quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Candidatura de Henrique Santillo à prefeitura
Antes de 1966, nós os santillistas, embora tivéssemos nossas convicções políticas e ideológicas, não havíamos sido filiados a nenhum partido político. Passamos a militar em partido só a partir de 1966, quando nos filiamos ao MDB. A vitória de Henrique Santillo para a Câmara Municipal dava inicio a um novo rumo para o partido em Anápolis.
O Movimento Democrático Brasileiro no município foi organizado, muito mais em cima de divergências políticas locais, que compromisso de combate a ditadura, que era o seu compromisso nacional.
Henrique Fanstone que fora derrotado por Raul Balduíno, nas eleições de 1965, para a prefeitura de Anápolis, filiou-se a Arena. Os liderados por Achiles de Pina, Jonas Duarte e Raul Balduíno, até por falta de outra opção, pois haviam só Arena e MDB, filiaram-se ao MDB. O deputado federal Haroldo Duarte convicto e ferrenho combatente à ditadura de 1964 era exceção dentro grupo. O surgimento de Santillo foi o grande acontecimento da política Anapolina. Viria transformá-la completamente.
Como vereador deu sustentação ao prefeito Raul Balduino, ao mesmo tempo que organizou o MDB para sua missão histórica de combate ao autoritarismo.O movimento popular, movimento das massas de baixo para cima, cresceu tanto que fugiu do controle dos “cardeais” do partido. O povo exigia a candidatura de Henrique Santillo. Mesmo com o vasto apoio popular, a cúpula municipal não acostumada a pressão, queria Thales Reis, como candidato. Thales era ex-delegado de polícia e genro de Achiles de Pina.
Até aquele momento da história política Anapolina, Achiles de Pina era a grande referência, o grande eleitor. Sua força política era antiga. Desde a época em que a maioria do eleitorado de Anápolis era rural. Como maior cerealista do município, mantinha um relacionamento comercial e de amizade com os fazendeiros de Nerópolis, Brasabrantes, Nova Veneza, Damolândia, Ouro Verde, Goianápolis, Campo Limpo, Souzânia e Interlândia, todos distritos de Anápolis. Seu pedido de apoio e voto para essas lideranças rurais era órdem a ser cumprida.
Embora sem apoio popular, a candidatura de Thales, foi se consolidando dentro do MDB, pela indefinição de Henrique Santillo que relutava em aceitar sua candidatura. Moacyr Junqueira, editor chefe do jornal O Anápolis, diário pertencente ao deputado federal Anapolino de Faria, numa das suas edições, estampou em manchete “ Adhemar Santillo será o candidato do MDB”
Diante desse fato novo, Henrique anunciou sua disposição de disputar a prefeitura.
Ainda assim a cúpula emedebistas insistia com a candidatura de Thales Reis. Passadas algumas semanas, Henrique Santillo foi convidado para reunião com o prefeito Raul Balduíno e seus apoiadores. Foi selada a unidade emedebista, com Santillo para prefeitura, Thales para a vice.
O apoio do deputado federal Anapolino de Faria, desde o primeiro instante, a Henrique Santillo, foi decisivo para a sua escolha como candidato do MDB. Se não contasse com esse apoio de Anapolino, mesmo com toda manifestação popular ao seu lado, o resultado da convenção poderia ter sido outro.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Unidos pela causa maior
Goiás teve papel relevante na resistência à ditadura de 1964. Fez parte de uma oposição combativa e coerente. O grupo Santillo, autêntico, fez do Movimento Democrático Brasileiro–MDB de Anápolis, um dos mais respeitados em todo o Brasil. Seu lema era: liberdades democráticas já! Não fazer concessão aos ditadores. Para o MDB, liberdade era o caminho contra as desigualdades sociais. Não se curvava aos prepotentes. As violências praticadas pelos ditadores eram vistas como naturais e previsíveis. Prisões arbitrárias, cassações de mandatos, fechamento de emissoras de rádio, perda de autonomia política do município, supressão de eleições, censura à imprensa e perseguições não o amedrontavam. Ao contrário, isso o unia e purificava. Sim, purificava, porque nem todos resistiam.
Meu papel no grupo sempre foi desbravar a terra bruta. Era o primeiro a adentrar campo desconhecido e minado. Os companheiros diziam que esse era o trabalho do trator que abria picadas.
Fui lançado a prefeito de Anápolis, em 1969, pelo jornalista Moacyr Junqueira, integrante da executiva do MDB, forçando a candidatura de Henrique Santillo, que já despontava como a maior liderança da oposição no município. Atendendo ao clamor popular, Henrique disputou e venceu o pleito. Foi perseguido por adversários e correligionários adesistas que temiam sua liderança em ascensão. Em 1974, para que Henrique continuasse na ativa, abri mão da reeleição para deputado estadual disputando cadeira à Câmara federal. Henrique candidatou-se a deputado estadual. Na minha terceira reeleição, deixei o Congresso Nacional para assumir a Secretaria Estadual da Educação, em 1983, no primeiro governo de Iris Rezende Machado. Meu papel foi trabalhar pela educação no Estado e consolidar o nome de Henrique Santillo, como candidato ao governo em 1986. Deixei de ser deputado Constituinte em 86, para ser prefeito de Anápolis, em 1985, num mandato tampão de três anos. Desobstruí o caminho para que meu irmão chegasse ao governo do Estado. Vários deputados e candidatos a uma vaga na Câmara Federal ameaçavam abandonar sua candidatura, apoiando Mauro Borges, que até aquele momento pertencia ao PMDB, caso me candidatasse deputado.
Essas ações e mudanças repentinas na minha caminhada política, sempre as encarei como necessárias e normais. Faziam parte de um projeto maior: redemocratização do País e Henrique Santillo governador. Fizemos trajetória política de forma harmônica, memorável e vitoriosa. Mesmo quando Henrique decidiu ficar à frente do governo até o último dia, me tornando inelegível para o pleito de 1990, apoiei sua decisão. Ao seu lado estávamos Romualdo e eu, quando deixou o Palácio das Esmeraldas.
Juntamente com o senador Irapuan Costa Júnior, conseguimos apoio do governador Joaquim Roriz e da bancada do PP no Congresso Nacional, a seu favor para o Ministério da Saúde, no governo Itamar Franco. Onaide e eu ingressamos no PP em 1994, para que Henrique Santillo continuasse no Ministério. Pepistas tramavam seu afastamento sob a alegação de não ser correto o irmão do ministro do PP ser candidato a deputado federal pelo PMDB. Fiquei na primeira suplência. Obtive mais votos que os dois últimos eleitos pelo PMDB. Votos foram de peemedebistas, pois não tive condição de organizar o PP em lugar nenhum do Estado, pela exiguidade de tempo.
Só divergimos em 1986, com o Brasil redemocratizado. Democracia que tanto batalhamos por ela. Disputamos a eleição para a Prefeitura de Anápolis em legendas diferentes. Antes Romualdo e eu, acompanhados do radialista Geraldo Divino, fomos até sua residência para saber se não estaria disposto a disputar a prefeitura. Foi categórico ao afirmar que o perfil do eleitor de Anápolis já não era o mesmo de eleições anteriores e que estava pendurando as chuteiras. Diante da sua contundente resposta, lhe informei que seria candidato. Quando estava com campanha na rua, fui surpreendido pelo anúncio da sua candidatura também.
Ao lado da odontóloga Carla Santillo, sua filha, instalaram e executaram em Anápolis, na minha administração, o primeiro Programa Médico da Família, em Goiás. Só deixou o programa em 1999 para ser secretário da Saúde na administração Marconi Perillo.
O importante é que na luta maior, pela redemocratização, sempre estivemos juntos. É gratificante ouvir, como ouvi na semana passada, de outro baluarte do MDB goiano, ex-prefeito e construtor da atual Paranaiguara, Ênio Tiburcio:
– Vocês fizeram parte da verdadeira oposição em Goiás, nos tempos da ditadura. Vocês escreveram importante página na história da resistência democrática no Brasil!
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Nova Ordem Política em Goiás
- Doutor Rômulo, esta questão para nós não é apenas para defender a legenda do MDB. Estamos empenhados nessa luta para que a justiça seja feita ao Henrique e para evitar que outros possam vir a ser injustiçados.
- Fiquem tranquilos, sou advogado do cidadão Henrique Santillo, que é do MDB.
Esse foi um momento angustiante na nossa vida política, apesar da primeira vitória eleitoral de Henrique.
As principais lideranças políticas do Estado de Goiás haviam sido cassadas e afastadas da política partidária pelo regime ditatorial implantado no país a partir de 1964. Líderes da capital e do interior ligados ao Partido Social Democrático - PSD, sempre prestigiados pelo dr. Pedro Ludovico Teixeira, aderiram imediatamente à Arena, partido oficial do governo federal.
A história política de Anápolis passou a ter um novo ingrediente que alterou profundamente o curso dos acontecimentos a partir de 1966. A espetacular vitória de Henrique Santillo para vereador nesse ano foi o prenúncio de que novos rumos surgiriam na vida política dos anapolinos.
Até então a política no Município era comandanda com vitórias sucessivas pelo coronel Achiles de Pina , com exceção da derrota de seu genro e candidato a vice prefeito Italo Naghetini derrotado por Henrique Fanstone, em 1960.
A Lei Eleitoral da época permitia o voto em separado para prefeito e vice-prefeito, podendo o eleitor votar no Prefeito de uma chapa e no candidato a vice prefeito de outra chapa. Foi o que aconteceu com Jonas Duarte, prefeito eleito pela coligação PSD-PTB e Henrique Fanstone seu vice-prefeito, eleito pela UDN.
Este fato, contudo, não abalou o prestígio do coronel até então o mais destacado líder politico, que elegeria seu candidato a prefeito Raul Balduino na eleição seguinte,em 1965, derrotando Henrique Fanstone.
Neste pleito de l965 Henrique Fanstone, médico muito querido, logo de saída agradou o povão, reunindo pessoas, que em massa, seguiam da Praça James Fanstone para os comícios em diversos pontos da cidade, numa rotina diária impressionante. No início lançando mão das frases de efeito contra o adversário, Henrique Fanstone foi perdendo simpatizantes entre eleitores mais tradicionais. Mas agradava seu fanático grupo de apoio, o que o encorajava a aumentar suas críticas pelo seu jeito franco de falar e de encarar as coisas.
Outro complicador enfrentado por Fanstone foi a decisão dos udenistas que trabalharam e votaram em favor de Raul Balduíno. A posição de Henrique Fanstone na Convenção da UDN a favor de Otávio Lage e contra Emival Caiado, o outro postulante ao governo estadual provocou a retirada de apoio do grupo a Fanstone e foi criado o chamado “Comitê do Meio”, apoiando Otávio Lage para o governo e Raul Balduino para a prefeitura em Anápolis.
O candidato do PSD, Raul Balduíno médico, também muito conceituado, era ligado à classe média e setores mais ricos da sociedade
A campanha que no início era francamente favorável a Fanstone, chegou na reta final bastante equilibrada. Quando os votos foram apurados nos distritos de Joanápolis, Interlândia, Rodrigues Nascimento, Goialândia e setor central de Anápolis, Henrique Fanstone estava com algumas dezenas de votos à frente de Raul Balduíno. Contados os votos de Souzânia, Raul Balduino não apenas tirou diferença como venceu o pleito por 222 votos de frente. Ficava mais uma vez em posição de destaque junto ao eleitorado anapolino o cel. Achiles de Pina
Na eleição seguinte para Câmara Municipal, uma supresa mudou completamente o cenário da política local com a eleição de Henrique Santillo que obteve a maior votação já vista no município.
Mesmo tendo passado sua vida em Anápolis até o ensimo médio, científico na época, depois disso ficara vários anos fora cursando medicina em Belo Horizonte. Adepto de pensamentos socialistas de esquerda, Henrique engajou-se na política logo que retornou à cidade. A sua eleição assustou os adversários que passaram a usar dos mais sórdidos expedientes para impedir sua diplomação, inclusive forjando documentos apócrifos, como se fossem enviados pelo SNI com acusações caluniosas e difamatórias.
A princípio conseguiram êxito na trama pois contaram com apoio decisivo do Juiz Eleitoral de Anápolis que aceitou a denúncia e se negou a diplomá-lo vereador. A papelada montada de última hora sem qualquer autenticação ou timbre de instituição, alegando que Henrique era fichado no G2 da PM de Belo Horizonte, era uma farsa tão escabrosa que foi desmacarada com uma certidão negativa que pessoalmente busquei no citado órgão militar, imediatamente após a negativa de diplomação.
Sofri junto com meu irmão e toda nossa família até a consumação da sua diplomação, o que aconteceu em abril do ano seguinte, quando o Tribunal Regional Eleitoral do Estado, apreciando o processo em grau de recurso, reformou a sentença do dr. Manoel Luiz Alves, considerando os documentos apresentados pelos denunciantes como inconsistentes diante da certidão negativa do G2 da Policia Militar de Minas Gerais.
A defesa de Henrique no TRE foi feita pelo advogado Rômulo Gonçalves um dos mais renomados defensores de presos políticos em Goiás e as despesas com a tramitação do processo foram bancadas pelo nosso pai, com os pequenos recursos financeiros que dispunha.
Enquanto essa trama contava com total apoio do Palácio das Esmeraldas e o comando político arenista de Goiás, nem o próprio MDB se manifestava contra a arbitrariedade. Pelos recentes desdobramentos causados pelo regime militar instalado a menos de dois anos, poucos se dispunham a constestar atos arbitrários. Havia um receio, mesmo entre os emedebistas, de defender alguém acusado de comunista, o que representava naquela época um crime inaceitável. Assim, além dos adversários partidários enfrentamos a omissão e falta de solidaridade das forças tradicionais do próprio MDB, que não nos reconheciam como militantes politicos, visto nosso recente ingresso na política partidária. Lutamos sozinhos pelo mandato de vereador do Henrique porque a preocupação maior do partido era assegurar que os votos fossem aproveitados para a legenda do MDB.
Romualdo e eu tomamos a frente para ajudar nosso irmão e não medimos esforços em procurar a bancada emedebista da Assembléia Legislativa , conseguindo apoio dos deputados estaduais Eurico Barbosa e Iturival Nascimento que usaram a tribuna denunciando a perseguição política que Henrique estava sofrendo. Foi a manifestação de solidariedade dada pelo MDB estadual ao episódio.
Essa ausência de apoio fêz com que procurássemos o advogado Rômulo Gonçalves para alertá-lo:
- Doutor Rômulo, esta questão para nós não é apenas para defender a legenda do MDB. Estamos empenhados nessa luta para que a justiça seja feita ao Henrique e para evitar que outros possam vir a ser injustiçados.
- Fiquem tranquilos, sou advogado do cidadão Henrique Santillo, que é do MDB.
Fizemos esse alerta ao dr. Rômulo Gonçalves por uma preocupação que o acaso nos propiciou.
Procurando envolver o maior número de autoridades para expor a arbitrariedade cometida contra um representante do povo, legitimamente eleito, resolvemos procurar um desembargador de Anápolis, dr. Jorge Salomão.
Formalmente nos apresentamos no seu gabinete noTribunal de Justiça. Ficamos aguardando na ante-sala e enquanto esperávamos pelo seu atendimento ouvimos a argumentação de dois líderes do MDB anapolino ao desembargador, onde afirmavam:
- Quanto a isso o Tribunal Superior Eleitoral já possui jurisprudência. Cassa-se o mandato do comunista mas os votos ficam para o partido.
Saimos dali mesmo, sem sermos percebidos, direto para o escritório do dr. Rômulo Gonçalves levando informação da conversa ouvida, que demonstrava pouco interesse para defender o Henrique, desde que os votos ficassem com a legenda.
A vitória de Henrique no Tribunal Regional Eleitoral, TRE e sua posse como vereador abriram caminho para novos rumos na política de Goiás.
Na eleição de 1966 o povo atropelou as tradicionais lideranças políticas de Anápolis consolidando, com antecedência, a candidatura de Henrique Santilo à sucessão de Raul Balduino.
Reconhecido pela sua visão socialista e idéias progressistas, Henrique encontrou respaldo em companheiros do MDB para se candidatar a prefeito na eleição seguinte. Com apoio decisivo do deputado Anapolino de Faria, teve condições necessárias e indispensáveis para vencer os conservadores que lutavam em favor da candidatura Thales Reis, também pelo MDB à prefeitura.
Era o ano de l969, quando seriam eleitos os novos prefeitos que substituiriam aqueles que haviam sido eleitos pelos partidos politicos criados na década de l940. A exemplo da eleição anterior onde dois partidos disputaram a preferência do eleitor, o pleito de l969 seria disputado com dois candidatos , representando Arena e MDB.
Em Anápolis o nome preferido da cúpula emedebista era o de Thales Reis, delegado de polícia, genro do cel. Achiles de Pina, até então a maior liderança política do município.
Realizada uma reunião por iniciativa do jornalista Moacyr Junqueira, editor chefe do jornal O Anápolis e assessor politico do deputado federal Anapolino de Faria, lideres do MDB, como o advogado Lincoln Xavier Nunes e professor José Batista Júnior, elaboraram documento em nome dos integrantes do diretório municipal apoiando a candidatura de Henrique Santillo à sucessão de Raul Balduíno.
Em pouco tempo o nome do Henrique, como médico e vereador mais votado em Anápolis na eleição anterior, contagiou as camadas populares.
Henrique, contudo, não aceitava a idéia de se candidatar a prefeito.
Foi quando, mais uma vez, Moacyr Junqueira e demais líderes do MDB se reuniram lançando, desta vez o meu nome à prefeitura pelo MDB, caso Henrique não aceitasse ser candidato.
O assunto foi matéria na edição do dia seguinte, quando o jornal O Anápolis trouxe em sua principal manchete “Adhemar Santillo poderá ser o candidato do MDB”.
Sobre este episódio histórico, em entrevista concedida à Rádio Manchester AM 590, em agosto de 2007, José Batista Júnior, comentou:
- Como Henrique Santillo não se dispunha a ser o candidato a prefeito no pleito de l969, decidimos que nosso candidato seria Adhemar Santillo. Lamento que Moacyr Junqueira e Linconl Xavier não se encontram mais entre nós para confirmarem o que falo. Os arquivos do jornal O Anápolis , do ano de l969, podem comprovar nossa decisão.
José Batista Jr. acrescenta:
_ Indicamos Adhemar Santillo porque, mesmo muito jovem, já era grande lider em Anápolis. Adhemar sempre foi o desbravador, o trator que abria o caminho e pavimentava a estrada para Henrique Santillo executar o trabalho. Romualdo, o mais novo dos irmãos, sempre trabalhou na retaguarda, fazendo o trabalho intelectual. O pára-choque da familia sempre foi o Adhemar. Com êle nunca houve missãõ dificil ou impossível. Sempre foi “pau para toda obra”.
Devido a nossa insistência e de todos companheiros Henrique aceitou ser candidato a prefeito. Com espírito conciliador e sem objetivo de isolar ou sufocar seus adversários dentro do partido, escolheu para companheiro de chapa Thales Reis.
A vitória dos emedebistas foi extraordinária em 1969, com o dobro dos votos do seu concorrente, Luiz Vieira, vice prefeito de Anápolis e que se candidatara pela Arena. Estava desenhada, com a maior nitidez, uma nova ordem política em Goiás daí em diante.
Neste período ditatorial de 64, os goianos eram conhecidos como autênticos, combatentes e corajosos, ao lado dos emedebistas de Pernambuco e do Rio Grande do Sul,
Em Anápolis, com vitórias que conquistamos nas urnas e destemor que tínhamos no exercício dos mandatos, este conceito se justificou. Foi o fim da política provinciana, coronelista, tradicional pela prática democrática sob o comando de Henrique Santillo.
Anápolis deixou de ser uma cidade politicamente inexpressiva onde o coronelismo ditava as ordens, para dar espaço a um seleto grupo de democratas brasileiros, idealistas, persistentes, que tanto fêz para o retorno do estado democrático de direito.
No registro da história de combate direto e constante à ditadura implantada no país a partir de abril de 1964 até a vitória deTancredo Neves e José Sarney em l985 , a redemocratização do Brasil tem um capítulo especial que mostra a luta do povo goiano e do Movimento Democrático Brasileiro em Anápolis, através dos seus líderes.
Henrique, O Batalhador!
Henrique Santillo, formado em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, retornou a Anápolis no final de 1963. Já casado com Sônia e pai de duas filhas, Elydia e Sônia, instalou seu consultório na parte superior do edifício Glória, na Avenida Goiás, pertencente ao amigo Waldir de Carvalho.
No inicio de suas atividades como médico pediatra, Henrique encontrou as dificuldades naturais, aquelas enfrentadas por todos os iniciantes. Em busca de um campo mais propício, ficou sabendo que em Goianésia o prefeito revolucionava a administração municipal e seu crescimento populacional era maior que o das demais cidades goianas. Fomos a Goianésia por estrada de chão, aliás, não havia asfalto nem no trecho Anápolis Jaraguá, pela BR-l53.
Era início de março de l964.
Chegamos à residência do prefeito Otávio Lage de Siqueira, em frente à principal praça da cidade. No instante em que fomos autorizados a entrar, o prefeito conversava com seu colega prefeito da cidade de Ceres, acertando detalhes para a visita que Ary Demóstenes de Almeida, Secretário de Governo de Mauro Borges faria a Ceres num encontro com prefeitos do Vale do São Patrício. Ary se preparava para concorrer à eleição que elegeria o substituto de Mauro Borges no ano seguinte. O prefeito Otavio Lage, mesmo sendo da UDN, tinha preferência em apoiar Ary Demóstenes, assim como a maioria dos prefeitos da região, mesmo sendo ele Secretário de Mauro Borges.
Quando Otávio nos recebeu e ouviu o motivo da nossa presença ali, disse-nos que a área de saúde do município contava com dois pediatras, Roberto, de Anápolis e Arturo, de origem peruana, bastante querido da população. Não havia necessidade de mais médicos nos quadros da saúde municipal.
Henrique compreendeu a situação e retornamos à Anápolis.
Em pouco tempo, pela sua dedicação e capacidade profissional, passou a atender no Hospital São Zacarias, SAMDU e Santa Casa, numa longa jornada diária.
Seu prestígio como médico pediatra ultrapassou rapidamente os limites do município. Crianças de várias cidades próximas eram trazidas pelos seus pais para serem atendidas por Henrique Santillo, o médico.
Quando Fábio, filho de Jane e Moacir Junqueira ficou internado no Hospital Dom Bosco com meningite, Henrique praticamente não saiu da cabeceira de seu leito. Só deixando o hospital quando a criança estava totalmente curada, sem seqüela alguma. Os pais atribuíram a recuperação da criança a um verdadeiro milagre, pois o quadro era complexo.
A dedicação com que desenvolvia seu trabalho profissional fazia de Henrique um dos mais conceituados médicos de Anápolis. Sua credibilidade aliada à competência política fez com que fosse convidado a se filiar ao Movimento Democrático Brasileiro, depois de extintos os partidos políticos criados em 1946, dando lugar a Arena e MDB, em 1966.
No mesmo ano candidatou-se a vereador, alcançando a maior votação de todos os tempos em Anápolis.
A família foi muito importante na sua vitória. Nosso pai, Virgínio Santillo, como pequeno comerciante de cereais, o apresentou aos cerealistas e corretores do ramo. Romualdo, como redator e locutor noticiarista da Rádio Carajá, levou seu nome aos colegas da imprensa e todos os ouvintes da Rádio Carajá e eu, além de liderança estudantil, que era uma grande força na época, o apresentei aos desportistas e aos clubes amadores, como cronista esportivo e presidente da LAD. Foi um conjunto irresistível que surpreendeu até os mais experientes analistas da política anapolina.
O também candidato a vereador médico Elias Abrão era tido como o campeão de votos, pois era o nome preparado pela Arena para a sucessão do prefeito Raul Balduíno. Tinha um batalhão significativo de apoiadores que esperavam uma esmagadora vitória.
Enquanto isso os comandantes do MDB anapolino acreditavam até numa boa votação do jovem médico Henrique, porém duvidavam da sua eleição, por ser nome novo na política.
O resultado eleitoral apontando l.536 votos para Henrique Santillo e l.320 para seu colega, médico Elias Abrão, da ARENA, revelou a liderança emergente na política goiana no período ditatorial implantado no país a partir de l964.
A principal liderança arenista da política anapolina até então, o médico Elias Abrão, não mais disputou outras eleições por decisão própria e pela saúde debilitada pelo câncer que ceifou prematuramente sua vida.
Henrique começou como vereador para cumprir uma longa e brilhante carreira na política de Goiás e do Brasil.
Anápolis nossa terra
Minha infância com meus irmãos Henrique e Romualdo foi simples, como família de classe média baixa, residente em cidade pequena, sem áreas de lazer ou atrações de entretenimento. Passamos grande parte de nossa meninice morando na Avenida Mato Grosso, no Bairro Jundiaí, em Anápolis.
Jogávamos futebol de rua, biloca com bolinhas de gude, empinávamos papagaio, fazíamos roda de pião e outras brincadeiras de então. A mais emocionante e radical para a época era entrar dentro de um grande pneu e ser empurrado, rodando pela rua afora. Muitos acidentes aconteceram ladeira abaixo com o pneu desgovernado, sem nenhum controle e em alta velocidade.
À época, a via mais movimentada da região era a Rua dos Carreiros. Carroças, carros de boi e cavalos, meios de transporte da época, faziam dessa rua uma via movimentada com o trânsito daqueles que moravam em fazendas ou em municípios da estrada de ferro.
Para ajudar na renda familiar, coletávamos esterco bovino e eqüino de animais que eram criados soltos na imensidão do pasto natural, entre a Avenida Mato Grosso até o Aeroporto Municipal, onde hoje estão os Bairros Jundiaí, JK, Jardim América e outros daquela região. O esterco recolhido era vendido aos frades franciscanos, recém chegados a Anápolis, que construíam o Convento ao lado da antiga capela de Santana e ajardinavam a área.
Posteriormente, em 1951, fomos trabalhar em banca no Mercado Municipal, na comercialização de legumes, mudando em seguida para um pequeno armazém no mesmo mercado, para venda de secos e molhados. Henrique conseguiu vaga de contínuo no GOIASBANC e eu passei a trabalhar como eletricista de autos, transformadores e motores, ao lado de Geraldo Siqueira, o proprietário da oficina e os colegas José Ramos, Modesto Marçal e Moacir Tavares Canto, que no final dos anos 60 foi eleito prefeito do Município de Nova Veneza.
A partir de 1959 passei a militar na crônica esportiva como narrador de futebol pela rádio Carajá de Anápolis, ao lado de Antonio Afonso de Almeida, Habib Issa, Geraldo Soares e outros importantes nomes da crônica esportiva do estado.
Por indicação do jornalista Moacir Junqueira, tornei-me correspondente do jornal Folha de Goiás, sucursal de Anápolis.
Henrique trabalhou como bancário até concluir o segundo grau no Colégio São Francisco de Assis, dando continuidade aos estudos em Belo Horizonte, onde se formou em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1963.
Romualdo, que trabalhava como radialista e jornalista, formou-se em Direito na Universidade Federal de Goiás e auxiliou nosso pai nas atividades comerciais.
Cursei o segundo grau no Colégio Estadual José Ludovico de Almeida e fiz parte da primeira turma da Faculdade de Direito de Anápolis, contudo não terminei meus estudos universitários.
Viemos de Ribeirão Preto em criança, mas nossa ligação com Anápolis fez desta cidade a nossa terra.