quarta-feira, 9 de maio de 2012
Golpe de madrugada na Assembleia Legislativa
A Constituição Federal determinava que, em municípios Área de Segurança Nacional, hidrotermais ou hidrominerais, seus prefeitos não seriam eleitos pelo povo, mas, sim, nomeados. Nos municípios enquadrados como área de segurança, caso de Anápolis (GO) e Canoas (RS), os governadores desses estados enviariam os nomes ao Presidente da República que os nomearia por decreto federal. Os prefeitos de estâncias hidrominerais, hidrotermais e capitais, seriam nomeados pelo governador do respectivo estado.
Em Caldas Novas, o prefeito, durante a ditadura, foi nomeado pelo Governo Estadual. O mesmo ocorreu com Goiânia, a partir de 1969. Agora, com a proposta de Clarismar Fernandes, sem nenhum motivo que não fosse político eleitoral, a Arena se preparava para tirar do povo da antiga capital, o direito de eleger seu prefeito.
A justificativa do projeto foi a de que o município de Goiás contava com as “Águas de São João”. Segundo os golpistas manifestaram na justificativa de transformar a velha Goiás, em estância hidromineral, as Águas de São João possuíam poder de cura. Muita gente ia ao local, segundo os deputados arenistas, para encher galões e garrafas de água e levar para casa como remédio. O local, com mina d’água, fica dentro do município, mas a 180 quilômetros da sede. Tratava-se de uma região onde havia um pequeno filete de água, numa lugar de descanso para motoristas e visitantes, sem nenhuma estrutura.
O que estava por trás da manobra golpista da bancada arenista na Assembléia Legislativa era a força do MDB no município. Nas eleições de 1969, enquanto Henrique Santillo vencia Luiz Vieira, em Anápolis, um leiteiro, muito conhecido do povo de Goiás, Dário de Paiva, vencia o candidato da Arena, comandada pela Família Caiado. Como vinha ele realizando ótima administração faria, sem nenhuma dúvida, seu sucessor. Para evitar que o governador Leonino Caiado, passasse por esse vexame, Clarismar Fernandes, que aderiu à Arena a convite do, então, governador, montou essa manobra: tirar a autonomia de Goiás, transformando-a em estância hidromineral.
As discussões que começaram por volta das 23 horas de uma quarta-feira, arrastaram-se pela madrugada à dentro, com a matéria só sendo aprovada por volta das oito horas da manhã da quinta-feira, quando jornalistas e funcionários da Assembleia Legislativa chegavam para o trabalho. Essa foi a única forma de reação já que com maioria em plenário e, apoio do Governador, a manobra golpista da sua bancada, não havia sequer forma de recorrermos à justiça. Assim foi tirado do MDB mais um município importante onde sua força era inquestionável.
Esses fatores regionais, golpes certeiros e autoritários contra o povo das cidades de Anápolis e Goiás Velho, fizeram com que nossas principais lideranças políticas na ativa: Anapolino de Faria e José Freire, presidente e secretário geral do MDB de Goiás, desistissem de se candidatarem à reeleição para deputado federal, nas eleições de 1974. Defendiam a autoextinção do partido... (continua)
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
O surgimento de uma nova liderança (III)
Não nos amedrontamos ou intimidamos com o golpe. Partimos para a resistência. Acompanhado do saudoso amigo Amaral Montez, fomos a Belo Horizonte. No Departamento das Execuções Penais da Polícia Civil recebemos certidão negativa de qualquer prisão de Henrique Santillo nos presídios de Minas Gerais. No Dops nenhuma alusão a subversão do estudante Henrique Santillo no Estado. Da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, saímos com declaração de que fora o mais destacado aluno da sua turma em todo curso de medicina. No Comando da Polícia Militar, certidão de que Henrique Santillo não era fichado como comunista na G-2 de Minas Gerais.
Com essa documentação e despesas pagas pelo nosso pai Virginio Santillo, contratamos Rômulo Gonçalves, o mais experiente e famoso advogado de presos políticos em Goiás, para defender Henrique junto ao Tribunal Regional Eleitoral, para onde havíamos recorrido.
No dia da votação, o advogado da Arena presente à sessão do TRE, apresentou um fax enviado pelo governador de Minas Gerais, Israel Pinheiro, ao governador de Goiás Otavio Lage de Siqueira, em que declarava que havia tornado nula a certidão emitida pela G-2 da Polícia Militar, pois “Henrique Santillo estava mesmo fichado como comunista naquela repartição militar.”
Foi mais uma tentativa desesperada dos golpistas na luta para impedir o surgimento de uma nova liderança política em Goiás, evitando que fosse diplomado vereador em Anápolis.
O Juiz Federal José de Jesus, integrante do Tribunal Regional Eleitoral, usando da palavra no instante em que se discutia se o fax enviado pelo governador mineiro deveria ou não anular a certidão da Polícia Militar, disse em seu voto:
"Não se pode anular uma certidão, com sinete da corporação militar de Minas Gerais, por um fax enviado pelo governador Israel Pinheiro de Minas Gerais ao governador Otavio Lage, de Goiás. O que vale é o documento oficial."
Realizado o julgamento o TRE determinou a diplomação do vereador Henrique Santillo e sua posse imediata.
Mesmo com a decisão do Tribunal Regional Eleitoral a favor da diplomação do vereador Henrique Santillo, o juíz eleitoral de Anápolis, Manoel Luiz Alves, se negou a realizá-la. O TRE designou o juiz Sir Roriz, para que cumprisse sua sentença. Assim Henrique Santillo assumiu a cadeira que por mérito e justiça era sua na Câmara Municipal de Anápolis. Enquanto esteve impedido, seu substituto foi Oscar Miotto, primeiro suplente da bancada emedebista. Foi a primeira e grande vitória do grupo santillista, na luta pela resistência democrática, em Anápolis. Surgia uma nova liderança política em Goiás.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
O surgimento de uma nova liderança (I)
Oriundo de Ribeirão Preto, aqui chegando em 1944, Santillo praticamente não teve a infância que os demais meninos da sua idade tiveram. Começou a trabalhar bem cedo para ajudar na renda familiar. O restante do tempo de que dispunha, era para estudar. Cursou o Científico no Colégio São Francisco de Assis, sendo invariavelmente, o primeiro classificado da turma. Branca de Azevedo, posteriormente casada com o saudoso atleta do Ipiranga, Barroso, era sua mais direta concorrente.
Antes de ir para Belo Horizonte, onde cursou Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais, Henrique Santillo fundou e foi o primeiro presidente do Grêmio Literário Clarim das Letras e das Artes, do Colégio São Francisco.
Em Belo Horizonte, enquanto cursava Medicina, participou da política estudantil sendo presidente do Diretório Acadêmico da UFMG; presidente do Diretório Central dos Estudantes de Belo Horizonte e presidente da UEE mineira.
Casado, pai de duas filhas, Sônia e Elidya, professor de química no cursinho preparatório Alfredo Balena, o mais importante da capital mineira, participando ativamente da política estudantil, mesmo assim, foi o primeiro colocado da turma de medicina de 1963.
Retornando a Anápolis no início de 1964, instalou seu consultório médico no prédio da Tipografia Glória, na Avenida Goiás. Prestou serviços à Santa Casa de Misericórdia, Hospital São Zacarias e ao Serviço de Atendimento Médico Domiciliar de Urgência - Samdu.
Em 1966 filiou-se ao MDB. Partido de oposição, presidido em Anápolis pelo, então, deputado Haroldo Duarte. Partidos tradicionais, criados com a redemocratização do Brasil em 1945, cederam lugar a Aliança Renovadora Nacional (Arena), de apoio à ditadura de 1964 e Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição. No mesmo ano, foi candidato a vereador. Concorreu dentro do MDB, com figuras destacadas da política anapolina, como João Furtado de Mendonça, Homero Ferreira, Adão Mendes Ribeiro, Laudo Puglisi, Raimundo de Oliveira Lima, João Luiz de Oliveira, Oscar Miotto, etc. Na chapa arenista a maior expressão foi o, também, médico, proprietário do Hospital São Zacarias, Elias Abrão. Era tido como a maior liderança política anapolina e, se preparava para ser candidato à Prefeitura pela Arena, em 1969...
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Queda e retorno da autonomia política
Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.
Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”
Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.
Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.
Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de 1964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Eurico Barbosa revigorou nossas energias
Ao citar algumas figuras folclóricas eleitas na atual legislatura para o Congresso Nacional, Eurico deixa claro que pior que esses, são aqueles que foram eleitos pelo poder econômico, pela malversação do dinheiro público e pela propinagem. O oportunismo de donos de partidos, lançando candidatos, figuras folclóricas do mundo artístico, ou expressões consagradas no meio esportivo, escancarou as portas dos parlamentos para o descrédito da atividade política. Lançam os chamados puxadores de votos, para que possam ir às suas costas.
Dentro desse quadro desolador e pouco republicano descrito pelo jornalista em “Desolação,” depois de lamentar pela exclusão de figuras reconhecidamente dotadas de responsabilidade moral e intelectualmente bem preparadas, cedendo lugar aos representantes do populismo de big brother ou da propinagem, lamenta a mediocridade de muitos que têm assento nas casas legislativas.
A citação ao nosso trabalho como políticos que honraram o mandato popular, nos emocionou. Revigorou nossas forças para prosseguirmos nessa caminhada em busca da justiça social, de uma sociedade cada vez mais liberta e democrática. Eurico Barbosa, em “Desolação,” ao lamentar que o poder econômico tenha substituído o mérito moral e intelectual nas disputas eleitorais, arremata: “Parece que nunca mais teremos os Afonso Arinos, os Almino Afonso, os Aleomar Baleeiro, os Franco Montoro, os Ulysses Guimarães, os Simão da Cunha, os Vasco dos Reis, os Paulo Campos, os Celestino Filho, os Peixoto da Silveira, os Wagner Estelíta, os Henrique e Ademar Santillo, centenas de outros políticos pobres mas intelectualmente brilhantes que honraram o Congresso Nacional.”
Essa declaração, verdadeiro manifesto público, nos enche de orgulho e satisfação, porque Eurico, como deputado estadual em 1966, ao lado de Iturival Nascimento, foram as duas únicas vozes que se levantaram a favor de Henrique Santillo, eleito o vereador mais votado de Anápolis, não foi diplomado, por perseguição política, com a conivência da Justiça Eleitoral do Município. A ditadura militar de 64 não aceitava contestações. O MDB de Anápolis de estrutura conservadora não tinha motivação para defender seu membro perseguido. Sabia que Henrique impedido de exercer o mandato os votos ficariam com a legenda. Poucos externaram seu protesto. O MDB estadual, sucessor do PSD, ainda atordoado pela derrota de Peixoto da Silveira e cassação de inúmeras lideranças, simplesmente ignorou o episódio de Anápolis.
Os deputados Eurico Barbosa e Iturival Nascimento formalmente protestaram contra a violência, colaborando para que o TRE reformasse a decisão do juiz eleitoral de Anápolis, diplomando e empossando Henrique Santillo. Essa ação política permitiu que a caminhada prosseguisse. Não morresse no nascedouro. Muitas outras perseguições enfrentamos nestes 45 anos que nos separam daquele fatídico acontecimento.
Processos dolosos montados por adversários e órgãos da repressão, tentativa de cassação dos nossos mandatos, prisões em massa de companheiros, cassação do mandato de José Batista Júnior e transformação de Anápolis em Área de Segurança Nacional, fechamento de emissora de rádio... A tudo resistimos, sempre contando com o apoio popular. Valeu a pena lutar. Uma avaliação como essa feita por Eurico Barbosa é o maior galardão que um político pode receber.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Democracia: Conquista de Todos Nós
Lysâneas Maciel era uma das figuras mais lúcidas e inteligentes da Câmara Federal na legislatura 1975/78. Revoltado e indignado com as cassações dos colegas gaúchos, Nadir Rosseti e Amaury Muller, leu os discursos que os dois fizeram num comício para as eleições municipais de Palmeira das Missões, interior do Rio Grande do Sul, e que deram origem às cassações. Ao terminar a leitura, teve seu mandato cassado. Os três, da mesma forma que Chico Pinto, faziam parte do grupo autêntico do MDB.
Com Marcos Tito, do grupo autêntico de Minas Gerais, a cassação do mandato não foi menos folclórica e revoltante. Usando o grande expediente da Câmara, discorreu sobre a economia brasileira. Fez críticas à política econômica conduzida pelo ministro Delfim Neto e apresentou sugestões para correção de rumo. Foi aparteado pelas principais figuras da Arena em plenário. Ao descer da tribuna, foi cumprimentado efusivamente pelos deputados presentes. Dois dias depois, vice-líder da Arena apresentou da tribuna um exemplar do Jornal Voz Operária, órgão oficial do proscrito Partido Comunista Brasileiro-PCB. Leu o editorial da sua primeira página, argumentando que Tito baseara nele o seu discurso.Foi cassado depois de ter ficado alguns dias em banho maria.
O líder do MDB na Câmara, deputado Alencar Furtado, também do grupo emedebista autêntico, cassado porque fez críticas à ditadura no horário eleitoral reservado pelo Tribunal Superior Eleitoral –TSE ao MDB. Marcelo Gato, cassado sob alegação de ter sido apoiado pelos comunistas de Santos e litoral paulista.
Pessoas amantes da liberdade, que lutaram intensamente contra a ditadura militarista imposta ao País por meio do golpe de 1964, estão satisfeitas e eufóricas com a solidez da nossa democracia. Lutaram contra a ditadura que garroteou os sindicatos livres, movimentos estudantis e forças populares. Ditadura que marginalizou, alienou, perseguiu, prendeu, matou e desapareceu com jovens e trabalhadores. Golpe que impediu o surgimento de verdadeiros lideres, substituídos que foram por elites dominantes e aproveitadores.
Eleição e posse de uma mulher na presidência da república, substituindo o maior líder sindical brasileiro em todos os tempos, mostra que hoje nossas instituições estão sólidas. Não correm risco de golpes pelo poderio econômico ou pelas armas. No entanto, isso não veio de mão beijada ou pelo acaso. Esse momento só foi possível pela luta dos que resistiram e acreditaram que um dia a ditadura seria derrubada.
Tenho o maior orgulho de ter participado e ajudado na construção desse momento que estamos vivendo. Afastado compulsoriamente que fui da militância estudantil em 64 – presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis (UESA) –, ingressei no MDB, partido que ajudei formar e que tanto auxiliou na luta pela redemocratização. Batalha difícil. Contamos, na primeira hora, com pessoas humildes, os chamados descamisados. Sem terem nada mais a perder, nos seguiam numa jornada que parecia não ter fim. Posseiros, índios, garimpeiros e desempregados desesperançados foram nossos fiéis seguidores na organização do MDB inicial. Em Goiás, papel importante desempenharam os companheiros e advogados Vicente de Paula Alencar e Altair Garcia Pereira, o Braguinha, defendendo os injustiçados e espoliados.
No início dos anos 1970, fomos a Formoso defender um grupo de posseiros. Depois de ouvi-los, caminhávamos pela rua central da cidade, quando Jair, o líder do grupo e do diretório do MDB local, exclamou:
– Ali naquele Cartório Eleitoral acontecem os maiores escândalos!
– Que tipo de escândalo, Jair ? Perguntei
– Título de eleitor com fotografia trocada é o que mais tem!
- Quem lhe disse isso Jair ? Indagou, Alencar.
– O meu mesmo, está com fotografia que não é a minha!
– O nome que está no titulo é o seu e a fotografia de outra pessoa? É isso?
– Pior doutor! Nome também não é o meu.
– Nesse caso Jair, antes de denunciar alguma coisa, vá amanhã cedo ao cartório e troque o título. Você está com título de outro eleitor! – Arrematou Alencar.
Mesmo com esses líderes muitas vezes inocentes e desinformados, criamos um MDB forte e fizemos a resistência democrática.
segunda-feira, 15 de março de 2010
A origem dos Irmãos Coragem e Metralha

Publicado na edição de 04/03/2010 do jornal Diário da Manhã
Com o golpe militar que destituiu o presidente João Goulart, em 31 de março de 1964, as principais lideranças políticas pertencentes ao PSD, em Goiás, lideradas pelo senador Pedro Ludovico, foram paulatinamente cassadas ou cooptadas pelos novos detentores do poder. Os udenistas assumiram o governo no Estado, mesmo antes da vitória de Otávio Lage, em 1965, com a cassação do governador Mauro Borges e designação do general Meira Matos, como interventor.
Uma oposição diferente foi organizada em Goiás. Oposição disposta a lutar contra a ditadura e seus malefícios. Sem se deixar contaminar pelas benesses do poder. Assim jovens, na maioria sem passagem por outras siglas partidárias, se organizaram no Movimento Democrático Brasileiro-MDB.
Em Anápolis, como Raul Balduíno fora eleito prefeito numa aliança PSD-PTB, a oposição foi composta por remanescentes do PSD, que preferiram o MDB, a serem liderados de Henrique Fanstone, chefe arenista no município. Novas lideranças, principalmente do setor estudantil, optaram também pelo MDB.
A diferença de comportamento e prática política entre as duas correntes era notória. Enquanto os oriundos do PSD faziam oposição a Henrique Fanstone, os jovens faziam oposição à nova ordem política instalada no País. Faziam oposição à ditadura.
O PSD anapolino, nas eleições de 1965, fez acordo, por baixo do pano, com parte da Arena, a liderada pelos Caiado, apoiando Otávio Lage de Siqueira ao governo, “cristianizando” Peixoto da Silveira, candidato do PSD. Em troca, a ala Caiado votaria em Raul Balduíno, PSD|PTB, abandonando Henrique Fanstone, de quem era inimiga.
O primeiro grande embate interno no MDB anapolino aconteceu nas eleições legislativas de 1966. As 15 cadeiras na Câmara Municipal eram preenchidas sistematicamente por representantes de famílias numerosas no município. Na primeira disputa entre emedebistas e arenistas, esse quadro mudou, com a vitória de Henrique Antônio Santillo, como o vereador mais votado de todos os tempos em Anápolis, com 1.536 sufrágios. A família Santillo era formada por cinco componentes que vieram de Ribeirão Preto-SP, na década de 40.
A extraordinária votação por ele obtida e a desastrosa atitude do juiz eleitoral ao não diplomá-lo, ao alegar ser ele comunista, ensejaram o surgimento do santillismo, símbolo da resistência democrática local.
Em 1969, Henrique Santillo (MDB) foi eleito prefeito, derrotando Luiz Vieira (Arena). Nas eleições legislativas do ano seguinte, 1970, o MDB elegeu dez vereadores e a Arena os cinco restantes. Pelo MDB foi reeleito Anapolino de Faria a deputado federal, enquanto fui eleito deputado estadual. Assim que a Mesa Diretora da Câmara foi eleita, composta só por vereadores leais ao prefeito Henrique Santillo, os emedebistas, oriundos do velho PSD, romperam com Henrique Santillo. Três vereadores que os acompanhavam, Linconl Xavier Nunes, Pedro Sergio Sobrinho e João Divino Cremonez, passaram a votar com os arenistas, em oposição a Henrique Santillo. O MDB, que tinha maioria folgada de 10 X 5, passou a ser minoritário de 7 X 8.
Tentaram afastar o vereador Valmir Bastos (MDB) da presidência da Câmara. Acusado de subversivo, foi preso várias vezes. Queriam na verdade afastar o prefeito Henrique Santillo, elegendo um presidente que fosse seu adversário. A bravura do presidente e a coragem dos santillistas, apoiados pelo deputado Anapolino de Faria, evitaram a violência dos adesistas.
Em 1972, para a sucessão de Henrique Santillo, os adesistas do MDB apoiaram o candidato arenista, Euripedes Barsanulfo Junqueira. Mesmo assim, a vitória do professor José Batista Júnior (MDB) foi consagradora. A derrota do professor Euripedes Junqueira, considerado uma reserva moral do partido e de grande prestígio popular, assustou os arenistas de Goiás. Cansados de apanhar, decidiram tirar a autonomia política de Anápolis, transformando-a em Área de Interesse à Segurança Nacional.
A violência aconteceu em 28 de agosto de 1973, com base no AI-5, José Batista Júnior foi cassado e seu vice Milton Alves Ferreira, impedido de assumir o cargo. A Arena assumiu o poder em Anápolis, com a nomeação de Irapuan Costa Júnior.
O MDB continuou ganhando as eleições das quais o povo participava. Graças a isso tudo e à coragem que nunca faltou ao grupo, os santillistas ficaram conhecidos como “Irmãos Coragem”.
Em 1974, Henrique, candidato a deputado estadual e eu, candidato a deputado federal, aparecíamos no horário eleitoral, que era ao vivo, com o “pingue-pongue da verdade”, criticando a ditadura. Os “Irmãos Coragem” deixaram de ser marca meramente anapolina para ser de todo o Estado. Ao mesmo tempo, os Santillo foram conhecidos como os que metralhavam a ditadura. Daí a origem de “Irmãos Metralha”.
terça-feira, 2 de março de 2010
Cronologia da Violência
Primeiro de abril de 1964: Após ter sido eleito o primeiro presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis pelo voto direto, Adhemar Santillo é destituído do cargo pelos integrantes do golpe que destituiu o Presidente da República João Goulart.
Maio de 1964: Adhemar Santillo é preso juntamente com médico Fuad Siad, acusados de pertencerem ao movimento clandestino Ação Popular (AP). Responderam a inquérito policial na Secretaria de Segurança Pública de Goiás.
Junho de 1964: Adhemar Santillo responde a Inquérito Policial Militar (IPM), comandado pelo Exército Brasileiro. Conclusão do IPM: não é encontrado nada que possa incriminá-lo.
Junho de 1964: Adhemar é impedido de trabalhar como radialista na Rádio Carajá de Anápolis ou qualquer outra emissora de radiodifusão da cidade pelo coronel Izacir Telles.
Agosto de 1964: Por determinação do coronel Epitácio de Brito, chefe de gabinete militar do governador Ribas Jr., Romualdo Santillo é preso por haver escrito no jornal Correio Braziliense, em sua coluna diária “O Que Se Comenta”, notícia em que fazia crítica à postura do coronel. Com seus jantares diários realizados no Palácio das Esmeraldas em Goiânia, o coronel buscava apoio a uma possível candidatura ao governo do Estado pela UDN, nas eleições que aconteceriam em 1965.
Dezembro de 1966: Henrique Santillo, eleito vereador da Câmara Municipal de Anápolis, deixou de ser diplomado pelo Juiz Eleitoral Manuel Luis Alves, sob a acusação de ser fichado como comunista na G2 da Polícia Militar de Minas Gerais. Henrique Santillo foi diplomado e empossado quando o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Goiás, em vista de documentos oficiais buscados por Adhemar em Belo Horizonte e acostados ao processo, atestou não ser Henrique fichado naquela corporação.
1969: Candidato a prefeito de Anápolis pelo MDB, Henrique Santillo teve seu registro de candidatura, diplomação e posse impugnados pelos adversários, sempre com denúncias e documentos falsos. A Justiça Eleitoral não deu provimento a nenhuma das denúncias, mandando-as ao arquivo.
Janeiro de 1971: Encerradas as eleições de 1970, Anapolino de Faria foi o candidato a Deputado Federal mais votado em Anápolis e Adhemar o mais votado para a Assembléia Legislativa. Integrantes do MDB do município, contrários aos Santillo, denunciaram Henrique Santillo, Anapolino de Faria e Adhemar Santillo à Polícia Federal, acusando-os de prática de corrupção eleitoral naquelas eleições. Foi designado o delegado Jesus Lisboa para a realização do inquérito que, concluído, ficou engavetada na Procuradoria Geral do Estado.
Janeiro de 1971: Dos quinze vereadores que compunham a Câmara Municipal de Anápolis, foram eleitos em 1970 dez pertencentes ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e cinco da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Foram eleitos para a mesa diretora da Camâra, biênio 1971/1972, Antônio Marmo Canedo como Presidente, Walmir Bastos Riberio como vice-Presidente e Walter Gonçalves de Carvalho como Secretário, todos emedebistas e santillistas. Antônio Marmo Canedo faleceu no exercício da Presidência. Para substituí-lo, foi efetivado Walmir Bastos.
1972: Com a morte de Antônio Marmo Canedo, três vereadores do MDB (Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sergio Sobrinho), não ligados a Henrique Santillo, passaram a votar de acordo com os cinco arenistas em oposição ao prefeito. Os adversários lutaram para que Walmir Bastos, Presidente da Câmara, aderisse à ala do MDB oposicionista a Henrique. Não conseguiram e passaram a perseguí-lo com auxílio dos órgãos de repressão, comandados pela Polícia Federal e Delegacia da Ordem Política Social do Estado, sendo preso por três vezes consecutivas. A última prisão de Walmir foi a mais violenta, pois foi retirado sob mira de metralhadoras de dentro do carro em que Adhemar lhe dava uma carona. Foi conduzido à Brasília e dele foi exigido que renunciasse à Presidência da Câmara e ao seu mandato de Vereador. Se cumprida, essa exigência abriria a vaga do Presidente da Câmara Municipal de Anápolis para os opositores ao prefeito. Com isso, usariam o documento do inquérito feito pela Polícia Federal e afastariam Henrique Santillo da Prefeitura. Das duas vezes anteriores, Walmir suportou todas as pressões. Dessa vez, contudo, não resistiu às torturas psicológicas e físicas. Acabou assinando sua renúncia ao mandato e entregou-a ao major Leopoldino, chefe da carceragem em que se encontrava nas dependências do Exército Brasileiro em Brasília. Alertado pelo Deputado Estadual Adhemar Santillo, o presidente nacional do MDB, Deputado Federal Ulysses Guimarães, denunciou a trama à nação e o documento assinado por Walmir Bastos à base da tortura nunca chegou a Câmara Municipal de Anápolis. Walmir cumpriu seu mandato até o final, o mesmo acontecendo com o Prefeito Henrique Santillo.
1 de fevereiro de 1973: Na madrugada do dia em que José Batista Jr. tomaria posse substituindo Henrique Santillo na prefeitura de Anápolis, policiais militares do estado invadiram os estúdios e transmissores da Rádio Carajá, pertencentes aos santillistas desde 1967, alegando cumprir ordens do Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL). Afastaram os santillistas da sua direção, devolvendo-a ao seu antigo proprietário, Plínio Jayme.
Maio de 1973: Adversários do médico Henrique Santillo exigiram da direção nacional do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) seu descredenciamento daquele instituto, com o objetivo de forçá-lo a mudar-se de Anápolis ou abandonar a luta oposicionista. Algum tempo depois, médicos anapolinos forçaram o INPS a rever a punição, com Henrique sendo recredenciado.
Agosto de 1973: Sete meses após sua posse, o prefeito José Batista Jr. teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos, com base no Ato Institucional n°5 (AI-5), pelo Presidente Emílio Garrastazu Médici. No mesmo dia, o município de Anápolis foi considerado área de Interesse à Segurança Nacional e o engenheiro Irapuan Costa Jr. nomeado Prefeito.
Setembro de 1973: Adversários dos Santillo, com auxílio da Polícia Federal e do DOPS estadual, prenderam vários integrantes do MDB de Anápolis, dentre eles ex-secretários do prefeito Henrique Santillo e líderes comunitários, levando-os para as dependências do DOPS em Goiânia. O objetivo era arrancar, sob pressão e tortura, denúncias contra Henrique e Adhemar Santillo. A trama só foi desfeita quando o Advogado Vicente Alencar, acompanhado de Adhemar, entregou pessoalmente ao Ministro do Exército, Orlando Geisel, completo relatório dos planos escusos que estavam acontecendo em Goiás.
Maio de 1974: Por determinação do Procurador de Justiça do Estado, o inquérito elaborado pela Polícia Federal em 1971 contra Henrique e Adhemar Santillo foi encaminhado ao Ministério Público de Petrolina, para que apresentasse denúncia contra os dois, com a finalidade de afastá-los da disputa eleitoral daquele ano. O Promotor Decil de Sá Abreu negou-se a fazer a denúncia e o processo foi encaminhado à comarca de Anápolis. Ali, o Ministério Público apresentou a denúncia, que não foi recebida pelo Juiz Eleitoral Clementino Alencar. Caso o juiz a aceitasse, os dois irmãos não poderiam disputar a eleição para Deputado Estadual e Federal como disputaram, pois a lei das inelegibilidades impedia registro de candidatura pela simples aceitação da denúncia pelo Judiciário para esse tipo de crime eleitoral.
25 do Maio de 1975: Rádio Santana Ltda., pequena emissora de rádio-difusão com 250 Watts de potência, adquirida pelos Santillo depois da invasão da Rádio Carajá, foi fechada por determinação expressa do Ministro das Comunicações Quandt de Oliveira. Deixava de ir ao ar o programa noticioso “O Povo falou, tá Falado”, que, desde 1967, era apresentado por Romualdo e Adhemar Santillo.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
O sumiço dos fuzis do Tiro de Guerra
– Walmir, você é elemento muito ativo, quem foi que assaltou o Tiro de Guerra de Anápolis e levou os fuzis?
– Adhemar Santillo e Washington Barbosa!
Depois de sofrer torturas físicas e psicológicas durante o tempo em que estava preso nas dependências do PIC em Brasília, só restou ao vereador Walmir Bastos fazer a confissão que foi recebida com euforia pelos seus torturadores, apesar de inverossímil.
Com o único objetivo de controlar a política administrativa de Anápolis, a Polícia Federal e setores específicos do Exército na década de 70 prenderam o presidente da Câmara Municipal, o vereador Walmir Bastos Ribeiro, pelo menos em três oportunidades distintas.
Quando prenderam Walmir Bastos, dentro do meu carro, no estacionamento privativo da prefeitura municipal, na Praça do Bom Jesus, foram presos na mesma época Washington Barbosa, Maristela Mendes, Alexandre Almeida, Geraldo Tibúrcio e outros acusados de atividades subversivas. Ficaram presos no PIC, em Brasília e a tortura psicológica contra o vereador foi intensa e revoltante. Na mesma época, alguns integrantes da “Guerrilha do Araguaia” como José Genuíno, estavam também recolhidos nas dependências do Exército, para onde levaram Walmir Bastos.
Como faziam o jogo da ARENA de Goiás, queriam a renúncia do “Baiano”, como carinhosamente era conhecido por ser de Brotas da Macaúba. Walmir era submetido diariamente a interrogatórios intermináveis. Cansado, deprimido, sem força para reagir, resistiu o máximo que sua força suportou. Decidiu assinar documento renunciando a presidência da Câmara Municipal de Anápolis e o próprio mandato de vereador.
Contudo, antes de assinar o papel elaborado pelo oficial identificado como major Leopoldino, outras indagações foram feitas a ele, que nas inquisições anteriores não haviam perguntado:
– Walmir, você é elemento muito ativo, quem foi que assaltou o Tiro de Guerra de Anápolis e levou os fuzis?
– Adhemar Santillo e Washington Barbosa!
Logo após o golpe de 31 de março, que destituiu João Goulart da presidência da República, o TG-53, de Anápolis foi assaltado numa madrugada, com os assaltantes levando 20 fuzis, que serviam para o treinamento dos seus atiradores.
A alegria foi total entre os torturadores de plantão. Julgavam que tinham descoberto os autores de um dos assaltos mais ousados contra uma instituição militar: assalto ao Tiro de Guerra-53 de Anápolis e roubo de 20 fuzis. Já se imaginavam condecorados com medalhas de honra ao mérito e promoção na carreira. Major Leopoldino, que não disfarçava seu contentamento, insistiu em busca mais informações:
– Walmir, quem é Adhemar Santillo?
– É Deputado Estadual do MDB em Goiás!
Decidiram que dariam mais esclarecimento à questão com acareação entre Walmir Bastos e Washington Barbosa que também estava ali preso. Ao ser buscado na sua cela para a acareação, sendo informado do que se tratava, Walmir reagiu, desconversando a declaração dada sob pressão psicológica no dia anterior:
– Quando colocaram aquele capuz na minha cabeça, pensei no pior.
– Que pior, safado? Perguntou Leopoldino.
– Ontem me deram murro na cabeça e muitos chutes!
– Nós vamos colocar você e o Washington frente a frente. Você vai declarar que os fuzis do Tiro de Guerra foram furtados por ele e pelo Adhemar Santillo!
– Inventei a história para não apanhar mais. Na frente de outras pessoas falo apenas a verdade... Disse Walmir.
– Qual é a verdade?
– Se nem vocês com esta força toda sabem quem assaltou o Tiro de Guerra, eu é que vou saber?
Walmir foi solto. O debate sobre o assalto ao TG e furto das armas ficou por ali mesmo, já que em Anápolis nunca foi aventada essa história.
Solto, após atender o capricho do major Leopoldino, assinando a renúncia do seu mandato no PIC, em Brasília, Walmir continuou desempenhando suas funções como vereador e presidente da Câmara, porque seu pedido de renúncia nunca foi formalizado à Câmara Municipal.
Duro golpe contra os arenistas de Anápolis que apostavam no seu afastamento e a conseqüente eleição de um anti-santillista para a presidência. O sonho dos golpistas era afastar Henrique Santillo da Prefeitura. A presença do “Baiano” na presidência da Câmara abortava, como de fato abortou, qualquer manobra antidemocrática.
Nova Ordem Política em Goiás
- Doutor Rômulo, esta questão para nós não é apenas para defender a legenda do MDB. Estamos empenhados nessa luta para que a justiça seja feita ao Henrique e para evitar que outros possam vir a ser injustiçados.
- Fiquem tranquilos, sou advogado do cidadão Henrique Santillo, que é do MDB.
Esse foi um momento angustiante na nossa vida política, apesar da primeira vitória eleitoral de Henrique.
As principais lideranças políticas do Estado de Goiás haviam sido cassadas e afastadas da política partidária pelo regime ditatorial implantado no país a partir de 1964. Líderes da capital e do interior ligados ao Partido Social Democrático - PSD, sempre prestigiados pelo dr. Pedro Ludovico Teixeira, aderiram imediatamente à Arena, partido oficial do governo federal.
A história política de Anápolis passou a ter um novo ingrediente que alterou profundamente o curso dos acontecimentos a partir de 1966. A espetacular vitória de Henrique Santillo para vereador nesse ano foi o prenúncio de que novos rumos surgiriam na vida política dos anapolinos.
Até então a política no Município era comandanda com vitórias sucessivas pelo coronel Achiles de Pina , com exceção da derrota de seu genro e candidato a vice prefeito Italo Naghetini derrotado por Henrique Fanstone, em 1960.
A Lei Eleitoral da época permitia o voto em separado para prefeito e vice-prefeito, podendo o eleitor votar no Prefeito de uma chapa e no candidato a vice prefeito de outra chapa. Foi o que aconteceu com Jonas Duarte, prefeito eleito pela coligação PSD-PTB e Henrique Fanstone seu vice-prefeito, eleito pela UDN.
Este fato, contudo, não abalou o prestígio do coronel até então o mais destacado líder politico, que elegeria seu candidato a prefeito Raul Balduino na eleição seguinte,em 1965, derrotando Henrique Fanstone.
Neste pleito de l965 Henrique Fanstone, médico muito querido, logo de saída agradou o povão, reunindo pessoas, que em massa, seguiam da Praça James Fanstone para os comícios em diversos pontos da cidade, numa rotina diária impressionante. No início lançando mão das frases de efeito contra o adversário, Henrique Fanstone foi perdendo simpatizantes entre eleitores mais tradicionais. Mas agradava seu fanático grupo de apoio, o que o encorajava a aumentar suas críticas pelo seu jeito franco de falar e de encarar as coisas.
Outro complicador enfrentado por Fanstone foi a decisão dos udenistas que trabalharam e votaram em favor de Raul Balduíno. A posição de Henrique Fanstone na Convenção da UDN a favor de Otávio Lage e contra Emival Caiado, o outro postulante ao governo estadual provocou a retirada de apoio do grupo a Fanstone e foi criado o chamado “Comitê do Meio”, apoiando Otávio Lage para o governo e Raul Balduino para a prefeitura em Anápolis.
O candidato do PSD, Raul Balduíno médico, também muito conceituado, era ligado à classe média e setores mais ricos da sociedade
A campanha que no início era francamente favorável a Fanstone, chegou na reta final bastante equilibrada. Quando os votos foram apurados nos distritos de Joanápolis, Interlândia, Rodrigues Nascimento, Goialândia e setor central de Anápolis, Henrique Fanstone estava com algumas dezenas de votos à frente de Raul Balduíno. Contados os votos de Souzânia, Raul Balduino não apenas tirou diferença como venceu o pleito por 222 votos de frente. Ficava mais uma vez em posição de destaque junto ao eleitorado anapolino o cel. Achiles de Pina
Na eleição seguinte para Câmara Municipal, uma supresa mudou completamente o cenário da política local com a eleição de Henrique Santillo que obteve a maior votação já vista no município.
Mesmo tendo passado sua vida em Anápolis até o ensimo médio, científico na época, depois disso ficara vários anos fora cursando medicina em Belo Horizonte. Adepto de pensamentos socialistas de esquerda, Henrique engajou-se na política logo que retornou à cidade. A sua eleição assustou os adversários que passaram a usar dos mais sórdidos expedientes para impedir sua diplomação, inclusive forjando documentos apócrifos, como se fossem enviados pelo SNI com acusações caluniosas e difamatórias.
A princípio conseguiram êxito na trama pois contaram com apoio decisivo do Juiz Eleitoral de Anápolis que aceitou a denúncia e se negou a diplomá-lo vereador. A papelada montada de última hora sem qualquer autenticação ou timbre de instituição, alegando que Henrique era fichado no G2 da PM de Belo Horizonte, era uma farsa tão escabrosa que foi desmacarada com uma certidão negativa que pessoalmente busquei no citado órgão militar, imediatamente após a negativa de diplomação.
Sofri junto com meu irmão e toda nossa família até a consumação da sua diplomação, o que aconteceu em abril do ano seguinte, quando o Tribunal Regional Eleitoral do Estado, apreciando o processo em grau de recurso, reformou a sentença do dr. Manoel Luiz Alves, considerando os documentos apresentados pelos denunciantes como inconsistentes diante da certidão negativa do G2 da Policia Militar de Minas Gerais.
A defesa de Henrique no TRE foi feita pelo advogado Rômulo Gonçalves um dos mais renomados defensores de presos políticos em Goiás e as despesas com a tramitação do processo foram bancadas pelo nosso pai, com os pequenos recursos financeiros que dispunha.
Enquanto essa trama contava com total apoio do Palácio das Esmeraldas e o comando político arenista de Goiás, nem o próprio MDB se manifestava contra a arbitrariedade. Pelos recentes desdobramentos causados pelo regime militar instalado a menos de dois anos, poucos se dispunham a constestar atos arbitrários. Havia um receio, mesmo entre os emedebistas, de defender alguém acusado de comunista, o que representava naquela época um crime inaceitável. Assim, além dos adversários partidários enfrentamos a omissão e falta de solidaridade das forças tradicionais do próprio MDB, que não nos reconheciam como militantes politicos, visto nosso recente ingresso na política partidária. Lutamos sozinhos pelo mandato de vereador do Henrique porque a preocupação maior do partido era assegurar que os votos fossem aproveitados para a legenda do MDB.
Romualdo e eu tomamos a frente para ajudar nosso irmão e não medimos esforços em procurar a bancada emedebista da Assembléia Legislativa , conseguindo apoio dos deputados estaduais Eurico Barbosa e Iturival Nascimento que usaram a tribuna denunciando a perseguição política que Henrique estava sofrendo. Foi a manifestação de solidariedade dada pelo MDB estadual ao episódio.
Essa ausência de apoio fêz com que procurássemos o advogado Rômulo Gonçalves para alertá-lo:
- Doutor Rômulo, esta questão para nós não é apenas para defender a legenda do MDB. Estamos empenhados nessa luta para que a justiça seja feita ao Henrique e para evitar que outros possam vir a ser injustiçados.
- Fiquem tranquilos, sou advogado do cidadão Henrique Santillo, que é do MDB.
Fizemos esse alerta ao dr. Rômulo Gonçalves por uma preocupação que o acaso nos propiciou.
Procurando envolver o maior número de autoridades para expor a arbitrariedade cometida contra um representante do povo, legitimamente eleito, resolvemos procurar um desembargador de Anápolis, dr. Jorge Salomão.
Formalmente nos apresentamos no seu gabinete noTribunal de Justiça. Ficamos aguardando na ante-sala e enquanto esperávamos pelo seu atendimento ouvimos a argumentação de dois líderes do MDB anapolino ao desembargador, onde afirmavam:
- Quanto a isso o Tribunal Superior Eleitoral já possui jurisprudência. Cassa-se o mandato do comunista mas os votos ficam para o partido.
Saimos dali mesmo, sem sermos percebidos, direto para o escritório do dr. Rômulo Gonçalves levando informação da conversa ouvida, que demonstrava pouco interesse para defender o Henrique, desde que os votos ficassem com a legenda.
A vitória de Henrique no Tribunal Regional Eleitoral, TRE e sua posse como vereador abriram caminho para novos rumos na política de Goiás.
Na eleição de 1966 o povo atropelou as tradicionais lideranças políticas de Anápolis consolidando, com antecedência, a candidatura de Henrique Santilo à sucessão de Raul Balduino.
Reconhecido pela sua visão socialista e idéias progressistas, Henrique encontrou respaldo em companheiros do MDB para se candidatar a prefeito na eleição seguinte. Com apoio decisivo do deputado Anapolino de Faria, teve condições necessárias e indispensáveis para vencer os conservadores que lutavam em favor da candidatura Thales Reis, também pelo MDB à prefeitura.
Era o ano de l969, quando seriam eleitos os novos prefeitos que substituiriam aqueles que haviam sido eleitos pelos partidos politicos criados na década de l940. A exemplo da eleição anterior onde dois partidos disputaram a preferência do eleitor, o pleito de l969 seria disputado com dois candidatos , representando Arena e MDB.
Em Anápolis o nome preferido da cúpula emedebista era o de Thales Reis, delegado de polícia, genro do cel. Achiles de Pina, até então a maior liderança política do município.
Realizada uma reunião por iniciativa do jornalista Moacyr Junqueira, editor chefe do jornal O Anápolis e assessor politico do deputado federal Anapolino de Faria, lideres do MDB, como o advogado Lincoln Xavier Nunes e professor José Batista Júnior, elaboraram documento em nome dos integrantes do diretório municipal apoiando a candidatura de Henrique Santillo à sucessão de Raul Balduíno.
Em pouco tempo o nome do Henrique, como médico e vereador mais votado em Anápolis na eleição anterior, contagiou as camadas populares.
Henrique, contudo, não aceitava a idéia de se candidatar a prefeito.
Foi quando, mais uma vez, Moacyr Junqueira e demais líderes do MDB se reuniram lançando, desta vez o meu nome à prefeitura pelo MDB, caso Henrique não aceitasse ser candidato.
O assunto foi matéria na edição do dia seguinte, quando o jornal O Anápolis trouxe em sua principal manchete “Adhemar Santillo poderá ser o candidato do MDB”.
Sobre este episódio histórico, em entrevista concedida à Rádio Manchester AM 590, em agosto de 2007, José Batista Júnior, comentou:
- Como Henrique Santillo não se dispunha a ser o candidato a prefeito no pleito de l969, decidimos que nosso candidato seria Adhemar Santillo. Lamento que Moacyr Junqueira e Linconl Xavier não se encontram mais entre nós para confirmarem o que falo. Os arquivos do jornal O Anápolis , do ano de l969, podem comprovar nossa decisão.
José Batista Jr. acrescenta:
_ Indicamos Adhemar Santillo porque, mesmo muito jovem, já era grande lider em Anápolis. Adhemar sempre foi o desbravador, o trator que abria o caminho e pavimentava a estrada para Henrique Santillo executar o trabalho. Romualdo, o mais novo dos irmãos, sempre trabalhou na retaguarda, fazendo o trabalho intelectual. O pára-choque da familia sempre foi o Adhemar. Com êle nunca houve missãõ dificil ou impossível. Sempre foi “pau para toda obra”.
Devido a nossa insistência e de todos companheiros Henrique aceitou ser candidato a prefeito. Com espírito conciliador e sem objetivo de isolar ou sufocar seus adversários dentro do partido, escolheu para companheiro de chapa Thales Reis.
A vitória dos emedebistas foi extraordinária em 1969, com o dobro dos votos do seu concorrente, Luiz Vieira, vice prefeito de Anápolis e que se candidatara pela Arena. Estava desenhada, com a maior nitidez, uma nova ordem política em Goiás daí em diante.
Neste período ditatorial de 64, os goianos eram conhecidos como autênticos, combatentes e corajosos, ao lado dos emedebistas de Pernambuco e do Rio Grande do Sul,
Em Anápolis, com vitórias que conquistamos nas urnas e destemor que tínhamos no exercício dos mandatos, este conceito se justificou. Foi o fim da política provinciana, coronelista, tradicional pela prática democrática sob o comando de Henrique Santillo.
Anápolis deixou de ser uma cidade politicamente inexpressiva onde o coronelismo ditava as ordens, para dar espaço a um seleto grupo de democratas brasileiros, idealistas, persistentes, que tanto fêz para o retorno do estado democrático de direito.
No registro da história de combate direto e constante à ditadura implantada no país a partir de abril de 1964 até a vitória deTancredo Neves e José Sarney em l985 , a redemocratização do Brasil tem um capítulo especial que mostra a luta do povo goiano e do Movimento Democrático Brasileiro em Anápolis, através dos seus líderes.
Goianos fora do contexto
– General, até que ponto o governo norte-americano, através da CIA, participou do golpe militar que derrubou o Presidente João Goulart?
Esta foi a pergunta que Rui Alencar, amigo inseparável do meu irmão Romualdo, fez ao general Muniz Aragão.
Como eles, jovens de todos os estados do país estavam reunidos no Rio de Janeiro participando do Movimento do Rearmamento Moral, na Universidade Rural do Rio de Janeiro.
Com a deposição do Presidente João Goulart por militares em março de 1964, estes, que já tinham o apoio da elite brasileira, elaboraram um plano para atrair os jovens, principalmente os estudantes a apoiar o que chamavam de Movimento Revolucionário.
Com o patrocínio do Departamento de Estado Americano foi realizado em julho de 64, o encontro nacional de estudantes secundaristas na Universidade Rural do Rio de Janeiro. Participaram delegações de todos os Estados.
A delegação goiana foi liderada pela estudante Luzalva Santos, que se empenhou em levar vários anapolinos na comitiva goiana.
A apresentação das delegações foi feita numa sexta-feira à noite onde cada uma delas ao ser chamada fazia apresentação artística de um fato marcante ou folclórico da sua região. Os paulistas encenaram uma peça com a música “São Paulo, que dá garoa, São Paulo que terra boa!”. A representação do Rio Grande do Sul se apresentou com canto e dança “Prenda minha”! E assim, a festa alegrava aos seus organizadores.
Chegada a vez de Goiás, sem que houvesse realizado qualquer ensaio, os estudantes Tauny Mendes e Nilo Sérgio decidiram encenar um diálogo preparado na última hora, representando dois trabalhadores rurais.
– E aí, compadre! Viu, se não fossem os militares, os comunistas teriam tomado conta do Brasil!
– Que é isso, compadre! Isso é conversa esfarrapada dos golpistas!
– Que golpistas, o povo deu apoio total. Não viu a campanha “Ouro para o bem do Brasil”? Todo mundo ajudou!
– Ocê não vai me dizê que colocou sua aliança na campanha!
– Eu não, mas o pessoal lá de casa deu de bom gosto brincos e colares.
– Essa campanha foi liderada pelos grandes grupos que massacram o trabalhador! É coisa de truste, compadre.
– Uai, compadre, então você está querendo dizer que foi golpe?
– Claro que foi golpe contra os interesses do povo!!
Encerrado o diálogo Tauny e Nilo foram aplaudidos entusiasticamente pelos presentes.
Apesar da boa receptividade junto a platéia, a participação dos goianos não foi incluída entre as demais para concorrer a um prêmio de melhor desempenho. Os organizadores preferiram abafar sua repercussão.
O diálogo caboclo dos goianos Tauny Mendes e Nilo Sérgio, na abertura do Movimento do Rearmamento Moral, na Universidade Rural do Rio de Janeiro, ainda era o assunto do encontro na manhã do dia seguinte quando os jovens tomavam conta de todas as dependências do ginásio de esportes, aguardando o início das preleções e debates. Dorremi, estudante de Veterinária na Universidade Rural, morador da Casa dos Estudantes,no campus universiário, gostou tanto da apresentação dos goianos, que assumiu a função de relações públicas do grupo. Onde se encontravam Romualdo Santillo, Rui Alencar, Tauny e Nilo, lá estava prestando seu assessoramento, Dorremi.
Quando o general Muniz Aragão adentrou o ginásio, os aplausos foram longos e estrepitosos. Estrategicamente acomodados estavam os goianos tão observados pela platéia quanto o preletor.
Iniciada a palestra, Aragão falou de lacaios do comunismo internacional que traziam doutrinas exóticas e alienígenas para tumultuar a inocência dos jovens brasileiros. Não se esqueceu de dizer que as forças do bem se uniram para evitar a comunização do país. Elogiou a campanha: ”Ouro para o Bem do Brasil”. Criticou a imprensa livre, artistas e intelectuais que mostravam desconfiança em relação ao novo governo. Verdadeira lavagem cerebral para uma platéia catada a dedo. Exceção, é claro, à diminuta participação anapolina, representando Goiás.
Ao final da preleção, aberta a discussão, Rui Alencar, amigo inseparável do Romualdo Santillo, foi o primeiro a fazer indagação ao general Muniz Aragão:
– General, até que ponto o governo norte-americano, através da CIA, participou do golpe militar que derrubou o Presidente João Goulart?
– Moço, não houve nenhum golpe! O que houve foi a reação popular contra os vendilhões da pátria! As forças internacionais do bem estão unidas contra doutrinas autoritárias, venham de onde vier.
Rui, totalmente fora do contexto, levantou-se do lugar em que se encontrava, dedo em riste para Aragão, gritou:
– O senhor está rodeando moita. Não respondeu minha pergunta. Perguntei se o governo norte-americano participou do golpe, usando a CIA. Me responde por favor!
Os organizadores do evento pediram a suspensão dos debates por dez minutos, enquanto se avistavam com a coordenadora da equipe goiana.
Luzalva Santos, de maneira gentil e direta, disse ao Romualdo e Rui Alencar que um norte-americano, da organização do encontro, queria falar com eles em seu gabinete. Ao chegarem lá, foram convidados a se retirarem do evento. Só tiveram a oportunidade de buscar seus pertences nos alojamentos.
No dia seguinte foi a vez de Tauny e Nilo receberem o amigável convite para também se retirarem por não se enquadrarem nas normas do evento.
Assim, a presença dos anapolinos no encontro do Movimento do Rearmamento Moral, no Rio de Janeiro, foi rápida e marcante.
Grêmio Estudantil, escola de política
Os anos 60 foram particularmente propícios para atividades da política estudantil.
E foi assim a minha estréia, que num pleito difícil e histórico, ganhei as eleições, vencendo o estudante Sebastião França na disputa pela presidência do Grêmio Literário Castro Alves, do colégio estadual José Ludovico de Almeida, em Anápolis, em 1960.
Na presidência do Grêmio Literário Castro Alves consegui inúmeros avanços em benefício dos estudantes do colégio. Foi através de reivindicação do Grêmio que a quadra de esportes foi construída anexa ao colégio, pelo governo de Mauro Borges, assim como foi mobiliado o auditório de festas e teatro, que por muito tempo não tinha como ser utilizado por falta de cadeiras e outros móveis.
Com a realização do concurso para escolha da rainha dos estudantes, em que a vencedora foi Vanda Barbosa, conseguimos recursos que foram aplicados em material esportivo, livros para a biblioteca e o primeiro corpo humano desmontável para as aulas de biologia. O Grêmio Literário Castro Alves comandou todos os movimentos reivindicatórios pela melhoria da qualidade de ensino e por maiores salários para os professores. O papel do Grêmio foi fundamental em todas as ações cívicas, sociais e esportivas dos estudantes anapolinos.
Ao final do mandato, procurei um dos colegas do Grêmio para disputar a eleição e dar continuidade ao trabalho que havia sido feito. Muitos foram os pretendentes à presidência. Milton Alves Ferreira, José Abdalla Badauy e Lenine Bueno não abriram mão de disputar pelo grupo que apoiava e auxiliava minha administração. Envidei todos os esforços, com intermináveis reuniões, em busca do consenso para que apenas um deles representasse o grupo. Mesmo sem ter adversários declarados a oposição era forte e dividida como estava nossa base de apoio corríamos o risco de perder o pleito.
Esgotadas as possibilidades de uma só candidatura representando o grupo, foi elaborado um manifesto com centenas de assinaturas reivindicando que o Grêmio continuasse a sua ação progressista com a minha candidatura à reeleição.
Ainda tentei acordo com os demais postulantes do nosso próprio grupo para evitar que tivesse que disputar a reeleição, mas foi impossível conseguir unidade. Não restou outra alternativa que não fosse a de ser candidato. Meus adversários foram os próprios companheiros.
O trabalho que realizara de forma eficiente e democrática me garantiu ser reeleito presidente do Grêmio Literário Castro Alves por expressiva margem de votos.
Ao terminar minha segunda gestão como presidente do Grêmio, já quase ao final de 1963, decidi disputar a presidência da UIEA, União Independente dos Estudantes Anapolinos.
Para aquela eleição as regras foram mudadas. Nas eleições para a UIEA o presidente era eleito com os votos de delegados, representantes dos colégios da cidade, em número proporcional aos alunos de cada escola.
Os estudantes Levy Schetini e Jacy Fernandes, mudaram os estatutos de União Independente dos Estudantes Anapolinos – UIEA, para a União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis – UESA. A eleição do presidente, ao contrário das eleições anteriores, seria pelo voto direto de todos os estudantes de Anápolis.
Candidatei-me à presidência e, sem outros concorrentes, fui candidato único. A participação dos estudantes foi enorme, em todas as escolas. Mesmo sendo candidato único, poucos foram os votos nulos e brancos.
Tomei posse no final de 1963 e permaneci no cargo até 31 de março de 1964, quando foi imposto o golpe militar que destituiu o Presidente João Goulart. Nesta época todos os movimentos políticos estudantis compromissados com avanços sociais foram destituídos e arrasados.
Não foi diferente com o Grêmio Literário Castro Alves e a UESA naquele momento histórico.