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domingo, 9 de janeiro de 2011

O conforto

Nas eleições de 1978, uma das duas vagas ao senado foi preenchida por senador biônico. Senador sem voto. Senador escolhido pelo partido que tivesse maioria de deputados nas Assembleias Legislativas. O MDB só tinha maioria no Rio de Janeiro. Nos outros Estados, inclusive Goiás, a maioria era da Arena. Aqui, o biônico foi Benedito Vicente Ferreira, o Benedito Boa Sorte. Eleito em 1970, seu mandato estava terminando em 1978.

O outro arenista eleito em 1970, cujo mandato terminava, era Osires Teixeira. Osires, Jonas Duarte e Jarmund Nasser compuseram as três sublegendas da Arena para enfrentar, pela vaga a ser preenchida pelo voto popular, os emedebistas Henrique Santillo e Juarez Bernardes.

Nos preparativos para a campanha eleitoral, a região mais problemática para Henrique Santillo foi o Entorno de Brasília. Juarez, por ser de Formosa, era tido como candidato natural da região. O diretório municipal do MDB de Luziânia se reuniu decidindo que, apesar de Juarez e Henrique serem do MDB, só apoiaria Juarez. Joaquim Domingos Roriz, que fora vereador, saiu candidato a deputado estadual. O MDB estava à procura de alguém que representasse o município para se contrapor a Jesus Meirelles, deputado pela Arena daquele município. Joaquim Roriz foi o escolhido para essa tarefa.

Como deputado federal, fui visitado em meu gabinete em Brasília, pelo saudoso vereador Carlos Melo, meu grande amigo e representante dos autênticos naquela cidade. Queria saber se não seria possível uma conversa nossa com Zequinha Roriz, irmão de Joaquim. Não só conversamos como acertamos apoio a Joaquim Roriz em alguns municípios que apoiaram Henrique Santillo a deputado estadual, em 1974. Imediatamente contatei companheiros dos municípios da estrada de ferro e outros mais próximos de Anápolis. O acordo político foi firmado entre nós. Em Luziânia, Henrique também teria o apoio do diretório. A ele seria dado o mesmo tratamento dispensado a Juarez Bernardes. Com a escolha de Helio Roriz, também de Luziânia, para ser suplente de Henrique Santillo o acordo ficou consolidado.

A princípio, no diretório de Luziânia, o apoio que estávamos dando à candidatura de Joaquim Roriz a deputado estadual não envolvia apoio à minha candidatura a deputado federal. Pela dedicação que tive com a candidatura de Roriz, acabei sendo apoiado naquela cidade. Recebi esmagadora votação. Henrique Santillo foi o mais votado em toda região. A dupla Henrique Santillo/Juarez Bernardes derrotou o trio arenista. Mais votado, Santillo foi aclamado senador, Juarez Bernardes o primeiro suplente e Helio Roriz segundo suplente. Joaquim Roriz e eu fomos os deputados mais votados, em Luziânia e Goiás.

Fatos marcantes e históricos aconteceram quando fui apresentar Roriz aos diretórios da região da Estrada de Ferro. A Leopoldo de Bulhões foram comigo Vicente Alencar, advogado do MDB anapolino e o vereador Walmir Bastos Ribeiro. A reunião aconteceu na casa do Ivo, por sugestão de Agenor, presidente municipal do MDB. Como tesoureiro, Ivo estava mais familiarizado com campanhas eleitorais. Fiz a apresentação do nosso indicado, ainda desconhecido do mundo político goiano, narrando suas qualidades de empresário em Brasília e fazendeiro. Falei da importância da sua eleição pelo fortalecimento da região do Entorno e da vantagem que representaria para Leopoldo Bulhões.

Enquanto fazia a apresentação, sem nenhuma cerimônia, cansado, Walmir Bastos dormia de roncar na cadeira ao fundo da sala. Aberto o debate para que os companheiros de Leopoldo Bulhões se manifestassem, Ivo falou em nome de todo diretório:

– Dr. Joaquim Domingos, nós aqui de Bulhões seguimos Adhemar e Henrique Santillo. Como o Adhemar está lhe apresentando, estamos de acordo em apoiá-lo...

– Obrigado! – agradeceu Roriz.

– Só que até agora nós os apoiamos sem pedir nenhuma ajuda financeira...

– Para que vocês querem ajuda financeira? – brincou Roriz.

– Para a gente fazer uma campanha com mais conforto!

– Rá, rá, rá, rá! – gargalhou Walmir Bastos, que acabara de acordar.

A partir daquele instante, Walmir só se referia ao ex-governador de Brasília como “Joaquim Conforto”.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Quebra da Unidade Peemedebista em Goiás (Final)

Contando com 40% do diretório nacional do PMDB e percentual teoricamente semelhante junto aos delegados estaduais, José Sarney imaginou que aquele era o momento certo para impor candidato seu à presidência da República, uma vez que os ulyssistas estavam divididos em três pré-candidatos: Valdir Pires, Álvaro Dias e o próprio Ulysses Guimarães. Sarney acreditava que seu indicado ficaria em primeiro lugar.

Foi escolhido Iris Rezende para representar o grupo Sarney e compor o quarteto que disputaria os votos dos convencionais. Ulysses mesmo com sua base de apoio dividida, continuava o preferido dos aliados. Era o grande líder da resistência democrática. Iris Rezende carregava o estigma da fraca administração de José Sarney. Saiu dos quadros da Arena, onde sempre militou, para se transformar em peemedebista, e candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Tancredo Neves. A Constituição Federal, não permitia coligações entre partidos. Os arenistas que haviam formado o PFL e não apoiavam Paulo Maluf, só poderiam participar da chapa de Tancredo, caso o candidato a vice-presidente se filia-se ao PMDB. Assim o udenista bossa nova e empedernido arenista José Sarney se transformou em peemedebista. Ulysses Guimarães, por ser o mais idoso entre todos os candidatos dentro e fora do PMDB, sofria a discriminação do eleitorado, traumatizado com a morte repentina de Tancredo Neves, antes mesmo de tomar posse. A síndrome da velhice o prejudicava.

Realizado o seu lançamento por Brasília, Iris Rezende passou a contatar com as lideranças estaduais do PMDB. O primeiro que visitou foi Henrique Santillo, governador de Goiás. Sonhando com a unidade do PMDB, Santillo lhe disse que não se comprometeria com nenhuma das pré-candidaturas, para ter mais condição de diálogo com todos. Entendia que para o partido ter alguma viabilidade eleitoral naquele pleito teria que marchar unido. Embora se transformando em peemedebista por arranjo, Sarney desgastou tremendamente o partido em todo o Brasil.

Para discutir a pretensão de Iris, várias vezes conversei com Henrique acompanhado de Joaquim Roriz ou sozinho. Em todas as conversas repetia que tudo fez para manter a unidade do PMDB em Goiás e que batalharia pela unidade nacional com força redobrada. Era amigo pessoal de todos os candidatos, mas que nenhum dos postulantes uniria o partido. Defendia a substituição dos quatro postulantes por um único nome que pacificasse e representasse todo o partido. Ulyssista convicto tinha noção que o comandante das Diretas Já, não possuía viabilidade eleitoral. Não queria assistir pacificamente a derrota do PMDB. Para o governador goiano o partido dividido, qualquer que fosse seu candidato sua derrota seria inevitável. Acreditava que naquele momento, o governador de São Paulo, Orestes Quércia, seria o ideal para aglutinar novamente o PMDB, evitando uma derrota para Collor de Melo.

Enquanto isso Iris Rezende viajava pelos Estados em busca de apoio. Todas as vezes que conversei com ele, reclamava da indagação que lhe faziam:

- E o governador do seu Estado, está lhe apoiando?

Respondia que Henrique Santillo estava lutando pela unidade do partido, com o lançamento de uma única candidatura.

O tempo passava e a unidade pregada e trabalhada por Henrique Santillo não se concretizava. A disputa cada vez mais acirrada e radicalizada. Na quinta feira que antecedeu a convenção, Iris Rezende me procurou para que acertasse o apoio do governador à sua candidatura, pois a unidade pregada por ele não aconteceu. As quatro chapas foram registradas. Fui ao Palácio das Esmeraldas falei com Henrique sobre a solicitação. Me autorizou a dizer que seu voto pessoal seria de Iris Rezende. Essa informação lhe dei num encontro em Brasília, com convencionais favoráveis a sua candidatura, em Águas Claras, residência oficial do governador Joaquim Roriz.

Na convenção Henrique e sua esposa Sônia, ambos delegados titulares, não compareceram. Cedaram as vagas a eleitores de Iris. Aos dois primeiros suplentes, deputados Sólon Amaral e Rubens Cosac, que votaram a favor de Iris Rezende. Encerrada a votação Ulysses Guimarães e Valdir Pires foram os dois mais votados e formaram a chapa peemedebista.

Vencido, Iris Rezende ficou magoado. Disseram-lhe que peemedebistas ligados à fundação Pedroso Horta teriam comemorado sua derrota, num hotel em Brasília. Desse espisódio em diante, conhecidos os resultados da Convenção Nacional do PMDB, o presidente José Sarney perseguiu Henrique Santillo, administrativamente. Não honrou compromisso feito com o governador de financiar o asfaltamento nos municípios de Goiás, pelo programa de Pavimentação Municipal. Esse financiamento foi garantido por Sarney a Henrique Santillo antes da Convenção Nacional. Naquela época a convivência entre Henrique e Iris era boa. Essa atitude do governo federal obrigou o governador a saldar os compromissos com as empreiteiras que realizaram o PPM, emitindo Letras do Tesouro Estadual.

Na disputa para a presidência da República, os peemedebistas goianos liderados por Sarney ficaram contra a candidatura de Ulysse Guimarães. O abandonaram. Apoiaram Fernando Collor de Melo.

Assumindo a presidência, Collor por não ter tido apoio de Henrique Santillo, o persiguiram ainda mais. No primeiro turno Henrique ficou com o candidato do PMDB, Ulysses Guimarães. A ala de Sarney a favor de Collor. No segundo turno Henrique Santillo esteve ao lado de Lula, enquanto o PMDB de Sarney continuou em Goiás apoiando Collor. Foi Fernando Collor de Melo quem desferiu o tiro final na administração Santillo, ao exigir o pagamento imediato das letras emitidas pelo governo estadual. O governador teve que comprometer quase todo Fundo de Participação do Estado, no resgate das letras. Para completar a persiguição, por capricho político, Collor fechou a Caixego, extrajudicialmente.

Na campanha para sua sucessão ao governo do Estado em 1990, Henrique liberou seus companheiros, mas não participou da campanha. Terminado o pleito, Iris Rezende eleito, Henrique Santillo deixou o PMDB.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Quebra da Unidade Peemedebista em Goiás (II)

Ulysess Guimarães confirmou a Henrique Santillo que Iris Rezende Machado e Joaquim Domingos Roriz estavam vetados de participarem da sua chapa para o diretório nacional do PMDB. Vetados porque ocupavam cargos de confiança na administração José Sarney. Visando evitar que os vetos afetassem a unidade do partido em Goiás, o governador Henrique Santillo, programou reunião com Iris e Roriz, para decidirem o que fazer.

Não havia muito o que fazer, pois os vetos foram anunciados pela figura mais importante do partido, o presidente Ulysses Guimarães. Até aquele instante se discutia chapa única. Tradicionalmente o diretório nacional era formado por consenso. Não se acreditava que alguém tivesse disposição para desafiar Ulysses Guimarães.

Ficou acertado no encontro de Henrique Santillo, Iris Rezende Machado e Joaquim Domingos Roriz, que o governador não participaria do diretório nacional. Gesto de solidariedade do governador para com os companheiros vetados. Os três ficariam fora para que não houvesse ressentimentos e constrangimentos que pudessem afetar a harmonia existente no PMDB de Goiás.

Contrariado com os vetos, o presidente José Sarney decidiu bater chapa com Ulysses Guimarães. Organizou sua chapa branca. Encabeçou a chapa palaciana, a chapa Sarney, o paraense Jader Barbalho, ministro da Reforma Agrária. Todos os peemedebistas que forma vetados teriam que fazer parte compulsoriamente, da chapa de oposição a Ulysses Guimarães. O governador Henrique Santillo foi comunicado por Iris Rezende e Joaquim Roriz da decisão tomada por Sarney.

Após ouvi-los, o governador argumentou que o que haviam decidido valeria também em relação a chapa comandada por José Sarney encabeçada por Jader Barbalho. Henrique não participaria da chapa de Ulysses Guimarães enquanto Iris e Roriz não figurariam na chapa oficial de Sarney, para que o PMDB garantisse a sua unidade que era sólida em Goiás. Iris e Roriz disseram ao governador Santillo que a presença deles na chapa de Sarney era exigência do presidente. Se eles ficassem fora teriam que deixar os cargos que ocupavam: ministro da Agricultura e governo do Distrito Federal. Henrique Santillo, sentindo o drama dos companheiros vetados por Ulysses, não participaria da chapa oficial do PMMDB, ficando fora do diretório nacional para garantir a unidade do PMDB em Goiás.

As duas correntes fizeram campanha em todo País. A chapa organizada por Sarney obteve praticamente 40% dos votos válidos na Convenção. Isso garantiu as presenças dos auxiliares do presidente da República no diretório do PMDB. Henrique Santillo ficou fora. A partir daquele instante iniciava a divisão profunda no PMDB em todo Brasil. De um lado, Ulysses Guimarães, o grande líder da redemocratização, das Diretas Já e da Assembleia Constituinte; e do outro, o ex-arenista José Sarney, com o poder da máquina adminstrativa e cargos para oferecer aso afilhados políticos.

Com essa nova composição peemdebista foi feita a discussão interna para a a escolha do candidato que representaria o partido na eleição daquele ano, à Presidência da República. A disputa interna para a formação do diretório nacional do PMDB, embora vencida por Ulysses Guimarães, enfraqueceu bastante sua autoridade junto aos peemedebistas. Companheiros históricos, como Waldir Pires e Álvaro Dias, que fizeram parte da sua chapa, pleitearam a pré-candidatura à Presidência da República pelo PMDB, em confrontoa Ulysses Guimarães, candidato natural do partido.

Divisão na base autêntica do PMDB deu a José Sarney chance de lançar candidato seu à presidência. Contando com os 40% dos integrantes do diretório nacional do PMDB e mais os convencionais de todo Brasil que votaram na chapa encabeçada por Jader Barbalho, previa que aquele era o momento de destronar Ulysses Guimarães. Para Sarney não importava a viabilidade eleitoral do seu candidato. O importante era enfraquecer Ulysses dentro deo PMDB. Ou até desmoralizá-lo caso viesse a perder a convenção. Sarney acreditava que Ulysses deixaria a presidência ou se afastaria do PMDB. Sem Ulysses, os adesistas e oportunistas que hoje comandam o partido nacionalmente assumiriam sua direção. Ulysses era estorvo para os que queriam um PMDB para Sarney.

Por isso cresceu o movimento entre os sarneystas para que fosse lançado pré-candidato à Presidência da República...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Unidos pela causa maior

Publicado na edição de 03/09/2010 do jornal Diário da Manhã

Goiás teve papel relevante na resistência à ditadura de 1964. Fez parte de uma oposição combativa e coerente. O grupo Santillo, autêntico, fez do Movimento Democrático Brasileiro–MDB de Anápolis, um dos mais respeitados em todo o Brasil. Seu lema era: liberdades democráticas já! Não fazer concessão aos ditadores. Para o MDB, liberdade era o caminho contra as desigualdades sociais. Não se curvava aos prepotentes. As violências praticadas pelos ditadores eram vistas como naturais e previsíveis. Prisões arbitrárias, cassações de mandatos, fechamento de emissoras de rádio, perda de autonomia política do município, supressão de eleições, censura à imprensa e perseguições não o amedrontavam. Ao contrário, isso o unia e purificava. Sim, purificava, porque nem todos resistiam.

Meu papel no grupo sempre foi desbravar a terra bruta. Era o primeiro a adentrar campo desconhecido e minado. Os companheiros diziam que esse era o trabalho do trator que abria picadas.

Fui lançado a prefeito de Anápolis, em 1969, pelo jornalista Moacyr Junqueira, integrante da executiva do MDB, forçando a candidatura de Henrique Santillo, que já despontava como a maior liderança da oposição no município. Atendendo ao clamor popular, Henrique disputou e venceu o pleito. Foi perseguido por adversários e correligionários adesistas que temiam sua liderança em ascensão. Em 1974, para que Henrique continuasse na ativa, abri mão da reeleição para deputado estadual disputando cadeira à Câmara federal. Henrique candidatou-se a deputado estadual. Na minha terceira reeleição, deixei o Congresso Nacional para assumir a Secretaria Estadual da Educação, em 1983, no primeiro governo de Iris Rezende Machado. Meu papel foi trabalhar pela educação no Estado e consolidar o nome de Henrique Santillo, como candidato ao governo em 1986. Deixei de ser deputado Constituinte em 86, para ser prefeito de Anápolis, em 1985, num mandato tampão de três anos. Desobstruí o caminho para que meu irmão chegasse ao governo do Estado. Vários deputados e candidatos a uma vaga na Câmara Federal ameaçavam abandonar sua candidatura, apoiando Mauro Borges, que até aquele momento pertencia ao PMDB, caso me candidatasse deputado.

Essas ações e mudanças repentinas na minha caminhada política, sempre as encarei como necessárias e normais. Faziam parte de um projeto maior: redemocratização do País e Henrique Santillo governador. Fizemos trajetória política de forma harmônica, memorável e vitoriosa. Mesmo quando Henrique decidiu ficar à frente do governo até o último dia, me tornando inelegível para o pleito de 1990, apoiei sua decisão. Ao seu lado estávamos Romualdo e eu, quando deixou o Palácio das Esmeraldas.

Juntamente com o senador Irapuan Costa Júnior, conseguimos apoio do governador Joaquim Roriz e da bancada do PP no Congresso Nacional, a seu favor para o Ministério da Saúde, no governo Itamar Franco. Onaide e eu ingressamos no PP em 1994, para que Henrique Santillo continuasse no Ministério. Pepistas tramavam seu afastamento sob a alegação de não ser correto o irmão do ministro do PP ser candidato a deputado federal pelo PMDB. Fiquei na primeira suplência. Obtive mais votos que os dois últimos eleitos pelo PMDB. Votos foram de peemedebistas, pois não tive condição de organizar o PP em lugar nenhum do Estado, pela exiguidade de tempo.

Só divergimos em 1986, com o Brasil redemocratizado. Democracia que tanto batalhamos por ela. Disputamos a eleição para a Prefeitura de Anápolis em legendas diferentes. Antes Romualdo e eu, acompanhados do radialista Geraldo Divino, fomos até sua residência para saber se não estaria disposto a disputar a prefeitura. Foi categórico ao afirmar que o perfil do eleitor de Anápolis já não era o mesmo de eleições anteriores e que estava pendurando as chuteiras. Diante da sua contundente resposta, lhe informei que seria candidato. Quando estava com campanha na rua, fui surpreendido pelo anúncio da sua candidatura também.

Ao lado da odontóloga Carla Santillo, sua filha, instalaram e executaram em Anápolis, na minha administração, o primeiro Programa Médico da Família, em Goiás. Só deixou o programa em 1999 para ser secretário da Saúde na administração Marconi Perillo.

O importante é que na luta maior, pela redemocratização, sempre estivemos juntos. É gratificante ouvir, como ouvi na semana passada, de outro baluarte do MDB goiano, ex-prefeito e construtor da atual Paranaiguara, Ênio Tiburcio:

– Vocês fizeram parte da verdadeira oposição em Goiás, nos tempos da ditadura. Vocês escreveram importante página na história da resistência democrática no Brasil!

terça-feira, 2 de março de 2010

Mobilizações do MDB em Goiânia

Consolidada a candidatura de Joaquim Domingos Roriz nas bases interioranas, o convenci que seria conveniente reunir um grupo em Goiânia para lhe dar dimensão de liderança emergente. Aceitando a proposta, lhe apresentei a advogada Maria Dagmar, posteriormente eleita vereadora pelo MDB, na capital.

Dagmar, dinâmica e muito bem relacionada, organizou um esquema para todas as quartas feiras realizarmos concentração num setor da cidade.

A primeira experiência seria um mini-comício na Vila União, a céu aberto, tendo como palanque o calçadão do conjunto comercial, em frente um bar bem movimentado. Dentre os participantes compulsórios, alguns bêbados que faziam ponto por ali. Roriz com aquela voz empostada, pausada e firme discorria sobre os motivos que o levaram a se candidatar a deputado estadual. Cada vez que encerrava uma frase, o bêbado repetia o final dela:

- Graças a Deus sou bem sucedido nas atividades particulares.Mas isso não é tudo para quem quer servir o povo. Senti que preciso ajudar a tirar o Brasil dessa situação de caos e letargia...

- Caos e letargia, caos e letargia....

- Conto com seu voto!

- Seu voto, seu voto...

Muito atento e falando bem alto, o bêbado arrancava gostosas gargalhadas de toda platéia, o que fez Roriz encerrar rapidamente seu discurso.

Dagmar mudou de estratégia, uma vez que reunião perto de bar era espetáculo divertido mas de pouco resultado político ou eleitoral. Saímos da Vila União com a concentração da quarta feira seguinte marcada para a Vila Nova.

No dia marcado, cheguei de outra concentração numa cidade do interior em companhia do professor Lucas Gonçalves, diretor do Colégio Einstein, companheiro de inúmeras caminhadas. Lucas foi o primeiro a discursar encerrando sua fala com a algazarra de um grupo de skeitistas que fazia uma divertida corrida com um grupo de quase dez menimos. Os skeites feitos à base de rolamentos desciam pela rua em declive asfaltada fazendo barulho ensurdecedor, tirando faíscas pelo atrito do rolimã com o asfalto.

Mas nada abalava a nossa resistência e continuando a festa cívica foi passada a palavra ao Jair de Ázara, leal e dedicado companheiro, residente em Goiânia.

Com uma voz trêmula, em falsete e pausadamente, ele começou:

- Meus senhores....

O orador perdeu a afinação de voz, saindo aquela mensagem fina e engasgada. A meninada reagiu na hora, arrancando sonora gargalhada dos poucos assistentes:

- Uuuuu, Uuuuuuu....

Jair não perdeu a esportiva:

- Já dizia Sócrates, a vaia é democrática, mas não é civilizada!

Na quarta seguinte o encontro seria no Bairro Feliz, lugar famoso por reunir muita gente nos movimentos do MDB. Luiz Henrique da Silveira, prefeito de Joinvile, Santa Catarina, meu colega de Câmara e grande amigo, estava em Brasília e a meu convite iria participar do grande movimento político que estava sendo programado. Queria também retribuir minha ida a Joinvile, em sua campanha para prefeito.

Luiz Henrique chegou ao aeroporto Santa Genoveva às oito da noite e foi levado por um companheiro nosso ao Bairro Feliz.

Não havia praticamente ninguém, mas subimos na carroceria do caminhão à espera do público. Vimos chegando do final da rua um pequeno grupo, constituido de seis a oito cabos eleitorais, vestidos com camisetas contendo nomes de Roriz, Adhemar e Henrique, que carregavam cartazes e gritando bem ritimado:

- Goiás é feliz com Henrique, Adhemar e Roriz.

Goiânia tem sono tranqüilo, com Roriz e os Santillo...

Fizemos nova programação, insistindo que Dagmar mobilizasse mais gente:

- Podem se preparar, quarta-feira vamos arrebentar no Palmito e Novo Mundo. Naquela região o vereador Luciano Pedroso, leva de 1 mil a 1 mil e quinhentas pessoas por comício.

Na quarta-feira chegamos uns quinze minutos mais tarde que o combinado. Dagmar negociava naquele instante a apresentação de um trio sertanejo que sempre oferecia os seus serviços às nossa reuniões. Nunca havia dado certo, naquele dia autorizamos a contratação para animar a platéia.

A quantidade de pessoas era extraordinária. Não estavam lá os mil que Luciano Pedroso levava em seus comícios, mas havia de 400 a 500 pessoas. Ercílio Matias, eleito prefeito de Petrolina, tempos depois, discursava e a platéia não parava de aumentar. Hilton Lucena, motorista do Henrique passou pelo local e ficou impressionado:

- Adhemar, o Henrique está no Jardim America, com o vereador Benvindo Lopo e a platéia não é a metade dessa. Vou lá para trazer ele para cá.

Foi anunciada a palavra de Joaquim Domingos Roriz, a platéia aumentava cada vez mais. Roriz aproveitou e cumprimentou demoradamente cada companheiro de palanque vendo que o público ficava cada vez maior. Terminados os cumprimentos, apareceram duas senhoras no fundo do comício, carregando melancia num dos braços e segurando uma panela de pressão com a outra mão:

- Zé! Oh Zé, a distribuição de brindes é ali em cima!

Chiquinho de Castro, como prefeito nomeado de Goiânia, estava realizando um comício no bairro. Durante toda a semana sua equipe de assessoramento distribuiu bilhetes numerados para sorteio de prêmios. Com a advertência das mulheres, nosso público saiu em desabalada carreira, morro acima, nos deixando mais uma vez só com os integrantes do palanque e o conjunto de música nordestina, que havíamos contratado.

Ainda assim, fomos muito bem votados naquelas eleição.

Luziânia e o MDB

Em 1977, foi editado o “Pacote de abril” pelo Presidente Ernesto Geisel.

Usando dos poderes discricionários que lhe eram garantidos pelo Ato Institucional nº 5 – AI 5, o Presidente Ernesto Geisel baixou o “Pacote de abril” alterando a Constituição Federal, eliminando a eleição para governador pelo voto direto. Também foi criada a figura do “senador biônico” ou “senador nomeado” que era escolhido por voto indireto através da maioria das Assembléias Legislativas Estaduais, mesmo critério utilizado para eleição de governador.

A eleição com participação popular através do voto direto seria para apenas uma vaga no pleito de 1978 e, de acordo com “Pacote de abril”, os dois partidos poderiam lançar até três candidatos em sublegendas.

A Aliança Renovadora Nacional – ARENA, por ter maioria na Assembléia Legislativa, indicou para senador “nomeado” por eleição indireta o já senador Benedito Ferreira, conhecido como Benedito Boa Sorte e como primeiro suplente o ex-prefeito de Silvânia José Caixeta.

Para a disputa do voto direto, a ARENA lançou o ex-prefeito de Anápolis Jonas Duarte, o senador Ozires Teixeira e o Deputado Federal Jarmund Nasser. Com as três sublegendas preenchidas, os arenistas não possuíam suplentes. No caso de vitória o mais votado seria o senador e os outros dois o primeiro e segundo suplentes, por ordem de votação.

O MDB decidiu lançar apenas dois candidatos, o Deputado Estadual Henrique Santillo, representando o grupo autêntico do partido e o Deputado Federal Juarez Bernardes, representando o grupo moderado.

Como o PMDB lançou apenas dois candidatos, Henrique e Juarez, cada qual lançou um suplente. O suplente de Henrique foi o advogado Hélio Roriz, do município de Luziânia. Com a vitória do MDB e Henrique sendo o mais votado, Juarez Bernardes ficou na primeira suplência e Hélio Roriz na segunda.

A escolha do nome de Hélio Roriz e o apoio de Luziânia à candidatura de Henrique ao Senado se deram por uma estreita amizade que me ligava a Carlos Melo.

Bem antes da convenção regional, a maioria dos diretórios municipais do MDB recebia os dois pré-candidatos, Henrique e Juarez, de forma democrática, organizando reuniões sem demonstrar preferência, dando oportunidade para os dois candidatos se apresentarem aos eleitores.

O diretório de Luziânia, que estava lançando Joaquim Domingos Roriz para Deputado Estadual, estava fechado com Juarez Bernardes, se negando a receber Henrique. Contávamos com o amigo fiel no município, o vereador Carlos Melo, o querido Carlinhos, muito ligado a Roriz e freqüentador semanal de meu gabinete na Câmara Federal.

Carlinhos me procurou sugerindo que eu conversasse com Zequinha Roriz, irmão do Joaquim e um dos seus coordenadores políticos, para tratarmos de um espaço que poderia ser aberto no diretório de Luziânia, no que concordei. Marcamos para o dia seguinte almoço na Churrascaria Gaúcha, em Brasília.

Neste encontro, Zequinha me disse que o objetivo dos emedebistas de Luziânia era eleger Joaquim Roriz Deputado Estadual, indagando-me se havia como ajudá-lo. Respondi afirmativamente e contatei imediatamente Manoel Bezerra e Aurelino, integrantes do diretório de Alexânia, solicitando apoio à candidatura de Joaquim Roriz. Fiz o mesmo com os diretórios do MDB de Orizona, Vianópolis, Pires do Rio, Itapaci e Goiatuba, conseguindo para Joaquim estes diretórios que já me apoiavam.

Após conseguir o apoio dessas lideranças, incluindo Maria Dagmar, nossa coordenadora em Goiânia, com intensas atividades políticas que tínhamos em conjunto, Joaquim e eu criamos uma confiança mútua e em conseqüência, os companheiros de Luziânia decidiram que trabalhariam para os dois candidatos, Henrique e Juarez.

Quando da convenção regional, Henrique escolheu seu vice na família Roriz, o advogado muito conceituado no município, Hélio Roriz. Pela minha lealdade em fortalecer a candidatura do seu representante, o diretório municipal do MDB de Luziânia decidiu, também, apoiar minha candidatura a Deputado Federal.

Naquela eleição, 1978, obtive estrondosa votação em Luziânia, garantindo com isso a posição de mais votado entre os Deputados Federais eleitos por Goiás. Henrique Santillo se elegeu Senador com grande votação em todo o entorno de Brasília e Joaquim Roriz foi o Deputado Estadual mais votado dentre os eleitos para a Assembléia Legislativa.

Conseguimos essa união pelo trabalho do saudoso vereador Carlos Melo, um dos grandes amigos que angariamos em nossa cruzada pela democracia.

Naquele instante em que estive com Zequinha, consolidamos uma aliança duradoura e abrimos caminho para que Roriz percorresse, com grande sucesso, sua senda política, iniciada em Goiás.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Visitas e imprevistos

Uma das cobranças que o eleitor mais faz é a presença do político.

Ainda que o seu trabalho legislativo ou executivo seja bem realizado, ainda que o seu desempenho no cargo atenda a expectativa do eleitor, a presença em sua casa, nos aniversários, encontros religiosos, culturais e esportivos é sempre notada como fator positivo da vida política.

Em campanhas eleitorais, os convites para reuniões são variados. Sempre procuramos atender os companheiros, independentemente do credo religioso confessado.

Em vários desses encontros aconteciam fatos interessantes. No momento traziam constrangimento, mas com o passar do tempo eram vistos com naturalidade.

Visita ao Mário

Foi assim numa visita ao Mario Santana, irmão do saudoso Bertolino Santana, que dirigia seu trabalho espiritual num terreiro localizado no Bairro São José. Convidados para uma festa de aniversário do terreiro, lá estávamos com o vereador Walmir Bastos Ribeiro.

Para iniciar a reunião, Mário encheu uma cuia, metade de uma pequena cabaça ou coité, com cachaça e o ritual era passar a vasilha de mão em mão entre os presentes. Cada um que a recebia tomava um gole e passava a cuia adiante.

Quando chegou a vez de Walmir Bastos, sem ter prestado atenção no ritual, bebeu todo o conteúdo. Constrangido, mas sem qualquer comentário, Mário encheu novamente a cuia e a cerimônia continuou.

Uns dez minutos depois, quebrando toda a solenidade que o ato exigia, Walmir Bastos suando bastante, voz arrastada, gritou:

– Já é hora da música, vamos dançar, gente, até o churrasco ficar pronto! Antes vamos aos discursos das autoridades.

Mário demorou um pouco para recobrar o controle da solenidade, mas terminou a reunião logo em seguida.

Visita ao Benício

Em outra oportunidade, com Onofre Quinan, Henrique Santillo e José Batista Jr., fomos a uma festa no Centro do Benício, localizado na Rua Mauá, onde havia seguidores e muitos visitantes. Ficamos sentados em roda, enquanto no centro do salão os números especiais eram apresentados pelos integrantes do ”Centro Espírita do Benício”.

Benício, com sua coroa de rei, sentado na cadeira mais elevada do recinto, gesticulava dizendo-nos alguma coisa que, no entanto, não era por nós compreendida. Interpretávamos seus gestos como sinal de satisfação pela quantidade de visitantes e alegria de todos.

Depois de tentar em vão comunicar-se conosco à distância, desceu do seu pedestal, passou a mão num enorme facão niquelado, parecido com uma grande adaga e caminhou em nossa direção. A sua atitude nos levou a pensar que era parte do ritual. Benício atravessou todo o salão e resoluto aproximou-se do local onde encontrávamos. Ao nos alcançar, parou e estático em frente a Onofre Quinan, que se encontrava com as pernas cruzadas, gritou:

– Descruzê! Descruzê! Descruzê!

Onofre só teve tempo de dar um pulo para trás, quase caindo da cadeira, enquanto a lâmina tocava o piso, levantando faísca.

Visita ao Raimundinho

Outro grande amigo nosso era o Raimundinho, responsável por trabalhos espirituais num pequeno salão comercial, ao lado de sua casa, no Bairro Boa Vista. Fomos visitá-lo em companhia de Inês, filha de Donana e Laurindo, companheiros políticos da região, com José Batista Jr. e Walmir Bastos. Ao chegarmos ficamos mais afastados, num canto do salão. Raimundinho atendia a um carregador de caminhão, homem forte, que estava bastante concentrado, totalmente trêmulo. Sem vaga ao nosso lado, o Walmir foi sentar-se no banco da frente, ao lado do homem em transe, que falava frases desconexas, resfolegando muito. O vereador olhou para trás em nossa direção e deu uma sonora gargalhada, quebrando totalmente a solenidade e a seriedade do ato. Raimundinho não perdeu a serenidade, mas o estivador virou-se de frente, aparentemente enfurecido, caindo de costas para o chão, dando um “bico” de pé direito por baixo do assento em que o vereador se encontrava. A força foi tamanha que levantou o Walmir alguns palmos para o ar, que caiu estatelado ao chão, mas levantou-se em seguida, apavorado, gritando:

– Valei-me senhor do Bonfim, valei-me senhor do Bonfim!

Não havia janela no recinto e a única porta existente havia sido trancada após nossa chegada. As luzes estavam apagadas e Walmir ficava tateando a parede. Só se acalmou quando a porta foi aberta e ele saltou para fora, saindo em desabalada carreira. Fomos encontrá-lo bem longe, suado, assustado, sem olhar para trás.

Visita ao pastor Jaconias

Homem de muita fé e fiel servo cristão era o senhor Jaconias Cavalcante, pai do ex-vereador José Escobar Cavalcante. Pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, dirigia os trabalhos de evangelização na igreja da Vila Santa Maria de Nazareth. Cidadão politizado, estava sempre atento aos acontecimentos políticos em Goiás e no Brasil. Gostava muito de política e do MDB, mas seu tempo era dedicado aos trabalhos da igreja.

Escobar, candidato a vereador, contou com o apoio decisivo do pastor Cavalcante, como era conhecido pelos irmãos. Num culto de quarta-feira, o pastor convidou Escobar para visitar a igreja, preparando os irmãos para o evento. No momento da apresentação, o pastor Cavalcante falou das virtudes do filho e de suas boas qualidades. Finalmente, disse que, embora o filho não comparecesse regularmente aos cultos, era um bom cristão. Com a palavra dada ao visitante, Escobar foi claro:

– Meus irmãos, tudo a respeito da minha vida foi dito pelo meu pai. Coloco a vida dele, amada por todos vocês em testemunho à minha própria vida. Gosto muito do trabalho que ele realiza pela evangelização dos perdidos e desesperados. Mas é meu dever dizer que me “amarro” mesmo é no espiritismo!

O pastor e a congregação, em estado de total espanto, deram a visita por encerrada, sem maiores comentários.

Visita do Anapolino

Anapolino de Faria, candidato a Deputado Federal, corria o interior do estado e eu, candidato a Deputado Estadual, fazia o trabalho em Anápolis com reuniões e visitas.

Naquela noite aconteceria uma reunião na Vila João Luiz de Oliveira, a qual Anapolino compareceria vindo de um encontro em Nerópolis.

Tudo estava acertado para uma boa reunião, quando um imprevisto ocorreu na tarde daquele dia. Aconteceu uma tragédia vitimando um rapaz vizinho da família que nos receberia e todos os moradores estavam abalados. Não havia clima para realização do encontro.

Fomos todos os companheiros prestar solidariedade à família enlutada. Solicitamos ao Zé Maneco, um dos organizadores do encontro, que ficasse no local para informar aos companheiros que chegassem o motivo da suspensão da reunião.

Por volta das nove da noite, sem saber do ocorrido, Anapolino de Faria chegou de Nerópolis estacionando seu automóvel em frente à multidão presente ao velório. Saiu do carro ao encontro de Zé Maneco que se deslocava para avisá-lo do acontecido.

Antes de ter tempo para pronunciar uma única palavra Zé Maneco ouviu a exclamação de Anapolino:

– Hei, Zé Maneco! Isso é que é liderança! Isso aqui não é reunião, isso já é comício.

E passou a cumprimentar efusivamente cada uma das pessoas até que foi puxado de lado pela camisa, quando Zé Maneco pode esclarecer tudo.

Direção perdida

Chefinho, o Sr. Messias Antônio Ribeiro, fazendeiro no Matão, nos seus últimos anos de vida passou a morar em Anápolis. Emedebista convicto, nos acompanhou em todas as disputas políticas de que participamos. Toda sua família sempre esteve ao nosso lado.

Chico Mineiro, um dos mais destacados lideres do MDB em Ouro Verde, antigo Matão, chefe de família numerosa e trabalhadora, era seu cunhado. Os filhos de Chico Mineiro além de numerosos sempre só lhe deram alegria pela correção de vida de todos eles.

Num domingo à tarde, três deles participavam de uma partida de sinuca, numa venda no Sapato Arcado, em frente à fazenda do Sr. Antônio Garcia, na estrada que liga Anápolis a Ouro Verde. Dois jovens que também participavam da partida se desentenderam com os filhos do Chico, terminando em troca de murros, pontapés e pauladas. Os rapazes do Chico Mineiro bateram mais que apanharam. Foram trazidos para Anápolis para fugirem de qualquer flagrante, sendo feita a queixa na polícia.

Em Anápolis, Zoroastro Vieira Braga, o Zuruca, Tonho Gaguinho e Chefinho foram até ao bairro JK, onde deixaram os rapazes.

Como eu e Vicente Alencar estávamos no interior do Estado, chegamos a Anápolis à noite e recebemos a informação pelo Romualdo que Chico Mineiro precisava falar conosco, urgentemente. Não sabíamos o endereço onde se encontravam no bairro JK. Fomos atrás do Zuruca, não o encontramos, havia saído. Partimos para o Mercado JK onde encontramos Tonho Gaguinho, bem embriagado:

– Tonho, os homens foram levados por vocês para onde?

– Homens? Que homens?

O recurso foi tirar o Chefinho do seu descanso

Vicente Alencar, Romualdo, Chefinho e eu rodamos umas quatro vezes todas as ruas do bairro JK e nada de encontrarmos a residência onde eles estavam. Chefinho dizia:

Suba para cá, vire para lá, passe para a esquerda, vira para a direita...

Não houve jeito. O recurso foi deixarmos para melhor oportunidade.

Vicente Alencar ainda sugeriu que retornássemos à Praça do Bom Jesus para que Chefinho se situasse melhor. Foi o que fizemos.

Quando chegamos à Praça do Bom Jesus, muito movimentada e lotada com o término da missa, fonte luminosa funcionando; já havíamos esquecido que Chefinho não conseguiria reconhecer o local onde à tarde ele, Zoroastro Vieira Braga e Tonho Gaguinho deixaram o compadre Chico. Chefinho que estava quieto, sem trocar uma só palavra em todo trajeto até a praça principal de Anápolis, indagou bastante preocupado:

– Que lugar é esse?

Ficou claro que tínhamos que deixar para o outro dia a procura por Chico naquelas ruas do Bairro JK, sem asfalto, tomadas pela poeira e sem iluminação pública.

Tecnologia avançada na cozinha

Em 1977, a eleição para o Senado teria sublegendas, dois candidatos do mesmo partido disputariam a vaga. Henrique não havia ainda se decidido, mas já era o candidato indicado para representar o grupo autêntico do MDB, enquanto que os conservadores indicaram Juarez Bernardes.

Visitei os diretórios das cidades que representava como Deputado Federal, trabalhando para a candidatura de Henrique. Em minhas viagens, levei Vicente de Paula Alencar, até aquele momento, defensor ferrenho da candidatura de Henrique Santillo.

Em Uruana, cidade a qual representava na Câmara Federal, fomos em primeiro lugar na casa do Sr. Agenor Moreira, ex-prefeito da cidade e grande líder emedebista. Lá estava também seu genro Custódio, que nos acompanhou às demais lideranças.

Quando deixamos a residência de José Gomes, partindo para a casa de outro companheiro, Custódio fez questão de nos mostrar a casa onde foi usada a primeira panela de pressão no Município. O autor da façanha foi um cerealista muito conceituado na cidade e que, pelo menos uma vez por semana, levava cereais para atacadistas anapolinos e, no retorno, levava as encomendas feitas pelos uruanenses.

Numa das suas idas e vindas a Anápolis, passou pela Casa Violeta, na Praça do Bom Jesus, quando assistiu a explanação de um vendedor da loja falando sobre a maior invenção do homem para a cozinha, a panela de pressão:

– Com esse aparelho, não há galinha, por mais velha de seja, que resista a temperatura.

Gostou do que viu e ouviu, comprando a panela para quatro litros. Logo toda população ficou sabendo que o “mais avançado instrumento da tecnologia moderna para uso na cozinha” havia chegado à cidade. Aproveitou para convidar compadres e amigos para domingo, após a missa das 9, irem à sua casa, porque enquanto os ‘truqueiros’ disputassem uma partida, um galo de mais de três anos seria cozido na panela de pressão.

Quando a disputa começou, a panela foi levada ao fogão a lenha estrategicamente instalado na cozinha. Antes mesmo que a primeira trucada acontecesse numa das mesas, a cozinheira, dona da casa, disse em voz alta ao chegar à porta:

– Gente a panela tá furada!

Surpresa geral. Os mais curiosos deixaram o jogo e foram à cozinha. Puderam ver e ouvir o barulho do vapor que saia pela válvula da panela. Decepcionado, o anfitrião já acertou para o domingo seguinte, no mesmo local e horário, a disputa do ‘truco’ e o uso da panela.

Segunda-feira bem cedo foi a uma oficina de conserto de utensílios domésticos, narrando o acontecido ao oficial, experiente no ramo. Não conhecia aquele instrumento, mas era visível que vazava no centro da tampa. Na mesma hora passou a mão no aparelho de solda a oxigênio, deu uma lixada na parte interna da tampa, reforçando o local da válvula com substanciosa camada de solda:

– Ela pode até vazar em outro lugar. Nesse nunca mais!

Domingo, horário combinado, lá estavam os ‘truqueiros’. Enquanto isso, para não decepcionar, os convidados o fogão foi aceso mais cedo, com angico bem sequinho.

Iniciada a partida pelos truqueiros na sala, o galo carijó, o mais antigo da região, foi dentro da panela, para o fogo.

– Truco... Truco...

– Seis milho, ladrão...

A algazarra e o barulho ensurdecedor só não conseguiram abafar o estrondo que veio da cozinha com a tampa da panela voando como um foguete, deixando estrago no telhado e pedaços do carijó presos as telhas.

VISITA A LEOPOLDO DE BULHÕES

Joaquim Roriz, candidato a deputado estadual e eu, candidato a reeleição de deputado federal, fizemos juntos várias visitas na região da estrada de ferro para que ele fosse apresentado aos companheiros de Pires do Rio, Vianópolis, Orizona e Leopoldo de Bulhões.

Para o encontro em Leopoldo de Bulhões cheguei acompanhado do advogado Vicente de Paula Alencar e o vereador Walmir Bastos Ribeiro, aguardando Joaquim Roriz na casa do presidente do MDB local, o amigo Agenor Gontijo.

Por volta das duas da tarde chovia fino deixando a rua tomada pelo lamaçal. Vicente Alencar calçava botina nova de solado sintético, garantindo ser a última novidade contra derrapagens. Apressou-se a atravessar a lama da rua para alcançar a porta de entrada da casa de Agenor, bem escorregadia pelo lodo formado por alguns dias de chuva permanente. Firmou o pé direito na ponta da calçada escorregadia e imediatamente deu uma deslizada levando um tombo que o deixou sentado no chão:

- Não dá para a gente acreditar em mais nada! Me disseram que a botina fixava em pista escorregadia como um ímã.

Vicente precisou de toalhas e algum tempo para limpar-se. Quando Roriz chegou, com Vicente já recuperado, continuamos nosso roteiro nos dirigindo a outra cidade da região.

Foi uma reunião de liderança na qual apresentei Joaquim Roriz que até então era conhecido como Joaquim Domingos, falando das suas qualidades pessoais e políticas. Estavam todos ao par do apoio de Luziânia à candidatura do Henrique ao Senado. Outra vantagem em apoiar Joaquim, era o fato dele ser da região, o que garantia sua presença para ajudar os companheiros, o que foi ratificado na fala do próprio. Em nome do diretório falou o tesoureiro:

- Dr. Joaquim Domingos, nós aqui sempre apoiamos os irmãos Santillo...

- Vocês vão continuar apoiando os irmãos Santillo, atalhou Roriz, nós de Luziânia agora estamos juntos com eles, também...

- Pois é, Doutor Joaquim, sempre estivemos com eles porque nunca nos faltaram com apoio e também pelo nosso amor ao MDB. Mas nunca pedimos um cruzeiro para eles, sempre os apoiamos de forma relevante, de graça.

- Muito bem!. Parabéns pela luta de vocês! ressaltou Roriz.

- É, mas agora a gente vai precisar de um dinheirinho....

- Para que que vocês precisam de dinheirinho? brincou Roriz.

- Prá fazer uma campanha com mais conforto.

Walmir Bastos que parecia estar cochilando num canto da sala, soltou sua tradicional gargalhada, sonora e inconfundível, levando todos a rirem também. Walmir, grande amigo de Roriz, a partir daquele momento todas as vêzes que se referia a Roriz, dizia:

- Joaquim conforto...