quarta-feira, 13 de abril de 2011
Políticos que confiam na retaguarda
Em 1977, o presidente Geisel encaminhou ao Congresso Nacional projeto de reforma do Judiciário que, de acordo com as principais lideranças do mundo jurídico brasileiro, era agressão total ao Estado de Direito. Para que a matéria fosse aprovada, a bancada do MDB teria que votar favoravelmente. Duas correntes logo surgiram entre deputados e senadores: Tancredo Neves, embora contra, mas preocupado com o retrocesso institucional, defendia que se votasse pela aprovação da reforma. Paulo Brossard, advogado militante, dono também de notável saber jurídico, era totalmente contra a aprovação. Em reunião de bancadas unidas do Senado e Câmara, no auditório Nereu Ramos, após discursos emocionados das forças que defendiam e as que repudiavam a aprovação, a matéria foi à votação e a maioria do MDB foi pela rejeição. No plenário a Arena votou a favor e o MDB contra. Matéria foi para o arquivo.
No dia seguinte, o Congresso Nacional foi fechado por uma semana. Nosso líder, Alencar Furtado foi cassado, tendo os seus direitos políticos suspensos. As eleições diretas para governador, em 78 foram, mais uma vez, transformadas em nomeação e criaram a figura do senador "biônico", ficando para o povo o direito de eleger apenas um dos dois que seriam escolhidos nas eleições de 78.
Na ditadura sabíamos que para cada ato de ousadia de nossa parte, surgiria reação dura da parte contrária. Era preciso resistir. Para ser oposição precisava ter patriotismo, coragem e nenhum tipo de fisiologismo.
Nem só de tensão e sufoco vive o Congresso Nacional. Há momentos de tranqüilidade e até hilariantes.
Quando vivíamos o desdobramento do "pacote de abril de 77", tomei conhecimento, pelo deputado Epitácio Cafeteira, que na década de 50, numa reunião noturna da Câmara dos Deputados, estava em votação projeto de revolução que concedia reajuste de subsídios aos deputados. A votação era nominal, do Sul para o Norte. No início da votação, os parlamentares foram orientados pelo presidente da casa sobre o teor da matéria e os que votassem "Sim" estariam aprovando o aumento e os que fossem contra, votariam "Não". Quando a bancada de Minas Gerais estava votando, o plenário foi surpreendido pelo voto, solitário, de "Não", do deputado Último de Carvalho. O presidente ficou assustado, paralisou o processo de chamada, depois de repetir todas as instruções do início da sessão, entendendo que Último de Carvalho não estava em plenário no início dos trabalhos, voltou a perguntar:
– "Deputado Último de Carvalho, como vota?"
– "Não!"
Agora já não havia dúvida, seu voto foi consciente. O que teria feito o deputado não querer um reajuste de subsídios? Mal terminou a votação da bancada mineira, quatro colegas do PSD mineiro foram ao seu encontro e lhe indagaram:
– "Último, até agora estamos tontos com sua atitude. Você não é pessoa muito rica que possa dispensar aumento de subsídio, qual é a sua?"
– "Eu confio na retaguarda", respondeu.
Até hoje ainda há muita gente confiando na retaguarda. No regime ditatorial de 64 não havia espaço "para fazer de conta" e confiar na retaguarda. Cada um era verdadeiramente responsável pelos seus atos.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Quase que o cachorro pagou o pato
No mês seguinte, veio o “pacote de abril” editado pelo presidente Geisel, eliminando do texto constitucional a eleição direta para governador. Pior, criando a escandalosa figura de um senador nomeado. O senador biônico. A mudança nas regras do jogo não foi surpresa para nós, democratas. Em Goiás, a alteração das regras eleitorais serviu apenas que fosse adiada em mais quatro anos a chegada do MDB ao governo do Estado e para que a Arena recebesse, de mão beijada, uma cadeira no Senado da República.
Para o encontro de março, as regras que valiam eram de eleições de dois senadores e governador. Tínhamos que mobilizar o pessoal para o encontro em Goiânia. As tarefas foram distribuídas entre os companheiros. Deixamos para Vicente de Paula Alencar, presidente do MDB anapolino, vereador Walmir Bastos Ribeiro e Romualdo Santillo contatos em Anápolis e região do Vale do São Patrício. À minha responsabilidade ficaram as regiões da Estrada de Ferro, Entorno de Brasília, Médio Norte Goiano e algumas lideranças de Goiânia.
Final de semana, retornando de Brasília, passei em Anápolis, convidei um amigo para irmos a Goiânia. Iríamos à casa do professor Reinaldo Pantaleão, residente do Conjunto Itatiaia, próximo ao campus da UFG. Sabia que morava naquela região, mas não em que rua e casa. Telefonei para o amigo José Moreira, o Zuza, que conhecia Pantaleão, sabia onde morava. Fomos na Variant do Moreira. Dois dos seus filhos, Éric e Ludmila nos acompanharam. Levavam seu cachorro de estimação. Assim, partimos nós cinco mais o cachorro para a visita.
Com sua costumeira fidalguia, professor Pantaleão nos recebeu se colocando pronto a formar o grupo de voluntários que trabalharia para arregimentar a plateia que lotaria as dependências da Assembleia Legislativa. Na ida à casa do professor, o tempo estava firme com muito sol. Calor intenso. Moreira fez todo o trajeto com os vidros da Variant abertos. O ar refrescou a temperatura e arejou o ambiente. Na volta fazia o mesmo calor, mas caiu de repente, chuva fina e forte. Fomos forçados a fechar todos os vidros. Á medida que as vidraças foram levantadas, o calor interno ficou insuportável.
Odor azedo exalou pelo interior do carro, para piorar a situação. Incomodado pelo o mau cheiro, Moreira gritou para os filhos que carregavam no colo, o cachorro de estimação:
– Éric e Ludmila, por favor, ao chegarem em casa, lavem esse cachorro!
– Pai, nós o lavamos hoje, minutos antes de sairmos!
– Por favor, lavem esse cachorro pelo menos duas vezes ao dia.
– É isso que fazemos! Lavamos cedo e à tarde.
– Então, quando forem dar banho nele, usem shampoo!
– Nós usamos shampoo.
A discussão entre eles continuou até chegarmos ao local onde havia deixado meu carro. Nos despedimos. Eu e o companheiro retornamos para Anápolis. Quando cheguei em casa, antes mesmo de tomar banho, telefonei para Moreira:
– Moreira, não deixe seus meninos matarem o cachorro com tanto banho, shampoo e desinfetantes. O provocador daquele odor era meu companheiro. Quando há qualquer evento político, ele transpira demais e se esquece de tomar banho.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Surpresas nas campanhas políticas
Em 1982, Iris Rezende, que readquirira seus direitos políticos depois de 10 anos de suspensão, decidiu ser candidato, adiando por mais quatro anos o projeto de Henrique Santillo. Iris econtrou o PMDB, sucedâneo do MDB, organizado e imbatível em todo o Estado. Onofre Quinan, empresário bem-sucedido, nosso companheiro de MDB em Anápolis, foi indicado para vice-governador na chapa de Iris.
Ary Valadão, governador do Estado, sofria com os pequenos recursos que o Estado dispunha. Precisava construir alguma coisa que marcasse sua administração. A Arena o abandonara. Estava bastante dividida. Enquanto o governador lutava pela indicação de alguém do seu grupo a maioria do partido queria Otávio Lage de Siqueira, enfrentando Iris Rezende. Alguns meses antes das eleições, Ary Valadão conseguiu autorização do Banco Central para empréstimo internacional. Os recursos seriam aplicados em pavimentação de rodovias. Principal a ser asfaltada seria a que liga Itaberaí a Itapuranga. Máquinas chegaram a iniciar os serviços de terraplanagem.
Como empréstimo externo depende de autorização do Senado, os senadores arenistas em final de governo não compareciam ao plenário para que houvesse deliberação. Em todas as sessões, a mesma cena: o presidente abria a sessão, o senador Dirceu Cardoso (PMDB-ES) pedia verificação de quorum. Não havia número para abertura. Passaram-se os dias, semanas e meses e o pedido de empréstimo do governo goiano não era apreciado. Os arenistas de Goiás espalhavam por todos cantos que os senadores Lázaro Barbosa e Henrique Santillo, do PMDB-GO, estavam impedindo sua votação, para prejudicar Ary Valadão. Essa fofoca já começava a afetar o candidato peemedebista Iris Rezende. O PMDB goiano decidiu que Lázaro Barbosa e eu, representando Henrique Santillo, iríamos a Itapuranga para esclarecer a verdade. Fomos em avião pertencente a Onofre Quinan, comandado pelo piloto Carlão. Conosco foi também o advogado Wanduir de Lima.
Ao chegarmos a Itapuranga, não havia ninguém nos esperando no campo de aviação. Carlão sobrevoou a cidade, retornando ao campo de pouso. Apenas uma pessoa no centro da pista fazendo sinais para que Carlão parasse ali, a aeronave. Era Claudion Mendes, presidente do PMDB no município, solicitando que não saíssemos do avião. Argumentou que integrantes do PMDB Jovem nos receberiam a bala caso fossemos à reunião. Apoiadores de outros candidatos do partido ao Senado e Câmara Federal não aceitavam que Lázaro e eu conversássemos com a população. Nossa missão não era buscar apoio partidário às nossas candidaturas. Além do mais, lutávamos contra qualquer tipo de prepotência. Não podíamos abandonar a luta pelo gesto tresloucado de alguns irresponsáveis! Descemos! Assim que pusemos os pés no chão, começaram os disparos em nossa direção. Sem um local mais apropriado para nos proteger, usamos a fuselagem do avião. Os disparos só cessaram quando integrantes da Polícia Militar chegaram ao local. Fomos à prefeitura, mas, com a população assustada, ninguém compareceu. A reunião não aconteceu. Cumprimos nosso papel, concedendo entrevistas à emissora de rádio local.
A campanha não podendo parar, na manhã seguinte, fui com Maria Dagmar e Paulo Silva, candidatos a vereadora por Goiânia e a deputado estadual, à Vila Redenção. Primeiro conjunto de casas populares contruído por Iris, em Goiânia. Nos acompanhou na visita, casa a casa, Tarcísio, primo de Dagmar e comerciante de materiais de contrução, na região. Depois que fizemos dezenas de visitas, chegamos à casa de dona Bárbara, matriarca de grande família. Tarcísio entrou pelo corredor, indo direto à cozinha. Nós o acompanhamos. Fez a apresentação de praxe. A anfitriã, atenta, ouviu a identificação de cada um de nós. Esgotados os argumentos, Tarcísio completou:
- "Dona Bárbara, a senhora não está surpresa de estar recebendo em sua casa o deputado Adhemar Santillo? Esse é o homem que denunciou as mordomias do ministro do Trabalho!"
A mulher, com olhar fixo ao chão da cozinha, categórica, afirmou:
- "Tarcísio, depois que Toninho, meu filho caçula de 19 anos, se casou com uma mulher velha de 69 anos, que nem INPS tem, nada mais me surpreende!"
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Jogo da despedida de MDB e Arena
Na década de 70, embora a convivência entre os parlamentares da Arena e MDB no Congresso Nacional fosse respeitosa e cordial, as discussões eram tensas. O momento mais crítico que vivemos foi quando, em abril de 1977, o presidente Geisel baixou o “pacote de abril”. Colocou em recesso o Congresso Nacional, extinguiu as eleições diretas para os governos estaduais previstas para 78; cassou o mandato do deputado Alencar Furtado, líder do MDB, e criou a escandalosa figura do senador sem voto, o senador biônico. Nesse episódio, o presidente nacional do MDB, deputado Ulysses Guimarães, fez um dos mais belos discursos até então pronunciados da tribuna da Câmara Federal. Foi quando comparou Ernesto Geisel ao sanguinário ditador de Uganda, Idi Amim Dada.
Em 1979, ainda no governo Geisel, crescia a convicção entre todos nós parlamentares e no seio da sociedade brasileira de que o regime de força estava chegando ao fim. A mobilização nacional para a volta dos exilados e foragidos políticos foi colossal. As negociações entre oposição e governo para a concessão da anistia eram ininterruptas. Setores das Forças Armadas participaram ativamente dessas discussões. O campo estava sendo preparado para a travessia da ditadura à democracia. Se discutia também o fim do bipartidarismo.
Antes que os dois partidos fossem extintos, a revista Manchete programou uma partida de futebol entre parlamentares do MDB e Arena, para seu campo gramado, no Setor Gráfico de Brasília. A grande imprensa nacional esteve presente ao clássico. A Manchete, na sua edição da semana seguinte, deu ampla cobertura ao evento. Tivemos nosso dia de seleção brasileira. Todas as atenções foram dirigidas ao jogo que marcava a despedida de MDB e Arena. Orlando Brito, um dos mais destacados fotojornalistas do Brasil, registrou os melhores momentos do “jogo do ano”, vencido pela equipe do MDB. Tarcisio Delgado, cuja infância passara na zona rural, aprendeu jogar descalço. Mesmo assim mostrou seus dotes de artilheiro ao infernizar a defesa arenista. Álvaro Dias, que na adolescência treinou algumas vezes na equipe do Londrina, time principal da sua terra natal, foi ao lado de Tarcísio a dupla do meio campo, que desestabilizou o time arenista. No ataque, o destaque ficou por conta de Roberto Freire. Atuei pela zaga direita fazendo o trio de zagueiros com Alceu Colares e Pimenta da Veiga. No gol jogou da Manchete, foram disponibilizados na Internet por Canindé Soares, pelo site o craque mais jovem do MDB, Carlos Alberto.
Fotos e comentários sobre essa partida de futebol, realizada há 31 anos no campo, http://canindesoares.blog.digi.com.br/.
A equipe do MDB foi composta pelos deputados Carlos Alberto (RN), Adhemar Santillo (GO), Alceu Collares (RG),Olivir Gabardo (PR), Pimenta da Veiga (MG) e Jorge Viana ( BA).Tarcisio Delgado (MG), Álvaro Dias (PR), Roberto Freire (PE), Jorge Uequed ( RG) e Evilasio Vieira senador (SC).Pela Arena jogaram, dentre outros, Paulo Lustosa (CE), Hugo Mardini (RG), Paulo Guerra, João Carlos de Carli, Carlos Wilson , ministro da Previdência, Jair Soares.
Pouco tempo após essa partida, MDB e Arena deram lugar ao surgimento do pluripartidarismo. A Arena transformou-se em PFL e o MDB em PMDB. Alguns integrantes do grupo autêntico, comandados por Roberto Freire, fundaram o Partido Comunista Brasileiro-PCB. Sob o comando de Lula, Airton Soares, Eduardo Suplicy, Antônio Carlos de Oliveira, Edson Kahir e outros fundaram o PT. Com a Anistia ampla, total e irrestrita, os exilados e perseguidos políticos puderam retornar ao Brasil e à prática política. Estava pavimentada a estrada para a redemocratização do País.A importante partida de futebol realizada num domingo pela manhã no campo gramado da revista Manchete em Brasília foi testemunha do encerramento, em confraternização, dos partidos políticos MDB e Arena, existentes durante a ditadura militar.
terça-feira, 2 de março de 2010
Cronologia da Violência
Primeiro de abril de 1964: Após ter sido eleito o primeiro presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis pelo voto direto, Adhemar Santillo é destituído do cargo pelos integrantes do golpe que destituiu o Presidente da República João Goulart.
Maio de 1964: Adhemar Santillo é preso juntamente com médico Fuad Siad, acusados de pertencerem ao movimento clandestino Ação Popular (AP). Responderam a inquérito policial na Secretaria de Segurança Pública de Goiás.
Junho de 1964: Adhemar Santillo responde a Inquérito Policial Militar (IPM), comandado pelo Exército Brasileiro. Conclusão do IPM: não é encontrado nada que possa incriminá-lo.
Junho de 1964: Adhemar é impedido de trabalhar como radialista na Rádio Carajá de Anápolis ou qualquer outra emissora de radiodifusão da cidade pelo coronel Izacir Telles.
Agosto de 1964: Por determinação do coronel Epitácio de Brito, chefe de gabinete militar do governador Ribas Jr., Romualdo Santillo é preso por haver escrito no jornal Correio Braziliense, em sua coluna diária “O Que Se Comenta”, notícia em que fazia crítica à postura do coronel. Com seus jantares diários realizados no Palácio das Esmeraldas em Goiânia, o coronel buscava apoio a uma possível candidatura ao governo do Estado pela UDN, nas eleições que aconteceriam em 1965.
Dezembro de 1966: Henrique Santillo, eleito vereador da Câmara Municipal de Anápolis, deixou de ser diplomado pelo Juiz Eleitoral Manuel Luis Alves, sob a acusação de ser fichado como comunista na G2 da Polícia Militar de Minas Gerais. Henrique Santillo foi diplomado e empossado quando o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Goiás, em vista de documentos oficiais buscados por Adhemar em Belo Horizonte e acostados ao processo, atestou não ser Henrique fichado naquela corporação.
1969: Candidato a prefeito de Anápolis pelo MDB, Henrique Santillo teve seu registro de candidatura, diplomação e posse impugnados pelos adversários, sempre com denúncias e documentos falsos. A Justiça Eleitoral não deu provimento a nenhuma das denúncias, mandando-as ao arquivo.
Janeiro de 1971: Encerradas as eleições de 1970, Anapolino de Faria foi o candidato a Deputado Federal mais votado em Anápolis e Adhemar o mais votado para a Assembléia Legislativa. Integrantes do MDB do município, contrários aos Santillo, denunciaram Henrique Santillo, Anapolino de Faria e Adhemar Santillo à Polícia Federal, acusando-os de prática de corrupção eleitoral naquelas eleições. Foi designado o delegado Jesus Lisboa para a realização do inquérito que, concluído, ficou engavetada na Procuradoria Geral do Estado.
Janeiro de 1971: Dos quinze vereadores que compunham a Câmara Municipal de Anápolis, foram eleitos em 1970 dez pertencentes ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e cinco da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Foram eleitos para a mesa diretora da Camâra, biênio 1971/1972, Antônio Marmo Canedo como Presidente, Walmir Bastos Riberio como vice-Presidente e Walter Gonçalves de Carvalho como Secretário, todos emedebistas e santillistas. Antônio Marmo Canedo faleceu no exercício da Presidência. Para substituí-lo, foi efetivado Walmir Bastos.
1972: Com a morte de Antônio Marmo Canedo, três vereadores do MDB (Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sergio Sobrinho), não ligados a Henrique Santillo, passaram a votar de acordo com os cinco arenistas em oposição ao prefeito. Os adversários lutaram para que Walmir Bastos, Presidente da Câmara, aderisse à ala do MDB oposicionista a Henrique. Não conseguiram e passaram a perseguí-lo com auxílio dos órgãos de repressão, comandados pela Polícia Federal e Delegacia da Ordem Política Social do Estado, sendo preso por três vezes consecutivas. A última prisão de Walmir foi a mais violenta, pois foi retirado sob mira de metralhadoras de dentro do carro em que Adhemar lhe dava uma carona. Foi conduzido à Brasília e dele foi exigido que renunciasse à Presidência da Câmara e ao seu mandato de Vereador. Se cumprida, essa exigência abriria a vaga do Presidente da Câmara Municipal de Anápolis para os opositores ao prefeito. Com isso, usariam o documento do inquérito feito pela Polícia Federal e afastariam Henrique Santillo da Prefeitura. Das duas vezes anteriores, Walmir suportou todas as pressões. Dessa vez, contudo, não resistiu às torturas psicológicas e físicas. Acabou assinando sua renúncia ao mandato e entregou-a ao major Leopoldino, chefe da carceragem em que se encontrava nas dependências do Exército Brasileiro em Brasília. Alertado pelo Deputado Estadual Adhemar Santillo, o presidente nacional do MDB, Deputado Federal Ulysses Guimarães, denunciou a trama à nação e o documento assinado por Walmir Bastos à base da tortura nunca chegou a Câmara Municipal de Anápolis. Walmir cumpriu seu mandato até o final, o mesmo acontecendo com o Prefeito Henrique Santillo.
1 de fevereiro de 1973: Na madrugada do dia em que José Batista Jr. tomaria posse substituindo Henrique Santillo na prefeitura de Anápolis, policiais militares do estado invadiram os estúdios e transmissores da Rádio Carajá, pertencentes aos santillistas desde 1967, alegando cumprir ordens do Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL). Afastaram os santillistas da sua direção, devolvendo-a ao seu antigo proprietário, Plínio Jayme.
Maio de 1973: Adversários do médico Henrique Santillo exigiram da direção nacional do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) seu descredenciamento daquele instituto, com o objetivo de forçá-lo a mudar-se de Anápolis ou abandonar a luta oposicionista. Algum tempo depois, médicos anapolinos forçaram o INPS a rever a punição, com Henrique sendo recredenciado.
Agosto de 1973: Sete meses após sua posse, o prefeito José Batista Jr. teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos, com base no Ato Institucional n°5 (AI-5), pelo Presidente Emílio Garrastazu Médici. No mesmo dia, o município de Anápolis foi considerado área de Interesse à Segurança Nacional e o engenheiro Irapuan Costa Jr. nomeado Prefeito.
Setembro de 1973: Adversários dos Santillo, com auxílio da Polícia Federal e do DOPS estadual, prenderam vários integrantes do MDB de Anápolis, dentre eles ex-secretários do prefeito Henrique Santillo e líderes comunitários, levando-os para as dependências do DOPS em Goiânia. O objetivo era arrancar, sob pressão e tortura, denúncias contra Henrique e Adhemar Santillo. A trama só foi desfeita quando o Advogado Vicente Alencar, acompanhado de Adhemar, entregou pessoalmente ao Ministro do Exército, Orlando Geisel, completo relatório dos planos escusos que estavam acontecendo em Goiás.
Maio de 1974: Por determinação do Procurador de Justiça do Estado, o inquérito elaborado pela Polícia Federal em 1971 contra Henrique e Adhemar Santillo foi encaminhado ao Ministério Público de Petrolina, para que apresentasse denúncia contra os dois, com a finalidade de afastá-los da disputa eleitoral daquele ano. O Promotor Decil de Sá Abreu negou-se a fazer a denúncia e o processo foi encaminhado à comarca de Anápolis. Ali, o Ministério Público apresentou a denúncia, que não foi recebida pelo Juiz Eleitoral Clementino Alencar. Caso o juiz a aceitasse, os dois irmãos não poderiam disputar a eleição para Deputado Estadual e Federal como disputaram, pois a lei das inelegibilidades impedia registro de candidatura pela simples aceitação da denúncia pelo Judiciário para esse tipo de crime eleitoral.
25 do Maio de 1975: Rádio Santana Ltda., pequena emissora de rádio-difusão com 250 Watts de potência, adquirida pelos Santillo depois da invasão da Rádio Carajá, foi fechada por determinação expressa do Ministro das Comunicações Quandt de Oliveira. Deixava de ir ao ar o programa noticioso “O Povo falou, tá Falado”, que, desde 1967, era apresentado por Romualdo e Adhemar Santillo.
Meu trabalho registrado em Publicações
Eleito deputado federal nas eleições de 1974 continuei com a mesma garra e o mesmo destemor na defesa da democracia, fazendo oposição ferrenha a todos os atos arbitrários do regime militar instalado com o golpe de 64. Reeleito em 78 e 82, trabalhei incessantemente pelo restabelecimento dos direitos democráticos e em favor do emprego correto das verbas públicas.
Com farta documentação comprovei e denunciei mordomias no governo federal e corrupção nas instituições bancárias do governo estadual.
Da tribuna da Câmara dos Deputados combati a ditadura continuamente, fazendo corajosos pronunciamentos em favor da liberdade, da justiça, dos direitos humanos e do retorno à democracia.
Alguns destes pronunciamentos estão registrados em três publicações da Gráfica do Senado.
Da Mesa Farta à Subnutrição
Esta publicação deveria ser intitulada “Da mordomia à pechincha”.
Na época, o governo, através do ministro Delfim Neto, pedia à população para “pechinchar” nas feiras e no comércio. No entanto, chegou ao meu Gabinete, na Câmara dos Deputados, uma lista de compras para a cozinha do Ministro do Trabalho, Arnaldo Prieto, que mais parecia um estoque de supermercado.
O Deputado Marco Maciel, Presidente da Câmara dos Deputados, chamou-me pedindo que mudasse o título da publicação para evitar confronto e provocação ao Presidente Geisel, que estava tentando uma abertura democrática. O título do livro “Da mordomia à pechincha” poderia reacender a força dos radicais de direita.
Entendi a preocupação do presidente Marco Maciel e mudei o título, sem mudar o seu conteúdo que, em 1976, foi o ponto de partida para desmistificar a cruzada contra a corrupção alardeada pelo golpe militarista de 1964.
Na publicação especial de 25 anos da revista VEJA há uma referência a este meu pronunciamento como um dos mais importantes acontecimentos daquele período.
Na época tornou-se um orgulho dizer que a “Revolução” de 64 tinha vindo para acabar com a corrupção política, implantando a moralização nos gastos públicos.
O Ministro Delfin Neto era tido como o mago das finanças e alardeava que o resultado positivo do produto interno bruto, seria dividido assim que o “bolo” crescesse. Dessa forma, salários eram achatados e reivindicações trabalhistas eram ignoradas.
Campanhas públicas foram feitas para que a população fizesse o controle dos preços pedindo descontos, no que se chamou “campanha da pechincha”.
O principal aliado do Ministro Delfim Neto nesta cruzada era Arnaldo Prieto, o Ministro do Trabalho, encarregado de convencer a classe trabalhadora de que era preciso economizar, “pechinchar”, colaborando com o crescimento do “bolo”.
Em setembro de 1976, recebi de Soares Dutra, funcionário do Ministério do Trabalho, cópia da Tomada de Preços 8/75, para fornecimento diário de gêneros alimentícios e material de limpeza para a residência oficial do Ministro do Trabalho, alimentos, bebidas, refrigerantes e material de limpeza que seriam gastos no período de um mês.
De acordo com o documento, foram consumidos entre carne bovina, suína, frango, peixe ou crustáceos e dobradinha, 956 quilos; 600 quilos de arroz; 300 quilos de açúcar; 156 quilos de feijão; 135 quilos de macarrão; 201 quilos e mais 436 dúzias de frutas; 432 quilos de manteiga; 885 quilos de legumes e verduras; 1.296 garrafas de refrigerantes; 144 garrafas de suco de frutas; 90 latas de óleo de soja; 32 latas óleo de oliva; 90 dúzias de ovos...
Faziam parte da tomada de preços para o consumo mensal na residência do ministro, 194 itens como: azeite de dendê, araruta, catchup, farinha de rosca, gordura de coco, lentillha, amido de milho, pimenta malagueta, tomate, caquí, nozes, champignons, leite evaporado, chantili, bacalhau, toucinho defumado, patê, presunto defumado, filé mignon, carret de bisteca, rabada, queijo prato, queijo cremelino, queijo minas, queijo mussarela, queijo parmesão, orégano, camarão fresco e grande, filé de pescado, filé em posta, namorado, bom ar hortelã, bom ar de limão aerossol, limpa vidro shell, vassoura de piaçava, sabão de coco, cera branca e vermelha e uma infindável lista de gêneros alimentícios e material de limpeza.
Ao contrário do que acontecia normalmente com os discursos de deputados da oposição que eram ignorados pela imprensa e nunca causavam repercussão, jornais como O Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e outros de circulação nacional fizeram a comparação entre as compras mensais de Ministro do Trabalho e um supermercado de tamanho pequeno. O Estadão publicou várias charges repercutindo o assunto. Numa delas, um garçom com um boi na bandeja satirizava o Ministro com seus quase mil quilos mensais de carnes, peixes e crustáceos. A variada e generosa despensa do ministro deu origem ao livro com alguns dos meus pronunciamentos na Câmara dos Deputados: DA MESA FARTA À SUBNUTRIÇÃO.
A revista VEJA, na comemoração dos 25 anos de sua publicação, fez referência a este assunto como um dos mais importantes naquele período.
A Presidência da República, com o objetivo de desqualificar as denúncias, procurou usar a mídia, quando o Ministro do Trabalho usou rede de rádio e televisão por 10 minutos, em horário nobre, para tentar explicar a questão. A tentativa não deu certo, já que as despesas haviam sido realizadas, pois a tomada de preços era de agosto de 1975 e estávamos em setembro de 1976. Não havia o que se justificar.
Além da repercussão alcançada na imprensa, o assunto passou a ser o mais comentado por toda a população. A palavra mordomia era relacionada com gastos da despensa do Ministro
A campanha eleitoral para prefeitos e vereadores em 1976, pelo MDB, era infalivelmente sobre o arrocho salarial e os gastos do Ministro do Trabalho. Em Rio Negrinho, Santa Catarina, as propagandas eleitorais impressas traziam a foto dos candidatos e no verso, o “Rancho do Ministro”, com todos os detalhes da tomada de preços do Ministério do Trabalho. Simpósios, encontros regionais do MDB em vários Estados, comícios e debates públicos reivindicavam a minha presença para apresentar a questão detalhadamente.
A repercussão foi tamanha que este pronunciamento, com estas denúncias, tem sido considerado pelos historiadores, como um primeiro e grande abalo que expôs a falsa austeridade do governo da época.
És Tu, ó Perturbador?
O nome desta publicação teve como inspiração uma passagem bíblica registrada no livro de Reis I, capítulo 18, num encontro do profeta Elias com o rei Acabe. Este rei, manipulado pela sua esposa, Jezabel, fazia horrores aos seus súditos, matando, ignorando os mais básicos direitos da pessoa humana, o que era combatido pelo profeta. Ao se encontrarem, o rei, invertendo a situação, recebe Elias dizendo: “– És tu, ó perturbador de Israel?”
Em abril de 1977 houve o fechamento do Congresso Nacional.
O Governo editou medidas de exceção, como a supressão de eleição direta para governadores prevista para o ano seguinte, estabeleceu eleição indireta de um senador pelas Assembléias Legislativas estaduais, escolhido dentro do partido majoritário naquela assembléia, e as arbitrariedades eram fatos corriqueiros.
O MDB só era maioria no Rio de Janeiro. Nos demais estados, a Arena era maioria. O pacote de abril suspendeu apresentação de programas políticos pelo rádio e televisão e ainda o Presidente Ernesto Geisel cassou o líder do MDB na Câmara, Deputado Alencar Furtado.
Esse foi o chamado ”Pacote e abril”. Sua origem foi em função das bancadas do MDB, Câmara dos Deputados e do Senado terem votado contra a Reforma do Judiciário, contrariando o desejo do general Ernesto Geisel. A reforma proposta e rejeitada não agradava ao Judiciário, Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil. Mesmo assim, o general Geisel queria colocá-la garganta a baixo da nação e humilhar a oposição para que, de joelho, votasse pela sua aprovação. Como o MDB resistiu, foi fechado o Congresso Nacional e baixado o “Pacote de abril”, com inúmeros retrocessos na caminhada para o retorno democrático no Brasil.
Deste período, os pronunciamentos que fiz da tribuna da Câmara dos Deputados foram publicados em 1980, com o título: ÉS TU, Ó PERTUBADOR?
Nesta publicação está registrada, através dos pronunciamentos que fiz da tribuna da Câmara dos Deputados, a tática que o Governo da época utilizava, tentando impingir à oposição a culpa pelas mazelas que aconteciam no país. A capa da publicação se refere a uma conhecida fábula de Esopo, O lobo e o Cordeiro. O sistema autoritário da época agredia instituições, imprensa, movimentos populares e buscava colocar na atitude oposicionista a responsabilidade das insatisfações populares.
Escândalos:
Os Frutos do Regime
Nesta coletânea de discursos por mim proferidos na tribuna da Câmara dos Deputados, pude trazer ao conhecimento público a grilagem de terra no norte de Goiás e os privilégios e transações altamente irregulares que levaram enormes prejuízos à CAIXEGO - Caixa Econômica do Estado de Goiás, e ao Banco do Estado de Goiás, instituições que se transformaram em instrumento de enriquecimento ilícito de políticos e simpatizantes ligados aos governantes da época.
Tudo está comprovado com documentos oficiais nos anais da Câmara e na publicação da Gráfica do Senado, começando em maio de 1978, quando o BEG emprestou à empresa PROVALLE importância de 40 milhões de cruzeiros. Já era do conhecimento público, nesta época, o grande número de títulos de responsabilidade desta empresa, apontados ao cartório de protestos. Antes de completar 90 dias do empréstimo dos 40 milhões, por outros empréstimos e variadas modalidades de operações, a dívida do grupo PROVALLE atingia mais de 100 milhões de cruzeiros, o que representava cifra superior a trinta por cento do capital e reservas do BEG.
Em junho de 1979, havia várias outras operações de empréstimos a pessoas ou empresas que assumiram dívidas do grupo PROVALLE. Elevou-se, pois, cerca de 400 milhões de cruzeiros o total dos empréstimos concedidos à empresa, correspondendo, pasme-se pelo absurdo, a mais de 100% do capital e reservas do Banco do Estado de Goiás.
Os empréstimos foram concedidos a taxas especiais de 2% ao mês, enquanto no nível de mercado o BEG cobrava taxa superior a 3% ao mês. Para fazer face aos empréstimos subsidiados, o BEG captou em São Paulo 700 milhões de cruzeiros, quantia igual ao montante dos depósitos captados pelo próprio banco junto aos seus clientes. As taxas pagas pelo BEG na operação de empréstimos causaram perplexidade no mercado financeiro em São Paulo, já que os grandes bancos do país, oficiais e particulares, não conseguiam fazer concorrência, pois tinham taxas de 52 a 60% ao ano, incluídas as comissões de corretagens.
Essa volumosa soma de recursos – 700 milhões de cruzeiros - foi distribuída em cerca de 200 contratos de empréstimos em conta garantida, somando 400 milhões de cruzeiros a taxas favorecidas variáveis entre 0,8 e 2,8% ao mês e concedidos a clientes ligados, em sua quase totalidade, a deputados, secretários de estado, auxiliares do governo, políticos situacionistas, firmas de ex-sócios e amigos dos governantes da época. Até dois integrantes, chefe e subchefe de Serviço Nacional de Informações – SNI tiveram acesso aos empréstimos favorecidos com taxas subsidiadas, 300 mil cruzeiros para um e 1 milhão e quinhentos mil cruzeiros para outro. Antes de serem saldados, os empréstimos eram ampliados e os juros adicionados ao final.
Para compensar o enorme prejuízo que o banco sofria na concessão de empréstimos a taxas subsidiadas e inferiores às de mercado e do próprio custo do dinheiro que captava, foi elevada a taxa de juros que vinha cobrando do próprio Estado de Goiás, maior acionista e depositante, de 2% ao mês para 4 e 5 % ao mês. Transferiu assim, para as costas do sofrido contribuinte goiano as benesses concedidas a um pequeno grupo de amigos.
Fato interessante e escandaloso foi o empréstimo de 7 milhões de cruzeiros feito a uma cliente a juros de 1% ao mês ou 12% ao ano pela agência do BEG em Goiás. A mesma cliente dois dias depois emprestou a mesma quantia ao BEG em São Paulo com juros de 51% ao ano. O Banco Central tinha conhecimento daquele verdadeiro festival de corrupção e esbanjamento de dinheiro do povo e mesmo assim não tomou nenhuma providência, sendo conivente com tudo que ali acontecia.
Nos círculos econômicos e financeiros de Goiás sabia-se que a cifra de 451 milhões de cruzeiros, apresentada como prejuízo e constante no balanço referente ao primeiro semestre do ano de 1981, não correspondia à realidade. O Banco Central Enviou oficio de nº 81/ 024, de 26/05/81, à Diretoria do Banco do Estado de Goiás, solicitando que fosse inscrito na conta de Crédito em Liquidação a quantia de Cr$ 10.785.381,32, dez bilhões setecentos e oitenta e cinco milhões e setecentos e vinte e seis mil e trezentos e oitenta e um cruzeiros e trinta e dois centavos, já no balanço do primeiro semestre de 1981.
Em resposta, foi encaminhado ao Departamento de Fiscalização Bancária e Divisão de Fiscalização Bancária do Banco Central do Brasil, no dia 16/06/81, oficio nº 81/95, solicitando que não fosse inscrita na Conta de Crédito em Liquidação tal importância, uma vez que Cr$ 9.538.240.070,90 - nove bilhões e quinhentos e trinta e oito milhões e duzentos e quarenta mil e setenta cruzeiros e noventa centavos - era de responsabilidade do setor público do Estado e que desse total encontrava-se vencida a importância de Cr$ 2.080.723.140,90 - dois bilhões e oitenta milhões e setecentos e vinte e três mil e cento e quarenta cruzeiros e noventa centavos.
O Banco Central, através de expediente da Divisão de Fiscalização Bancária nº 81/42, em 23/07/81, adverte que ante “as perspectivas de acentuado negativo neste balanço de 30/06/81, com repercussões altamente danosas ao seu Patrimônio Líquido, esperamos que providências urgentes sejam adotadas, objetivando a reversão do atual caso”. Ao mesmo tempo, determinava que fosse inscrita na conta de Crédito em Liquidação, no balanço do primeiro semestre daquele ano, a quantia de Cr$ 1.210.099.196,53 - Um bilhão e duzentos e dez milhões e noventa e nove mil e cento e noventa e seis cruzeiros e cinqüenta e três centavos.
No dia 31/07/81, através do oficio nº 81/125, o Banco do Estado de Goiás solicitava ao Departamento de Fiscalização Bancária do Banco Central do Brasil que permitisse apresentar no balanço de 30/06/81, na conta crédito em liquidação, apenas a importância de Cr$ 379.455.080,89 - trezentos e setenta e nove milhões e quatrocentos e cinqüenta e cinco mil e oitenta cruzeiros e oitenta e nove centavos, com o que concordou o Banco Central.
Por esta razão, o prejuízo real do Banco do Estado de Goiás apresentado em balanço foi de apenas de Cr$ 451 milhões de cruzeiros. Os documentos oficiais e a própria fiscalização do Banco Central comprovam que o prejuízo real do BEG, naquele ano, foi superior a 1 bilhão e duzentos milhões de cruzeiros correspondendo ao dobro de seu capital e reservas, apresentados em 31/12/1980.
Pela gravidade do fato que envolveu fraude contábil, o Banco Central do Brasil foi co-participante de todo o desastre do BEG e responsável pelo descalabro administrativo do Sistema Financeiro Nacional.
Luziânia e o MDB
Em 1977, foi editado o “Pacote de abril” pelo Presidente Ernesto Geisel.
Usando dos poderes discricionários que lhe eram garantidos pelo Ato Institucional nº 5 – AI 5, o Presidente Ernesto Geisel baixou o “Pacote de abril” alterando a Constituição Federal, eliminando a eleição para governador pelo voto direto. Também foi criada a figura do “senador biônico” ou “senador nomeado” que era escolhido por voto indireto através da maioria das Assembléias Legislativas Estaduais, mesmo critério utilizado para eleição de governador.
A eleição com participação popular através do voto direto seria para apenas uma vaga no pleito de 1978 e, de acordo com “Pacote de abril”, os dois partidos poderiam lançar até três candidatos em sublegendas.
A Aliança Renovadora Nacional – ARENA, por ter maioria na Assembléia Legislativa, indicou para senador “nomeado” por eleição indireta o já senador Benedito Ferreira, conhecido como Benedito Boa Sorte e como primeiro suplente o ex-prefeito de Silvânia José Caixeta.
Para a disputa do voto direto, a ARENA lançou o ex-prefeito de Anápolis Jonas Duarte, o senador Ozires Teixeira e o Deputado Federal Jarmund Nasser. Com as três sublegendas preenchidas, os arenistas não possuíam suplentes. No caso de vitória o mais votado seria o senador e os outros dois o primeiro e segundo suplentes, por ordem de votação.
O MDB decidiu lançar apenas dois candidatos, o Deputado Estadual Henrique Santillo, representando o grupo autêntico do partido e o Deputado Federal Juarez Bernardes, representando o grupo moderado.
Como o PMDB lançou apenas dois candidatos, Henrique e Juarez, cada qual lançou um suplente. O suplente de Henrique foi o advogado Hélio Roriz, do município de Luziânia. Com a vitória do MDB e Henrique sendo o mais votado, Juarez Bernardes ficou na primeira suplência e Hélio Roriz na segunda.
A escolha do nome de Hélio Roriz e o apoio de Luziânia à candidatura de Henrique ao Senado se deram por uma estreita amizade que me ligava a Carlos Melo.
Bem antes da convenção regional, a maioria dos diretórios municipais do MDB recebia os dois pré-candidatos, Henrique e Juarez, de forma democrática, organizando reuniões sem demonstrar preferência, dando oportunidade para os dois candidatos se apresentarem aos eleitores.
O diretório de Luziânia, que estava lançando Joaquim Domingos Roriz para Deputado Estadual, estava fechado com Juarez Bernardes, se negando a receber Henrique. Contávamos com o amigo fiel no município, o vereador Carlos Melo, o querido Carlinhos, muito ligado a Roriz e freqüentador semanal de meu gabinete na Câmara Federal.
Carlinhos me procurou sugerindo que eu conversasse com Zequinha Roriz, irmão do Joaquim e um dos seus coordenadores políticos, para tratarmos de um espaço que poderia ser aberto no diretório de Luziânia, no que concordei. Marcamos para o dia seguinte almoço na Churrascaria Gaúcha, em Brasília.
Neste encontro, Zequinha me disse que o objetivo dos emedebistas de Luziânia era eleger Joaquim Roriz Deputado Estadual, indagando-me se havia como ajudá-lo. Respondi afirmativamente e contatei imediatamente Manoel Bezerra e Aurelino, integrantes do diretório de Alexânia, solicitando apoio à candidatura de Joaquim Roriz. Fiz o mesmo com os diretórios do MDB de Orizona, Vianópolis, Pires do Rio, Itapaci e Goiatuba, conseguindo para Joaquim estes diretórios que já me apoiavam.
Após conseguir o apoio dessas lideranças, incluindo Maria Dagmar, nossa coordenadora em Goiânia, com intensas atividades políticas que tínhamos em conjunto, Joaquim e eu criamos uma confiança mútua e em conseqüência, os companheiros de Luziânia decidiram que trabalhariam para os dois candidatos, Henrique e Juarez.
Quando da convenção regional, Henrique escolheu seu vice na família Roriz, o advogado muito conceituado no município, Hélio Roriz. Pela minha lealdade em fortalecer a candidatura do seu representante, o diretório municipal do MDB de Luziânia decidiu, também, apoiar minha candidatura a Deputado Federal.
Naquela eleição, 1978, obtive estrondosa votação em Luziânia, garantindo com isso a posição de mais votado entre os Deputados Federais eleitos por Goiás. Henrique Santillo se elegeu Senador com grande votação em todo o entorno de Brasília e Joaquim Roriz foi o Deputado Estadual mais votado dentre os eleitos para a Assembléia Legislativa.
Conseguimos essa união pelo trabalho do saudoso vereador Carlos Melo, um dos grandes amigos que angariamos em nossa cruzada pela democracia.
Naquele instante em que estive com Zequinha, consolidamos uma aliança duradoura e abrimos caminho para que Roriz percorresse, com grande sucesso, sua senda política, iniciada em Goiás.
Pacote de Abril
– Apoiamos a mensagem ou vamos ter retrocesso político. Fiquei sabendo que será criada uma crise caso o MDB não vote favoravelmente à aprovação da Reforma do Judiciário, vindo aí um retrocesso institucional.
Essas foram as palavras do deputado Federal Tancredo Neves na reunião das bancadas do MDB, do Senado e da Câmara dos Deputados, no auditório Nereu Ramos, da Câmara Federal, sob a presidência de Ulysses Guimarães, presidente nacional do MDB.
Até então, sem nenhuma novidade aparente, as eleições para os governos estaduais seriam pelo sistema direto nas eleições de 1978.
As eleições de 1970 e 1974 haviam sido alteradas na última hora, por Emendas à Constituição, transformando-as em eleição indireta pelo Colégio Eleitoral de cada Estado.
Com exceção do Rio de Janeiro, a Arena tinha esmagadora maioria de votos nas Assembléias Legislativas, com o direito a eleger seu candidato, pois vivíamos sob o sistema do bipartidarismo. Os nomes dos governistas saiam de Brasília. A briga de bastidores era no Palácio do Planalto. Chegavam aos estados sem nenhuma condição de alteração. Por mais que houvesse atrito, os arenistas eram obrigados a sufragar o escolhido sem nenhuma contestação.
Finalmente estava chegando 1978 e com ele o pleito com a participação do povo, era o que estabelecia a Constituição Federal. Juarez Bernardes pleiteava a indicação do seu nome pelo MDB goiano, como integrante do grupo moderado, ou conservadores, e Henrique Santillo tinha o mesmo objetivo, só que pelos setores mais a esquerda. No mesmo pleito, o eleitor além de votar em deputados estaduais e federais, elegeria dois senadores.
Derval de Paiva e Fernando Cunha Jr, apoiavam a candidatura de Santillo ao governo. O grupo conservador, que apoiava a pretensão de Juarez Bernardes não possuía ainda seus pretensos candidatos ao Senado.
Em abril de 1977, o Presidente Geisel enviou mensagem implantando a Reforma do Judiciário para que fosse discutida, votada e aprovada pelo Congresso Nacional. A proposta era tão ruim, mas tão ruim, que Poder Judiciário, Ministério Público, OAB, cientistas e analistas jurídicos e advogados militantes se colocaram contra sua aprovação.
O MDB tinha que dar seu apoio à proposta para que fosse aprovada. A matéria dependia de quorum qualificado e a Arena não dispunha do quantitativo exigido.
Bancadas emedebistas na Câmara e no Senado se reuniram no auditório Nereu Ramos, na Câmara, para decidir qual posição adotar. Aprovar a reforma, como queria Geisel e seu núcleo forte no comando do governo, ou derrotá-la, como manifestava a nação
Ulysses Guimarães abriu espaço para que falassem um defensor pela aprovação e outro que fosse pela sua rejeição.
Tancredo Neves, homem de notável saber jurídico, mas que por saber o que estava por trás daquela proposta absurda e inconseqüente, tinha informações seguras do que pensavam os militares no poder, se apresentou para defender a aprovação da matéria, mesmo com restrições do mundo jurídico e imperfeições flagrantes existentes no texto.
Paulo Brossard, senador combativo e, da mesma forma que o deputado Tancredo, homem de grande saber jurídico, apelou para que o MDB votasse contra, rejeitando a matéria. Sua tese foi a de que o MDB não tinha o direito de compactuar com a ditadura, aprovando matéria que colocaria o Brasil de forma ridícula no cenário jurídico internacional.
Depois que o deputado mineiro viu seus argumentos jurídicos serem derrubados pelo Senador gaúcho, abriu o jogo:
– Apoiamos a mensagem ou vamos ter retrocesso político. Sei por fontes seguras que essa mensagem veio encomendada. Sendo rejeitada pelo MDB, vai dar o motivo que os militares querem para o retrocesso institucional.
Colocada em votação na reunião das bancadas, a maioria do MDB votou pela sua rejeição, conforme tese defendida por Brossard.
Fomos para o plenário e as bancadas votaram fechadas pela rejeição à Mensagem de Reforma do Judiciário. Todos seguiram a decisão da reunião de bancadas, no Senado e na Câmara dos Deputados, inclusive o deputado Tancredo Neves.
Anunciado o resultado pela direção dos trabalhos a matéria foi para o arquivo.
Em seguida foi baixado Ato do Executivo, assinado pelo presidente Ernesto Geisel, com base no Ato Institucional nº 5, colocando o Congresso Nacional em recesso, sem data certa para sua reabertura.
Aguardamos a “paulada” que deveria vir do Planalto, maior que a violência do fechamento do Congresso, sem demora.
Depois de uma semana fechado, o Congresso voltou a funcionar, com a edição do “pacote de abril”, sustentado pelo AI-5, acabando com eleição direta para governador do estado, suspendendo os programas políticos pela televisão e rádio nos moldes de 1974 e criando o Senador sem voto, Senador biônico, nomeado da mesma forma que os Governadores pelo Colégio Eleitoral do estado. Duro golpe nas pretensões emedebistas. Atraso na caminhada democrática.
O sonho de chegar parcialmente ao poder estava assim, mais uma vez, adiado.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Pingue-pongue da verdade
– Que irmãos coragem que nada! Eles são mesmo irmãos metralha!
A intenção de nossos adversários políticos era evitar a comparação positiva dos irmãos Santillo, Henrique, Romualdo e eu, com os irmãos carismáticos da novela da Globo, “Irmãos Coragem”. Queriam nos comparar com os “irmãos do mal”, dos quadrinhos de Walt Disney.
O fato é que até mesmo a crítica de nossos adversários, com intuito de nos ridicularizar, foi carinhosamente assimilada e adotada pelos nossos admiradores como ação positiva dos irmãos que “metralhavam” a ditadura e suas mazelas.
A campanha eleitoral de 1974 foi a mais aberta de todas no período do Regime Militar. O General Ernesto Geisel, escolhido Presidente da República, em substituição ao general Emilio Garrastazu Médici, estava disposto a promover a abertura “lenta e gradual” no sistema político brasileiro. A principal novidade naquela campanha eleitoral foi o direito dos candidatos dos dois partidos existentes, Arena e MDB, de usarem em tempo proporcionalmente igual, o horário de rádio e tevê, para propaganda eleitoral gratuita. Com essa inovação na campanha eleitoral, ficou evidente a divergência entre os grupos do Presidente Geisel e do ex-Presidente Médici.
Administrando com mão de ferro, o Presidente Médici passou uma imagem ao cidadão comum, menos informado, de estadista e grande governante. A conquista do tricampeonato mundial de futebol pela equipe brasileira, aliada à forte censura à imprensa, provocou aniquilamento das forças oposicionistas e dos movimentos populares. Foi a época do “Brasil, ame-o ou deixe-o”, impingindo à nação uma euforia nacionalista.
O grupo do Presidente Geisel reconhecia os mais elementares desrespeitos à pessoa humana, praticados pelo governo antecessor, nas Delegacias de Ordem Política Social, DOPS, nos Estados, DOI-CODI, em nível nacional, Operação Bandeirantes, que era praticamente um esquadrão da morte, eliminando presos comuns e políticos e outras arbitrariedades. Para encobrir esta situação de arbítrio, de torturas e assassinatos oficiais, o governo alardeava um falso crescimento econômico através do chamado “milagre brasileiro”.
No início do Governo Geisel a crise do petróleo desmontou a farsa do milagre brasileiro, mergulhando o país numa das suas maiores crises econômicas de todos os tempos. Era preciso desmistificar a ilusão imposta à população da imagem de estadista do Presidente Médici. Geisel estava disposto a isto e abriu espaço para a oposição durante a campanha eleitoral de 1974.
– Henrique, vamos fazer o programa eleitoral juntos, você pergunta eu respondo, depois eu pergunto e você responde. Vamos fazer um pingue-pongue!
– Isso mesmo Adhemar, vamos colocar este nome: “Pingue-pongue da Verdade!”
Nesse clima fizemos ao vivo nossa participação pelo rádio e pela TV.
Como candidato a Deputado Estadual, Henrique tinha seu espaço, o mesmo acontecia comigo, na qualidade de candidato a Deputado Federal. Resolvemos somar nossos horários gratuitos na TV, fazendo apresentação em conjunto, o que nos dava um tempo maior.
O “Pingue-pongue da Verdade” logo se tornou um sucesso devido ao interesse da população em saber o que realmente acontecia no Brasil. Por ser um programa contundente e corajoso, o horário do MDB era imbatível em audiência. Habituado a ouvir apenas as informações oficiais liberadas pela censura, para o telespectador as verdades oposicionistas, mesmo que tímidas e limitadas, chegaram como esperança para mudanças. Henrique e eu já tínhamos grande entrosamento na apresentação do nosso programa de rádio “O povo falou, tá falado”, o que facilitou nossa apresentação ao vivo, pela TV. Por todos os locais onde passávamos as pessoas nos cumprimentavam pelo “Pingue-pongue da Verdade”.
Éramos conhecidos por todo o Estado como os “Irmãos Coragem”, à semelhança dos protagonistas da novela das 20 horas da televisão Globo. Até mesmo a crítica de nossos adversários, com intuito de nos ridicularizar taxando-nos de “irmãos metralha”, foi carinhosamente assimilada e adotada pelos espectadores como ação positiva de uma dupla que “metralhava” a ditadura e suas mazelas.
O MDB usou com competência e sabedoria seu espaço no rádio e na televisão durante esta abertura dada por Geisel, em 1974, e o resultado foi visto em todo o Brasil. O MDB elegeu 16 senadores, algumas centenas de Deputados Estaduais e quase uma centena de Deputados Federais.
Devido a esta abertura que o Governo Geisel foi forçado a promover, o Brasil foi despertado em todos os seus quadrantes e o regime autoritário a partir de 1974, em virtude da força da oposição, começou a enfraquecer. Por mais que viessem casuísmos, restrições e fechamentos antidemocráticos, as forças populares forçaram o declínio da opressão ditatorial, até o retorno da democracia no país.
Carta a Orlando Geisel
– É oficial ou particular?
– Particular, respondemos.
– Podem entrar.
Foram várias vezes que este diálogo se deu. Estávamos, Vicente Alencar e eu, no Ministério do Exército para entregar uma carta ao Ministro sobre as prisões arbitrárias que aconteciam em Anápolis.
Depois de Henrique Santillo deixar a prefeitura, de José Batista Jr. ser cassado e a cidade de Anápolis ser transformada em Área de Segurança Nacional, sem direito de eleger o prefeito, uma ação arbitrária e violenta levou à prisão várias pessoas que haviam sido auxiliares de Henrique Santillo na Administração Municipal. Como acontecia na época, os órgãos de repressão não davam informações sobre o paradeiro dos companheiros presos, nem o motivo das prisões. Sabíamos que estavam confinados em alguma dependência de órgãos policiais em Goiânia. Não sabíamos se eram repartições públicas estaduais ou federais.
Decorridos dez dias de prisão arbitrária de companheiros como Jalme Fernandes, Valdivino Pereira, Bertolino Santana, Godofredo Sandoval Batista, Eles Nogueira e outros que estavam incomunicáveis, recebi a visita de José Silva, o Zezinho, companheiro que também estivera preso, trazendo-me notícias dos demais, que, segundo ele, se encontravam nas dependências do DOPS, em Goiânia. Foi claro em dizer que recebeu muita pressão para fazer acusações contra mim, Deputado Estadual do MDB e contra o ex-prefeito Henrique Santillo:
– Tudo gira sobre vocês dois. Estejam preparados, pois querem incriminá-los de qualquer forma.
Imediatamente comuniquei o fato ao amigo e advogado Vicente Alencar, quando elaboramos documento relatando o ocorrido, com objetivo de protocolar habeas corpus e carta ao Ministro do Exército. Fomos a Brasília logo em seguida, numa segunda-feira, impetrando habeas corpus junto ao Superior Tribunal Militar e Supremo Tribunal Federal. Sabíamos que não era competência daquelas duas Cortes de Justiça analisar pedido daquela natureza, mas queríamos mesmo que tomassem conhecimento do que estava acontecendo em Goiás, devidamente relatado na justificativa do pedido.
Com o mesmo teor, elaboramos uma carta para ser entregue ao Ministério do Exército, onde o Ministro Orlando Geisel, irmão do presidente eleito Ernesto Geisel, que seria empossado em alguns dias, substituindo Emilio Garrastazu Médici. Orlando Geisel, que havia sido muito importante para a articulação que levou seu irmão à Presidência da República, era tido como nossa esperança de que seria colocado um ponto final na mesquinharia que vinha sendo praticada em Goiás em nome dos militares no poder.
Chegando ao Ministério do Exército, uma grande quantidade de soldados guardava toda área do prédio, denunciando que alguma coisa estranha estava acontecendo ali, nos obrigando a conversar com o oficial responsável pelo pelotão de guarda. Esclarecemos que nossa intenção era protocolar ofício urgente ao Ministro do Exército, tendo ele nos indagado:
– É oficial ou particular?
– Particular, respondemos.
– Podem entrar.
Quando chegamos ao protocolo, não encontramos ninguém, mas fomos abordados por outro oficial, nos indagando o que queríamos. A mesma informação lhe passamos, que o objetivo era deixar documento para o Ministro.
– É oficial ou particular?
– Particular.
– Por favor, subam até o 8º andar, por aquele elevador.
Pegamos o elevador. Quando sua porta foi aberta pelo ascensorista, chegamos à sala onde estava reunido o Alto Comando do Exército, chefiado pelo Ministro Orlando Geisel. O militar Chefe de Gabinete nos interceptou, fazendo a indagação de costume, ao que respondemos:
– Queremos entregar correspondência importante ao Ministro.
– Particular ou oficial?
– Particular.
– Façam o favor, entreguem a correspondência pessoalmente ao Ministro.
Nós caminhamos em direção ao Ministro e estendemos-lhe a carta, informando tratar-se de correspondência particular do estado de Goiás.
Cumprimos a determinação e nos retiramos pelo mesmo elevador, que já nos esperava. Retornamos a Anápolis e ficamos sabendo que pouco antes da nossa chegada os companheiros presos haviam sido soltos.
Nenhuma outra agressão aos direitos dos companheiros foi praticada em Anápolis e o tão falado processo contra mim e contra o Henrique nunca apareceu. Vicente Alencar e eu nunca ficamos sabendo se a nossa resposta “particular”, que nos abriu as portas em dia de tensão em Brasília, nos levando ao contato direto com o Ministro do Exército, era alguma senha ou se foi coincidência. Certo é que os companheiros foram soltos horas depois de termos entregue a nossa carta denunciando as prisões arbitrárias em Anápolis.


