terça-feira, 10 de abril de 2012
Prefeito José Batista Júnior cassado
Empolgado com o cargo e o trabalho que realizava, José Batista procurava se aproximar da Administração Estadual. Estava preocupado, principalmente, em fazer parceria com o, então, Governador Leonino Caiado, no setor da Segurança Pública. Vinha tentando, desde a sua posse, audiência com o Governador e o Secretário da Segurança Pública. A audiência foi marcada pelo secretário para as 10 horas do dia 28 de agosto. Ao chegar à Secretaria, ele foi informado, por assessores, que a audiência fora suspensa. Retornou imediatamente a Anápolis. Ao se aproximar do povoado de Santa Tereza, hoje Terezópolis de Goiás, ouviu notícia extraordinária, pelo rádio do seu carro, que o presidente Emilio Garrastazu Médici, havia, por decreto, transformado o Município de Anápolis em ‘Área de Interesse da Segurança Nacional’, cassando seu mandato de prefeito e nomeado o engenheiro Irapuan Costa Júnior, então, Presidente da CELG, a prefeito em sua substituição. José Batista Júnior nem passou na Prefeitura para apanhar seus pertences pessoais.
A cassação de José Batista Júnior foi ato covarde. Toda cassação que se deu durante o período ditatorial foi arbitrária, injusta, prepotente e covarde. Não se cassou ninguém por corrupção. As cassações se deram por motivação política. A de José Batista não foi diferente. Perdeu o mandato e os direitos políticos por que foi eleito prefeito pela maioria dos eleitores anapolinos. Foi cassado por que tinha o apoio e o respeito da população. Os arenistas, como não conseguiam ganhar eleição em Anápolis, decidiram tomar a Prefeitura com a transformação do Município em Área de Interesse da Segurança Nacional, cassando o mandato do prefeito eleito.
Cassado, impedido de ocupar cargo público, José Batista Júnior mudou-se para Brasília onde montou uma panificadora. Sem prática no ramo, pequena clientela e funcionando em lugar pouco habitado, em pouco tempo teve que abandonar a atividade. Foi convidado, pelo presidente da Encol, empresa ligada à construção civil e empreendimentos agrícolas na Região Norte, para administrar uma fazenda no interior do Amazonas. Ficava até oito meses sem ver a família em Brasília. Só deixou as matas amazônicas quando veio a anistia política. Readquirindo seus direitos políticos o levei para trabalhar no meu gabinete na Câmara Federal.
Hoje, José Batista Júnior mora novamente em Anápolis. No dia 28 de agosto próximo completará 39 anos da sua cassação. Dia da maior injustiça cometida contra um anapolino que, por amar e acreditar na democracia enfrentou, com destemor, os ditadores de março de 1964. José Batista Júnior foi baluarte na luta contra a ditadura e os golpistas. Os democratas lhe serão eternamente gratos. Sua história honrou a bravura e o destemor dos anapolinos. Deve ser contada repetidamente, para que todos saibam, em detalhes, seu amor pelas liberdades democráticas... (Continua)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Queda e retorno da autonomia política
Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.
Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”
Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.
Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.
Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de 1964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Quando senador virou cabaça
Em Nova Glória, para entregar à população os benefícios recebidos, Antônio Cunha programou uma série de inaugurações. Romualdo havia conseguido, junto ao governador Onofre Quinan, recursos para asfaltamento urbano da cidade. Henrique Santillo não pôde comparecer. Iram Saraiva, candidato ao Senado, estava na região Sudoeste do Estado. Irapuan Costa Júnior, candidato à outra vaga ao Senado, representou seus companheiros Henrique e Iram. Romualdo foi à frente participando de toda festa. Muita gente, foguetórios e banda de música. Em cada parada o prefeito fazia questão de agradecer a colaboração “desse baluarte da política em Goiás, Romualdo Santillo.”
A amizade entre eles era antiga. No início dos anos 60, os dois e Altair Garcia Pereira, o Braguinha, promoviam shows com cantores populares em Anápolis. Braguinha e Romualdo abandonaram a carreira de empresários de artistas quando levaram prejuízo com a “Noite dos Astros e Estrelas”, em que contrataram Miltinho, Carlos Gonzaga, Celi Campello e um punhado de cantores famosos. Ficaram decepcionados com o fracasso do evento. Cunha seguiu em frente, pelo menos para mais um espetáculo.
Passava por Goiânia Pépe Ávilla e seus Mariachis. Grande atração internacional que percorria o Brasil. Contratou o conjunto. Noite enluarada e céu estrelado prometiam show com grande assistência.
Romualdo pouco antes do final foi ao local. Cunha estava na portaria:
- E aí Cunha, veio muita gente assistir o show?
- Já entraram na bilheteria, até agora, 4 mil e 500 cruzeiros.
- Então essa é a arrecadação! Daqui para a frente não rende mais nada...
- É verdade !
- Quanto você está pagando para o Pépe Ávilla?
- Todo o gasto ficou em 10 mil cruzeiros!
- Deeez mil cruzeiros? Você está perdendo esse dinheirão, Cunha ?
- É, mas o povo tá gostando. Veja quanta alegria!!!
Esse era o Cunha, agora prefeito de Nova Glória. Nunca foi apegado a dinheiro. Seu prazer sempre foi alegrar o povo.
No final da tarde, já com Irapuan Costa Júnior presente, foi iniciada a concentração política na principal praça da cidade. Cunha determinou ao mestre de cerimônia que desse a palavra a quem quisesse falar. Lista de oradores, infindável. Todos queriam externar seu apoio aos candidatos. Para que não houvesse privilégio, o prefeito orientou que os oradores fossem chamados por ordem alfabética. Simão, líder do prefeito na Câmara Municipal, conhecido pela sua inflamada oratória, ficaria para o final. Enquanto não chegava sua vez, fazia percurso palanque – bar da esquina e vice versa. Quando foi chamado estava no trajeto bar-palanque. Subiu às pressas auxiliado por um assessor do prefeito. Microfone às mãos, aplaudido pela multidão, saudou um por um os visitantes. Não se esqueceu de fazer referência a Romualdo Santillo, o “grande benfeitor de Nova Glória.” Por último, se dirigiu a Irapuan:
- Irapuan, você é a dignidade em pessoa! (palmas e muito bem). Mais que ninguém deve receber o voto do povo goiano para o Senado (mais aplausos e muito bem!)
- Senadoooor é figura importante! Geeente, senador é uma cabaça! Senador é uma cabaça... cabaça, cabaça!
O povão que lotava a praça foi à loucura. Extasiado, batia palmas e gritava, "Muito bem! É isso aí Simão..."
- É isso messssmo meu povo. Senador é uma cabaça. Insistia o vereador.
Quanto mais as pessoas riam, mais Simão repetia, senador é uma cabaça. Romualdo gritando “muito bem, Simão. Muito bem...” Tirou o microfone da sua mão enquanto a multidão continuava eufórica. Já fora do palanque, escorado em Romualdo, o vereador continuou:
- Não é deputado? Senador não é uma cabaça?
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Raul Balduíno e o MDB (Final)
Durante quase todos os quatro anos de mandato os vereadores trabalharam sem remuneração. Quando os antigos partidos foram extintos, dando lugar a Arena e MDB, a legislação eleitoral foi alterada, só permitindo remuneração para os vereadores em cujos municípios houvessem no mínimo 100 mil habitantes. A população anapolina, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, não havia chegado aos 100 mil. Mesmo assim, foi a mais produtiva de todas as legislaturas na avaliação de jornalistas e analistas políticos.
Com pequenos recursos e inúmeros problemas a resolver, Raul deu grande impulso ao desenvolvimento municipal. Foi na sua administração que se realizou a primeira Feira da Amostra da Indústria Anapolina – Faiana. O evento aconteceu no parque de exposição agropecuária. A indústria em Anápolis era pequena, se concentrando mais nas máquinas de beneficiar arroz e cerâmicas. Fora disso, algumas outras de pequena dimensão. Com a Faiana, a economia municipal se despertou para a excelente posição geográfica da cidade, própria mesmo para se transformar em grande pólo industrial. Coração do Brasil, entroncamento das regiões Sul e Norte.
Ao suceder Raul Balduíno, o prefeito Henrique Santillo não só deu continuidade às feiras industriais, como considerou de utilidade pública, para efeito de desapropriação, a área de terra onde hoje se encontra instalado o Daia. Leonino Caiado, governador do Estado, desapropriou a área e instalou a primeira industria no local, pela Lei de incentivos fiscais nº 7.700: a fábrica de azulejos Cecrisa, atual Cemina. No governo Irapuan Costa Júnior foi edificado o Daia, o mais completo Distrito Industrial do Estado. O distrito industrial se consolidou com a Lei Fomentar, na administração Iris Rezende e Produzir, no governo Marconi Perillo.
Raul Balduíno construiu os primeiros conjuntos habitacionais de Anápolis, com financiamento do Banco Nacional de Habitação – BNH. O Conjunto Raul Balduíno, ao lado do Estádio Jonas Duarte e Vila Formosa. Na sua administração o Estádio dos Amadores, o Zéca Puglisi, foi construído. Vereador Laudo Puglisi (MDB), autor da lei propondo sua construção. A meu pedido, à época presidente da Liga Anapolina de Desportos, construída a sede própria da LAD, nas dependências do novo estádio. O primeiro Pronto Socorro da cidade, obra de Raul Balduíno, transformado mais tarde por Jamel Cecílio, em Hospital Municipal. Dotou zona rural municipal de infraestrutura, com abertura e conservação de estradas, construção de pontes e mata-burros. Auxiliou os pequenos proprietários rurais com açudes, cascalhamento de currais e estradas vicinais. Além da escola Elzira Balduíno, no Bairro Maracanã, fortaleceu com mais escolas os bairros e zona rural. Fez administração admirável e de grande alcance social.
Ao final da sua administração, tinha preferência pela candidatura do delegado de polícia Thales Reis à prefeitura. Thales, genro do coronel Achiles de Pina, grande líder da política municipal. Raul se dobrou à vontade da maioria da população que queria Henrique Santillo. Apoiou Santillo, tendo Thales Reis como seu vice-prefeito. Poderia ter ingressado na Arena, como normalmente faziam os políticos, principalmente ocupantes de cargo Executivo. Preferiu filiar-se ao MDB, mesmo depois da cassação de Iris Rezende Machado, prefeito de Goiânia, em 1969. Era o mais cotado para ser o vice de Iris Rezende Machado ao governo de Goiás nas eleições de 1970. Com a cassação de Iris e a eleição para o governo, transformada em eleição indireta pela Assembleia Legislativa, foi candidato ao Senado, ao lado de Gerson de Castro Costa e Pedro Ludovico Júnior. A Arena elegeu os três senadores, Osires Teixeira, Benedito Ferreira e Emival Caiado. Nas vagas deixadas por Juscelino Kubitschek, Pedro Ludovico e José Feliciano Ferreira. Três vagas porque Ludovico e Juscelino haviam sido cassados enquanto José Feliciano terminava seu mandato. Raul Balduino de Souza foi muito importante na luta dos brasileiros pela queda da ditadura.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Irapuan Costa Júnior fez a diferença
Irapuan, por não ser político militante, montou seu secretariado com pessoas influentes e bem-sucedidas na iniciativa privada. Sem se preocupar se eram arenistas ou não. Evitou radicalismo político. Não teve tempo para executar obras de destaque. Seu período como prefeito foi muito curto. Atuou mais politicamente que no setor administrativo. O governo federal tinha missão maior reservada para ele: suceder Leonino Caiado. Se sua indicação para a Prefeitura de Anápolis surpreendeu a prória Arena, na escolha para o governo, não houve surpresa. Desde que chegou à prefeitura, ninguém tinha dúvidas de que ali estava o futuro governador. Seu gabinete transformou-se em visitação obrigatória das lideranças arenistas. Leonino Caiado tinha preferência por Manoel dos Reis, prefeito de Goiânia, mas Brasília queria Irapuan.
Durante os 12 anos em que Anápolis foi considerada Área de Segurança Nacional (de 1973 a 1985), passaram pela prefeitura oito nomeados: Irapuan Costa Júnior, Eurípedes Junqueira, Jamel Cecílio, Lincoln de Almeida, Decil de Sá Abreu, Wolney Martins, Olímpio Ferreira Sobrinho e Anapolino de Faria.
Mesmo recebendo com simpatia sua forma suprapartidária de administrar, a população continuou votando contra. Sempre derrotando a Arena, dando vitórias consagradoras ao MDB. Em 1974, com Irapuan já escolhido governador, a derrota arenista em Anápolis foi arrasadora. Durante o período em que a cidade ficou sem autonomia política, o MDB só foi derrotado em 1976, eleição para vereadores, na administração Jamel Cecílio: Arena 8 X 7 MDB. Nas demais, vitórias do MDB.
O Movimento Democrático Brasileiro, ligado ao grupo Santillo, fez oposição a todos os nomeados, como representantes que eram do autoritarismo em Anápolis. Combate em todos os campos de ação. O santillismo se opunha aos nomeados a partir de Irapuan, nas tribunas, comícios, concentrações e simpósios, além do programa radiofônico O povo falou, tá falado.
Assumindo o governo estadual, Irapuan, com sua visão desenvolvimentista e em agradecimento ao povo anapolino, construiu o mais completo e moderno distrito industrial do Centro-Oeste: Distrito Agroindustrial de Anápolis – Daia. Instrumento fundamental para a consolidação do município como o maior polo industrial do Estado. Hoje, a mais importante obra do governo Irapuan abastece mais de 50 mil habitantes, com graças ao extraordinário reservatório e estação de água tratada no Daia. As 1.300 casas do programa Minha Casa, Minha Vida do Conjunto Copacabana serão abastecidas com água do distrito industrial.
Embora sempre combatido, Irapuan não guardou qualquer tipo de mágoa ou ressentimento. Com o passar do tempo, tornou-se amigo fraterno e solidário de Henrique Santillo. Transformou-se em destacado representante de Goiás e defensor da administração Santillo no Senado. Com o distanciamento político de Santillo e Iris Rezende Machado, ficou com Santillo. Irapuan atuou intensa e competentemente para que o PP indicasse Henrique Santillo ao Ministério da Saúde na administração Itamar Franco.
Algumas ações de Irapuan Costa Júnior são pouco conhecidas do grande público. Em 1975, como governador do Estado, enviou proposta de emenda constitucional à Assembleia Legislativa, extinguindo dispositivo que assegurava aos ex-governadores goianos pensão vitalícia. Remuneração idêntica a paga mensalmente a um desembargador do Tribunal de Justiça. A Constituição Estadual, adaptada à Constituição Federal, foi outorgada pelo governador Otávio Lage. A Assembleia Legislativa, em 1969, época da sua elaboração, estava fechada por decisão do governo federal. A Constituição Federal, outorgada por uma junta militar, garantia aos ex-presidentes da República pensão vitalícia equivalente ao salário de ministro do Supremo Tribunal Federal. A goiana privilegiava, com seu artigo 141, os ex-governadores, mesmo sem recolher um centavo ao Ipasgo ou ao Tesouro Estadual. Foi Irapuan Costa Júnior quem eliminou esse escandaloso privilégio, propondo a sua revogação. Eliminando privilégio a políticos, sua atitude até hoje repercute. Não há outra semelhante em todo o Brasil. Não foi promessa de campanha, pois foi nomeado. Não necessitou do voto popular. Abriu mão da polpuda pensão que a Constituição do Estado lhe assegurava ao se transformar, quatro anos à frente – 1979 –, em ex-governador. Abriu mão do direito a aposentadoria que seus antecessores recebiam. Irapuan Costa Júnior, mesmo chegando ao poder sem o voto popular, ouviu o clamor das ruas.
Esse fato se torna mais relevante quando, neste instante, a imprensa noticia que até o senador Álvaro Dias, um dos mais combativos senadores do PSDB, está reivindicando, retroativamente, mais de um milhão e seiscentos mil reais do Tesouro paranaense, com base em pensão vitalícia, por ter governado o Paraná.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Unidos pela causa maior
Goiás teve papel relevante na resistência à ditadura de 1964. Fez parte de uma oposição combativa e coerente. O grupo Santillo, autêntico, fez do Movimento Democrático Brasileiro–MDB de Anápolis, um dos mais respeitados em todo o Brasil. Seu lema era: liberdades democráticas já! Não fazer concessão aos ditadores. Para o MDB, liberdade era o caminho contra as desigualdades sociais. Não se curvava aos prepotentes. As violências praticadas pelos ditadores eram vistas como naturais e previsíveis. Prisões arbitrárias, cassações de mandatos, fechamento de emissoras de rádio, perda de autonomia política do município, supressão de eleições, censura à imprensa e perseguições não o amedrontavam. Ao contrário, isso o unia e purificava. Sim, purificava, porque nem todos resistiam.
Meu papel no grupo sempre foi desbravar a terra bruta. Era o primeiro a adentrar campo desconhecido e minado. Os companheiros diziam que esse era o trabalho do trator que abria picadas.
Fui lançado a prefeito de Anápolis, em 1969, pelo jornalista Moacyr Junqueira, integrante da executiva do MDB, forçando a candidatura de Henrique Santillo, que já despontava como a maior liderança da oposição no município. Atendendo ao clamor popular, Henrique disputou e venceu o pleito. Foi perseguido por adversários e correligionários adesistas que temiam sua liderança em ascensão. Em 1974, para que Henrique continuasse na ativa, abri mão da reeleição para deputado estadual disputando cadeira à Câmara federal. Henrique candidatou-se a deputado estadual. Na minha terceira reeleição, deixei o Congresso Nacional para assumir a Secretaria Estadual da Educação, em 1983, no primeiro governo de Iris Rezende Machado. Meu papel foi trabalhar pela educação no Estado e consolidar o nome de Henrique Santillo, como candidato ao governo em 1986. Deixei de ser deputado Constituinte em 86, para ser prefeito de Anápolis, em 1985, num mandato tampão de três anos. Desobstruí o caminho para que meu irmão chegasse ao governo do Estado. Vários deputados e candidatos a uma vaga na Câmara Federal ameaçavam abandonar sua candidatura, apoiando Mauro Borges, que até aquele momento pertencia ao PMDB, caso me candidatasse deputado.
Essas ações e mudanças repentinas na minha caminhada política, sempre as encarei como necessárias e normais. Faziam parte de um projeto maior: redemocratização do País e Henrique Santillo governador. Fizemos trajetória política de forma harmônica, memorável e vitoriosa. Mesmo quando Henrique decidiu ficar à frente do governo até o último dia, me tornando inelegível para o pleito de 1990, apoiei sua decisão. Ao seu lado estávamos Romualdo e eu, quando deixou o Palácio das Esmeraldas.
Juntamente com o senador Irapuan Costa Júnior, conseguimos apoio do governador Joaquim Roriz e da bancada do PP no Congresso Nacional, a seu favor para o Ministério da Saúde, no governo Itamar Franco. Onaide e eu ingressamos no PP em 1994, para que Henrique Santillo continuasse no Ministério. Pepistas tramavam seu afastamento sob a alegação de não ser correto o irmão do ministro do PP ser candidato a deputado federal pelo PMDB. Fiquei na primeira suplência. Obtive mais votos que os dois últimos eleitos pelo PMDB. Votos foram de peemedebistas, pois não tive condição de organizar o PP em lugar nenhum do Estado, pela exiguidade de tempo.
Só divergimos em 1986, com o Brasil redemocratizado. Democracia que tanto batalhamos por ela. Disputamos a eleição para a Prefeitura de Anápolis em legendas diferentes. Antes Romualdo e eu, acompanhados do radialista Geraldo Divino, fomos até sua residência para saber se não estaria disposto a disputar a prefeitura. Foi categórico ao afirmar que o perfil do eleitor de Anápolis já não era o mesmo de eleições anteriores e que estava pendurando as chuteiras. Diante da sua contundente resposta, lhe informei que seria candidato. Quando estava com campanha na rua, fui surpreendido pelo anúncio da sua candidatura também.
Ao lado da odontóloga Carla Santillo, sua filha, instalaram e executaram em Anápolis, na minha administração, o primeiro Programa Médico da Família, em Goiás. Só deixou o programa em 1999 para ser secretário da Saúde na administração Marconi Perillo.
O importante é que na luta maior, pela redemocratização, sempre estivemos juntos. É gratificante ouvir, como ouvi na semana passada, de outro baluarte do MDB goiano, ex-prefeito e construtor da atual Paranaiguara, Ênio Tiburcio:
– Vocês fizeram parte da verdadeira oposição em Goiás, nos tempos da ditadura. Vocês escreveram importante página na história da resistência democrática no Brasil!
sábado, 22 de maio de 2010
Queda e retorno da autonomia política
O 28 de agosto de 1973 aparentava ser um dia como outro qualquer. Muito sol, ventava bastante, quando cheguei à Assembléia Legislativa, em Goiânia, para a sessão plenária , que seria realizada pela manhã. A diferença, a novidade, ocorreu em seguida quando fui informado por um telefonema de Brasília, que José Batista Júnior, prefeito de Anápolis, acabara de ter seu mandato cassado, direitos políticos suspensos por 10 anos. O vice prefeito Milton Alves Ferreira não fora cassado, mas impedido de tomar posse, pois no mesmo ato assinado pelo general Emilio Garrastazu Médici, nomeava o engenheiro Irapuan Costa Júnior, como primeiro prefeito nomeado de Anápolis, que naquele dia foi transformada em Área de Interesse à Segurança Nacional.
Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.
Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”
Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.
Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.
Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de l964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Nos tempos da goiabinha
– Quando a onça já está morta, aparecem os que querem tirar-lhe o couro!
Este foi o final do discurso do vereador emedebista, num comício com os candidatos do MDB, onde Lázaro Barbosa era a figura principal, como candidato ao Senado.
Neste ano, 1974, mais uma vez não tínhamos eleições para governador. A Emenda à Constituição aprovada em 1973, suspendendo a eleição direta para Governador em 1974, decepcionou e irritou muita gente pelo Brasil inteiro. Em Goiás os principais líderes do MDB, Anapolino de Faria e José Freire, Deputados Federais mais votados do partido em 1970 desistiram de disputar a reeleição, desanimados por mais um golpe à democracia, dado pelo regime militar. Fernando Cunha e Juarez Bernardes disputaram à reeleição. Iturival Nascimento, Genervino da Fonseca e eu, nos candidatamos ao lado de outros companheiros, formando a chapa emedebista à Câmara.
A grande novidade foi a disposição de Lázaro Ferreira Barbosa, tendo Dário de Paiva e Dino Américo como suplentes, para se candidatar ao Senado. Inicialmente tudo parecia brincadeira. Todos indagavam:
– Como se atrevem a enfrentar a Arena? Será que não perceberam que Manoel dos Reis “ganhou na loteria” quando foi escolhido para ser o candidato da Arena?
Manoel dos Reis era o preferido de Leonino Caiado para substituí-lo no governo do estado. A cassação de José Batista Jr., prefeito de Anápolis, com a transformação do município em Área de Segurança Nacional facilitou as coisas para os adversários de Leonino dentro da Arena, quando Irapuan Costa Júnior foi designado o primeiro prefeito nomeado de Anápolis. Prestigiado pelos militares que dirigiam o País, logo se notou que a passagem de Irapuan pela prefeitura seria provisória:
– Irapuan está usando o trampolim. Seu destino é a governadoria no ano que vem! Afirmavam os contrários a Leonino na Arena.
Não deu outra, Irapuan Costa Júnior foi escolhido, sem grande surpresa, para o mundo político goiano. Como prêmio de consolação, os arenistas “brindaram” Manoel dos Reis com o lançamento da sua candidatura ao Senado.
Iniciados os programas pelo rádio e televisão, o MDB ganhou força e Lázaro Barbosa de candidato simbólico passou a ser a maior atração nos comícios, fazendo sua candidatura crescer de forma inacreditável.
Quase ao final da campanha eleitoral, um líder de região distante convidou-nos, Lázaro, Soyer e eu, para um comício. Numa quarta-feira de manhã estávamos na praça principal da cidade, enfeitada com nossa propaganda eleitoral, palanque equipado com som potente e muita gente para nos ouvir e aplaudir. O líder fez a saudação aos candidatos, justificando seu apoio ao MDB. Em seguida falamos, Soyer, eu e Lázaro fazendo o encerramento.
Terminados os discursos, já nas despedidas, o apresentador foi surpreendido por um vereador do MDB que não havia sido escalado para falar, pedindo oportunidade para discursar. Muito democrático, o líder acenou concordando, quando então, o vereador falou sobre sua trajetória política, fidelidade ao MDB, dificuldade para exercer o seu mandato na oposição, afirmando apoio que hipotecava às nossas candidaturas e encerrou:
– Quando a onça já está morta, aparecem os que querem tirar-lhe o couro!
Não ficou claro para quem ele estava enviando o recado, mas antes da nossa chegada ao município naquela manhã, havia mesmo um comentário de possível apoio das lideranças presentes a candidatos da ARENA. Mas, tanto o líder da região como muitos outros companheiros sempre participavam das campanhas estaduais apoiando candidatos do MDB e naquela manhã o apoio estava sendo confirmado.
Sem maiores comentários, fomos todos convidados para o almoço, assim como o próprio vereador. Lázaro, Soyer e eu deixamos a cidade logo depois, para compromissos em outros municípios. Naquele tempo ainda não havia o conforto do celular e nem tão pouco o asfalto na maioria das cidades de Goiás. Ao passar em casa, de onde seguiria para outro compromisso, Onaide assustada, olhos arregalados me disse:
– Telefonaram para você, dizendo que dois desconhecidos fizeram uma armadilha a um vereador da cidade em que você estava e deram-lhe uma sova com vara de goiabinha!
Duro duelo na política local
A cidade de Anápolis foi transformada em Área de Segurança Nacional em 1973 e teve como primeiro prefeito nomeado o engenheiro Irapuan Costa Júnior, que após poucos meses, sucedeu Leonino Caiado à frente do governo do estado.
Para a prefeitura de Anápolis, foi indicado o professor Eurípedes Junqueira, que havia concorrido ao último pleito municipal pela Arena. Sua permanência no cargo de prefeito foi até a posse do novo governador, Irapuan Costa Jr. que indicou para substituí-lo Jamel Cecílio, natural de Anápolis, grande empresário em Goiânia.
Ao assumir o cargo o prefeito nomeado Jamel Cecílio buscou adesão de figuras de destaque do MDB de Anápolis, formando uma chapa de candidatos a vereador bastante representativa. O nosso MDB, além de desfalcado dos nomes considerados mais fortes, teve que formar uma chapa com militantes tradicionais, pessoas simples, desprovidas de recursos financeiros.
Depois de aliciar e levar os “notáveis” para a Arena, Jamel Cecílio, procurou ampliar sua base de apoio acenando com nomeações em cargos comissionados aos nossos companheiros humildes e tradicionais do MDB. Contudo, mantivemos a maioria dos nossos companheiros ao nosso lado, porque nossa bandeira era ideológica, lutávamos pela restauração da democracia e o MDB era a única possibilidade.
Entre os bravos companheiros que resistiram aos acenos adesistas, estava Bertolino Santana, líder comunitário da região do bairro São José, um dos primeiros procurados. Integrante do diretório municipal do MDB, Bertolino representaria um trunfo para o partido governista, por ser um dos mais convictos santillistas. Nada fez com que Bertolino mudasse sua posição política, permanecendo ao lado do MDB, como também aconteceu com outros companheiros, entre eles Elias Abrão.
Companheiro leal e dedicado, Elias Abrão nunca quis se candidatar até que, em 1976, percebendo a necessidade do MDB, resolveu colocar seu nome na disputa para o legislativo municipal.
Se pelo MDB havia o candidato Elias Abrão, pela Arena, havia um outro Elias Abrão, médico renomado, ligado ao prefeito arenista. Embora não disputando nenhum mandato no pleito municipal de l976, esse parentesco levou o médico Elias Abrão a insistir para que o Elias do MDB fosse conversar com Jamel Cecílio. O prefeito estava empenhado em ampliar suas bases de apoio e a conquista de Elias Abrão seria grande vitória do seu projeto político.
– Xará, vou acompanhá-lo ao gabinete do prefeito. Ele precisa conversar com você, Jamel está curioso para conhecer o outro Elias Abrão.
Chegando lá encontraram Jamel solitário, olhando a paisagem da cidade pela vidraça da janela, aguardando a visita do Elias Abrão emedebista:
– Elias, muito prazer em te conhecer, seu primo tem me falado do seu valor, confirmado por outras pessoas. A cidade precisa de gente assim. Fique conosco, pois tenho um cargo comissionado para você na administração Municipal.
– Prefeito Jamel Cecílio, já tenho ajudado o povo sofrido de Anápolis com minha atuação política. Fico muito sensibilizado com seu convite, porém sou candidato a vereador pelo MDB. Nada tenho contra o senhor e seu partido, mas sim em favor da democracia e do povo brasileiro.
Foram palavras diretas e sinceras de Elias Abraão, do MDB, que mesmo sem recursos materiais foi um dos suplentes bem votados, com mais de 380 votos.
Esse período da vida política de Anápolis traz uma experiência muito interessante sobre o comportamento do eleitor.
Na eleição de 1972, em que foi eleito o prefeito José Batista Jr, depois cassado pelo AI-5 e o município transformado em Área de Segurança Nacional, o MDB elegeu dez dos quinze integrantes da Câmara Municipal. Os dois mais votados do MDB foram o Sargento Sebastião Maués, comandante do Tiro de Guerra - TG 53, com 1.860 votos e o segundo mais votado foi o radialista Almir Reis, com 1530 votos.
O eleitor se mostrou exigente e atento ao desempenho desses vereadores, que apesar de não deixarem o MDB, faziam parte da base de apoio do prefeito nomeado. Ao se recandidatarem pelo MDB, na eleição seguinte, em 1976, Sargento Maués teve 125 votos e Almir Reis 124, ambos não se reelegendo. Mesmo sendo pessoas de grande conceito na sociedade, não conseguiram explicar aos eleitores sua atuação política naquele momento histórico.
Anápolis perde autonomia política
O governo brasileiro já havia decidido que a instalação da Base Aérea dos aviões Mirage, vindos da França, seria no centro oeste do país.
O prefeito Henrique Santillo, no final de 1970 durante seu primeiro ano de administração, foi procurado por uma comissão de oficiais do Ministério da Aeronáutica, cujo objetivo era encontrar uma área dentro dos limites do Município de Anápolis, para instalação da Base Aérea para Mirage.
Outra cidade cidade, Formosa, também buscava abrigar a Base Aérea, apoiada por outro grupo de militares , onde um dos seus integrantes era ligado afetivamente aquele município.
As condições geográficas favoreceram Anápolis e o prefeito Henrique Santillo colaborou efetivamente nos expedientes necessários para a desapropriação da área escolhida pelos técnicos e projetistas da unidade militar.
Em abril de 1972 a Base Aérea foi inaugurada.
Mesmo estando vivendo no regime ditatorial, a convivência entre os militares da aeronáutica e a população civil anapolina foi tranquila. Nunca houve qualquer indício de atritos entre as duas comunidades naquela época, nem tampouco depois. Até mesmo na vida política da cidade nunca houve interferência dos integrantes da Base Aérea nos assuntos da politica interna de Anápolis.
A maior prova da atividade equidistante da Base Aérea com a vida política do município, ocorreu no final de 1972, pouco depois da sua inauguração quando aconteceram as eleições municipais.
José Batista Júnior foi eleito prefeito, assim como a maioria dos vereadores eleitos pelo MDB. As pressões que vinham eram dos governistas e não dos militares da Base Aérea.
A vitória do MDB teve um reflexo imediato nas forças arenistas, que contavam com a certeza de derrotar os emedebistas. A partir deste momento surgiram comentários que Anápolis, por causa da Base Aérea, seria transformada em Área de Segurança Nacional, perdendo sua autonomia política como acontecera anos antes com Canoas, no Rio Grande do Sul. Neste sentido notícias eram plantadas diariamente na grande imprensa goiana manipulando a opinião pública.
Um golpe contra a democracia ocorrido numa madrugada de 1972 na Assembléia Legislativa, com a supressão de eleições diretas na cidade de Goiás quando o Município foi considerado Estância Hidro Mineral, era dado como exemplo para a prática da violência anunciada de forma muito sutil. A justificativa para o golpe em Goiás, uma bica d’água na região de São João, a l00 km da sede, reforçava a idéia do que poderia vir contra Anápolis.
Muitas arbitrariedades já haviam acontecido no ano de l973.
A rádio Carajá que pertencia a integrantes do MDB desde l967 teve seus transmissores e estúdio invadidos pela policia militar do Estado na madrugada do dia da posse do Prefeito José Batista Júnior . A emissora teve que ser devolvida, sob pressão das armas a seu antigo proprietário Plinio Jayme. A prisão de ex-secretários de Henrique Santillo, depois libertados, foi uma trama urdida por arenistas e integrantes das forças reacionárias, com objetivo de amedrontar nossos companheiros e nos eliminar da vida politica. Henrique havia sido descredenciado como médico do INPS. Enfim, as arbitrariedades e violências eram o braço forte da repressão contra os democratas.Não nos dobravamos à pressão e violência. A tudo resistiamos.
No dia 28 de setembro de 1973, José Batista Júnior, retornava de uma viagem que empreendera a Goiânia para uma audiência marcada com o Secretário Estadual de Segurança Pública, que não o recebeu, e ouviu pelo rádio do carro que a cidade de Anápolis havia sido transformada em Município de Interesse da Segurança Nacional, tendo o prefeito seu mandato cassado, direitos políticos suspensos por 10 anos e o vice prefeito Milton Alves Ferreira, embora não sendo cassado, impedido de assumir o cargo de prefeito.
No mesmo instante a notícia confirmava o nome do engenheiro Irapuan Costa Júnior, presidente da Celg, sendo designado pelo presidente Emilio Garrastazu Médici, como interventor, prefeito nomeado de Anápolis.
O prefeito afastado nem passou pelo seu gabinete na prefeitura que funcionava no prédio onde hoje funciona a Câmara Municipal na Praça 3l de Julho. José Batista Jr. seguiu direto para sua residência na avenida Contorno, onde recebeu companheiros e populares que foram até lá em solidariedade à sua pessoa. José Batista Júnior foi o único detentor de mandato eletivo cassado no período governado por Garrastazu Médici.
Mais técnico que politico partidário, o engenheiro Irapuan Costa Júnior assumiu a prefeitura com disposição de tranquilizar a população abalada com a violência contra todos os anapolinos. Descartou as lideranças arenistas de Anápolis formando um secretariado mesclado por técnicos e empresários de Anápolis e Goiânia. Arregimentou equipe conceituada, de competente experiência na iniciativa pública e privada.
Controlada a insatisfação popular, Irapuan dava mostras claras que era alternativa para os governistas não alinhados com o grupo do Governador Leonino Caiado. Caravanas arenistas de todas as regiões vinham para hipotecar apoio, transformando seu pequeno gabinete na Prefeitura de Anápolis tão frequentado quanto ao de Leonino Caiado no Palácio das Esmeraldas, em Goiânia.
Com a empolgação dos arenistas distantes do governador, a imprensa goiana destacava todos os dias as qualidades de administrador do engenheiro interventor em Anápolis, afirmando que sua passagem pela prefeitura seria efêmera. Davam como certa sua nomeação para suceder Leonino Caiado. O grande obstáculo que afirmavam enfrentar era o trabalho incansável do governador que não abria mão de Manoel dos Reis, prefeito de Goiânia, por ele nomeado.
Sem nenhuma surpresa para os mais ligados ao poder federal, o nome de Irapuan foi o indicado para ser governador. Afastando da prefeitura foi substituído por Euripedes Barsanulfo Junqueira que pouco mais de um ano antes fora derrotado por José Batista Jr. O professor Euripedes Junqueira ficou no cargo até janeiro de l975, sendo substituído pelo empresário Jamel Cecilio. após a posse de Irapuan no Governo de Goiás.
Além de Irapuan Costa Júnior, Euripedes Barsanulfo Junqueira e Jamel Cecilio aínda foram nomeados interventores em Anápolis o delegado da policia federal Lincoln Gomes de Almeida. o promotor de justiça Decil de Sá Abreu, o deputado Wolney Martins de Araujo, eleito pelo MDB que se filiou ao sucedâneo da Arena, PDS, advogado Olímpio Ferreira Sobrindo e o emedebista, ex-deputado federal Anapolino de Faria.
Com a vitória de Tancredo Neves para a presidência da República em l985 , Anápolis readquiriu sua autonomia política.
De 1973 a 1985, depois de doze anos de intervenção política no município e oito prefeitos nomeados, Anápolis volta a eleger democraticamente o seu prefeito, quando tive a honra de ser eleito, para um mandato de três anos.
Um fato curioso no episódio do dia da cassação de josé Batista Jr. mostrou o caráter brincalhão deste companheiro.
Chegando em casa naquele dia, encontrou dezenas de companheiros à sua espera prestando-lhe solidariedade. O clima era mesmo, de velório. As mulheres choravam, os homens manifestavam revolta e protestos
Disposto, aparentemente tranquilo, sem perder seu senso de humor, José Batista Júnior mais consolava que era consolado. Quando já tarde da noite, todos cansados, mas como mostra de companheirismo continuavam na vigília, João Abrão, seu chefe de gabinete e presidente municipal do MDB, alertou aos presente que já era hora de se retirarem :
- Bem amigos vamos para casa! Sei que ninguém vai conseguir domir mas vamos pelo menos descansar.
- Ah! Gente, atalhou José Batista Júnior, só estou esperando vocês sairem para cair na cama e dormir profundamente!
Sempre brincalhão e sincero, este é mesmo o José Batista Júnior.
Exemplo de simplicidade e fidelidade
Ele não se importava com convenções sociais, estava sempre à vontade em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Sua simplicidade e falta de cerimônia às vezes deixavam pessoas constrangidas.
Conheci Walmir Bastos Ribeiro quando cursava a 7ª série no Ginásio Estadual de Anápolis, que funcionava no prédio do Antesina Santana. Estávamos na sala de aula, quando o professor Heli Alves Ferreira, diretor do ginásio, adentrou o recinto trazendo em sua companhia um jovem bem magrinho, bigode bem ralo, trajando terno de linho branco e gravata borboleta:
– Apresento a vocês um novo colega! É Walmir Bastos, baiano de Jequié.
Na verdade, o Walmir sempre dizia que era de Jequié, terra em que estudou o primário. Ele era mesmo de Brotas de Macaúbas. Isso pouco importa, porque ficou conhecido na sala de aula, e em toda a cidade de Anápolis, como “Baiano”.
Walmir Bastos Ribeiro, muito político, gostava de Vieira de Melo. Realçava as virtudes de Vieira em todos os seus discursos. Da mesma classe participava Jayro Rodrigues da Silveira, que posteriormente casou-se com a Onara, irmã da Onaide.
Sem ter nenhum parente em Anápolis, Walmir Bastos ficou nosso amigo e passou a freqüentar nossa casa, localizada à Rua Rui Barbosa, 420. Além de amigo, tornou-se nosso companheiro político até que a morte o levou, no dia 17 de julho de 1994. Desfrutei durante trinta e sete anos do seu companheirismo e amizade. Era para mim e Onaide como um irmão. Nunca fraquejou nas atitudes políticas, tendo sido preso várias vezes pelas forças da repressão.
No leito do Hospital Evangélico Goiano, já no final da sua vida, recebeu Irapuan Costa Jr., que veio a Anápolis exclusivamente para visitá-lo. Na base da brincadeira, para falar de política, que era o assunto único de que Walmir gostava, Irapuan perguntou:
– Walmir, e agora, como você vai votar? O Adhemar é seu amigo, mas eu também sou. Nós disputamos uma cadeira de Deputado Federal...
Antes mesmo que o ex-governador terminasse sua indagação, sonolento pela medicação que acabara de tomar, respondeu sem rodeios:
– Voto no Adhemar!
Walmir foi protagonista de fatos curiosos e interessantes durante toda a sua vida. Assim que chegou ao Ginásio Estadual, participando de aula de história das Américas, ministrada pelo professor Jóca, foi chamado pelo professor ao quadro negro. Jóca passou a ditar compassadamente a dissertação sobre os Maias. Walmir que não tinha caligrafia boa fez seus garranchos, que só ele mesmo entendia. Começou a frase mais ou menos pelo meio do quadro, subindo em direção à extremidade. Em seguida iniciou a segunda linha, descendo até o canto de baixo do quadro negro, Com duas linhas, indecifráveis, Walmir tomou conta inteiramente do espaço. De costas para o redator da sua famosa dissertação sobre os Maias, Jóca, percebendo a gargalhada de toda classe, virou-se para trás e descobriu o motivo de tanta alegria dos alunos:
– Senhor Walmir, eu pedi para que escrevesse uma dissertação! Não solicitei que desenhasse um funil.
Logo começou sua atividade político partidária no PSD e pela sua fidelidade e extrema lealdade, Plínio Jayme, Deputado Estadual pelo PSD na época, conseguiu do Governador José Feliciano Ferreira um contrato para que Walmir Bastos prestasse serviço na COTELGO – Companhia de Telecomunicação de Goiás. Seu trabalho era receber reclamações dos usuários, anotando o que ouvia. Mas Walmir resolveu ir além, foi à área de equipamentos para tentar resolver problemas que recebia nas reclamações. Num único dia, o “Baiano” provocou pane no sistema da COTELGO, dando trabalho para os técnicos por uns quinze dias, até conseguirem consertar o estrago.
Plínio Jayme achou melhor deslocá-lo à disposição das Centrais Elétricas de Goiás – CELG, como entregador dos talões de consumo de energia. Sob sua responsabilidade estava o setor central da cidade. Walmir conhecia quase toda a população desse setor. Chegando à Rua 7 de Setembro, entrou pelo corredor da casa do amigo, indo até a cozinha. Ao chegar, sem ninguém para recebê-lo, sentou-se, tomou café, comeu pão de queijo e leu o jornal que estava sobre a mesa, deixado pelo amigo que minutos antes partira para o trabalho. Quando a dona da casa, esposa do seu conhecido, chegou e se deparou com aquele homem na sua cozinha, e ela de trajes íntimos, à vontade em casa, entrou em desespero:
– Estão assaltando minha casa. Socorro, socorro, socorro! Tem gente estranha na minha casa, socorro gente...
Atônito, desesperado, sem saber onde estava o erro, Walmir saiu rapidamente. Sua indiscrição correu por toda a cidade, ainda pequena, onde todos se conheciam. Não houve jeito, o “Baiano” teve que ser dispensado. Outras tentativas foram feitas para conseguir um emprego para o Walmir se sustentar e todas frustrantes. Só deu certo quando os comandantes da campanha pró Mauro Borges, candidato ao Governo de Goiás, o contrataram para trabalhar no comitê de Mauro e demais candidatos do PSD, na Praça do Bom Jesus. Descobriu-se que sua vocação era para a política. Encontraram sua vocação ao indicá-lo para trabalhar no comitê.
Falta de cerimônia era com ele mesmo. Numa tarde, já quase noite, foi visitar o presidente da União Independente dos Estudantes Anapolinos – UIEA, em sua residência. Ao chegar, encontrou a mesa posta para o jantar. Muito educada a mãe do Abel Pires, o presidente, convidou Walmir, gentilmente, para jantar. Walmir nem esperou o anfitrião sair do banho. Sentou-se à mesa e se serviu à vontade. Comia muito e depressa. Abel saiu do banheiro e foi logo abraçando Walmir. Terminado o cumprimento, sentou-se à mesa e iniciou sua refeição:
– Walmir, vamos jantar?
Walmir, bom de garfo, pegou o prato que usara anteriormente e jantou novamente.
Quando os vereadores do MDB Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sérgio Sobrinho se aliaram à bancada arenista, em oposição ao prefeito Henrique Santillo, em 1971, Walmir Bastos, já vereador, que havia me apoiado a Deputado Estadual e Fernando Cunha Jr. a Deputado Federal, foi convidado a participar de almoço na residência do Fernando Cunha. A intenção era convencer Walmir a ficar contra o Prefeito Henrique Santillo, com quem o grupo liderado por Fernando Cunha Jr., havia rompido. Depois de se alimentar bem com um banquete especial, regado a whisky importado, sua bebida preferida, foi apresentado ao Walmir um documento para que assinasse. Era o manifesto do grupo que rompera com Henrique Santillo e queria o apoio do Walmir como vereador. Visivelmente tonto, embriagado, distante da sua sobriedade normal, acabou de ler o manifesto, devolvendo-o sem assinar:
– Não faço o jogo da ditadura. Sou Henrique Santillo.
Quando chegou a Anápolis, Walmir foi morar na Pensão Bom Jesus, onde alugou um pequeno quarto por décadas. Além da roupa do corpo, trouxe na mala de tamanho médio, revestida de papelão, apenas outros pares de roupas vindas da Bahia. Quando faleceu, Onaide foi até a residência do Hildeu, onde Walmir recebia os cuidados dele e de sua esposa Leninha, encontrando no guarda-roupa do seu quarto apenas um terno, uma camisa e uma gravata, roupa com a qual foi sepultado. Até a mala com que veio para Anápolis desapareceu, consumida pelo tempo.
Depois de 37 anos em Anápolis, ocupando uma cadeira de vereador na Câmara Municipal por sete mandatos consecutivos, Walmir Bastos Ribeiro, deixou muita saudade para os que, como nós, desfrutamos da sua amizade.
Walmir foi exemplo de coerência, honradez e fidelidade aos amigos.
