilância. Graças a essa preocupação, o terremoto de 8,9 na escala Richter, o maior registrado já no Japão, provocou menos mortes que o de 2004, na Indonésia, em que mais de 200 mil pessoas morreram, num terremoto de menor magnitude. Os desastres constantes têm feito com que a população a cada abalo sísmico adquira novos conhecimentos, se resguardando do perigo futuro, graças aos investimentos permanentes feitos pelo governo e conscientização do povo japonês.

Enquanto essa catástrofe que impressionou a população mundial com suas imagens aterrorizantes, ceifando vidas humanas, arrasando cidades, avariando usinas nucleares, destruindo plantações, engolindo navios, carros, estradas, pontes e viadutos, no colossal acidente natural equivalente à detonação de milhares de bombas atômicas, uma outra silenciosa, provocada pela incompetência governamental, aconteceu no Brasil, passando quase desapercebida. Sem maior destaque até mesmo na imprensa nacional, antenada que estava na destruição do Japão, 213 pessoas, a maioria jovem, perderam a vida em acidentes nas rodovias federais, durante os festejos do último carnaval.

Se computássemos as mortes que ocorreram no mesmo período em rodovias estaduais e hospitais, daqueles que foram resgatados com vida, esse número de pessoas mortas no feriado do carnaval, dobraria.

Essa catástrofe que enlutou inúmeras famílias, deixou milhares de pessoas gravemente feridas, superlotando hospitais e causando alguns milhões de reais em prejuízo material, poderia ser reduzida drasticamente, caso houvesse investimento no sistema de orientação aos motoristas e sua fiscalização nas estradas.

Numa das suas últimas edições, o jornal O Globo, ao mesmo tempo que destacou o esforço hercúleo das autoridades japonesas para preservarem vidas diante de mais um desastre natural, informa para a tristeza e vergonha de todos nós, que no período de carnaval, o Departamento Nacional de Trânsito só fez campanha de prevenção de acidentes em três capitais: Rio, Recife e Salvador. Ressalta ainda que “o Ministério das Cidades alega que faltaram recursos para uma campanha nacional contra violência nas estradas. O Fundo Nacional de Segurança e Educação no Trânsito teve 72% do orçamento de 2011, contingenciados”.

Esse descaso para com as famílias que usaram as rodovias no carnaval , além de vergonhoso é irresponsável e criminoso. Sem orientação e fiscalização, as estradas foram usadas como pista de corrida e campo de guerra por motoristas despreparados e irresponsáveis. Beberam em demasia, praticaram rachas, deram “cavalos de pau”, não respeitaram sinalizações, ultrapassaram em locais proibidos, morreram e também mataram dezenas de inocentes. Ao tomarem conhecimento que as rodovias estavam sem policiamento, aguçaram seu instinto à violência, transformando o que era para ser alegria, em choro e tristeza para centenas de famílias.

Chorar seus mortos por catástrofes naturais, como choram hoje os japoneses enlutados, é lamentável e triste, mas plenamente compreensível. A natureza tem sido mais forte que o homem. Mas chorar mortos por falta de policial rodoviário, equipamentos de segurança, falta de orientação e fiscalização aos motoristas de vocação suicida é despreparo e irresponsabilidade. Chorar os mortos por contingenciamento de recursos orçamentários que preservariam a vida, combatendo a violência nas estradas, é crime inaceitável.

domingo, 13 de março de 2011

Anapolino de Faria, uma vida de coerência


Anapolino de Faria, médico, filho de família tradicional em Anápolis, sempre conciliou sua atividade profissional com a participação política. Coerente, sincero e sistemático, referência positiva e fez escola na política goiana e nacional. Democrata, mas anticomunista convícto, mesmo assim era admirado e respeitado pelos esquerdistas que o conheceram. Seu compromisso com a democracia foi mais forte que sua ideologia. Desde a primeira hora, se colocou contra o golpe militar de 1964. Nas tribunas da Assembleia Legislativa, Câmara Federal, praças públicas, concentrações simpósios e palestras, se firmou como uma das vozes mais importantes no combate à ditadura.

Anapolino de Faria era respeitadíssimo como cirurgião. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, trouxe para Anápolis a técnica de operação de bócio, que por aqui era endêmico. A hipertrofia da tireoide fazia com que os “papos”, dos mais simples aos de corda, aqueles bem compridos, surgissem deformando as pessoas. Além de afetar-lhes a saúde, diminuía intensamente sua autoestima. Com o médico Anapolino de Faria, o sonho de vida normal, recuperação da beleza estética, sorriu para centenas de indivíduos que foram restaurados como que por milagre.

O respeito e amor que dedicava aos pacientes, maioria oriunda das camadas mais pobres da população, fez com que Anapolino de Faria percebesse que poderia ajudar o povo de forma mais abrangente, através da política partidária. Elegeu-se vereador e foi presidente da Câmara Municipal de Anápolis. A partir daí sua carreira política decolou repleta de vitórias: deputado estadual, deputado federal, prefeito de Anápolis...

Anapolino de Faria foi um dos responsáveis pelo fim do coronelísmo em Anápolis. Em 1969, ficou a favor da candidatura do vereador Henrique Santillo à prefeitura, contra as forças tradicionais e conservadoras do município que queriam Thales Reis, genro do cel. Achiles de Pina. Embora nacionalmente fizesse parte do grupo moderado do Movimento Democrático Brasileiro – MDB, no município, esteve sempre ao lado dos progressistas, ou autênticos, liderados por Henrique Santillo.

Quando foram cassadas lideranças tradicionais da política goiana, como Pedro Ludovico, Olimpio Jayme, Iris Rezende Machado, João Abraão e outras figuras expressivas do MDB, assumiu a presidência regional do partido.

Em 1996, quando me candidatei à prefeitura de Anápolis, ficou ao meu lado, no PSD, mesmo pertencendo ao PMDB. Não concordou com o comando do seu partido em Anápolis, que apoiou Pedro Canedo (PFL) tendo a deputada federal Lídia Quinan(PMDB) na vice. Deixou de apoiar seu amigo e líder de inúmeras eleições, Henrique Santillo, por ser candidato pelo PSDB.

Em 1983, cumprindo dispositivo constitucional o governador Iris Rezende Machado o indicou para assumir a Prefeitura de Anápolis. Assim a prefeitura ficaria com o PMDB, amplamente majoritário em Anápolis e no Estado. A princípio rejeitou totalmente a ideia:

– Não aceito! Não quero carregar essa mancha na biografia.

O convencemos que à frente da prefeitura seria mais um instrumento do povo, pelo retorno de eleição direta no município.

Aceitou a indicação. Deixou o cargo quando o substituí. Fui eleito pelo voto direto em 1985, depois de Anápolis ter perdido por 12 anos sua autonomia política ao ser enquadrada como do interesse à Segurança Nacional, em 28 de agosto de 1973.

Anapolino, eterno apaixonado pela educação, contatava com os mestres de forma direta. Mesmo que o intermediário fosse o sindicato. Egmar José de Oliveira (PCdoB), vereador e presidente do sindicato dos professores, precisava discutir assuntos da categoria com o prefeito. Por não conseguir agendar a audiência, decidiu pressioná-lo, fazendo seu enterro “simbólico.” A manifestação aconteceu em frente ao seu gabinete, na Praça Abílio Wolney. Encerrado o protesto, enterro “simbólico” do prefeito realizado, caixão abandonado no saguão da prefeitura, Egmar foi ao gabinete na tentativa de acertar a audiência. Tomando conhecimento que o presidente do sindicato estava à sua procura, determinou ao secretario Nelson Gomes que o conduzisse à sua presença. Egmar adentrou à sala todo sorridente. Anápolino, em pé, atrás da sua mesa de despacho, antes que houvesse o aperto de mãos:

– O senhor deseja marcar audiência, não é?

– Sim, prefeito! Há questões importantes que precisam ser discutidas.

– O senhor deveria saber que defunto não concede audiência...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ainda há tempo para salvar hospital psiquiátrico

Os noticiários diários dos jornais e das emissoras de televisão e rádio são cada vez mais frequentes e estarrecedores sobre crimes praticados por jovens com transtornos mentais, por uso de produtos químicos. Casos que revelam o caos na assistência ao dependente químico e mental, por uma política equivocada e perversa praticada pelo SUS, contra os hospitais psiquiátricos.

Em 7 de outubro de 2009, Marival Severino da Costa, presidente da Associação dos Familiares de Doentes Mentais no Brasil – AFDM Brasil, denunciou à nação o genocídio de doentes mentais no País. Em dezembro de 2008, a associação realizou seminário, cujos debates não deixaram dúvida da ocorrência de uma tragédia silenciosa atingindo os que dependem do SUS.

“A política de reforma psiquiátrica antimaniconial do Ministério da Saúde vem matando milhares de doentes mentais pelo País afora. Isto é consequência de uma política desumana e cruel que reduziu as internações no SUS e ainda não escuta a voz dos familiares e amigos dos doentes mentais. O discurso da desospitalização irresponsável dos antimaniconiais prega a volta para casa. Nós familiares e amigos de doentes mentais perguntamos: que casa? Essa política oficial levou milhares de doentes mentais para as ruas, os presídios e os cemitérios.”

Eduardo Quadros Spinola, médico presidente do Departamento de Psiquiatria da Federação Brasileira de Hospitais, usando dados oficiais do governo, confirma que crescimento da mortalidade por transtornos mentais e comportamentais é muito acima da evolução demográfica da população brasileira. Isso faz com que doentes mentais superlotem as cadeias e presídios, bem como as Casas de Tratamento e Custódia. Milhares de doentes mentais abandonados perambulando pelas ruas e estradas deste imenso Brasil.

De 1997 a 2007 a população do Brasil saltou de 153.536.297 habitantes para 189.335.191 habitantes, crescimento de 18%. Nestes mesmos dez anos, as internações psiquiátricas pelo SUS caíram de 410.003, em 1997, para 248.968 em 2007. Redução de de 40%. Dados oficiais do Ministério da Saúde, no período de 1997/2007, Datasus e IBGE, pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade, registram que a mortalidade anual por transtornos mentais saltou de 4.984 óbitos em 1997 para 10.948 em 2007. Aumento de 119,66%, ao ano. Esse genocídio não pode continuar.

O Hospital Espírita de Psiquiatria de Anápolis, fundado em 23 de abril de 1950, um dos mais conceituados no atendimento aos portadores de transtornos mentais e dependências químicas em todo o País, está passando pela maior crise financeira desde sua fundação. Até agora, o Sanatório Espírita de Anápolis, seu mantenedor, com enorme sacrifício, tem garantido seu perfeito funcionamento e qualidade do serviço prestado.

Em 2010 o Hospital Espírita de Psiquiatria de Anápolis atendeu pacientes de 107 municípios brasileiros. 78 municípios de Goiás e 28 de outros 11 Estados, inclusive Brasília. Média de 242 internações mensais. Mais de mil encaminhadas pelo Samu. Centenas por decisão judicial. Ao mesmo tempo, ainda em 2010, o hospital realizou 17.630 consultas psiquiátricas e 1.800 exames de eletroencelografia, com a média mensal de 150 exames. Destaca-se que na região é o único a atender esses exames pelo SUS.

Com a população que assiste de 67 municípios pactuados com a Secretaria Municipal de Saúde de Anápolis, pelo Sistema Único de Saúde, o Hospital Psiquiátrico teria direito a 1.683 leitos, levando em conta orientação do Ministério da Saúde de 0,045 leitos por grupo de 1.000 habitantes. Hoje só estão pactuados 360 leitos. Destes, 120 são ocupados por portadores de dependência química. 63 são permanentemente ocupados por doentes crônicos, que estão no sanatório há 25 ou 35 anos.

A superação da crise atual pode ser minimizada efetuando pagamento ao hospital das internações por dependência química no valor fixado pelo SUS. No momento o hospital recebe por qualquer tipo de internação o valor mínimo. Isso o tem tornado deficitário permanente. Atualizando o pagamento, o déficit mensal será eliminado ou diminuído substancialmente. Caso contrário, o hospital corre o sério risco de encerrar suas atividades, depois de 61 anos de existência, deixando a população da região totalmente desassistida.

domingo, 6 de março de 2011

Onça e coruja perturbaram o secretário

Oscar de Azevedo Júnior foi secretário de Meio Ambiente da prefeitura de Anápolis de 1997 a 2000. Médico competente e muito conceituado, sempre se preocupou com a preservação da natureza. Na sua propriedade rural, no Tocantins, não admitia corte de árvores e nem caçadas. Os vizinhos o conheciam e nem sequer andavam armados na sua propriedade. Geralmente avisava aos seus auxiliares quando ia à fazenda. Todos que sabiam do seu amor aos animais e à natureza o respeitavam.

Sem ter como contatar seus subordinados, resolveu passar final de semana no Tocantins. Chegando, encontrou no quintal uma onça pintada estirada quase à porta da cozinha. Os vizinhos mataram o animal que vinha devorando bezerros e carneiros, na região. A onça morreu no pequeno pomar da fazenda. Ficou bastante contrariado, mas aceitou a violência dos confrontantes. Pediu aos auxiliares que tirassem o couro do animal. Depois de curtido e seco o levou para sua residência, em Anápolis. Todos que o visitavam ouviam a história da morte da pintada e a razão do seu couro na sala.

Simples e solícito, era querido por todos da secretaria. No seu aniversário, os amigos convidados pela Toninha, sua esposa, foram à sua residência. Oscar estava eufórico com a surpresa que Toninha lhe preparara. Durante a festa, soube que seus companheiros de secretaria haviam convidado o diretor estadual do Ibama para a confraternização. A partir desse instante Oscar desapareceu. Quando Toninha sentiu sua ausência, o procurou no quarto do casal, encontrando-o:

– Oscar, os convidados estão aí e você some ?

– Toninha, matar animal silvestre é crime inafiançável!

– Qual é o problema ?

– O diretor do Ibama está vindo aqui e vai ver o couro da onça estendido na sala.

Toninha guardou o couro no guarda roupa e o trancou. Só assim o aniversariante voltou a participar da festa em sua homenagem.

No outro dia, sábado, foram ao casamento do filho de um casal amigo em Goiânia. Ficaram até tarde participando da festa. Retornando a Anápolis às 4 horas da manhã. Cansado e com sono, Oscar vedou toda claridade que pudesse passar pela janela e alertou a esposa que só acordasse na hora do almoço. Fez tudo que achava necessário para ter sossego e paz. Esqueceu-se de pequeno detalhe: desligar o telefone fixo da tomada. Assim que pegou no sono o telefone tocou:

– É da casa do secretário municipal de defesa do Meio Ambiente?

– Sim, é da casa do secretário.

– Aquí é Isabel. Preciso falar com ele com urgência!

– Dona Isabel, a senhora está conversando com ele.

– É o dr. Oscar, não é?

– Sim...

– Dr. Oscar, essa noite eu cheguei tarde em casa e encontrei uma coruja no jardim...

– Parabéns, a senhora a protegeu de gato ou qualquer outro perigo...

– Parabéns coisa nenhuma! A coruja está com a asa quebrada. Telefonando para minha vizinha, ela disse que essa noite assistiu a um programa de televisão em que uma pessoa foi presa no Paraná por ter matado um pássaro. Me disse ainda que para esse tipo de crime não há fiança. Me garantiu que nesse caso é prisão mesmo...

– Dona Isabel a senhora procure uma delegacia de polícia perto da sua casa e faça o registro do ocorrido e assim estará livre...

– Já estive na delegacia, mas o plantonista me afirmou que esse tipo de ocorrência não é com a polícia civil...

– A saída então é acionar o Corpo de Bombeiros...

– Já entrei em contato com os Bombeiros, mas me esclareceram que eles só atuam quando algum animal está aprisionado em condição de risco ou pondo a vida de alguém em risco. Me disseram que esse não é o caso, pois a coruja depende é de atendimento médico veterinário...

– A senhora vai telefonar para o presidente da Associação de Defesa do Meio Ambiente, Amador Abdalla...

– Foi ele que me forneceu o telefone para que conversasse com o senhor.

Nessa altura já aceso, sono espantado para muito tempo, sem saber a quem indicar dona Isabel, que desde às 22 horas daquela noite não parara um minuto na incansável luta para se desfazer da coruja acidentada, Oscar deu a solução:

– Dona Isabel, investido da autoridade que o cargo me dá, autorizo a senhora a ficar com a coruja em sua casa. Caso aconteça o pior, assumirei inteiramente perante às autoridades legais a responsabilidade pelo acontecido.

Deitou-se quando já havia passado das 5 da manhã. Antes de dormir teve o cuidado de desligar o telefone da tomada.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Beleza da natureza está sendo destruída

Quando criança em Anápolis, até por falta de outras opções de lazer, o que mexia com a adrenalina da meninada era visitar ou tomar banho na represa dos Fanstone, na saída para Nerópolis. Parte mais larga e profunda do Antas, principal córrego que corta o setor central da cidade, com suas águas cristalinas e caudalosas tornava-se atração irresistível. De nada valiam as admoestações dos pais ou a bronca dos administradores da chácara. Conseguíamos com muita criatividade vencer os empecilhos. Nosso medo, verdadeiro temor, sempre foi de ser retirado da represa sem roupa, pelo Cazuza. Inspetor de criança e adolescente, designado pelo juiz da Comarca, cumpria com rigidez suas atribuições. Levava o infrator à sala do juiz para ser advertido. O herói das crianças e adolescentes à época, o menino Bengala, garoto destemido e gozador, tinha como principal passatempo desafiar Cazuza. Fazia a alegria dos que não tinham a mesma coragem e disposição. Esse temor da garotada a Cazuza, nasceu com a história, verdadeira lenda que corria entre a garotada, garantindo que ele levara um menino, totalmente nu, apreendido na represa, ao gabinete do juiz.

Com o passar do tempo, por estar situada em local estratégico no Município, a represa se transformou no primeiro reservatório para captação e distribuição de água tratada em Anápolis. O serviço municipalizado realizado pela Superintendência Municipal de Saneamento – Sumsan, funcionou até 1972, quando o serviço foi transferido à Saneago, por imposição do governo federal. Com a chegada do progresso, locais cobertos por Cerrado e pequenas reservas de mata nativa, cederam lugar à expansão urbana. Foi retirada toda vegetação. Loteamentos como Nações Unidas, São Joaquim, Parque das Primaveras, Novo Paraíso, Paraíso, Calixtolândia e Polo Centro I e II, os mais antigos próximos à nascente do Antas, assorearam o leito do córrego, levando cascalho, terra, lixo e entulho à represa. Em pouco tempo, a reserva caudalosa de águas cristalinas, ornamentada pelas aves multicoloridas, desde a brejeira saracura aos sofisticados curiós e bicudos, com suas infindáveis e afinadas sinfonias, desapareceu. Surgiu um depósito de lama fétida num pântano colossal. Degradação total da maior riqueza natural do município. Córrego que saciou a sede de tropas e tropeiros que abrigavam às suas margens, para descanso nas incontáveis viagens que faziam de Jaraguá e Pirenópolis, rumo a Bonfim, hoje Silvânia.

Como prefeito da cidade, assistindo na memória o que o tempo não apagou, reprise do DVD das imagens bonitas da infância, decidi recuperar a área degradada. Adquiri mais de 90 mil metros quadrados em toda extensão da antiga represa. Milhares de toneladas de lama podre retiradas, até que ganhasse sua forma original. Através do escultor Laerte Gariboti, responsável pelas principais esculturas particulares e públicas da cidade de Caldas Novas, um conjunto dessa obra de arte foi construído no local. Cascatas, cavernas e até uma ilha no centro do lago. Portal de entrada do parque é uma verdadeira obra de arte. A lagoa recebeu peixes próprios da região. Pista para passeio de pedestres, ciclistas e um trenzinho que levava as crianças nas visitas, sempre acompanhadas de guia, narrando a história do Antas e necessidade de se preservar a natureza. As escolas públicas e particulares, de Anápolis e municípios vizinhos, faziam programação antecipada de visitação ao parque. Árvores centenárias preservadas. Havia parque infantil e prédio que abrigava a Polícia Interativa. Para evitar assoreamento do lago principal, construímos aterro com passagem para os pedestres de uma margem à outra. Demos à obra o nome do empresário e político Onofre Quinan.

Hoje, o Central Parque Onofre Quinan, “cartão-postal” de Anápolis. Local de visitação e orgulho dos anapolinos, é apenas uma caricatura do que foi. A represa voltou a ser assoreada por terra e cascalho lançados ao leito do córrego, principalmente pelas obras da Ferrovia Norte-Sul. As cascatas secaram, as flores desapareceram, o trenzinho virou fumaça, sua escuridão noturna é paraíso de desocupados e usuários de drogas, as pistas deterioraram, os peixes morreram, os macacos famintos foram transferidos do local por agredirem os visitantes. Até o busto do homenageado Onofre Quinan foi roubado. É o descaso total com uma das partes mais importantes e bonitas da história de Anápolis.