sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Surpresas nas campanhas políticas
Em 1982, Iris Rezende, que readquirira seus direitos políticos depois de 10 anos de suspensão, decidiu ser candidato, adiando por mais quatro anos o projeto de Henrique Santillo. Iris econtrou o PMDB, sucedâneo do MDB, organizado e imbatível em todo o Estado. Onofre Quinan, empresário bem-sucedido, nosso companheiro de MDB em Anápolis, foi indicado para vice-governador na chapa de Iris.
Ary Valadão, governador do Estado, sofria com os pequenos recursos que o Estado dispunha. Precisava construir alguma coisa que marcasse sua administração. A Arena o abandonara. Estava bastante dividida. Enquanto o governador lutava pela indicação de alguém do seu grupo a maioria do partido queria Otávio Lage de Siqueira, enfrentando Iris Rezende. Alguns meses antes das eleições, Ary Valadão conseguiu autorização do Banco Central para empréstimo internacional. Os recursos seriam aplicados em pavimentação de rodovias. Principal a ser asfaltada seria a que liga Itaberaí a Itapuranga. Máquinas chegaram a iniciar os serviços de terraplanagem.
Como empréstimo externo depende de autorização do Senado, os senadores arenistas em final de governo não compareciam ao plenário para que houvesse deliberação. Em todas as sessões, a mesma cena: o presidente abria a sessão, o senador Dirceu Cardoso (PMDB-ES) pedia verificação de quorum. Não havia número para abertura. Passaram-se os dias, semanas e meses e o pedido de empréstimo do governo goiano não era apreciado. Os arenistas de Goiás espalhavam por todos cantos que os senadores Lázaro Barbosa e Henrique Santillo, do PMDB-GO, estavam impedindo sua votação, para prejudicar Ary Valadão. Essa fofoca já começava a afetar o candidato peemedebista Iris Rezende. O PMDB goiano decidiu que Lázaro Barbosa e eu, representando Henrique Santillo, iríamos a Itapuranga para esclarecer a verdade. Fomos em avião pertencente a Onofre Quinan, comandado pelo piloto Carlão. Conosco foi também o advogado Wanduir de Lima.
Ao chegarmos a Itapuranga, não havia ninguém nos esperando no campo de aviação. Carlão sobrevoou a cidade, retornando ao campo de pouso. Apenas uma pessoa no centro da pista fazendo sinais para que Carlão parasse ali, a aeronave. Era Claudion Mendes, presidente do PMDB no município, solicitando que não saíssemos do avião. Argumentou que integrantes do PMDB Jovem nos receberiam a bala caso fossemos à reunião. Apoiadores de outros candidatos do partido ao Senado e Câmara Federal não aceitavam que Lázaro e eu conversássemos com a população. Nossa missão não era buscar apoio partidário às nossas candidaturas. Além do mais, lutávamos contra qualquer tipo de prepotência. Não podíamos abandonar a luta pelo gesto tresloucado de alguns irresponsáveis! Descemos! Assim que pusemos os pés no chão, começaram os disparos em nossa direção. Sem um local mais apropriado para nos proteger, usamos a fuselagem do avião. Os disparos só cessaram quando integrantes da Polícia Militar chegaram ao local. Fomos à prefeitura, mas, com a população assustada, ninguém compareceu. A reunião não aconteceu. Cumprimos nosso papel, concedendo entrevistas à emissora de rádio local.
A campanha não podendo parar, na manhã seguinte, fui com Maria Dagmar e Paulo Silva, candidatos a vereadora por Goiânia e a deputado estadual, à Vila Redenção. Primeiro conjunto de casas populares contruído por Iris, em Goiânia. Nos acompanhou na visita, casa a casa, Tarcísio, primo de Dagmar e comerciante de materiais de contrução, na região. Depois que fizemos dezenas de visitas, chegamos à casa de dona Bárbara, matriarca de grande família. Tarcísio entrou pelo corredor, indo direto à cozinha. Nós o acompanhamos. Fez a apresentação de praxe. A anfitriã, atenta, ouviu a identificação de cada um de nós. Esgotados os argumentos, Tarcísio completou:
- "Dona Bárbara, a senhora não está surpresa de estar recebendo em sua casa o deputado Adhemar Santillo? Esse é o homem que denunciou as mordomias do ministro do Trabalho!"
A mulher, com olhar fixo ao chão da cozinha, categórica, afirmou:
- "Tarcísio, depois que Toninho, meu filho caçula de 19 anos, se casou com uma mulher velha de 69 anos, que nem INPS tem, nada mais me surpreende!"
terça-feira, 2 de março de 2010
Mobilizações do MDB em Goiânia
Consolidada a candidatura de Joaquim Domingos Roriz nas bases interioranas, o convenci que seria conveniente reunir um grupo em Goiânia para lhe dar dimensão de liderança emergente. Aceitando a proposta, lhe apresentei a advogada Maria Dagmar, posteriormente eleita vereadora pelo MDB, na capital.
Dagmar, dinâmica e muito bem relacionada, organizou um esquema para todas as quartas feiras realizarmos concentração num setor da cidade.
A primeira experiência seria um mini-comício na Vila União, a céu aberto, tendo como palanque o calçadão do conjunto comercial, em frente um bar bem movimentado. Dentre os participantes compulsórios, alguns bêbados que faziam ponto por ali. Roriz com aquela voz empostada, pausada e firme discorria sobre os motivos que o levaram a se candidatar a deputado estadual. Cada vez que encerrava uma frase, o bêbado repetia o final dela:
- Graças a Deus sou bem sucedido nas atividades particulares.Mas isso não é tudo para quem quer servir o povo. Senti que preciso ajudar a tirar o Brasil dessa situação de caos e letargia...
- Caos e letargia, caos e letargia....
- Conto com seu voto!
- Seu voto, seu voto...
Muito atento e falando bem alto, o bêbado arrancava gostosas gargalhadas de toda platéia, o que fez Roriz encerrar rapidamente seu discurso.
Dagmar mudou de estratégia, uma vez que reunião perto de bar era espetáculo divertido mas de pouco resultado político ou eleitoral. Saímos da Vila União com a concentração da quarta feira seguinte marcada para a Vila Nova.
No dia marcado, cheguei de outra concentração numa cidade do interior em companhia do professor Lucas Gonçalves, diretor do Colégio Einstein, companheiro de inúmeras caminhadas. Lucas foi o primeiro a discursar encerrando sua fala com a algazarra de um grupo de skeitistas que fazia uma divertida corrida com um grupo de quase dez menimos. Os skeites feitos à base de rolamentos desciam pela rua em declive asfaltada fazendo barulho ensurdecedor, tirando faíscas pelo atrito do rolimã com o asfalto.
Mas nada abalava a nossa resistência e continuando a festa cívica foi passada a palavra ao Jair de Ázara, leal e dedicado companheiro, residente em Goiânia.
Com uma voz trêmula, em falsete e pausadamente, ele começou:
- Meus senhores....
O orador perdeu a afinação de voz, saindo aquela mensagem fina e engasgada. A meninada reagiu na hora, arrancando sonora gargalhada dos poucos assistentes:
- Uuuuu, Uuuuuuu....
Jair não perdeu a esportiva:
- Já dizia Sócrates, a vaia é democrática, mas não é civilizada!
Na quarta seguinte o encontro seria no Bairro Feliz, lugar famoso por reunir muita gente nos movimentos do MDB. Luiz Henrique da Silveira, prefeito de Joinvile, Santa Catarina, meu colega de Câmara e grande amigo, estava em Brasília e a meu convite iria participar do grande movimento político que estava sendo programado. Queria também retribuir minha ida a Joinvile, em sua campanha para prefeito.
Luiz Henrique chegou ao aeroporto Santa Genoveva às oito da noite e foi levado por um companheiro nosso ao Bairro Feliz.
Não havia praticamente ninguém, mas subimos na carroceria do caminhão à espera do público. Vimos chegando do final da rua um pequeno grupo, constituido de seis a oito cabos eleitorais, vestidos com camisetas contendo nomes de Roriz, Adhemar e Henrique, que carregavam cartazes e gritando bem ritimado:
- Goiás é feliz com Henrique, Adhemar e Roriz.
Goiânia tem sono tranqüilo, com Roriz e os Santillo...
Fizemos nova programação, insistindo que Dagmar mobilizasse mais gente:
- Podem se preparar, quarta-feira vamos arrebentar no Palmito e Novo Mundo. Naquela região o vereador Luciano Pedroso, leva de 1 mil a 1 mil e quinhentas pessoas por comício.
Na quarta-feira chegamos uns quinze minutos mais tarde que o combinado. Dagmar negociava naquele instante a apresentação de um trio sertanejo que sempre oferecia os seus serviços às nossa reuniões. Nunca havia dado certo, naquele dia autorizamos a contratação para animar a platéia.
A quantidade de pessoas era extraordinária. Não estavam lá os mil que Luciano Pedroso levava em seus comícios, mas havia de 400 a 500 pessoas. Ercílio Matias, eleito prefeito de Petrolina, tempos depois, discursava e a platéia não parava de aumentar. Hilton Lucena, motorista do Henrique passou pelo local e ficou impressionado:
- Adhemar, o Henrique está no Jardim America, com o vereador Benvindo Lopo e a platéia não é a metade dessa. Vou lá para trazer ele para cá.
Foi anunciada a palavra de Joaquim Domingos Roriz, a platéia aumentava cada vez mais. Roriz aproveitou e cumprimentou demoradamente cada companheiro de palanque vendo que o público ficava cada vez maior. Terminados os cumprimentos, apareceram duas senhoras no fundo do comício, carregando melancia num dos braços e segurando uma panela de pressão com a outra mão:
- Zé! Oh Zé, a distribuição de brindes é ali em cima!
Chiquinho de Castro, como prefeito nomeado de Goiânia, estava realizando um comício no bairro. Durante toda a semana sua equipe de assessoramento distribuiu bilhetes numerados para sorteio de prêmios. Com a advertência das mulheres, nosso público saiu em desabalada carreira, morro acima, nos deixando mais uma vez só com os integrantes do palanque e o conjunto de música nordestina, que havíamos contratado.
Ainda assim, fomos muito bem votados naquelas eleição.
Luziânia e o MDB
Em 1977, foi editado o “Pacote de abril” pelo Presidente Ernesto Geisel.
Usando dos poderes discricionários que lhe eram garantidos pelo Ato Institucional nº 5 – AI 5, o Presidente Ernesto Geisel baixou o “Pacote de abril” alterando a Constituição Federal, eliminando a eleição para governador pelo voto direto. Também foi criada a figura do “senador biônico” ou “senador nomeado” que era escolhido por voto indireto através da maioria das Assembléias Legislativas Estaduais, mesmo critério utilizado para eleição de governador.
A eleição com participação popular através do voto direto seria para apenas uma vaga no pleito de 1978 e, de acordo com “Pacote de abril”, os dois partidos poderiam lançar até três candidatos em sublegendas.
A Aliança Renovadora Nacional – ARENA, por ter maioria na Assembléia Legislativa, indicou para senador “nomeado” por eleição indireta o já senador Benedito Ferreira, conhecido como Benedito Boa Sorte e como primeiro suplente o ex-prefeito de Silvânia José Caixeta.
Para a disputa do voto direto, a ARENA lançou o ex-prefeito de Anápolis Jonas Duarte, o senador Ozires Teixeira e o Deputado Federal Jarmund Nasser. Com as três sublegendas preenchidas, os arenistas não possuíam suplentes. No caso de vitória o mais votado seria o senador e os outros dois o primeiro e segundo suplentes, por ordem de votação.
O MDB decidiu lançar apenas dois candidatos, o Deputado Estadual Henrique Santillo, representando o grupo autêntico do partido e o Deputado Federal Juarez Bernardes, representando o grupo moderado.
Como o PMDB lançou apenas dois candidatos, Henrique e Juarez, cada qual lançou um suplente. O suplente de Henrique foi o advogado Hélio Roriz, do município de Luziânia. Com a vitória do MDB e Henrique sendo o mais votado, Juarez Bernardes ficou na primeira suplência e Hélio Roriz na segunda.
A escolha do nome de Hélio Roriz e o apoio de Luziânia à candidatura de Henrique ao Senado se deram por uma estreita amizade que me ligava a Carlos Melo.
Bem antes da convenção regional, a maioria dos diretórios municipais do MDB recebia os dois pré-candidatos, Henrique e Juarez, de forma democrática, organizando reuniões sem demonstrar preferência, dando oportunidade para os dois candidatos se apresentarem aos eleitores.
O diretório de Luziânia, que estava lançando Joaquim Domingos Roriz para Deputado Estadual, estava fechado com Juarez Bernardes, se negando a receber Henrique. Contávamos com o amigo fiel no município, o vereador Carlos Melo, o querido Carlinhos, muito ligado a Roriz e freqüentador semanal de meu gabinete na Câmara Federal.
Carlinhos me procurou sugerindo que eu conversasse com Zequinha Roriz, irmão do Joaquim e um dos seus coordenadores políticos, para tratarmos de um espaço que poderia ser aberto no diretório de Luziânia, no que concordei. Marcamos para o dia seguinte almoço na Churrascaria Gaúcha, em Brasília.
Neste encontro, Zequinha me disse que o objetivo dos emedebistas de Luziânia era eleger Joaquim Roriz Deputado Estadual, indagando-me se havia como ajudá-lo. Respondi afirmativamente e contatei imediatamente Manoel Bezerra e Aurelino, integrantes do diretório de Alexânia, solicitando apoio à candidatura de Joaquim Roriz. Fiz o mesmo com os diretórios do MDB de Orizona, Vianópolis, Pires do Rio, Itapaci e Goiatuba, conseguindo para Joaquim estes diretórios que já me apoiavam.
Após conseguir o apoio dessas lideranças, incluindo Maria Dagmar, nossa coordenadora em Goiânia, com intensas atividades políticas que tínhamos em conjunto, Joaquim e eu criamos uma confiança mútua e em conseqüência, os companheiros de Luziânia decidiram que trabalhariam para os dois candidatos, Henrique e Juarez.
Quando da convenção regional, Henrique escolheu seu vice na família Roriz, o advogado muito conceituado no município, Hélio Roriz. Pela minha lealdade em fortalecer a candidatura do seu representante, o diretório municipal do MDB de Luziânia decidiu, também, apoiar minha candidatura a Deputado Federal.
Naquela eleição, 1978, obtive estrondosa votação em Luziânia, garantindo com isso a posição de mais votado entre os Deputados Federais eleitos por Goiás. Henrique Santillo se elegeu Senador com grande votação em todo o entorno de Brasília e Joaquim Roriz foi o Deputado Estadual mais votado dentre os eleitos para a Assembléia Legislativa.
Conseguimos essa união pelo trabalho do saudoso vereador Carlos Melo, um dos grandes amigos que angariamos em nossa cruzada pela democracia.
Naquele instante em que estive com Zequinha, consolidamos uma aliança duradoura e abrimos caminho para que Roriz percorresse, com grande sucesso, sua senda política, iniciada em Goiás.