quinta-feira, 5 de julho de 2012
Paulo Maluf e o Partido dos Trabalhadores
Depois de conviver com permanentes alterações na Constituição outorgada por uma Junta Militar em 1967, verdadeiros golpes dentro do golpe de março de 1964, a sociedade resolveu reagir. Saiu às ruas lutando por eleições diretas para a Presidência da República e redemocratização do País. A Emenda Dante de Oliveira, das “Diretas Já”, não foi aprovada, decepcionando a nação inteira. Mesmo assim o povo não desistiu. Continuou pressionando os congressistas pelo fim da ditadura.
Paulo Maluf, já naquela época o político mais estigmatizado do Brasil, muito colaborou para que o fim da ditadura acontecesse rapidamente. Inconformado com a escolha do general Mario Andreazza para ser o candidato da ditadura no Colégio Eleitoral, onde o Partido Democrático Social (PDS), partido oficial do governo, detinha a maioria, o ex-governador de São Paulo decidiu enfrentar Andreazza na convenção partidária. Derrotou Andreazza, naquele que foi o maior revés do núcleo central da ditadura, dentro da sua própria base de apoio. A vitória de Maluf, na Convenção Nacional do PDS, contrariou grande parte da base governista. Lideranças como Aureliano Chaves (PDS-MG), Marco Maciel (PDS-PE), José Sarney (PDS-MA) e outras lideranças pedessistas pelo Brasil inteiro fundaram o PFL. Aliaram-se ao PMDB comandado por Ulysses Guimarães, para que numa frente interpartidária enfrentassem no Colégio Eleitoral a candidatura Maluf.
A escolha do candidato, por sugestão dos dissidentes arenistas, recaiu sobre a figura do governador de Minas Gerais, Tancredo Neves (PMDB-MG). Como a Constituição Federal foi elaborada pela Junta Militar em cima do bipartidarismo, não seria possível uma coligação PMDB/PFL. Foi por isso que José Sarney se filiou ao PMDB, para ser candidato a vice-presidente, representando o PFL, usando a sigla do PMDB.
Tancredo Neves, num ato de coragem e patriótico desprendimento, renunciou à governadoria de Minas Gerais, candidatando-se à Presidência da República pelo Colégio Eleitoral. Minoritário no colégio, Tancredo foi a campo em busca de apoio. Cada voto conquistado era comemorado com euforia pelas forças democráticas. Era de um a um. O povo exigia, em todos os Estados brasileiros, adesão dos seus representantes à candidatura Tancredo Neves.
Dentro desse esforço concentrado, com apoio de governistas históricos, a eleição se deu num clima de expectativa total, porque não se tinha a certeza que os que anunciaram seu apoio ao ex-governador de Minas confirmariam o voto no Colégio Eleitoral.
Surpreendentemente, a bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) decidiu se abster da votação. Mesmo com toda população brasileira torcendo e exigindo votação a Tancredo, os deputados petistas, por orientação de Luiz Inácio Lula da Silva, presidente nacional do PT, decidiram pela abstenção. De nada valeram os apelos dos tancredistas de que sua vitória representaria o fim do regime ditatorial. Diziam que o PT era contra qualquer tipo de eleição indireta. Continuariam contra mesmo para se pôr fim à ditadura. Três deputados petistas, Airton Soares (PT-SP), Bethe Mendes (PT-SP) e José Eudes (PT-RJ), por não concordarem com essa orientação por considerá-la equivocada, votaram em Tancredo Neves. Foram expulsos do partido. Em nome da coerência, o Partido dos Trabalhadores não participou da derrubada da ditadura. Se dependesse só do PT, se todos fizessem da mesma forma, principalmente os ex-arenistas que ficaram ao lado da vontade nacional, votando em Tancredo, a ditadura militar duraria mais alguns anos.
Agora, toda coerência petista, que para ser diferente dos demais partidos fez o jogo de Paulo Maluf, o jogo da ditadura, se abstendo de votar no candidato Tancredo Neves, ponte usada pelas forças democráticas para a travessia da ditadura militar para a democracia, se desmorona por completo, quando Lula vai à procura do mesmo Paulo Maluf em busca do seu apoio político e os 90 segundos de horário na TV e rádio, que o PP possui, para seu candidato a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT).
Essa postura nova do PT surpreendeu a todos que não conhecem a verdadeira história do partido. Gente que não conhece esse fato histórico da vida política nacional. Já naquela época, fez o jogo de Maluf. Ao não votarem poderiam, não fosse a ação firme de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Aureliano Chaves, Marco Maciel, José Sarney e tantos outros, respaldados pelo povo e imprensa livres, eleger Maluf, o candidato da ditadura. Essa atitude de agora só não surpreendeu os democratas daquele tempo e o próprio Paulo Salim Maluf, que, falando ao jornal O Globo, edição de terça-feira, dia 26, no dia em que o PCdoB anunciou apoio a Fernando Haddad, disse que não se oporá se o vice da chapa for comunista. “O PT se comportou à direita de Paulo Maluf. Eu, perto do PT hoje, sou comunista.” Igualaram-se por baixo!
(Diário da Manhã - 27/06/2012)
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Até o Exército Foi Usado Para Afastar Walmir
No PIC, do Exército em Brasília, à disposição do major Leopoldino, militar envolvido na trama para forçá-lo a renunciar ao mandato de vereador, Walmir não resistiu às pressões e torturas, assinado sua carta-renúncia. O documento ficou nas mãos de Leopoldino. Caberia a ele encaminhá-lo à Câmara Municipal de Anápolis. Teria que ser lido em plenário para que a renúncia se consumasse. Sem Walmir, com eleição de novo presidente que, com certeza, seria do grupo que fazia oposição ao prefeito Henrique Santillo, os golpistas ficaram eufóricos com a notícia que circulava nos bastidores sobre a renúncia. Só falavam na iminente cassação de Henrique Santillo. Antes que a carta-renúncia chegasse à Câmara, Walmir foi solto.
Chegando a Anápolis, ele me procurou narrando em detalhes o acontecido. Imediatamente fomos a Brasília conversar com o presidente nacional do MDB, deputado Ulysses Guimarães. Na Câmara Federal, acompanhados do deputado Anapolino de Faria, narramos a violência praticada contra Walmir Bastos, nas dependências do Exercito, tudo objetivando o afastamento de Henrique Santillo da Prefeitura. Ulysses designou o líder da bancada emedebista na Câmara, deputado Jayro Brum (RG), para que denunciasse o caso à Nação.
A repercussão nacional da denúncia impediu que o major Leopoldino encaminhasse à Câmara Municipal de Anápolis o oficio de renúncia. Com isso o vereador continuou exercendo seu mandato e, consequentemente, a presidência. Os golpistas da Arena, reforçados por adesistas do MDB, sem presidência da Câmara Municipal e com processo feito por encomenda à Policia Federal, desprovido de provas contra nós - Henrique, Adhemar e Anapolino - não tiveram a coragem de nos processar judicialmente.
Encerrado o mandato de Henrique Santillo como prefeito, o processo foi entregue ao Procurador estadual Bechara Daher, que o manteve em sua gaveta para uso posterior.
Como prefeito, Henrique Santillo, sofreu outras perseguições. Uma delas foi retenção do ICM - Imposto Sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços - pelo Governo Estadual. Nos três últimos meses da sua administração, em 1972, o prefeito não teve sua quota de 25% do ICM arrecadado em cada mês no Município, repassada pela Secretaria da Fazenda Estadual, no prazo estabelecido em lei. Com isso, sendo a maior fatia da arrecadação municipal, a Prefeitura não dispunha de recursos sequer para o pagamento do salário do funcionalismo público. Queriam desgastar e desestabilizar o prefeito. Mesmo com tantas perseguições ao longo da sua administração, Henrique Santillo continuava com grande apoio popular.
A solução para essa retenção indevida de tributos veio com sua reação imediata. Henrique determinou ao Procurador Geral da Prefeitura, Vicente de Paula Alencar, que requeresse Intervenção Federal, no Governo do Estado, por descumprimento à norma constitucional, que previa punição com intervenção federal no caso de retenção ou atraso do repasse de impostos, pertencentes aos municípios. Imediatamente as quotas de ICM retidas foram repassadas a Anápolis. Henrique se aproximava do final da sua administração superando todas as tentativas de golpe... (continua)
quarta-feira, 30 de março de 2011
Eurico Barbosa revigorou nossas energias
Ao citar algumas figuras folclóricas eleitas na atual legislatura para o Congresso Nacional, Eurico deixa claro que pior que esses, são aqueles que foram eleitos pelo poder econômico, pela malversação do dinheiro público e pela propinagem. O oportunismo de donos de partidos, lançando candidatos, figuras folclóricas do mundo artístico, ou expressões consagradas no meio esportivo, escancarou as portas dos parlamentos para o descrédito da atividade política. Lançam os chamados puxadores de votos, para que possam ir às suas costas.
Dentro desse quadro desolador e pouco republicano descrito pelo jornalista em “Desolação,” depois de lamentar pela exclusão de figuras reconhecidamente dotadas de responsabilidade moral e intelectualmente bem preparadas, cedendo lugar aos representantes do populismo de big brother ou da propinagem, lamenta a mediocridade de muitos que têm assento nas casas legislativas.
A citação ao nosso trabalho como políticos que honraram o mandato popular, nos emocionou. Revigorou nossas forças para prosseguirmos nessa caminhada em busca da justiça social, de uma sociedade cada vez mais liberta e democrática. Eurico Barbosa, em “Desolação,” ao lamentar que o poder econômico tenha substituído o mérito moral e intelectual nas disputas eleitorais, arremata: “Parece que nunca mais teremos os Afonso Arinos, os Almino Afonso, os Aleomar Baleeiro, os Franco Montoro, os Ulysses Guimarães, os Simão da Cunha, os Vasco dos Reis, os Paulo Campos, os Celestino Filho, os Peixoto da Silveira, os Wagner Estelíta, os Henrique e Ademar Santillo, centenas de outros políticos pobres mas intelectualmente brilhantes que honraram o Congresso Nacional.”
Essa declaração, verdadeiro manifesto público, nos enche de orgulho e satisfação, porque Eurico, como deputado estadual em 1966, ao lado de Iturival Nascimento, foram as duas únicas vozes que se levantaram a favor de Henrique Santillo, eleito o vereador mais votado de Anápolis, não foi diplomado, por perseguição política, com a conivência da Justiça Eleitoral do Município. A ditadura militar de 64 não aceitava contestações. O MDB de Anápolis de estrutura conservadora não tinha motivação para defender seu membro perseguido. Sabia que Henrique impedido de exercer o mandato os votos ficariam com a legenda. Poucos externaram seu protesto. O MDB estadual, sucessor do PSD, ainda atordoado pela derrota de Peixoto da Silveira e cassação de inúmeras lideranças, simplesmente ignorou o episódio de Anápolis.
Os deputados Eurico Barbosa e Iturival Nascimento formalmente protestaram contra a violência, colaborando para que o TRE reformasse a decisão do juiz eleitoral de Anápolis, diplomando e empossando Henrique Santillo. Essa ação política permitiu que a caminhada prosseguisse. Não morresse no nascedouro. Muitas outras perseguições enfrentamos nestes 45 anos que nos separam daquele fatídico acontecimento.
Processos dolosos montados por adversários e órgãos da repressão, tentativa de cassação dos nossos mandatos, prisões em massa de companheiros, cassação do mandato de José Batista Júnior e transformação de Anápolis em Área de Segurança Nacional, fechamento de emissora de rádio... A tudo resistimos, sempre contando com o apoio popular. Valeu a pena lutar. Uma avaliação como essa feita por Eurico Barbosa é o maior galardão que um político pode receber.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Por Não Se Dobrar, Foi Perseguido
Convidado para um almoço com os emedebistas que conspiravam contra Santillo, Walmir, bom de garfo e estômago, comeu muita leitoa, churrasco de picanha e contra-filé. Bebeu whisky (18 anos) de várias marcas. Ouviu música ao vivo e recebeu infinidade de cumprimentos e tapinhas nas costas. Ao final da confraternização, seus organizadores e líderes do movimento, vendo que o vereador estava no ponto, passaram ao que lhes interessava. Apanharam assinaturas dos presentes num manifesto de contra Henrique Santillo. Ao solicitarem a assinatura de Walmir:
- Não sou golpista! Não faço jogo da ditadura! Fico com Henrique.
Desgostosos com sua atitude, Walmir passou a sofrer perseguição dos orgãos de repressão em Goiás. Foi preso pela Delegacia de Ordem Política e Social - DOPS e Exército, em Brasília.
Preso por agentes de polícia do Estado, ficou encarcerado em Goiânia por mais de duas semanas. Em liberdade, continuou exercendo normalmente seu mandato, presidindo o Legislativo. Na segunda vez, estava distribuindo panfleto sob o título: "Uma voz que não se cala diante das ameaças." Nesse panfleto, Wlamir denunciava ao povo de Anápolis as ameaças que vinha recebendo e pressão para renunciar a presidência da Câmara. Na terceira vez, estava comigo num Volkswagem, quando chegaram integrantes da Polícia Federal, fortemente armados, retirando-o do carrosob a alegação de que seria levado para prestar depoimento na sede da PF em Anápolis. Foi para o setor de investigações criminais do Exército, em Brasília, ficando preso por mais de 30 dias. Só foi solto quando assinou, ao major Leopoldino, responsável pelo inquérito, carta-renúncia do mandato. Para surtir os efeitos legais o documento teria de ser lido em sessão plenária da Câmara Municipal. O pedido de renúncia nunca apareceu. Walmir Bastos desempenhou seu mandato até o final.
Os golpistas queriam a renúncia ou afastamento do presidente, para que pudessem eleger um novo presidente para a Câmara, já que possuíam 8 dos 15 votantes. Com isso, pretendiam afastar Henrique Santillo da prefeitura. A resitência de Walmir Bastos, a toda violência contra ele, foi reconhecida por todos os democratas, como ato de bravura e heroísmo. Papel importante tiveram no desmantelamento dessas ações criminosas, Ulysses Guimarães, presidente Nacional do MDB e Jayro Brun, líder do partido na Câmara Federal.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
A Quebra da Unidade Peemedebista em Goiás (Final)
Foi escolhido Iris Rezende para representar o grupo Sarney e compor o quarteto que disputaria os votos dos convencionais. Ulysses mesmo com sua base de apoio dividida, continuava o preferido dos aliados. Era o grande líder da resistência democrática. Iris Rezende carregava o estigma da fraca administração de José Sarney. Saiu dos quadros da Arena, onde sempre militou, para se transformar em peemedebista, e candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Tancredo Neves. A Constituição Federal, não permitia coligações entre partidos. Os arenistas que haviam formado o PFL e não apoiavam Paulo Maluf, só poderiam participar da chapa de Tancredo, caso o candidato a vice-presidente se filia-se ao PMDB. Assim o udenista bossa nova e empedernido arenista José Sarney se transformou em peemedebista. Ulysses Guimarães, por ser o mais idoso entre todos os candidatos dentro e fora do PMDB, sofria a discriminação do eleitorado, traumatizado com a morte repentina de Tancredo Neves, antes mesmo de tomar posse. A síndrome da velhice o prejudicava.
Realizado o seu lançamento por Brasília, Iris Rezende passou a contatar com as lideranças estaduais do PMDB. O primeiro que visitou foi Henrique Santillo, governador de Goiás. Sonhando com a unidade do PMDB, Santillo lhe disse que não se comprometeria com nenhuma das pré-candidaturas, para ter mais condição de diálogo com todos. Entendia que para o partido ter alguma viabilidade eleitoral naquele pleito teria que marchar unido. Embora se transformando em peemedebista por arranjo, Sarney desgastou tremendamente o partido em todo o Brasil.
Para discutir a pretensão de Iris, várias vezes conversei com Henrique acompanhado de Joaquim Roriz ou sozinho. Em todas as conversas repetia que tudo fez para manter a unidade do PMDB em Goiás e que batalharia pela unidade nacional com força redobrada. Era amigo pessoal de todos os candidatos, mas que nenhum dos postulantes uniria o partido. Defendia a substituição dos quatro postulantes por um único nome que pacificasse e representasse todo o partido. Ulyssista convicto tinha noção que o comandante das Diretas Já, não possuía viabilidade eleitoral. Não queria assistir pacificamente a derrota do PMDB. Para o governador goiano o partido dividido, qualquer que fosse seu candidato sua derrota seria inevitável. Acreditava que naquele momento, o governador de São Paulo, Orestes Quércia, seria o ideal para aglutinar novamente o PMDB, evitando uma derrota para Collor de Melo.
Enquanto isso Iris Rezende viajava pelos Estados em busca de apoio. Todas as vezes que conversei com ele, reclamava da indagação que lhe faziam:
- E o governador do seu Estado, está lhe apoiando?
Respondia que Henrique Santillo estava lutando pela unidade do partido, com o lançamento de uma única candidatura.
O tempo passava e a unidade pregada e trabalhada por Henrique Santillo não se concretizava. A disputa cada vez mais acirrada e radicalizada. Na quinta feira que antecedeu a convenção, Iris Rezende me procurou para que acertasse o apoio do governador à sua candidatura, pois a unidade pregada por ele não aconteceu. As quatro chapas foram registradas. Fui ao Palácio das Esmeraldas falei com Henrique sobre a solicitação. Me autorizou a dizer que seu voto pessoal seria de Iris Rezende. Essa informação lhe dei num encontro em Brasília, com convencionais favoráveis a sua candidatura, em Águas Claras, residência oficial do governador Joaquim Roriz.
Na convenção Henrique e sua esposa Sônia, ambos delegados titulares, não compareceram. Cedaram as vagas a eleitores de Iris. Aos dois primeiros suplentes, deputados Sólon Amaral e Rubens Cosac, que votaram a favor de Iris Rezende. Encerrada a votação Ulysses Guimarães e Valdir Pires foram os dois mais votados e formaram a chapa peemedebista.
Vencido, Iris Rezende ficou magoado. Disseram-lhe que peemedebistas ligados à fundação Pedroso Horta teriam comemorado sua derrota, num hotel em Brasília. Desse espisódio em diante, conhecidos os resultados da Convenção Nacional do PMDB, o presidente José Sarney perseguiu Henrique Santillo, administrativamente. Não honrou compromisso feito com o governador de financiar o asfaltamento nos municípios de Goiás, pelo programa de Pavimentação Municipal. Esse financiamento foi garantido por Sarney a Henrique Santillo antes da Convenção Nacional. Naquela época a convivência entre Henrique e Iris era boa. Essa atitude do governo federal obrigou o governador a saldar os compromissos com as empreiteiras que realizaram o PPM, emitindo Letras do Tesouro Estadual.
Na disputa para a presidência da República, os peemedebistas goianos liderados por Sarney ficaram contra a candidatura de Ulysse Guimarães. O abandonaram. Apoiaram Fernando Collor de Melo.
Assumindo a presidência, Collor por não ter tido apoio de Henrique Santillo, o persiguiram ainda mais. No primeiro turno Henrique ficou com o candidato do PMDB, Ulysses Guimarães. A ala de Sarney a favor de Collor. No segundo turno Henrique Santillo esteve ao lado de Lula, enquanto o PMDB de Sarney continuou em Goiás apoiando Collor. Foi Fernando Collor de Melo quem desferiu o tiro final na administração Santillo, ao exigir o pagamento imediato das letras emitidas pelo governo estadual. O governador teve que comprometer quase todo Fundo de Participação do Estado, no resgate das letras. Para completar a persiguição, por capricho político, Collor fechou a Caixego, extrajudicialmente.
Na campanha para sua sucessão ao governo do Estado em 1990, Henrique liberou seus companheiros, mas não participou da campanha. Terminado o pleito, Iris Rezende eleito, Henrique Santillo deixou o PMDB.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
A Quebra da Unidade Peemedebista em Goiás (II)
Não havia muito o que fazer, pois os vetos foram anunciados pela figura mais importante do partido, o presidente Ulysses Guimarães. Até aquele instante se discutia chapa única. Tradicionalmente o diretório nacional era formado por consenso. Não se acreditava que alguém tivesse disposição para desafiar Ulysses Guimarães.
Ficou acertado no encontro de Henrique Santillo, Iris Rezende Machado e Joaquim Domingos Roriz, que o governador não participaria do diretório nacional. Gesto de solidariedade do governador para com os companheiros vetados. Os três ficariam fora para que não houvesse ressentimentos e constrangimentos que pudessem afetar a harmonia existente no PMDB de Goiás.
Contrariado com os vetos, o presidente José Sarney decidiu bater chapa com Ulysses Guimarães. Organizou sua chapa branca. Encabeçou a chapa palaciana, a chapa Sarney, o paraense Jader Barbalho, ministro da Reforma Agrária. Todos os peemedebistas que forma vetados teriam que fazer parte compulsoriamente, da chapa de oposição a Ulysses Guimarães. O governador Henrique Santillo foi comunicado por Iris Rezende e Joaquim Roriz da decisão tomada por Sarney.
Após ouvi-los, o governador argumentou que o que haviam decidido valeria também em relação a chapa comandada por José Sarney encabeçada por Jader Barbalho. Henrique não participaria da chapa de Ulysses Guimarães enquanto Iris e Roriz não figurariam na chapa oficial de Sarney, para que o PMDB garantisse a sua unidade que era sólida em Goiás. Iris e Roriz disseram ao governador Santillo que a presença deles na chapa de Sarney era exigência do presidente. Se eles ficassem fora teriam que deixar os cargos que ocupavam: ministro da Agricultura e governo do Distrito Federal. Henrique Santillo, sentindo o drama dos companheiros vetados por Ulysses, não participaria da chapa oficial do PMMDB, ficando fora do diretório nacional para garantir a unidade do PMDB em Goiás.
As duas correntes fizeram campanha em todo País. A chapa organizada por Sarney obteve praticamente 40% dos votos válidos na Convenção. Isso garantiu as presenças dos auxiliares do presidente da República no diretório do PMDB. Henrique Santillo ficou fora. A partir daquele instante iniciava a divisão profunda no PMDB em todo Brasil. De um lado, Ulysses Guimarães, o grande líder da redemocratização, das Diretas Já e da Assembleia Constituinte; e do outro, o ex-arenista José Sarney, com o poder da máquina adminstrativa e cargos para oferecer aso afilhados políticos.
Com essa nova composição peemdebista foi feita a discussão interna para a a escolha do candidato que representaria o partido na eleição daquele ano, à Presidência da República. A disputa interna para a formação do diretório nacional do PMDB, embora vencida por Ulysses Guimarães, enfraqueceu bastante sua autoridade junto aos peemedebistas. Companheiros históricos, como Waldir Pires e Álvaro Dias, que fizeram parte da sua chapa, pleitearam a pré-candidatura à Presidência da República pelo PMDB, em confrontoa Ulysses Guimarães, candidato natural do partido.
Divisão na base autêntica do PMDB deu a José Sarney chance de lançar candidato seu à presidência. Contando com os 40% dos integrantes do diretório nacional do PMDB e mais os convencionais de todo Brasil que votaram na chapa encabeçada por Jader Barbalho, previa que aquele era o momento de destronar Ulysses Guimarães. Para Sarney não importava a viabilidade eleitoral do seu candidato. O importante era enfraquecer Ulysses dentro deo PMDB. Ou até desmoralizá-lo caso viesse a perder a convenção. Sarney acreditava que Ulysses deixaria a presidência ou se afastaria do PMDB. Sem Ulysses, os adesistas e oportunistas que hoje comandam o partido nacionalmente assumiriam sua direção. Ulysses era estorvo para os que queriam um PMDB para Sarney.
Por isso cresceu o movimento entre os sarneystas para que fosse lançado pré-candidato à Presidência da República...
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
A Quebra da Unidade Peemedebista em Goiás (I)

Quando em 1980 o Movimento Democrático Brasileiro - MDB foi transformado em Partido do Movimento Democrático Brasileiro - PMDB, Henrique Santillo era o político mais respeitado e influente da oposição em Goiás. Sua vitória ao lado de Juarez Bernardes ao Senado pelo MDB foi espetacular. O triunfo dos dois consolidou a supremacia da oposição junto ao eleitorado no Estado e Henrique Santillo como seu principal líder. Ele que se preparava desde 1974 para disputar o governo estadual era o candidato natural em 1982.
Na organização de PMDB, como Henrique Santillo nunca se preocupou em mandar no partido, ter maioria no diretória regional, embora sendo sua maior expressão política regional, por isso foi marginalizado. Lideranças mais próximas ao senador, principalmente estudantes, professores, artistas, líderes sindicais, intelectuais, líderes comunitários e grupos de esquerda foram ignorados na composição do diretório. Ficaram de fora apesar de todo seu potencial político-eleitoral. Tudo porque Iris Rezende queria a formação de um diretório onde tivesse ampla maioria, pois desejava ser candidato do partido ao governo, em 82. Contrariados com a desconsideração, resolvemos deixar o PMDB para organizarmos o PT.
Após reunião de São Bernardo do Campo, onde o PT fez seu grande encontro nacional, constatamos que embora Lula reprovasse em conversas reservadas a ação dos grupelhos incrustados dentro do partido, na prática os apoiava. Os grupos trotkistas a princípio não aceitavam a via parlamentar. Queriam ser um partido revolucionário. Qualquer político, por melhor que fosse sua atuação, era menosprezado e até desdenhado pelos grupelhos. Mesmo sendo minoria, davam as cartas, definindo o caminho a ser trilhado pelo partido. O Partido dos Trabalhadores, no seu início, era fechado e sem perspectiva de poder. Defendia métodos revolucionários, Nós, os santillistas, retornamos ao PMDB. Optamos desde a primeira hora lutar pela redemocratização dentro dos estreitos limites da lei. Nunca o grupo discutiu a possibilidade de enfrentar o autoritarismo na clandestinidade. Questão de convicção. Não seria em 1980, quando a abertura começava a surgir, que abraçaríamos outro tipo de resistência.
Reingressamos ao PMDB. As articulações internas no partido para que Henrique Santillo fosse o candidato a governador, pelas forças oposicionistas de vanguarda continuaram. Contatos que fizemos junto às lideranças do interior, estudantes, intelectuais, líderes classistas e sindicalistas, sentimos mais uma vez o respeito e confiança que tinham na nossa prática política. Aos poucos notamos que Henrique Santillo mantendo a candidatura, sem maioria entre os convencionais que escolheriam os candidatos do PMDB, dividiria o partido. Os ânimos estavam acirrados e isso poderia provocar divisão irreconciliável. Não queríamos divisão. Nosso adversário não era Iris Rezende Machado, mas sim o representante da ditadura. O candidato da Arena. Henrique decidiu refluir de uma possível candidatura ou simples disputa na convenção que escolheria o candidato a governador do PMDB. Comunicamos essa decisão aos companheiros. Apoiamos integralmente a candidatura de Iris Rezende Machado ao governo, com o empresário Onofre Quinan, em sua vice. Derval de Paiva que estava cogitado para a vice-governadoria na chapa de Iris Rezende, entendeu o valor do acordo, abrindo mão imediatamente da sua postulação. Disputou reeleição para deputado estadual. Sólida parceria foi mantida por algum tempo.
Quando o PMDB nacional foi realizar sua Convenção Nacional para a renovação do diretório, Ulysses Guimarães estava rompido com o presidente da República, José Sarney. A orientação do partido foi para que os integrantes do PMDB que faziam parte do ministério de Sarney, deixassem seus cargos. Iris estava licensiado do governo de Goiás, ocupando o ministério da Agricultura. Apenas Luiz Henrique da Silveira, ministro da Indústria e Comércio, se afastou. Iris Rezende, Roberto Cardoso Alves, Carlos Santana e Jader Barbalho, também ministros peemedebistas, ficaram em seus postos. O mesmo aconteceu com Joaquim Roriz, governador nomeado de Brásilia.
Alguns dias antes da Convenção Nacional, o deputado Hélio Duque (PMDB-PR) encabeçou movimento para que peemedebistas que ocupassem cargos de nomeação no governo Sarney não fizessem parte do diretório. Preocupado com o desdobramento que isso poderia provocar em Goiás, Henrique Santillo foi a Brasília conversar com Ulysse Guimarães. Depois das suas poderações sobre o risco de quebra na unidade do partido no Estado, caso Iris Rezende e Joaquim Roriz ficassem de fora do diretório nacional, Ulysses o tranquilizou:
- Fique tranquilo, isso é apenas um movimento da juventude! Agradeço a manifestação, mas não interfirirá no fortalecimento do PMDB. Estaremos todos juntos.
O governador voltou certo de que tudo não passava de reação isolada de um pequeno grupo de descontentes.
Alguns dias depois, Ulysses Guimarães comunicou a Henrique Santillo:
- Governador, sou obrigado a lhe comunicar que infelizmente não vou poder colocar Iris e Joaquim Roriz no diretório. A pressão é grande e os companheiros não concordam que os que ocupam cargos de confiança no governo sejam integrantes do diretório nacional. Alegam que ficou claro que os que não se afastaram estão muito mais preocupados com os cargos que com a trajetória de lutas do PMDB. Desde já o convido para fazer parte do diretório nacional, representando Goiás.
Querendo de qualquer maneira preservar a unidade do PMDB em Goiás, Henrique Santillo procurou Iris e Roriz para que juntos resolvessem o impasse...
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Deixem Henrique Santillo descansar em paz
Lembro-me quando Henrique Santillo foi eleito governador substituindo Iris Rezende Machado, que encontrava-se licenciado ocupando o Ministério da Agricultura no governo José Sarney, várias categorias de funcionários públicos estaduais estavam em greve ou anuciando greve. Nunca denunciou a situação caótica que herdou. Mesmo quando os dois se distanciaram politicamente, não fez qualquer acusação nesse sentido ou afastou os iristas que faziam parte da sua administração. Praticamente 12 suplentes foram por ele elevados à condição de titulares da Assembleia Legislativa sem que houvesse qualquer pressão do governo para que não apoiassem Iris. Henrique Santillo era de uma retidão de comportamento exemplar. Estava decidido a se desincompatibilizar no final de governo, para concorrer ao Senado. Desistiu do seu projeto pessoal para não prejudicar o presidente da Assembleia Legislativa, Milton Alves Ferreira, que o sucederia.
Joaquim Domingos Roriz, vice-governador de Goiás, foi escolhido pelo presidente Sarney para governar Brasília. Com um eventual afastamento do governador goiano, ocuparia a governadoria o presidente da Assembleia Legislativa. Nessa mesma ocasião, José Sarney não honrou os compromissos assumidos verbais e pessoais com Henrique Santillo de financiar o Programa de Pavimentação Municipal - PPM, maior programa de asfaltamento municipal feito por um governador em Goiás. Emitiu Letras do Tesouro Estadual para honrar os compromissos assumidos com as empreiteiras. Foram tornadas nulas por Collor de Melo. Sabendo da crise que viria refluiu da idéia de se afastar do governo, para não passar o problema a Milton Alves.

Com a emissão de Letras do Tesouro Estadual, expediente legítimo e legal, usado por governos municipais e estaduais, Henrique Santillo saldou os compromissos com os empresários que executaram o asfaltamento. As letras emitidas pelo governo goiano, por Sarney não honrar os compromissos, como forma de retaliação por Henrique Santillo ter ficado ao lado de Ulysses Guimarães na campanha de 1989 para a presidência da República, venceriam a longo prazo. Com a posse de Fernando Collor à presidência, baixou decreto considerando nulas todas as letras emitidas e negociadas, obrigando o governo de Goiás a resgatá-las imediatamente, sob pena de fechar extra-judicialmente o Banco do Estado de Goiás, seu avalista. Sem reclamar ou denunciar a perseguição ao seu governo e ao Estado, preferiu ficar no governo até seu termino, resgatando as Letras do Tesouro Estadual que emitira, com recursos do Fundo de Participação do Estado. Essa foi a principal razão de Iris Rezende Machado o substituir encontrando as finanças estaduais descontroladas.
Não se tem notícia de uso indevido de Caixego, Beg, Celg, Saneago ou qualquer outro orgão público, por Henrique Santillo, no exercício das funções e cargos públicos que exerceu. Não se tem notícia de ter ele levantado a voz para acusar aos que o perseguiram de forma ostensiva e veladamente por inveja ou capricho político. Por favor respeitem a memória de quem tanto fez por Goiás e para o Brasil. Quem sofreu calado as maiores perseguições e injustiças por retaliações políticas. Inspirem-se na ética e retidão de comportamento que nortearam todas as ações de sua vida. Só assim poderão viver com a consciência tranquila.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Baioneta não é voto e cachorro não é urna
Link para o original
(Fotos: Luciano Andrade)
Em 15 de novembro de 1978, os eleitores iriam escolher senadores, deputados estaduais e federais. De um lado, a Arena (partido dos militares); do outro, o MDB (de oposição). Para buscar votos, o MDB organizou uma caravana pelo Nordeste. Na liderança, o presidente do partido, Ulysses Guimarães.
Em várias reuniões, arbitrariedades e abusos deixaram o clima pesado. O momento mais tenso ocorreu em 13 de maio de 1978, em Salvador. Policiais bloquearam a sede do MDB com cachorros e fuzis com baionetas. Ulysses aproximou-se de um policial e bradou, enquanto empurrava sua arma: “Respeitem o líder da oposição!”.
Dentro da sede, fez um discurso histórico: “Meus amigos, foi uma violência estúpida, inútil e imbecil. Eles nos ajudam muito”. E encerrou com a frase que se tornou célebre: “Baianos, marchemos para a vitória a 15 de novembro. Baioneta não é voto e cachorro não é urna”.
Discurso de Ulysses Guimarães em Salvador (13/05/78)
Meus amigos que aqui estão,Brasileiros que aqui não puderam vir e estão lá fora, mas que, apesar disso, em todo o Brasil, ouvem o pregão do MDB pela liberdade e pela democracia,
Soldados da minha pátria que foram aqui convocados — sei que contra a consciência de vocês, que são do povo — para impedir que o povo aqui chegassem. Mas vocês nos ouvem como assistência e são juízes de que quem defende vocês somos nós, porque a verdadeira autoridade não vem dos homens, vem da lei, que é igual para todos e não pode discriminar entre os brasileiros.
Meus prezados amigos,
Enquanto ouvíamos as vozes livres que aqui se pronunciaram, ouvíamos também o ladrar dos cães policiais lá fora. O que se falou aqui é a linguagem da História, da tradição, do passado, dos Tiradentes, dos cassados, em cuja frente está o exemplo extraordinário do líder sacrificado Alencar Furtado.
O ladrar, essa manifestação zoológica, é do arbítrio, da prepotência, que haveremos de vencer, não nós do MDB, mas o povo brasileiro.
Meus amigos, foi uma violência, foi, mas uma violência estúpida, inútil e imbecil. Eles nos ajudam e em muito. Se nós fizéssemos aqui um comício, seria um grande comício, não há dúvida, mas com uma repercussão talvez regional. Amanhã, ao amanhecer, os brasileiros vão ler os jornais, vão ver as metralhadoras e os cães, impedindo que brasileiros pacíficos exercitem um direito que está na Carta Universal dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário.
Nós não temos armas. Sou Presidente Nacional do MDB e já percorri este país oito vezes, de cidade em cidade, cercado pelas multidões. Não porto arma nenhuma (batendo no bolso e abrindo o paletó). Não tenho, meus amigos, protetores e guardas (gritos: "tem o povo", "tem a povo!"). Eu não me assusto mais, meus amigos. Tive em Pernambuco os cachorros e os cavalos do governador Moura Cavalcanti: luz apagada, pedras na praça quando realizávamos as nossas concentrações. Mas, meus amigos, o MDB, é como a clara: quanto mais bate, mais cresce. Os cães ladram mas a caravana passa.
Nós temos o povo que, sem dúvida alguma, nos levará à espetacular vitória de 15 de novembro próximo. Eu não levo, meus amigos, imagem melancólica da Bahia. A Bahia são vocês que estão aqui dentro. Aquilo que está lá fora para nos oprimir representa esta situação de arbítrio e de prepotência. Isso que está lá não é a Bahia, não é o Brasil, não é povo, não é a nação, não é sociedade, não é o cidadão.
Quero dizer a vocês: 13 de maio de 1888, então o Brasil evitou a divisão de dois Brasis - o Brasil branco que oprimia e o Brasil negro que era oprimido. Mas, quase 90 anos depois, nós temos as mesmas servidões e as mesmas discriminações. Não temos política neste país porque para haver política é preciso o povo e isso que aí está não tem a substância, o respaldo e o apoio do povo.
Temos um Presidente sem povo, temos governadores sem povo e contra o povo. E, por cúmulo de audácia, numa insólita demonstração de ousadia, que é um insulto a esta nação, criou-se esta figura que foi tatuada para a História com este nome odioso de senador "biônico". E nós estamos aqui para dizer que não será aceito isso!
Na cadeira de Rui Barbosa, que representou as tradições libertárias deste estado, não podem sentar os penetras indicados pela oligarquia e pelos conchavos entre amigos e parentes.
Vocês ouvem falar do achatamento salarial. Vocês já ouviram falar e de se tomar providência do achatamento dos lucros criminosos que fazem a opulência de poucos e enchem as burras e as arcas das multinacionais, fazendo com que tenhamos uma sangria às avessas, o sangue e o suor dos trabalhadores para enriquecer outras pátrias, outros países?
Muitas vezes se pergunta: o que o MDB pode fazer pelo povo? Eu quero sintetizar essa resposta. O MDB não é munificente, o MDB não é patriarcal, o MDB não quer presentear com alguma dádiva _ porque se desse, poderia também tirar. O MDB quer dar uma arma. O povo brasileiro está desarmado da grande arma pela qual ele defende o seu pão, o seu teto, a saúde e a sobrevivência da sua família. O MDB quer dar a urna e o voto a todos os brasileiros. Não há salário justo e digno. É impossível salário digno e justo sem liberdade, porque já dizia a Bíblia que "ganharás o teu pão com o suor de teu rosto". Para ganhar o pão não é preciso só o trabalho físico e intelectual, é também reivindicar, é exigir da sociedade as vantagens econômicas para todos e não em benefício de poucos. Não há, portanto, salários justos e não existe divisão, distribuição de riquezas, sem a democracia e sem a liberdade.
Meus amigos, a discriminação, este anátema que envergonha a cultura e a educação brasileira: o 477, um dos filhos diletos do nefando AI-5. Nós do PMDB sabemos que escola e faculdade são para dar o diploma, mas somente o caráter é que faz o homem. E o jovem, sem liberdade e democracia, não será homem para servir a si, aos seus e à sociedade.
A inexistência do habeas corpus é testemunha de que há injustiça, ilegalidade, arbítrio, nesta nação.
Aqui, queremos lembrar os nossos mártires, os que caíram, com a canção da resistência francesa: companheiro, se você tombar, alguém sairá da sombra para tomar o seu lugar.
Mesmo que tenhamos divergências naturais, é preciso que nos unamos numa trincheira comum. Há um inimigo comum, um adversário comum. São aqueles que se apropriaram do poder e só através de nossa união é que poderemos reconciliar esta nação.
A data de 13 de maio é a data limpa, asseada, decente e branca da liberdade neste pais. Quiseram mas não conseguiram aqui na Bahia, que a data da liberdade fosse manchada e enodoada com o espetáculo de opressão que aqui se montou para espanto de todo o Brasil. Mas, meus amigos, aguardamos e lutamos por outra Lei Áurea, por outro 13 de maio: pela libertação. Esta libertação será no dia que está próximo e que tem este nome: Assembléia Nacional Constituinte.
E a Assembléia Nacional Constituinte só pode ser feita na base da honra, da dignidade, do dever de reparação àqueles que tombaram no sangue e no sacrifício. A base para isso é esse nome de paz e de esperança para o Brasil e seus filhos: Anistia.
Baianos, marchemos para a vitória a 15 de novembro. Baioneta não é voto e cachorro não é urna.
(Foto: Luciano Andrade)
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Jogo da despedida de MDB e Arena
Na década de 70, embora a convivência entre os parlamentares da Arena e MDB no Congresso Nacional fosse respeitosa e cordial, as discussões eram tensas. O momento mais crítico que vivemos foi quando, em abril de 1977, o presidente Geisel baixou o “pacote de abril”. Colocou em recesso o Congresso Nacional, extinguiu as eleições diretas para os governos estaduais previstas para 78; cassou o mandato do deputado Alencar Furtado, líder do MDB, e criou a escandalosa figura do senador sem voto, o senador biônico. Nesse episódio, o presidente nacional do MDB, deputado Ulysses Guimarães, fez um dos mais belos discursos até então pronunciados da tribuna da Câmara Federal. Foi quando comparou Ernesto Geisel ao sanguinário ditador de Uganda, Idi Amim Dada.
Em 1979, ainda no governo Geisel, crescia a convicção entre todos nós parlamentares e no seio da sociedade brasileira de que o regime de força estava chegando ao fim. A mobilização nacional para a volta dos exilados e foragidos políticos foi colossal. As negociações entre oposição e governo para a concessão da anistia eram ininterruptas. Setores das Forças Armadas participaram ativamente dessas discussões. O campo estava sendo preparado para a travessia da ditadura à democracia. Se discutia também o fim do bipartidarismo.
Antes que os dois partidos fossem extintos, a revista Manchete programou uma partida de futebol entre parlamentares do MDB e Arena, para seu campo gramado, no Setor Gráfico de Brasília. A grande imprensa nacional esteve presente ao clássico. A Manchete, na sua edição da semana seguinte, deu ampla cobertura ao evento. Tivemos nosso dia de seleção brasileira. Todas as atenções foram dirigidas ao jogo que marcava a despedida de MDB e Arena. Orlando Brito, um dos mais destacados fotojornalistas do Brasil, registrou os melhores momentos do “jogo do ano”, vencido pela equipe do MDB. Tarcisio Delgado, cuja infância passara na zona rural, aprendeu jogar descalço. Mesmo assim mostrou seus dotes de artilheiro ao infernizar a defesa arenista. Álvaro Dias, que na adolescência treinou algumas vezes na equipe do Londrina, time principal da sua terra natal, foi ao lado de Tarcísio a dupla do meio campo, que desestabilizou o time arenista. No ataque, o destaque ficou por conta de Roberto Freire. Atuei pela zaga direita fazendo o trio de zagueiros com Alceu Colares e Pimenta da Veiga. No gol jogou da Manchete, foram disponibilizados na Internet por Canindé Soares, pelo site o craque mais jovem do MDB, Carlos Alberto.
Fotos e comentários sobre essa partida de futebol, realizada há 31 anos no campo, http://canindesoares.blog.digi.com.br/.
A equipe do MDB foi composta pelos deputados Carlos Alberto (RN), Adhemar Santillo (GO), Alceu Collares (RG),Olivir Gabardo (PR), Pimenta da Veiga (MG) e Jorge Viana ( BA).Tarcisio Delgado (MG), Álvaro Dias (PR), Roberto Freire (PE), Jorge Uequed ( RG) e Evilasio Vieira senador (SC).Pela Arena jogaram, dentre outros, Paulo Lustosa (CE), Hugo Mardini (RG), Paulo Guerra, João Carlos de Carli, Carlos Wilson , ministro da Previdência, Jair Soares.
Pouco tempo após essa partida, MDB e Arena deram lugar ao surgimento do pluripartidarismo. A Arena transformou-se em PFL e o MDB em PMDB. Alguns integrantes do grupo autêntico, comandados por Roberto Freire, fundaram o Partido Comunista Brasileiro-PCB. Sob o comando de Lula, Airton Soares, Eduardo Suplicy, Antônio Carlos de Oliveira, Edson Kahir e outros fundaram o PT. Com a Anistia ampla, total e irrestrita, os exilados e perseguidos políticos puderam retornar ao Brasil e à prática política. Estava pavimentada a estrada para a redemocratização do País.A importante partida de futebol realizada num domingo pela manhã no campo gramado da revista Manchete em Brasília foi testemunha do encerramento, em confraternização, dos partidos políticos MDB e Arena, existentes durante a ditadura militar.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
O início de uma dura caminhada (II)
O ano de 1974 foi decisivo para o MDB. A princípio grandes líderes do partido, com a supressão das eleições diretas para os governos estaduais, queriam sua extinção. Alegavam que o Movimento Democrático Brasileiro estava legitimando a ditadura. Para eles os ditadores jamais entregariam o poder. A ação enérgica de Ulysses Guimarães, presidente nacional do partido, foi fundamental para eliminar essa posição pessimista dos que tinham pressa em chegar ao governo.
Em Goiás, os dois principais líderes da velha guarda emedebista, Anapolino de Faria e José Freire, decidiram não disputar a reeleição a deputado federal. Foram dois desfalques incalculáveis. Henrique Santillo que estava se preparando para concorrer ao governo em eleição direta, resolveu não pleitear cadeira para deputado federal. Não queria afastar-se da atividade de médico pediatra no Hospital Santa Paula. Foi quando abri mão da reeleição a deputado estadual, cedendo oportunidade a ele. Disputei uma vaga na Câmara Federal.
Fizemos a campanha juntos. Da mesma forma usamos o horário eleitoral gratuito, que se fazia ao vivo, com a apresentação do “ping-pong da verdade.” Vencemos. Na Câmara Federal e Assembleia Legislativa trabalhamos em sintonia. Defendemos o retorno imediato da democracia, fazendo duro e implacável combate à ditadura.
Em agosto de 1976, com base na Tomada de Preços n° 8/75, de 17 de abril de 1975, para compra de gêneros alimentícios e material de limpeza, mensais, para a residência oficial do ministro do Trabalho. Foi um duro golpe na propalada ética e moralidade do gasto do dinheiro público no regime ditatorial. A residência do ministro Arnaldo Prieto recebia por mês mercadorias equivalentes ao estoque de um pequeno supermercado. Entre carne bovina, suína, frango, peixe ou crustáceos e dobradinha eram 956 quilos; 600 quilos de arroz; 300 quilos de açúcar; 150 quilos de feijão; 135 quilos de macarrão; 201 quilos e mais 436 dúzias de frutas; 432 quilos de manteiga; 90 latas de óleo de soja e 32 latas de óleo de oliva; 885 quilos de legumes e verduras; 1296 garrafas de refrigerantes; 144 garrafas de sucos de fruta e uma infindável lista de outros gêneros alimentícios e material de limpeza. Os principais chargistas da grande imprensa brasileira fizeram alusão à mordomia do ministro. Candidatos emedebistas, principalmente dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, usaram o“ rancho do ministro”, por mim enunciado, em suas propagandas políticas.
O cronista Eduardo Carlos Novaes, em seu livro Quiabo Comunista, faz referência à denúncia. Propalou-se na ocasião que teria meu mandato cassado, pela repercussão da denúncia. Nada aconteceu e exerci normalmente o mandato. Dessa denúncia surgiu o livro "Da mesa farta à subnutrição", cujo lançamento foi na Universidade Católica de Goiás.
No final de 1976, candidatei-me internamente no MDB para concorrer à 2ª vice-presidência da Câmara, em substituição a Alencar Furtado. Era a principal função do partido na Mesa Diretora da Câmara Federal. Concorreram ao mesmo cargo, Juarez Bernardes, de Goiás, apoiado por Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Nelson Carneiro e outros moderados; Getúlio Dias, do Rio Grande do Sul, apoiado por Alencar Furtado, Fernando Lira, Jarbas Vasconcelos; Freitas Nobre e outros autênticos; Fabio Fonseca, ex-presidente da Comissão de Saúde, presidente do Atlético Mineiro; Hélio de Almeida ex-ministro do governo João Goulart e Emanuel Waisseman, da bancada do Rio de Janeiro. Getúlio Dias e eu fomos os mais votados no primeiro escrutínio. Na segunda votação fui o mais votado. A mesa diretora eleita em plenário ficou composta por Marco Maciel, presidente; João Linhares, 1° vice; Adhemar Santillo, 2° vice; Djalma Bessa, 1° secretário; Jader Barbalho, 2° secretário; José Camargo, 3° secretário; João Clímaco, 4° secretário. Vencíamos mais uma batalha elevando a força política de Goiás...
sábado, 22 de maio de 2010
Queda e retorno da autonomia política
O 28 de agosto de 1973 aparentava ser um dia como outro qualquer. Muito sol, ventava bastante, quando cheguei à Assembléia Legislativa, em Goiânia, para a sessão plenária , que seria realizada pela manhã. A diferença, a novidade, ocorreu em seguida quando fui informado por um telefonema de Brasília, que José Batista Júnior, prefeito de Anápolis, acabara de ter seu mandato cassado, direitos políticos suspensos por 10 anos. O vice prefeito Milton Alves Ferreira não fora cassado, mas impedido de tomar posse, pois no mesmo ato assinado pelo general Emilio Garrastazu Médici, nomeava o engenheiro Irapuan Costa Júnior, como primeiro prefeito nomeado de Anápolis, que naquele dia foi transformada em Área de Interesse à Segurança Nacional.
Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.
Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”
Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.
Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.
Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de l964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.
sábado, 13 de março de 2010
Henrique Santillo, Celg e Tocantins
Quando se discutia sobre o responsável pelo endividamento do Estado, Henrique Santillo já havia falecido e alguns procuraram lhe atribuir a maior fatia da dívida. No instante em que se procura descobrir as verdadeiras causas da falência da Celg e os responsáveis pela sua astronômica dívida, os debates parecem seguir o mesmo caminho. Não conseguirão fabricar documentos para incriminá-lo. Sua vida pública foi toda dedicada ao trabalho, correção em seus atos e zelo na aplicação do dinheiro público.
Relatório encomendado pela Assembleia Legislativa de Goiás, à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade do Estado de São Paulo (USP), conclui que, de 1984 a 2008, a Celg conseguiu lucro em 9 anos e prejuízo nos outros l6. Assim, sua dívida até 31/12/2008 era de R$ 4,l bilhões. Destes, só no período analisado de 25 anos, foi de R$ 2,1 bilhões. Metade do endividamento total da empresa.O patrimônio líquido da Celg equivale a l/8 do seu endividamento.
O nome de Henrique Santillo neste debate sobre a falência da Celg só apareceu porque boa parte do patrimônio da empresa foi transferida para o Estado do Tocantins. Ainda como senador, Henrique Santillo visitou todos os municípios do norte e nordeste de Goiás e ficou impressionado com a pobreza que presenciou. Agricultores, pequenos sitiantes e chacareiros, posseiros, garimpeiros e moradores ribeirinhos do Araguaia e Tocantins vivendo numa miséria absoluta. Assumiu com aquela gente e consigo mesmo que, chegando ao governo do Estado, resgataria a dignidade e cidadania de uma população secularmente explorada.
No segundo ano da administração, Henrique Santillo foi consultado por Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, se era a favor ou contra a divisão de Goiás. O governador não só afirmou ser favorável como conversou com os líderes partidários para que apoiassem a proposta de Siqueira Campos. Assembleia Nacional Constituinte dividiu o Estado de Goiás em dois. Acima do paralelo l3, ficou o Tocantinas e abaixo, continuou Goiás. Além dos seus milhares de clientes, a Celg transferiu para a nova unidade federada todo seu patrimônio. Representou, segundo o documento da Fipe, R$ l,5 bilhão. Não se tratou de venda ou doação do patrimônio da empresa, mas de cumprir decisão dos constituintes de1988. Saíram do patrimônio da Celg por força legal e absoluta falta de condição de continuarem em Goiás.
Torna-se obrigatório afirmar que na, administração de Henrique Santillo, a Celg levou energia elétrica a milhares de propriedades rurais, num trabalho social de grande alcance. Solucionou a falta de energia ou a precariedade da existente, em regiões como da Estrada de Ferro e Caldas Novas, que impossibilitavam o desenvolvimento normal das cidades que as compõem. Implantou a segunda linha de transmissão para o Distrito Agroindustrial de Anápolis-Daia, afetado pelos constantes apagões. Construiu a estação rebaixadora do setor Victor Braga, que dobrou a capacidade de atendimento aos anapolinos. Construiu a usina de São Domingos, para atender cidades do nordeste goiano, até então servidas por pequenas usinas ou geradores estacionáros.
terça-feira, 2 de março de 2010
Pacote de Abril
– Apoiamos a mensagem ou vamos ter retrocesso político. Fiquei sabendo que será criada uma crise caso o MDB não vote favoravelmente à aprovação da Reforma do Judiciário, vindo aí um retrocesso institucional.
Essas foram as palavras do deputado Federal Tancredo Neves na reunião das bancadas do MDB, do Senado e da Câmara dos Deputados, no auditório Nereu Ramos, da Câmara Federal, sob a presidência de Ulysses Guimarães, presidente nacional do MDB.
Até então, sem nenhuma novidade aparente, as eleições para os governos estaduais seriam pelo sistema direto nas eleições de 1978.
As eleições de 1970 e 1974 haviam sido alteradas na última hora, por Emendas à Constituição, transformando-as em eleição indireta pelo Colégio Eleitoral de cada Estado.
Com exceção do Rio de Janeiro, a Arena tinha esmagadora maioria de votos nas Assembléias Legislativas, com o direito a eleger seu candidato, pois vivíamos sob o sistema do bipartidarismo. Os nomes dos governistas saiam de Brasília. A briga de bastidores era no Palácio do Planalto. Chegavam aos estados sem nenhuma condição de alteração. Por mais que houvesse atrito, os arenistas eram obrigados a sufragar o escolhido sem nenhuma contestação.
Finalmente estava chegando 1978 e com ele o pleito com a participação do povo, era o que estabelecia a Constituição Federal. Juarez Bernardes pleiteava a indicação do seu nome pelo MDB goiano, como integrante do grupo moderado, ou conservadores, e Henrique Santillo tinha o mesmo objetivo, só que pelos setores mais a esquerda. No mesmo pleito, o eleitor além de votar em deputados estaduais e federais, elegeria dois senadores.
Derval de Paiva e Fernando Cunha Jr, apoiavam a candidatura de Santillo ao governo. O grupo conservador, que apoiava a pretensão de Juarez Bernardes não possuía ainda seus pretensos candidatos ao Senado.
Em abril de 1977, o Presidente Geisel enviou mensagem implantando a Reforma do Judiciário para que fosse discutida, votada e aprovada pelo Congresso Nacional. A proposta era tão ruim, mas tão ruim, que Poder Judiciário, Ministério Público, OAB, cientistas e analistas jurídicos e advogados militantes se colocaram contra sua aprovação.
O MDB tinha que dar seu apoio à proposta para que fosse aprovada. A matéria dependia de quorum qualificado e a Arena não dispunha do quantitativo exigido.
Bancadas emedebistas na Câmara e no Senado se reuniram no auditório Nereu Ramos, na Câmara, para decidir qual posição adotar. Aprovar a reforma, como queria Geisel e seu núcleo forte no comando do governo, ou derrotá-la, como manifestava a nação
Ulysses Guimarães abriu espaço para que falassem um defensor pela aprovação e outro que fosse pela sua rejeição.
Tancredo Neves, homem de notável saber jurídico, mas que por saber o que estava por trás daquela proposta absurda e inconseqüente, tinha informações seguras do que pensavam os militares no poder, se apresentou para defender a aprovação da matéria, mesmo com restrições do mundo jurídico e imperfeições flagrantes existentes no texto.
Paulo Brossard, senador combativo e, da mesma forma que o deputado Tancredo, homem de grande saber jurídico, apelou para que o MDB votasse contra, rejeitando a matéria. Sua tese foi a de que o MDB não tinha o direito de compactuar com a ditadura, aprovando matéria que colocaria o Brasil de forma ridícula no cenário jurídico internacional.
Depois que o deputado mineiro viu seus argumentos jurídicos serem derrubados pelo Senador gaúcho, abriu o jogo:
– Apoiamos a mensagem ou vamos ter retrocesso político. Sei por fontes seguras que essa mensagem veio encomendada. Sendo rejeitada pelo MDB, vai dar o motivo que os militares querem para o retrocesso institucional.
Colocada em votação na reunião das bancadas, a maioria do MDB votou pela sua rejeição, conforme tese defendida por Brossard.
Fomos para o plenário e as bancadas votaram fechadas pela rejeição à Mensagem de Reforma do Judiciário. Todos seguiram a decisão da reunião de bancadas, no Senado e na Câmara dos Deputados, inclusive o deputado Tancredo Neves.
Anunciado o resultado pela direção dos trabalhos a matéria foi para o arquivo.
Em seguida foi baixado Ato do Executivo, assinado pelo presidente Ernesto Geisel, com base no Ato Institucional nº 5, colocando o Congresso Nacional em recesso, sem data certa para sua reabertura.
Aguardamos a “paulada” que deveria vir do Planalto, maior que a violência do fechamento do Congresso, sem demora.
Depois de uma semana fechado, o Congresso voltou a funcionar, com a edição do “pacote de abril”, sustentado pelo AI-5, acabando com eleição direta para governador do estado, suspendendo os programas políticos pela televisão e rádio nos moldes de 1974 e criando o Senador sem voto, Senador biônico, nomeado da mesma forma que os Governadores pelo Colégio Eleitoral do estado. Duro golpe nas pretensões emedebistas. Atraso na caminhada democrática.
O sonho de chegar parcialmente ao poder estava assim, mais uma vez, adiado.
Os Simpósios na Câmara de Anápolis
– Com um sol de rachar, como o de hoje, você não acha que é exagero andar de guarda-chuva?
– Um homem prevenido vale por dois!
Essa era a tática do Zé.
Sempre com o seu guarda-chuva, Zé Bigode, fiel emedebista, ajudava na preparação do grande encontro no Cine Santana, para o qual estavam sendo esperados grandes nomes nacionais, inclusive Ulysses Guimarães.
Mas não havia nenhuma nuvem mais carregada no horizonte e a expectativa era de grande sucesso no “Simpósio Estudantil”, evento que aconteceria logo mais à noite.
Walmir Bastos Ribeiro e Walter Gonçalves de Carvalho, dois dos mais destacados vereadores do MDB na Câmara Municipal de Anápolis, anualmente realizavam o “Simpósio Estudantil”, trazendo Deputados e Senadores do MDB.
O fato de ser Deputado Federal facilitava-me trazer para debates em Anápolis os parlamentares mais atuantes e conhecidos nacionalmente. Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Freitas Nobre, Odacyr Klein, João Gilberto, Lyzâneas Maciel, Jaison Barreto e Marcos Freire, dentre outros, participaram dos simpósios realizados pela Câmara Municipal.
Com a eleição de Henrique Santillo para o Senado, em 1978, e minha reeleição a Deputado Federal, Walmir e Valtinho faziam questão de ampliar o alcance do Simpósio. Deixaram de acontecer no auditório da Câmara, na Praça 31 de Julho, para serem realizados no Cine Santana. Num deles, o conferencista seria o Presidente Nacional do MDB, Deputado Ulysses Guimarães.
Neste dia à tarde, tempo claro e sol escaldante, o Zé Bigode, apareceu com guarda-chuva, causando admiração aos companheiros que preparavam o local:
– Zé, isto aí é guarda sol ou guarda chuva?
– Guarda-chuva. Um homem prevenido vale por dois! Respondeu firme o Zé Bigode. Essa era a tática do Zé.
À noite, o simpósio quase não se concretizou pela forte chuva que começou por volta das 18 horas, só terminando depois da meia-noite. O cinema lotado, apesar da chuva, teve como motivação a presença de Ulysses Guimarães, a grande figura nacional que simbolizava a esperança dos brasileiros.
Vieram caravanas e simpatizantes de inúmeras cidades vizinhas, lotando o cinema, mesmo com o aguaceiro que caía sobre a cidade.
Noutra oportunidade, os convidados eram o Deputado Freitas Nobre e o Senador Jaison Barreto. Deixei Brasília logo à tarde, chegando mais cedo para recepcioná-los. Henrique discursaria no final da tarde em sessão do Senado, não teve como acompanhá-los. Solicitou ao Ivo, seu motorista, que os trouxesse a Anápolis.
Realizando o Seminário, inclusive com a presença de Sodino Vieira, grande líder emedebista de Quirinópolis, levamos nossos convidados para jantar na churrascaria Gaúcha, da Rua Manoel D’Abadia. Ivo, o motorista dos visitantes de Brasília, havia feito sua refeição mais cedo, ficando num barzinho ao lado da churrascaria. Ao terminarmos o jantar, por volta da meia-noite, acompanhamos os visitantes até o carro do Senado que os levaria para Brasília.
Ivo, chamado para assumir o comando do carro, se ajoelhou de frente ao pára-choque traseiro, acendeu um fósforo, clareando ainda mais a placa do carro. Sem compreender o que se passava perguntei:
– Que é isso Ivo?
– Quero ver se o nosso carro é esse mesmo!
Percebemos que os drinques após o jantar fizeram o motorista perder a noção, não conseguindo identificar o carro oficial sob sua responsabilidade.
O Senador Jaison Barreto, com toda camaradagem, desprovido de vaidade e compreendendo a situação disse:
– Ivo, se você não se incomodar eu dirijo o carro!
Já caindo no banco traseiro, Ivo ainda teve tempo de colocar a cabeça para o lado de fora da janela do carro e vomitar pela primeira vez, dizendo:
– Aceito!
O Senador Jaison Barreto dirigiu o carro oficial até Brasília, levando o Deputado Freitas Nobre e o motorista às suas residências.
Segundo o Senador e o Deputado, dirigir até Brasília não foi nada, difícil foi ficar por muito tempo debaixo do chuveiro de água quente, para apagar os sinais das indisposições estomacais do Ivo durante a viagem.
Mas para os anapolinos que ouviram o Senador Jaison e o Deputado Freitas Nobre, o Simpósio foi um sucesso!
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Percalços pelo caminho
Em inúmeras reuniões que Henrique Santillo e eu participávamos com grupos de estudantes, trabalhadores, produtores rurais, profissionais liberais e intelectuais em Anápolis e Goiânia, discutindo os rumos para o país, grupos esquerdistas de variadas tendências se reuniam numa mesma roda, em busca de projeto comum.
Obedecíamos àquela máxima do presidente nacional do MDB, Ulysses Guimarães, “estamos dentro de uma casa hermeticamente fechada e para abrí-la precisamos unir forças, sem distinção ideológica, para que cada um siga seu rumo depois que a porta estiver aberta”. Mesmo com profundas diferenças de pensamento, os grupos se mantinham unidos em busca do objetivo final, a derrubada da ditadura implantada em 1964 e o retorno à democracia.
Também não nos descuidávamos dos contatos com lideranças interioranas e nestas situações os percalços eram muitos.
Orizona
Sempre me senti entusiasmado com o contato com pessoas simples e amigas, como Pedro Pimentel, tesoureiro do MDB em Orizona, que nos acompanhou pelo interior do município visitando proprietários e trabalhadores rurais.
Certa vez, chovia forte, tornando as estradas municipais escorregadias e de difícil acesso. Na volta à cidade, após uma dessas visitas, a camionete do Pimentel, grudada no barro, nos obrigava a empurrá-la, enquanto o motorista manobrava o veículo e dizia com o maior contentamento:
– Quando contar que o futuro governador de Goiás, Henrique Santillo, empurrou meu carro em pleno lamaçal, tendo a roupa e o corpo cobertos pelo barro, ninguém vai acreditar!
De outra feita estávamos voltando da cidade de Orizona, quando o Vicente Alencar falou:
– Chegamos pessoal!
Meio atordoados, Henrique e eu fomos nos despertar já fora do carro.
Olhamos em volta, estava tudo escuro. Nem sinal de alguma construção que nos lembrasse a nossa cidade, Anápolis.
Esta situação aconteceu em plena campanha de 1974 para eleições de Deputados Estaduais, Federais e Senador.
Haveria um grande comício em Orizona.
Companheiros se mobilizaram durante muito tempo para que as lideranças de todo município se fizessem presentes. Lázaro Barbosa, candidato emedebista ao Senado era a figura mais esperada e sua presença aos eventos do partido era certeza de grande público.
Em Orizona a situação apresentava-se mais emocionante, porque o candidato a Senador dizia em todas as cidades por onde passava que havia nascido em Orizona, embalado num cesto de taquara. Aliás, pude acompanhar Lázaro Barbosa quando estava em Anápolis dizendo que era familiarizado com a cidade porque parte da sua infância a passara no distrito de Souzânia. Chegando a Itapaci, Lázaro fazia questão de alardear que residira durante muito tempo na Ponte Funda. Já em Petrolina conhecia todas as lideranças e região, pois trabalhara durante muitos anos na prefeitura local.
Era difícil uma região que Lázaro não fizesse a citação “dessas ruas poeirentas que pisei descalço quando criança”.
Acompanhado de Vicente Alencar e seu irmão Alexandre, seguimos no carro de Henrique Silva de Anápolis à Orizona. Comício grande, Lázaro muito assediado pelos eleitores, a cidade envaidecida com a presença do filho ilustre. Falaram todas as lideranças locais e visitantes até que por volta da meia-noite encerramos os discursos dando inicio ao show com cantores locais.
Sidon, integrante do MDB local, convidou-nos para um churrasco em sua casa. Alegando compromisso logo cedo no dia seguinte, Lázaro agradeceu e retornou à Goiânia. Nós ficamos e fomos atender a gentileza do Sidon.
Churrasco assado na hora, a conversa rolando, quando olhamos no relógio, passava das três da madrugada.
Na hora da saída, Henrique Silva e eu já fomos descartando a responsabilidade de dirigir. Foi quando eu chamei Vicente Alencar de lado e disse:
– Vicente, nós todos estamos sem condição de dirigir. O mais descansado é seu irmão Alexandre. Vamos entregar o volante para ele?
– Eu de olhos fechados sou melhor motorista que meu irmão descansado! Me ajudem a chegar até o carro que eu faço a gente chegar a Anápolis! Falou Vicente convicto.
Deixamos Vicente se acomodar no banco do motorista. Fiquei ao seu lado, no assento dianteiro, enquanto Alexandre e Henrique ficaram no banco traseiro.
Vicente Alencar não corria mais que quarenta quilômetros por hora, atropelando todos os buracos que encontrava pela estrada de chão. Seguros de que aquela velocidade não nos traria problemas maiores, fomos pegando no sono, enquanto Alexandre recitava poesias de sua autoria, para evitar o sono do nosso motorista. Só acordamos quando Alencar disse em tom vitorioso:
– Chegamos pessoal!
Meio atordoados, Henrique e eu fomos acordar já fora do carro. Olhamos em volta, estava tudo escuro e nada nos lembrava a nossa cidade, Anápolis.
– Chegamos onde Vicente?
– Em Anápolis!
– Quem disse que estamos em Anápolis?
– Olha a Praça Bom Jesus, gente!
– Que Praça Bom Jesus, Vicente! Nós estamos na Praça da Matriz de Silvânia.
Fizemos todo esforço para ficarmos acordados até chegarmos a Anápolis, sempre atentos ao nosso “motorista”.
Mara Rosa
– Será que erramos o endereço? Perguntei já preocupado.
Estávamos procurando a fazenda na qual uma grande concentração aconteceria. Depois da reunião, um churrasco nos esperava, como havíamos combinado algum tempo antes.
Desconfiados de que alguma coisa não dera certo, fomos entrando cautelosamente.
Com desencontros, devido à dificuldade de comunicação, temor de perseguição aos emedebistas, ainda assim, percorremos o estado de Goiás em busca de fortalecer o partido e de consolidar o nosso trabalho. Não foi tarefa fácil, pois com mínimos recursos financeiros, cortando o estado de sul a norte, leste e oeste num Fusca, a missão era penosa, mas gratificante.
Outra vez o amigo Tonico Leão, residente em Mara Rosa, norte do estado, bem próximo à Amaralina, nos convidou para uma grande confraternização política em sua casa, num certo dia 30. Dizia que tinha reservado duas novilhas para o grande churrasco. O compromisso daquele dia seria exclusivamente o grande evento. Saímos cedo de Anápolis. Foram quatro horas de viagem. Chegamos ao local do grande encontro e não havia o menor sinal de concentração política.
– Será que erramos o endereço? Perguntei já preocupado.
Ao nos aproximarmos da casa, apareceu Tonico sonolento:
– Hei gente, quanta satisfação em receber vocês!
– Tudo bem, Tonico?
– Tudo bem! Ali estão as novilhas que vão morrer dia 30.
Entendemos que o dia era mesmo 30, porém o mês era, por certo, outro.
Enfrentamos a viagem de volta com toda a caravana esfomeada.
Paramos num boteco de estrada para saborear pão com algumas latas de sardinha e assim, Henrique, seu cunhado Edward, seu filho Carlos Henrique, meu filho André Luís e eu, voltamos para Anápolis.
Estrela do Norte
Além das confusões de datas de reuniões, outras dificuldades eram desafio para a formação do partido oposicionista.
Filiar eleitores ao MDB era missão quase que impossível.
Até prisão os nossos companheiros enfrentaram, como Hilton Lucena, em 1971, na cidade de Estrela do Norte, quando foi preso por ordem do Juiz daquela Comarca. Hilton foi preso por estar filiando eleitores no MDB, ficou na única cela existente na cadeia pública local, juntamente com um maníaco que havia matado cruelmente quatro crianças em Mutunópolis, dias antes.
Seu colega Altivo sofreu tanta pressão da polícia por estar acompanhando Hilton que se mudou do município antes mesmo que chegássemos lá com o advogado Hiram Bezze, para defendê-los.
Foi a maior violência que presenciamos e denunciamos naquela época.
Nossa presença foi suficiente para que o Juiz relaxasse a prisão de Hilton Lucena, sem necessidade de apelarmos para o Tribunal de Justiça, com habeas corpus.
Outras arbitrariedades, contudo, continuaram acontecendo.
Jaraguá
Objetivando estruturar o Diretório Municipal do MDB de Jaraguá, obtive colaboração do companheiro Militino, farmacêutico conceituado naquela cidade. Militino ficou responsável para fazer filiações dos interessados em compor a oposição naquele município. O companheiro buscou apoio na zona rural com amigos fazendeiros e trabalhadores, uma vez que no setor urbano era quase impossível conseguir alguma inscrição ao MDB. As assinaturas foram conseguidas nas mais variadas regiões até que houvesse o número legal para organização do Diretório.
Todo satisfeito, Militino foi ao cartório eleitoral registrar os filiados no MDB. Surpresa total. Praticamente todos filiados haviam enviado oficio ao juiz eleitoral pedindo o cancelamento de inscrição.
Foram inúmeras as situações inusitadas que vivemos, mas valeu a pena!