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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Partido dos trabalhadores no Congresso Nacional

Em 1980, com o fim do bipartidarismo, o Movimento Democrático Brasileiro-MDB, transformou-se em partido. Ulysses Guimarães seu presidente nacional. A vitória extraordinária da dupla Henrique Santillo e Juarez Bernardes sobre o trio arenista Jonas Duarte, Osires Teixeira e Jarmund Nasser, para o Senado, nas eleições de 1978, destacou Santillo como a maior liderança do Estado. Estava consolidada sua força eleitoral. Qualquer eleição direta que disputasse a partir daquele instante, com certeza sairia vencedor.

Como Henrique Santillo nunca se preocupou em ter comando do partido a nível regional, quando o diretório estadual foi ser estruturado, Iris Rezende Machado, que havia passado 10 anos fora da das disputas eleitorais, por ter perdido seus direitos políticos em 1969, com o término da punição que o levou ao ostracismo, retornou ingressando no PMDB. Com deputados e lideranças conservadoras, Iris Rezende formou o diretório com ampla maioria de simpatizantes seus, para que fosse o candidato ao governo do Estado, nas eleições diretas marcadas para 1982.

Com o golpe, Iris assumindo o controle absoluto do PMDB goiano, o grupo Santillista decidiu ingressar no Partido dos Trabalhadores, abrindo caminho para Henrique Santillo, também disputar a governadoria. Dessa forma Henrique Santillo foi o primeiro senador petista, no Senado. Foi inclusive o secretário da reunião realizada em São Bernardo do Campo, em que o partido se organizou nacionalmente, sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva.

Na Câmara Federal, os ex-emedebistas Airton Soares-SP, Luiz Checchinel-SC, Edson Kahir-RJ, Antônio Carlos de Oliveira-MS e eu de Goiás, formamos a primeira bancada do PT. Os companheiros me indicaram como o primeiro líder petista na Câmara dos Deputados. Fui líder durante o tempo em que estive no partido. Demos ao Partido dos Trabalhadores amplitude nacional. Colaboramos muito para o seu fortalecimento. Além do trabalho parlamentar visitamos quase todos os estados organizando o partido.


Na próxima terça feira, dia 6/12/2011, será inaugurado o painel dos deputados que lideraram o PT na Câmara Federal desde o seu surgimento. Solenidade marcada para às 19 horas, no Salão Verde do Congresso Nacional. Embora não mais pertencendo ao PT, mas por ter sido seu primeiro líder, fui convidado a participar desse acontecimento histórico.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Políticos que confiam na retaguarda

Na atividade de parlamentar, como a que exerci nas décadas de 70 e 80, em pleno regime militar, eram vividas emoções permanentes, tensões constantes. O que deu origem ao "pacote de abril" foi momento histórico de altivez e coragem, exercido pela oposição ao regime militar.

Em 1977, o presidente Geisel encaminhou ao Congresso Nacional projeto de reforma do Judiciário que, de acordo com as principais lideranças do mundo jurídico brasileiro, era agressão total ao Estado de Direito. Para que a matéria fosse aprovada, a bancada do MDB teria que votar favoravelmente. Duas correntes logo surgiram entre deputados e senadores: Tancredo Neves, embora contra, mas preocupado com o retrocesso institucional, defendia que se votasse pela aprovação da reforma. Paulo Brossard, advogado militante, dono também de notável saber jurídico, era totalmente contra a aprovação. Em reunião de bancadas unidas do Senado e Câmara, no auditório Nereu Ramos, após discursos emocionados das forças que defendiam e as que repudiavam a aprovação, a matéria foi à votação e a maioria do MDB foi pela rejeição. No plenário a Arena votou a favor e o MDB contra. Matéria foi para o arquivo.

No dia seguinte, o Congresso Nacional foi fechado por uma semana. Nosso líder, Alencar Furtado foi cassado, tendo os seus direitos políticos suspensos. As eleições diretas para governador, em 78 foram, mais uma vez, transformadas em nomeação e criaram a figura do senador "biônico", ficando para o povo o direito de eleger apenas um dos dois que seriam escolhidos nas eleições de 78.

Na ditadura sabíamos que para cada ato de ousadia de nossa parte, surgiria reação dura da parte contrária. Era preciso resistir. Para ser oposição precisava ter patriotismo, coragem e nenhum tipo de fisiologismo.

Nem só de tensão e sufoco vive o Congresso Nacional. Há momentos de tranqüilidade e até hilariantes.

Quando vivíamos o desdobramento do "pacote de abril de 77", tomei conhecimento, pelo deputado Epitácio Cafeteira, que na década de 50, numa reunião noturna da Câmara dos Deputados, estava em votação projeto de revolução que concedia reajuste de subsídios aos deputados. A votação era nominal, do Sul para o Norte. No início da votação, os parlamentares foram orientados pelo presidente da casa sobre o teor da matéria e os que votassem "Sim" estariam aprovando o aumento e os que fossem contra, votariam "Não". Quando a bancada de Minas Gerais estava votando, o plenário foi surpreendido pelo voto, solitário, de "Não", do deputado Último de Carvalho. O presidente ficou assustado, paralisou o processo de chamada, depois de repetir todas as instruções do início da sessão, entendendo que Último de Carvalho não estava em plenário no início dos trabalhos, voltou a perguntar:

– "Deputado Último de Carvalho, como vota?"

– "Não!"

Agora já não havia dúvida, seu voto foi consciente. O que teria feito o deputado não querer um reajuste de subsídios? Mal terminou a votação da bancada mineira, quatro colegas do PSD mineiro foram ao seu encontro e lhe indagaram:

– "Último, até agora estamos tontos com sua atitude. Você não é pessoa muito rica que possa dispensar aumento de subsídio, qual é a sua?"

– "Eu confio na retaguarda", respondeu.

Até hoje ainda há muita gente confiando na retaguarda. No regime ditatorial de 64 não havia espaço "para fazer de conta" e confiar na retaguarda. Cada um era verdadeiramente responsável pelos seus atos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Democracia: Conquista de Todos Nós

Quando cheguei a Brasília, em fevereiro de 1975, para exercer o mandato de deputado federal, meu primeiro ato foi visitar o ex-deputado Chico Pinto, do MDB da Bahia, cassado pela ditadura e preso nas dependências do Exército. Cassado e preso porque havia feito pronunciamento da tribuna da Câmara Federal, no pequeno expediente, protestando contra a visita ao Brasil do ditador do Chile, Augusto Pinochet, que foi recebido com honras militares enquanto milhares de chilenos sofriam todo tipo de violência. Nesse clima, iniciei meu primeiro mandato como integrante do MDB goiano.Para exercer bem o mandato, precisava ter coragem e espírito de luta. Na mesma legislatura, assisti a cassações de mandatos dos valorosos companheiros Marcelo Gato, Marcos Tito, Amaury Muller, Nadir Rosseti e Alencar Furtado. Cassações por motivação político-ideológica. Esse era o risco que nós corríamos e o preço que pagávamos por querermos liberdade e democracia.

Lysâneas Maciel era uma das figuras mais lúcidas e inteligentes da Câmara Federal na legislatura 1975/78. Revoltado e indignado com as cassações dos colegas gaúchos, Nadir Rosseti e Amaury Muller, leu os discursos que os dois fizeram num comício para as eleições municipais de Palmeira das Missões, interior do Rio Grande do Sul, e que deram origem às cassações. Ao terminar a leitura, teve seu mandato cassado. Os três, da mesma forma que Chico Pinto, faziam parte do grupo autêntico do MDB.

Com Marcos Tito, do grupo autêntico de Minas Gerais, a cassação do mandato não foi menos folclórica e revoltante. Usando o grande expediente da Câmara, discorreu sobre a economia brasileira. Fez críticas à política econômica conduzida pelo ministro Delfim Neto e apresentou sugestões para correção de rumo. Foi aparteado pelas principais figuras da Arena em plenário. Ao descer da tribuna, foi cumprimentado efusivamente pelos deputados presentes. Dois dias depois, vice-líder da Arena apresentou da tribuna um exemplar do Jornal Voz Operária, órgão oficial do proscrito Partido Comunista Brasileiro-PCB. Leu o editorial da sua primeira página, argumentando que Tito baseara nele o seu discurso.Foi cassado depois de ter ficado alguns dias em banho maria.

O líder do MDB na Câmara, deputado Alencar Furtado, também do grupo emedebista autêntico, cassado porque fez críticas à ditadura no horário eleitoral reservado pelo Tribunal Superior Eleitoral –TSE ao MDB. Marcelo Gato, cassado sob alegação de ter sido apoiado pelos comunistas de Santos e litoral paulista.

Pessoas amantes da liberdade, que lutaram intensamente contra a ditadura militarista imposta ao País por meio do golpe de 1964, estão satisfeitas e eufóricas com a solidez da nossa democracia. Lutaram contra a ditadura que garroteou os sindicatos livres, movimentos estudantis e forças populares. Ditadura que marginalizou, alienou, perseguiu, prendeu, matou e desapareceu com jovens e trabalhadores. Golpe que impediu o surgimento de verdadeiros lideres, substituídos que foram por elites dominantes e aproveitadores.

Eleição e posse de uma mulher na presidência da república, substituindo o maior líder sindical brasileiro em todos os tempos, mostra que hoje nossas instituições estão sólidas. Não correm risco de golpes pelo poderio econômico ou pelas armas. No entanto, isso não veio de mão beijada ou pelo acaso. Esse momento só foi possível pela luta dos que resistiram e acreditaram que um dia a ditadura seria derrubada.

Tenho o maior orgulho de ter participado e ajudado na construção desse momento que estamos vivendo. Afastado compulsoriamente que fui da militância estudantil em 64 – presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis (UESA) –, ingressei no MDB, partido que ajudei formar e que tanto auxiliou na luta pela redemocratização. Batalha difícil. Contamos, na primeira hora, com pessoas humildes, os chamados descamisados. Sem terem nada mais a perder, nos seguiam numa jornada que parecia não ter fim. Posseiros, índios, garimpeiros e desempregados desesperançados foram nossos fiéis seguidores na organização do MDB inicial. Em Goiás, papel importante desempenharam os companheiros e advogados Vicente de Paula Alencar e Altair Garcia Pereira, o Braguinha, defendendo os injustiçados e espoliados.

No início dos anos 1970, fomos a Formoso defender um grupo de posseiros. Depois de ouvi-los, caminhávamos pela rua central da cidade, quando Jair, o líder do grupo e do diretório do MDB local, exclamou:

– Ali naquele Cartório Eleitoral acontecem os maiores escândalos!

– Que tipo de escândalo, Jair ? Perguntei

– Título de eleitor com fotografia trocada é o que mais tem!

- Quem lhe disse isso Jair ? Indagou, Alencar.

– O meu mesmo, está com fotografia que não é a minha!

– O nome que está no titulo é o seu e a fotografia de outra pessoa? É isso?

– Pior doutor! Nome também não é o meu.

– Nesse caso Jair, antes de denunciar alguma coisa, vá amanhã cedo ao cartório e troque o título. Você está com título de outro eleitor! – Arrematou Alencar.

Mesmo com esses líderes muitas vezes inocentes e desinformados, criamos um MDB forte e fizemos a resistência democrática.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dom Manoel Pestana Filho Cumpriu Sua Missão

Lembro-me do dia em que o bispo Manoel Pestana Filho foi apresentado aos católicos e a toda sociedade anapolina, em substituição a dom Epaminondas de Araújo. Estava implantada a diocese de Anápolis e seu primeiro bispo, dom Epaminondas, seguia para a Paraíba, dando seqüência ao seu trabalho pastoral. Num palanque montado à frente da Igreja do Bom Jesus, o povo, tomando conta da praça na Avenida Goiás, emocionado, se despedia, carinhosamente, do bispo que saía e vibrava com o novo que chegava. Ruas enfeitadas, banda de música, coral cantando músicas sacras e muitos discursos de boas vindas. Eu estava lá.

Transcorria o ano de 1979. Exercia meu segundo mandato como deputado federal. Fazia parte da bancada do MDB. Um dos representantes do meu partido em Santos, Athiê Jorge Cury, presidente do Santos Futebol Clube, estava presente às festividades. Dele recebi as melhores referências sobre o novo anapolino que chegava. Por ser amigo de dom Manoel Pestana Filho e toda sua família, fez questão de saudar o padre, seu amigo, agora sagrado bispo. Dom Manoel foi o segundo bispo da diocese e só se afastou das funções depois de 25 anos de bispado. Afastou-se cedendo o lugar a com João Wilk, mas continuou residindo em Anápolis como bispo Emérito. Grande expoente da ala conservadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mesmo assim, foi sempre discreto nas suas ações políticas partidárias. Defensor intrasigente da vida, da família e seus valores morais e das liberdades democráticas. Pró-Vida foi idealizado e criado por ele para, principalmente, combater o aborto. Quando se debatia na Câmara dos Deputados a descriminalização do aborto, o grupo de Anápolis, liderado por dom Manoel Pestana, por meio do padre Lodi, teve papel de destaque na vanguarda anti-aborto. Em muitas ocasiões teve mais destaque nos noticiários nacionais e internacionais que os próprios parlamentares. Ficou famosa aquela cena em que padre Lodi discursava com um garotinho ao seu lado, fruto da violência sexual de um estuprador contra a mãe do garoto:

"Nesse caso, se a lei tivesse sido usada não teríamos essa criança saudável e inteligente aqui"- diziam os integrantes do Pró-Vida. Dom Manoel Pestana Filho não fazia concessão.

Como deputado, secretário da Educação ou prefeito, sempre tive boa convivência com ele. Pequena divergência ocorreu quando montamos em Anápolis o mais avançado programa de saúde da mulher, por meio do Centro Integrado da Mulher - CIM. Além de cuidar da prevenção ao câncer de mama e do cólo do útero, o CIM assistia às mulheres no seu planejamento familiar, oferecia várias modalidades de anticonceptivos e métodos aprovados pela classe médica, Anvisa e recomendados pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial de Saúde. Dentre eles o Dispositivo Intra Uterino - DIU.

Contra sua utilização no planejamento familiar, padre Lodi se insurgiu. Ganhou dimensão extraordinária e incontrolável, pondo em rsico todo o serviço prestado pelo Centro Integrado da Mulher. Especialistas em saúde da mulher, como José Aristodemos Pinotti, Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde, faziam as melhores referências e avaliações do programa. Sua extinção lançaria ao abandono e risco a vida de milhares de mulheres, principalmente de baixa renda, que dependiam dos serviços de saúde prestados pelo CIM.

Fomos, Onaide e eu, conversar com dom Manoel Pestana. Tomamos do seu café. Nos ouviu atentamente. Ao final, lhe perguntei:

- Dom Manoel, o senhor quer que a prefeitura desative o CIM?

- Não! Ele presta relevante serviço social em favor da saúde da mulher.

- Por que então essa campanha de combate sistemático aos serviços prestados por ele? O senhor é contra o planejamento familiar?

- Adhemar, somos contra o DIU, ele é abortivo! Você está aí de terno, muito bem trajado. Se ao tomar café deixar que caia no seu paletó, ninguém vai prestar atenção na elegância da sua roupa. Todos prestarão atenção na mancha deixada pelo café.

Dom Manoel Pestana Filho já tinha feito seu juízo de valor. Para ele o DIU era abortivo e tinha de ser combatido. Para não extinguir um programa de grande alcance social, programa qie já havia detectado precocemente câncer em centenas de mulheres que foram curadas pelos serviços prestados pelo CIM, enviei um projeto de lei à Câmara Municipal excluindo o DIU dos métodos de anticonceptionais fornecidos pela rede de saúde pública municipal.

Quando concorri, e não venci, a eleição de 2000 para a prefeitura de Anápolis, recebi correspondência de dom Manoel, timbrada com sinete da diocese, me parabenizando pelo trabalho realizado em favor do município, lamentando o insucesso na disputa.

Dia 8 de janeiro, no seio da sua família em Santos, dom Manoel nos deixou desta para outra morada. Tão concorrida quanto sua chegada, foi sua despedida, dia 10, na Igreja do Bom Jesus. Diferença que quando chegou a comunidade católica o saudava alegre e eufórica. Debaixo de sol escaldante, ele silenciosamente enxugava o suor que descia do rosto se misturando às lágrimas que derramava. Na sua partida, os fiéis, com soluço engasgado na garganta, derramavam lágrimas de dor e saudade. Ele, ao contrário, mostrava no semblante serenidade e alegria por estar indo ao encontro do Pai.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Jogo da despedida de MDB e Arena

Publicado na edição de 23/08/2010 do jornal Diário da Manhã

Na década de 70, embora a convivência entre os parlamentares da Arena e MDB no Congresso Nacional fosse respeitosa e cordial, as discussões eram tensas. O momento mais crítico que vivemos foi quando, em abril de 1977, o presidente Geisel baixou o “pacote de abril”. Colocou em recesso o Congresso Nacional, extinguiu as eleições diretas para os governos estaduais previstas para 78; cassou o mandato do deputado Alencar Furtado, líder do MDB, e criou a escandalosa figura do senador sem voto, o senador biônico. Nesse episódio, o presidente nacional do MDB, deputado Ulysses Guimarães, fez um dos mais belos discursos até então pronunciados da tribuna da Câmara Federal. Foi quando comparou Ernesto Geisel ao sanguinário ditador de Uganda, Idi Amim Dada.

Em 1979, ainda no governo Geisel, crescia a convicção entre todos nós parlamentares e no seio da sociedade brasileira de que o regime de força estava chegando ao fim. A mobilização nacional para a volta dos exilados e foragidos políticos foi colossal. As negociações entre oposição e governo para a concessão da anistia eram ininterruptas. Setores das Forças Armadas participaram ativamente dessas discussões. O campo estava sendo preparado para a travessia da ditadura à democracia. Se discutia também o fim do bipartidarismo.

Antes que os dois partidos fossem extintos, a revista Manchete programou uma partida de futebol entre parlamentares do MDB e Arena, para seu campo gramado, no Setor Gráfico de Brasília. A grande imprensa nacional esteve presente ao clássico. A Manchete, na sua edição da semana seguinte, deu ampla cobertura ao evento. Tivemos nosso dia de seleção brasileira. Todas as atenções foram dirigidas ao jogo que marcava a despedida de MDB e Arena. Orlando Brito, um dos mais destacados fotojornalistas do Brasil, registrou os melhores momentos do “jogo do ano”, vencido pela equipe do MDB. Tarcisio Delgado, cuja infância passara na zona rural, aprendeu jogar descalço. Mesmo assim mostrou seus dotes de artilheiro ao infernizar a defesa arenista. Álvaro Dias, que na adolescência treinou algumas vezes na equipe do Londrina, time principal da sua terra natal, foi ao lado de Tarcísio a dupla do meio campo, que desestabilizou o time arenista. No ataque, o destaque ficou por conta de Roberto Freire. Atuei pela zaga direita fazendo o trio de zagueiros com Alceu Colares e Pimenta da Veiga. No gol jogou da Manchete, foram disponibilizados na Internet por Canindé Soares, pelo site o craque mais jovem do MDB, Carlos Alberto.

Fotos e comentários sobre essa partida de futebol, realizada há 31 anos no campo, http://canindesoares.blog.digi.com.br/.

A equipe do MDB foi composta pelos deputados Carlos Alberto (RN), Adhemar Santillo (GO), Alceu Collares (RG),Olivir Gabardo (PR), Pimenta da Veiga (MG) e Jorge Viana ( BA).Tarcisio Delgado (MG), Álvaro Dias (PR), Roberto Freire (PE), Jorge Uequed ( RG) e Evilasio Vieira senador (SC).

Pela Arena jogaram, dentre outros, Paulo Lustosa (CE), Hugo Mardini (RG), Paulo Guerra, João Carlos de Carli, Carlos Wilson , ministro da Previdência, Jair Soares.

Pouco tempo após essa partida, MDB e Arena deram lugar ao surgimento do pluripartidarismo. A Arena transformou-se em PFL e o MDB em PMDB. Alguns integrantes do grupo autêntico, comandados por Roberto Freire, fundaram o Partido Comunista Brasileiro-PCB. Sob o comando de Lula, Airton Soares, Eduardo Suplicy, Antônio Carlos de Oliveira, Edson Kahir e outros fundaram o PT. Com a Anistia ampla, total e irrestrita, os exilados e perseguidos políticos puderam retornar ao Brasil e à prática política. Estava pavimentada a estrada para a redemocratização do País.

A importante partida de futebol realizada num domingo pela manhã no campo gramado da revista Manchete em Brasília foi testemunha do encerramento, em confraternização, dos partidos políticos MDB e Arena, existentes durante a ditadura militar.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O início de uma dura caminhada (Final)

Publicado na edição de 22/07/2010 do jornal Diário da Manhã

Em 1978, quando fui reeleito para a Câmara Federal, Henrique Santillo se elegeu senador, na vaga que restou ao povo escolher pelo voto. Continuamos inabaláveis na defesa dos marginalizados e oprimidos. Protestamos da tribuna, contra a expulsão do padre Vito Miracapillo, que trabalhava na Diocese do Pernambuco, dirigida por dom Helder Câmara. Defensor convicto dos miseráveis camponeses sem terra do interior pernambucano, padre Miracapillo foi expulso sob a acusação de ter se negado a celebrar missa em homenagem ao 7 de setembro.

Da mesma forma denunciamos da tribuna do Congresso Nacional a proibição ao bispo dom José Maria, celebrar missa aos posseiros do interior da Paraíba. Ameaça de expulsão ao bispo de São Felix do Araguaia, dom Pedro Casaldaliga. Ameaça de expulsão do padre Henri dês Roziens. Sequestro do missionário Nicola Arpone e processo contra o pastor Orvandil Barbosa, da Igreja Metodista de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Reverendo Orvandil Barbosa, seguindo o Credo Social da Igreja Metodista, transformou-se na maior liderança eclesiástica do interior do Rio Grande do Sul em defesa dos excluídos. Levava ensinamentos puros, esclarecedores, autênticos, e acima de tudo libertários, por onde passava. Foi perseguido e hostilizado pelos detentores do poder ditatorial, porque praticava o verdadeiro cristianismo. Não se acovardou. Recebeu apoio integral da igreja e do povo de Santa Maria.

Nos solidarizamos com ações corajosas e patrióticas como a do professor Elias Boaventura, reitor da Universidade Metodista de Piracicaba, que correndo todos riscos de repressão cedeu o campus da Unimep, para que os universitários realizassem ali o XXXII Congresso da União Nacional dos Estudantes – UNE. Numa democracia sua atitude seria normal. Ocorre que sua ação destemida ocorreu quando os que davam apoio aos movimentos universitários eram enquadrados como subversivos e inimigos da pátria. Sob todos os riscos colocou a Universidade Metodista de Piracicaba a serviço das liberdades democráticas.

Desse período, é nosso livro : És tu ó perturbador? Como na fábula de La Fontaine, O lobo e o cordeiro, os ditadores brasileiros cometiam os crimes e culpavam suas vítimas. Insultavam, maltratavam, agrediam e se diziam agredidos. Faziam como fez o Rei Acabe, ao profeta Elias, acusando-o de perturbador, quando este lhe chamou a atenção por estar se distanciando de Deus. Ficamos ao lado dos democratas, contra prisões arbitrárias e torturas.

Ainda no Congresso Nacional, denunciamos a grilagem de terras por governantes do Estado. Expulsão de humildes posseiros por grileiros gananciosos na região de Araguaína, hoje Tocantins. Tudo documentado, com certidões e processos oficiais do Idago – órgão estadual que tratava de questões fundiárias em Goiás.

Revelamos à Nação o escândalo feito por governantes da época, no Banco do Estado de Goiás e Caixa Econômica do Estado de Goiás. Pessoas privilegiadas tomavam dinheiro emprestado no BEG de Goiânia, e aplicavam o produto do empréstimo no próprio BEG em São Paulo, com rendimento maior que o que pagariam ao mesmo banco em Goiás, pelo empréstimo.

Relatório do Banco Central mostra que, em 1981, a Minascaixa, a Caixa Econômica de Minas Gerais, possuia ativo circulante de 26 bilhões e 60 milhões de cruzeiros. Seu Crédito em Liquidação foi de 52 milhões e 967 mil cruzeiros. Enquanto isso, a Caixego, com Ativo Circulante de 7 bilhões 514 milhões de cruzeiros, seu Crédito em Liquidação foi de 528 milhões e 469 mil cruzeiros. Quebraram a Caixego.

Políticos ligados à Arena tomavam dinheiro emprestado da Caixego, não pagavam. Os empréstimos não honrados iam para crédito em liquidação, com prejuízo total. As execuções foram extintas por falta de interesse da empresa em verdadeiramente executar os devedores. Conforme despacho, em centenas de ações de execução, o juiz de Direito Francisco Rodrigues de Souza, ressaltou esse desinteresse da Caixego em dar sequência às ações de execução. Invariavelmente, para extinção do feito, o juiz exarava em seus despachos: “Sendo evidente a inércia da autora (Caixego), por longos anos, e não podendo o feito se eternizar, decreto-o extinto. Dê-se baixa na distribuição e arquive-se. P.R.I. Goiânia, dia, mês e ano. Ass. dr. Francisco Rodrigues de Souza, juiz de Direito.”

Foram milhões e milhões de cruzeiros que viraram fumaça. Prejuízo colossal à Caixego. Lucro a políticos oportunistas. Tudo com documentos expedidos pelo Banco Central. Essas denúncias estão publicadas no livro Escândalos: os frutos do regime. Cumprimos com nossa obrigação no parlamento nacional.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O início de uma dura caminhada (II)

Publicado na edição de 15/07/2010 do jornal Diário da Manhã

O ano de 1974 foi decisivo para o MDB. A princípio grandes líderes do partido, com a supressão das eleições diretas para os governos estaduais, queriam sua extinção. Alegavam que o Movimento Democrático Brasileiro estava legitimando a ditadura. Para eles os ditadores jamais entregariam o poder. A ação enérgica de Ulysses Guimarães, presidente nacional do partido, foi fundamental para eliminar essa posição pessimista dos que tinham pressa em chegar ao governo.

Em Goiás, os dois principais líderes da velha guarda emedebista, Anapolino de Faria e José Freire, decidiram não disputar a reeleição a deputado federal. Foram dois desfalques incalculáveis. Henrique Santillo que estava se preparando para concorrer ao governo em eleição direta, resolveu não pleitear cadeira para deputado federal. Não queria afastar-se da atividade de médico pediatra no Hospital Santa Paula. Foi quando abri mão da reeleição a deputado estadual, cedendo oportunidade a ele. Disputei uma vaga na Câmara Federal.

Fizemos a campanha juntos. Da mesma forma usamos o horário eleitoral gratuito, que se fazia ao vivo, com a apresentação do “ping-pong da verdade.” Vencemos. Na Câmara Federal e Assembleia Legislativa trabalhamos em sintonia. Defendemos o retorno imediato da democracia, fazendo duro e implacável combate à ditadura.

Em agosto de 1976, com base na Tomada de Preços n° 8/75, de 17 de abril de 1975, para compra de gêneros alimentícios e material de limpeza, mensais, para a residência oficial do ministro do Trabalho. Foi um duro golpe na propalada ética e moralidade do gasto do dinheiro público no regime ditatorial. A residência do ministro Arnaldo Prieto recebia por mês mercadorias equivalentes ao estoque de um pequeno supermercado. Entre carne bovina, suína, frango, peixe ou crustáceos e dobradinha eram 956 quilos; 600 quilos de arroz; 300 quilos de açúcar; 150 quilos de feijão; 135 quilos de macarrão; 201 quilos e mais 436 dúzias de frutas; 432 quilos de manteiga; 90 latas de óleo de soja e 32 latas de óleo de oliva; 885 quilos de legumes e verduras; 1296 garrafas de refrigerantes; 144 garrafas de sucos de fruta e uma infindável lista de outros gêneros alimentícios e material de limpeza. Os principais chargistas da grande imprensa brasileira fizeram alusão à mordomia do ministro. Candidatos emedebistas, principalmente dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, usaram o“ rancho do ministro”, por mim enunciado, em suas propagandas políticas.

O cronista Eduardo Carlos Novaes, em seu livro Quiabo Comunista, faz referência à denúncia. Propalou-se na ocasião que teria meu mandato cassado, pela repercussão da denúncia. Nada aconteceu e exerci normalmente o mandato. Dessa denúncia surgiu o livro "Da mesa farta à subnutrição", cujo lançamento foi na Universidade Católica de Goiás.

No final de 1976, candidatei-me internamente no MDB para concorrer à 2ª vice-presidência da Câmara, em substituição a Alencar Furtado. Era a principal função do partido na Mesa Diretora da Câmara Federal. Concorreram ao mesmo cargo, Juarez Bernardes, de Goiás, apoiado por Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Nelson Carneiro e outros moderados; Getúlio Dias, do Rio Grande do Sul, apoiado por Alencar Furtado, Fernando Lira, Jarbas Vasconcelos; Freitas Nobre e outros autênticos; Fabio Fonseca, ex-presidente da Comissão de Saúde, presidente do Atlético Mineiro; Hélio de Almeida ex-ministro do governo João Goulart e Emanuel Waisseman, da bancada do Rio de Janeiro. Getúlio Dias e eu fomos os mais votados no primeiro escrutínio. Na segunda votação fui o mais votado. A mesa diretora eleita em plenário ficou composta por Marco Maciel, presidente; João Linhares, 1° vice; Adhemar Santillo, 2° vice; Djalma Bessa, 1° secretário; Jader Barbalho, 2° secretário; José Camargo, 3° secretário; João Clímaco, 4° secretário. Vencíamos mais uma batalha elevando a força política de Goiás...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Coadjuvante de uma grande causa

Publicado na edição de 01/04/2010 do jornal Diário da Manhã

A primeira vez que disputei eleição por partido político foi em 1970, como candidato a deputado estadual pelo MDB. Meu irmão Henrique Santillo já havia disputado e vencido as eleições para vereador em 1966 e prefeito em 1969, também pelo MDB. Fiz parte dos 12 que formaram a bancada emedebista na legislatura de 1971/1975, reduzida logo no início, com a adesão de Clarismar Fernandes à Arena.

Com a cassação das principais lideranças oposicionistas no Estado, sendo a mais traumática delas a do prefeito de Goiânia, Iris Rezende Machado, o prefeito de Anápolis surgia como a grande esperança da oposição goiana. Ao mesmo tempo em que Iris Rezende era cassado e direitos políticos suspensos por 10 anos, foram suspensas as eleições diretas para os governos estaduais, substituídas por eleições indiretas pelas Assembleias Legislativas. Como a Arena possuía maioria nos Estados, só ficou sem o governo do Rio de Janeiro, onde a maioria era do MDB.

A frustração do eleitorado goiano com a cassação de Iris e suspensão das eleições diretas para o governo em 1970, foi pouco a pouco cedendo lugar ao otimismo que contagiou o Estado inteiro, pela resistência que partia de Anápolis. Seu povo dava vitórias consecutivas e cada vez mais expressivas ao MDB.Isso ficou claro em 1972, com a vitória maiúscula de José Batista Júnior à prefeitura, contra todas as forças governistas.

Nem mesmo a cassação de José Batista Junior, em 28 de agosto de 1973, transformação de Anápolis em Área de Segurança Nacional e outra vez a suspensão da eleição direta para governador em 1974, tiraram a motivação dos goianos pela redemocratização. A maior prova foram as eleições dos emedebistas Lázaro Ferreira Barbosa ao Senado, cinco deputados federais e Henrique Santillo para a Assembleia Legislativa, com mais de 32 mil votos, naquele ano.

De toda essa maratona cívica participei como coadjuvante de Henrique Santillo, na sua luta pela redemocratização do Brasil e chegar ao governo do Estado. Por conhecê-lo, acreditava nele. Em 1974, como candidato natural a deputado federal, Henrique no último instante disse que só lhe interessava ser candidato a deputado estadual, porque não queria abandonar sua atividade de médico, o que aconteceria se fosse para Brasília. Mesmo me tendo preparado para ser candidato à reeleição, disputei a cadeira de deputado federal para que ele não se afastasse das disputas. Fui reeleito mais duas vezes para a Câmara Federal, sempre dentro do projeto de consolidar sua candidatura ao governo.

Minha eleição para a 2ª vice-presidência da Câmara dos Deputados, 77/78 , foi visando seu projeto político. Assumi a secretaria da Educação em 1983, primeira administração de Iris Rezende, para fortalecer seu nome junto às lideranças municipais.

Com emoção vi em 1982, Henrique Santillo, a maior liderança política goiana naquele instante, forjada na oposição e combate à ditadura, abrir mão da sua natural candidatura ao governo, para Iris Rezende Machado, entregando-lhe um eleitorado motivado, organizado e imbatível. Essa força peemedebista goiana foi demonstrada na disputa para o Senado em 1978, quando a dupla Henrique/Juarez derrotou os arenistas Osires/Jarmund/Jonas.

A partir daquele resultado, não havia a menor dúvida, em qualquer eleição majoritária que ocorresse em Goiás, o PMDB venceria. Pelo trabalho prestado e vitórias obtidas, Henrique Santillo era a maior liderança política em Goiás. Como o grande nome, apenas adiava um pouco mais seu sonho de governar o Estado. A alegria seria em dose dupla em 1986: ser governador de Goiás depois de sepultada a ditadura. Participei com muito orgulho dessa tarefa cívica e patriótica em prol dos brasileiros.

terça-feira, 2 de março de 2010

Biografia pela Fundação Getúlio Vargas

A Fundação Getúlio Vargas publicou Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro narrando os aocntecimentos mais importantes na vida do país no período de 1930 a 1983. Este trabalho teve a Coordenação de Israel Beloch e Alzira Alves de Abreu, editado pela Forense Universitária, em 1984, composto de quatro volumes.

O Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas, no volume IV, páginas 3079 e 3080 faz a seguinte referência sobre Adhemar Santillo:


SANTILO, Adhemar


Deputado Federal por Goiás em 1975


Adhemar Santillo nasceu em Ribeirão Preto-SP no dia 13 de novembro de 1939, filho de Virginio Santillo e de Elydia Maschietto Santillo. Seu irmão, Henrique Santillo, foi deputado estadual em Goiás de 1975 a 1979 e senador pelo mesmo Estado a partir de 1979. Iniciou sua vida política como chefe de gabiente do prefeito de Anápolis,GO, elegendo-se em 1970 deputado estadual em Goiás na legenda do Movimento Democrático Brasileiro. Assumindo o mandato em fevereiro do ano seguinte tornou-se nesta lesgislatura vice-líder da bancada de seu partido na Assembéia Legislativa. Em novembro de 1974 elegeu-se deputado federal por Goiás, ainda na legenda do MDB, assumindo uma cadeira na Câmara em fevereiro do ano seguinte após o término de seu mandato na Assembéia em janeiro anterior. Nessa legislatura foi membro da comissão de serviço Público e suplente da Comisssão de Desenvolvimento da região Centro Oeste. Integrante do grupo neo-autêntico, ala mais radial do MDB, engajada na denúncia da repressão policial aos estudantes e na defesa dos direitos humanos e da Constituinte-, foi eleito em 1977 2º Vice Presidente da Câmara. Na opinião dos moderados de seu partido lançou sua candidatura à Mesa Diretora da Câmara para criar problemas ao candidato Juarez Bernardes, também representante de Goiás que contava com apoio da maioria dos dirigentes do partido. Em novembro desse mesmo ano reuniu-se com mais de quinze deputados e com o Marechal Osvaldo Cordeiro de Farias para discutir a respeito da formação de uma Assembléia Constituinte e do processo de abertura política que começava a ser ensaiado no governo do General Ernesto Geisel (1974-1979).


Em novemro de 1978 reeleeu-se deputado federal na mesma legenda tendo sido o candidato mais votado em seu Estado. Ainda nesse ano deixou o cargo de 2º Vice Presidente da Câmara. Em março de 1979 apresentou um projeto propondo a revogação da lei que criou o Serviço Nacional de Informações – SNI e determinando as providências necessárias à incineração de documentos referentes a pessoas físicas e jurídicas dos arquivos desse órgão do Governo. Justificando sua proposta afirmou que o SNI “transformou-se numa verdadeira polícia política” que controlava a vida dos cidadãos, sendo portanto, “incompatível com a propalada intenção de abertura política”.


Com a extinção do bipartidarismo em novembro de 1979 e a consequente reformulação partidária, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro, PMDB, tornando-se nesse mesmo ano Vice-líder de sua bancada na Câmara, função que desempenhou até 1980. Em janeiro desse ano, quando seu irmão Henrique Santillo foi derrotado na reunião da executiva por Iris Rezende, escolhido candidato ao Governo do Estado de Goiás, passou, juntamente com o irmão para o Partido dos Trabalhadores – PT. Em abril seguinte declarou, em entrevista ao jornal O Globo, que o país atravessava grave crise econômica e que os partidos políticos deveriam forçar o governo a formar um novo pacto social, legítimo e efetivo, através da convocação de uma Assembléia Constituinte. Defendeu ainda, a revogação de todos os atos de exceção, a liberdade sindical, a liberdade de imprensa, o direito de greve, a organização partidária sem qualquer obstáculo, enfim, o restabelecimento pleno do estado de direito, que permitiria ao povo expressar livremente a sua vontade.


No início de junho de 1980 afirmou que sairia do PT em obediência às suas bases políticas ressentidas com o veto imposto em reunião do partido à quatro políticos e com a saída de dois deputados estaduais por divergências ideológicas. Após viagem de consulta às suas bases em 42 municípios, anunciou sua decisão de deixar o PT retornando ao PMDB. Seu irmão decidiu permanecer no PT apesar das tentativas de adeptos do PMDB de fazê-lo retornar a esse partido, o que viria ocorrer somente mais tarde. Ainda em junho pediu ao plenário da Câmara a revisão da pensão concedida aos ex-presidentes da República e criticou o General Ernesto Geisel por ter aceitado o cargo de Presidente do Conselho de Administração da Cia Petroquímica do Nordeste (Copene)-maior empresa do polo de Camaçari-(Ba)- e de sua subsidiária, Nordeste-Química (Norquisa). Afirmou ainda que Geisel “alugou” a essa empresa “seu prestígio, todo seu conhecimento sobre segurança nacional e suas relações na estrutura do poder”. Nessa ocasião o ex-presidente da República foi defendido na tribuna da Câmara pelo deputado Alcides Franciscato, do Partido Democrático Social-PDS.


Em novembro de 1980 após uma palestra numa entidade feminina de Goiânia sobre partidos políticos, sentiu-se observado num restaurante, sendo logo depois perseguido em seu automóvel, o que o levou a buscar refúgio próximo a um quartel do Exército. Ainda em 1980 tornou-se membro da Comissão Parlamentar de Inquérito-CPI, encarregada de investigar as causas das elevadas taxas de juros do sistema financeiro nacional e relator substituto da CPI encarregada de apurar atos de corrupção praticados por órgãos da administração direta e indireta da União. Em abril de 1981 propôs que todos partidos de oposição realizasem convenções extraordinárias para fixar posição contrária à prorrogação dos mandatos dos deputados federais e estaduais e afirmou que o PMDB também era contrário à sublegenda, ao voto distrital e à vinculação de votos. Nessa ocasião, juntamente com o deputado Hélio Duque, do PMDB do Paraná, solicitou ao presidente da Câmara, deputado Nelson Marchezan, uma investigação junto ao Banco Central para apurar os nomes dos deputados que teriam recebido empréstimos do Banco do Estado de São Paulo-Banespa, por determinação do Governador do Estado, Paulo Salim Maluf, em troca do apoio à prorrogação de mandatos. Em agosto seguinte acusou o Governo na CPI que apurava a corrupção na administração pública, de incentivar essa prática nos órgãos federais, que haviam dificultado a ação do Tribunal de Contas da União – TCU, no exame das contas da Fiação e Tecelagem Lutfalla, pertencente à família do Governador Paulo Maluf, que sofrera intervenção governamental devido a irregularidades financeiras. Em dezembro desse mesmo ano a partir do relatório dos deputados que participaram dessa CPI, Santillo pediu providência no sentido da instauração de uma ação penal contra Paulo Maluf, Ibrahim Abi-Ackel, então Ministro da Justiça e José Paulo dos Reis Veloso, ex-Secretário do Planejamento, por crime contra a administração pública.


Em junho de 1982, visitando a cidade de Itapuranga-GO, juntamente com o senador Lázaro Barbosa, foi vítima de um atentado praticado por integrantes do diretório municipal do PMDB daquela cidade. Vários parlamentares foram unânimes em garantir, contudo, que o atentado constituía fato isolado não comprometendo a unidade do partido em Goiás. Durante essa legislatura integrou as Comissões de Ciência e Tecnologia e de Constituição e Justiça e foi suplente da Comissão de Agricultura e Política Rural da Câmara do Deputados.


Em novembro de 1982 reelegeu-se deputado federal por Goiás, ainda na legenda do PMDB.


Casou-se com Onaide Silva Santillo, com quem teve três filhos.


Fontes: Câmara dos Deputados; Câmara dos Deputados: Deputados Brasileiros

Repertório(8 e 9); O Estado de São Paulo (3.06.80; 31.03, 5.08, 12.12.81); Folha de São Paulo (24.04.81); O Globo (17.01, 27.04 e 10.06.80 e 24.04.81); Jornal do Brasil (02,11 e 12 de 77; 10.03 e 26.09.79; 10 e 27.06.80; 23.04 e 11.06 de 82); Neri, S. 16; Perfil (1980); Tribunal Superior Eleitoral, dados (9).

Vale a Pena Lutar

A certeza de ter realizado um trabalho digno em minha caminhada política é constatada no respeito que sempre tive dos colegas, adversários e imprensa.

Os principais jornais brasileiros, emissoras de rádio e televisão deram destaque especial à minha atuação como parlamentar, não só no MDB, como na minha rápida passagem pelo PT, em que, por decisão dos companheiros Deputados Federais Airton Soares, Antônio Carlos de Oliveira, Edson Kahir e Luiz Cecchinel, fui indicado líder da Bancada.

Ao denunciar mordomia do Ministro do Trabalho, com suas compras de alimentos e material de limpeza com recursos do Tesouro Federal, em quantidade mensal maior do que o estoque de um supermercado de tamanho médio, fui notícia de primeira página nos jornais e revistas do eixo Rio – São Paulo por várias semanas.

Na campanha para as eleições municipais de 1976, no Sul do país, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, os candidatos do MDB usaram a denúncia que fiz como propaganda eleitoral. Constatei pessoalmente isso quando estive em Rio Negrinho, Santa Catarina, juntamente com Luiz Henrique da Silveira, governador do estado, naquela época Deputado Federal.

Além dos livros contendo boa parte do meu trabalho como Deputado, “Da mesa Farta à Subnutrição”; “És Tu, ó Perturbador?” e “Escândalos: os frutos do Regime!”, tive a honra de ser citado por vários escritores famosos, como Carlos Eduardo Navaes, em seu livro “O Quiabo Comunista”.

Darcy Ribeiro, num de seus últimos livros também faz referência ao meu trabalho como parlamentar.

O jornalista Clovis Senna, numa de suas publicações, realça minha atuação na Câmara dos Deputados.

A revista Veja, quando publicou edição especial sobre seu jubileu de prata,deu destaque aos fatos mais importantes ocorridos no Brasil e divulgados pela revista, nos seus 25 anos de existência. Noticiou como fato importante a denúncia que fiz contra as mordomias na residência oficial do Ministro do Trabalho.

Foi imensamente gratificante ser lembrado por renomados escritores, sob a supervisão da FGV - Fundação Getulio Vargas, relacionando os brasileiros que mais se destacaram de 1930 a 1983. Parte da minha biografia é relatada naquela coleção de quatro volumes. Fatos históricos importantes estão nesta coleção, registrando a forma correta com que exerci os cargos públicos até aquele ano.

O trabalho de Antônio Fernandes de Oliveira, o Tonhão, contando minha vida em versos, na publicação “O Incansável Lutador” foi uma homenagem que me emocionou pela singeleza deste poeta autodidata e pela riqueza de detalhes da minha vida política.

Pela amizade e fidelidade dos companheiros e amigos e pelo carinho, atitudes e palavras generosas de pessoas anônimas, olho para o passado e revejo os caminhos que percorri e só tenho um sentimento:

Vale a pena lutar!

Meu trabalho registrado em Publicações

Eleito deputado federal nas eleições de 1974 continuei com a mesma garra e o mesmo destemor na defesa da democracia, fazendo oposição ferrenha a todos os atos arbitrários do regime militar instalado com o golpe de 64. Reeleito em 78 e 82, trabalhei incessantemente pelo restabelecimento dos direitos democráticos e em favor do emprego correto das verbas públicas.

Com farta documentação comprovei e denunciei mordomias no governo federal e corrupção nas instituições bancárias do governo estadual.

Da tribuna da Câmara dos Deputados combati a ditadura continuamente, fazendo corajosos pronunciamentos em favor da liberdade, da justiça, dos direitos humanos e do retorno à democracia.

Alguns destes pronunciamentos estão registrados em três publicações da Gráfica do Senado.


Da Mesa Farta à Subnutrição


Esta publicação deveria ser intitulada “Da mordomia à pechincha”.

Na época, o governo, através do ministro Delfim Neto, pedia à população para “pechinchar” nas feiras e no comércio. No entanto, chegou ao meu Gabinete, na Câmara dos Deputados, uma lista de compras para a cozinha do Ministro do Trabalho, Arnaldo Prieto, que mais parecia um estoque de supermercado.

O Deputado Marco Maciel, Presidente da Câmara dos Deputados, chamou-me pedindo que mudasse o título da publicação para evitar confronto e provocação ao Presidente Geisel, que estava tentando uma abertura democrática. O título do livro “Da mordomia à pechincha” poderia reacender a força dos radicais de direita.

Entendi a preocupação do presidente Marco Maciel e mudei o título, sem mudar o seu conteúdo que, em 1976, foi o ponto de partida para desmistificar a cruzada contra a corrupção alardeada pelo golpe militarista de 1964.

Na publicação especial de 25 anos da revista VEJA há uma referência a este meu pronunciamento como um dos mais importantes acontecimentos daquele período.

Na época tornou-se um orgulho dizer que a “Revolução” de 64 tinha vindo para acabar com a corrupção política, implantando a moralização nos gastos públicos.

O Ministro Delfin Neto era tido como o mago das finanças e alardeava que o resultado positivo do produto interno bruto, seria dividido assim que o “bolo” crescesse. Dessa forma, salários eram achatados e reivindicações trabalhistas eram ignoradas.

Campanhas públicas foram feitas para que a população fizesse o controle dos preços pedindo descontos, no que se chamou “campanha da pechincha”.

O principal aliado do Ministro Delfim Neto nesta cruzada era Arnaldo Prieto, o Ministro do Trabalho, encarregado de convencer a classe trabalhadora de que era preciso economizar, “pechinchar”, colaborando com o crescimento do “bolo”.

Em setembro de 1976, recebi de Soares Dutra, funcionário do Ministério do Trabalho, cópia da Tomada de Preços 8/75, para fornecimento diário de gêneros alimentícios e material de limpeza para a residência oficial do Ministro do Trabalho, alimentos, bebidas, refrigerantes e material de limpeza que seriam gastos no período de um mês.

De acordo com o documento, foram consumidos entre carne bovina, suína, frango, peixe ou crustáceos e dobradinha, 956 quilos; 600 quilos de arroz; 300 quilos de açúcar; 156 quilos de feijão; 135 quilos de macarrão; 201 quilos e mais 436 dúzias de frutas; 432 quilos de manteiga; 885 quilos de legumes e verduras; 1.296 garrafas de refrigerantes; 144 garrafas de suco de frutas; 90 latas de óleo de soja; 32 latas óleo de oliva; 90 dúzias de ovos...

Faziam parte da tomada de preços para o consumo mensal na residência do ministro, 194 itens como: azeite de dendê, araruta, catchup, farinha de rosca, gordura de coco, lentillha, amido de milho, pimenta malagueta, tomate, caquí, nozes, champignons, leite evaporado, chantili, bacalhau, toucinho defumado, patê, presunto defumado, filé mignon, carret de bisteca, rabada, queijo prato, queijo cremelino, queijo minas, queijo mussarela, queijo parmesão, orégano, camarão fresco e grande, filé de pescado, filé em posta, namorado, bom ar hortelã, bom ar de limão aerossol, limpa vidro shell, vassoura de piaçava, sabão de coco, cera branca e vermelha e uma infindável lista de gêneros alimentícios e material de limpeza.

Ao contrário do que acontecia normalmente com os discursos de deputados da oposição que eram ignorados pela imprensa e nunca causavam repercussão, jornais como O Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e outros de circulação nacional fizeram a comparação entre as compras mensais de Ministro do Trabalho e um supermercado de tamanho pequeno. O Estadão publicou várias charges repercutindo o assunto. Numa delas, um garçom com um boi na bandeja satirizava o Ministro com seus quase mil quilos mensais de carnes, peixes e crustáceos. A variada e generosa despensa do ministro deu origem ao livro com alguns dos meus pronunciamentos na Câmara dos Deputados: DA MESA FARTA À SUBNUTRIÇÃO.

A revista VEJA, na comemoração dos 25 anos de sua publicação, fez referência a este assunto como um dos mais importantes naquele período.

A Presidência da República, com o objetivo de desqualificar as denúncias, procurou usar a mídia, quando o Ministro do Trabalho usou rede de rádio e televisão por 10 minutos, em horário nobre, para tentar explicar a questão. A tentativa não deu certo, já que as despesas haviam sido realizadas, pois a tomada de preços era de agosto de 1975 e estávamos em setembro de 1976. Não havia o que se justificar.

Além da repercussão alcançada na imprensa, o assunto passou a ser o mais comentado por toda a população. A palavra mordomia era relacionada com gastos da despensa do Ministro

A campanha eleitoral para prefeitos e vereadores em 1976, pelo MDB, era infalivelmente sobre o arrocho salarial e os gastos do Ministro do Trabalho. Em Rio Negrinho, Santa Catarina, as propagandas eleitorais impressas traziam a foto dos candidatos e no verso, o “Rancho do Ministro”, com todos os detalhes da tomada de preços do Ministério do Trabalho. Simpósios, encontros regionais do MDB em vários Estados, comícios e debates públicos reivindicavam a minha presença para apresentar a questão detalhadamente.

A repercussão foi tamanha que este pronunciamento, com estas denúncias, tem sido considerado pelos historiadores, como um primeiro e grande abalo que expôs a falsa austeridade do governo da época.



És Tu, ó Perturbador?


O nome desta publicação teve como inspiração uma passagem bíblica registrada no livro de Reis I, capítulo 18, num encontro do profeta Elias com o rei Acabe. Este rei, manipulado pela sua esposa, Jezabel, fazia horrores aos seus súditos, matando, ignorando os mais básicos direitos da pessoa humana, o que era combatido pelo profeta. Ao se encontrarem, o rei, invertendo a situação, recebe Elias dizendo: “– És tu, ó perturbador de Israel?”

Em abril de 1977 houve o fechamento do Congresso Nacional.

O Governo editou medidas de exceção, como a supressão de eleição direta para governadores prevista para o ano seguinte, estabeleceu eleição indireta de um senador pelas Assembléias Legislativas estaduais, escolhido dentro do partido majoritário naquela assembléia, e as arbitrariedades eram fatos corriqueiros.

O MDB só era maioria no Rio de Janeiro. Nos demais estados, a Arena era maioria. O pacote de abril suspendeu apresentação de programas políticos pelo rádio e televisão e ainda o Presidente Ernesto Geisel cassou o líder do MDB na Câmara, Deputado Alencar Furtado.

Esse foi o chamado ”Pacote e abril”. Sua origem foi em função das bancadas do MDB, Câmara dos Deputados e do Senado terem votado contra a Reforma do Judiciário, contrariando o desejo do general Ernesto Geisel. A reforma proposta e rejeitada não agradava ao Judiciário, Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil. Mesmo assim, o general Geisel queria colocá-la garganta a baixo da nação e humilhar a oposição para que, de joelho, votasse pela sua aprovação. Como o MDB resistiu, foi fechado o Congresso Nacional e baixado o “Pacote de abril”, com inúmeros retrocessos na caminhada para o retorno democrático no Brasil.

Deste período, os pronunciamentos que fiz da tribuna da Câmara dos Deputados foram publicados em 1980, com o título: ÉS TU, Ó PERTUBADOR?

Nesta publicação está registrada, através dos pronunciamentos que fiz da tribuna da Câmara dos Deputados, a tática que o Governo da época utilizava, tentando impingir à oposição a culpa pelas mazelas que aconteciam no país. A capa da publicação se refere a uma conhecida fábula de Esopo, O lobo e o Cordeiro. O sistema autoritário da época agredia instituições, imprensa, movimentos populares e buscava colocar na atitude oposicionista a responsabilidade das insatisfações populares.



Escândalos:

Os Frutos do Regime


Nesta coletânea de discursos por mim proferidos na tribuna da Câmara dos Deputados, pude trazer ao conhecimento público a grilagem de terra no norte de Goiás e os privilégios e transações altamente irregulares que levaram enormes prejuízos à CAIXEGO - Caixa Econômica do Estado de Goiás, e ao Banco do Estado de Goiás, instituições que se transformaram em instrumento de enriquecimento ilícito de políticos e simpatizantes ligados aos governantes da época.

Tudo está comprovado com documentos oficiais nos anais da Câmara e na publicação da Gráfica do Senado, começando em maio de 1978, quando o BEG emprestou à empresa PROVALLE importância de 40 milhões de cruzeiros. Já era do conhecimento público, nesta época, o grande número de títulos de responsabilidade desta empresa, apontados ao cartório de protestos. Antes de completar 90 dias do empréstimo dos 40 milhões, por outros empréstimos e variadas modalidades de operações, a dívida do grupo PROVALLE atingia mais de 100 milhões de cruzeiros, o que representava cifra superior a trinta por cento do capital e reservas do BEG.

Em junho de 1979, havia várias outras operações de empréstimos a pessoas ou empresas que assumiram dívidas do grupo PROVALLE. Elevou-se, pois, cerca de 400 milhões de cruzeiros o total dos empréstimos concedidos à empresa, correspondendo, pasme-se pelo absurdo, a mais de 100% do capital e reservas do Banco do Estado de Goiás.

Os empréstimos foram concedidos a taxas especiais de 2% ao mês, enquanto no nível de mercado o BEG cobrava taxa superior a 3% ao mês. Para fazer face aos empréstimos subsidiados, o BEG captou em São Paulo 700 milhões de cruzeiros, quantia igual ao montante dos depósitos captados pelo próprio banco junto aos seus clientes. As taxas pagas pelo BEG na operação de empréstimos causaram perplexidade no mercado financeiro em São Paulo, já que os grandes bancos do país, oficiais e particulares, não conseguiam fazer concorrência, pois tinham taxas de 52 a 60% ao ano, incluídas as comissões de corretagens.

Essa volumosa soma de recursos – 700 milhões de cruzeiros - foi distribuída em cerca de 200 contratos de empréstimos em conta garantida, somando 400 milhões de cruzeiros a taxas favorecidas variáveis entre 0,8 e 2,8% ao mês e concedidos a clientes ligados, em sua quase totalidade, a deputados, secretários de estado, auxiliares do governo, políticos situacionistas, firmas de ex-sócios e amigos dos governantes da época. Até dois integrantes, chefe e subchefe de Serviço Nacional de Informações – SNI tiveram acesso aos empréstimos favorecidos com taxas subsidiadas, 300 mil cruzeiros para um e 1 milhão e quinhentos mil cruzeiros para outro. Antes de serem saldados, os empréstimos eram ampliados e os juros adicionados ao final.

Para compensar o enorme prejuízo que o banco sofria na concessão de empréstimos a taxas subsidiadas e inferiores às de mercado e do próprio custo do dinheiro que captava, foi elevada a taxa de juros que vinha cobrando do próprio Estado de Goiás, maior acionista e depositante, de 2% ao mês para 4 e 5 % ao mês. Transferiu assim, para as costas do sofrido contribuinte goiano as benesses concedidas a um pequeno grupo de amigos.

Fato interessante e escandaloso foi o empréstimo de 7 milhões de cruzeiros feito a uma cliente a juros de 1% ao mês ou 12% ao ano pela agência do BEG em Goiás. A mesma cliente dois dias depois emprestou a mesma quantia ao BEG em São Paulo com juros de 51% ao ano. O Banco Central tinha conhecimento daquele verdadeiro festival de corrupção e esbanjamento de dinheiro do povo e mesmo assim não tomou nenhuma providência, sendo conivente com tudo que ali acontecia.

Nos círculos econômicos e financeiros de Goiás sabia-se que a cifra de 451 milhões de cruzeiros, apresentada como prejuízo e constante no balanço referente ao primeiro semestre do ano de 1981, não correspondia à realidade. O Banco Central Enviou oficio de nº 81/ 024, de 26/05/81, à Diretoria do Banco do Estado de Goiás, solicitando que fosse inscrito na conta de Crédito em Liquidação a quantia de Cr$ 10.785.381,32, dez bilhões setecentos e oitenta e cinco milhões e setecentos e vinte e seis mil e trezentos e oitenta e um cruzeiros e trinta e dois centavos, já no balanço do primeiro semestre de 1981.

Em resposta, foi encaminhado ao Departamento de Fiscalização Bancária e Divisão de Fiscalização Bancária do Banco Central do Brasil, no dia 16/06/81, oficio nº 81/95, solicitando que não fosse inscrita na Conta de Crédito em Liquidação tal importância, uma vez que Cr$ 9.538.240.070,90 - nove bilhões e quinhentos e trinta e oito milhões e duzentos e quarenta mil e setenta cruzeiros e noventa centavos - era de responsabilidade do setor público do Estado e que desse total encontrava-se vencida a importância de Cr$ 2.080.723.140,90 - dois bilhões e oitenta milhões e setecentos e vinte e três mil e cento e quarenta cruzeiros e noventa centavos.

O Banco Central, através de expediente da Divisão de Fiscalização Bancária nº 81/42, em 23/07/81, adverte que ante “as perspectivas de acentuado negativo neste balanço de 30/06/81, com repercussões altamente danosas ao seu Patrimônio Líquido, esperamos que providências urgentes sejam adotadas, objetivando a reversão do atual caso”. Ao mesmo tempo, determinava que fosse inscrita na conta de Crédito em Liquidação, no balanço do primeiro semestre daquele ano, a quantia de Cr$ 1.210.099.196,53 - Um bilhão e duzentos e dez milhões e noventa e nove mil e cento e noventa e seis cruzeiros e cinqüenta e três centavos.

No dia 31/07/81, através do oficio nº 81/125, o Banco do Estado de Goiás solicitava ao Departamento de Fiscalização Bancária do Banco Central do Brasil que permitisse apresentar no balanço de 30/06/81, na conta crédito em liquidação, apenas a importância de Cr$ 379.455.080,89 - trezentos e setenta e nove milhões e quatrocentos e cinqüenta e cinco mil e oitenta cruzeiros e oitenta e nove centavos, com o que concordou o Banco Central.

Por esta razão, o prejuízo real do Banco do Estado de Goiás apresentado em balanço foi de apenas de Cr$ 451 milhões de cruzeiros. Os documentos oficiais e a própria fiscalização do Banco Central comprovam que o prejuízo real do BEG, naquele ano, foi superior a 1 bilhão e duzentos milhões de cruzeiros correspondendo ao dobro de seu capital e reservas, apresentados em 31/12/1980.

Pela gravidade do fato que envolveu fraude contábil, o Banco Central do Brasil foi co-participante de todo o desastre do BEG e responsável pelo descalabro administrativo do Sistema Financeiro Nacional.


Mobilizações do MDB em Goiânia

Consolidada a candidatura de Joaquim Domingos Roriz nas bases interioranas, o convenci que seria conveniente reunir um grupo em Goiânia para lhe dar dimensão de liderança emergente. Aceitando a proposta, lhe apresentei a advogada Maria Dagmar, posteriormente eleita vereadora pelo MDB, na capital.

Dagmar, dinâmica e muito bem relacionada, organizou um esquema para todas as quartas feiras realizarmos concentração num setor da cidade.

A primeira experiência seria um mini-comício na Vila União, a céu aberto, tendo como palanque o calçadão do conjunto comercial, em frente um bar bem movimentado. Dentre os participantes compulsórios, alguns bêbados que faziam ponto por ali. Roriz com aquela voz empostada, pausada e firme discorria sobre os motivos que o levaram a se candidatar a deputado estadual. Cada vez que encerrava uma frase, o bêbado repetia o final dela:

- Graças a Deus sou bem sucedido nas atividades particulares.Mas isso não é tudo para quem quer servir o povo. Senti que preciso ajudar a tirar o Brasil dessa situação de caos e letargia...

- Caos e letargia, caos e letargia....

- Conto com seu voto!

- Seu voto, seu voto...

Muito atento e falando bem alto, o bêbado arrancava gostosas gargalhadas de toda platéia, o que fez Roriz encerrar rapidamente seu discurso.

Dagmar mudou de estratégia, uma vez que reunião perto de bar era espetáculo divertido mas de pouco resultado político ou eleitoral. Saímos da Vila União com a concentração da quarta feira seguinte marcada para a Vila Nova.

No dia marcado, cheguei de outra concentração numa cidade do interior em companhia do professor Lucas Gonçalves, diretor do Colégio Einstein, companheiro de inúmeras caminhadas. Lucas foi o primeiro a discursar encerrando sua fala com a algazarra de um grupo de skeitistas que fazia uma divertida corrida com um grupo de quase dez menimos. Os skeites feitos à base de rolamentos desciam pela rua em declive asfaltada fazendo barulho ensurdecedor, tirando faíscas pelo atrito do rolimã com o asfalto.

Mas nada abalava a nossa resistência e continuando a festa cívica foi passada a palavra ao Jair de Ázara, leal e dedicado companheiro, residente em Goiânia.

Com uma voz trêmula, em falsete e pausadamente, ele começou:

- Meus senhores....

O orador perdeu a afinação de voz, saindo aquela mensagem fina e engasgada. A meninada reagiu na hora, arrancando sonora gargalhada dos poucos assistentes:

- Uuuuu, Uuuuuuu....

Jair não perdeu a esportiva:

- Já dizia Sócrates, a vaia é democrática, mas não é civilizada!

Na quarta seguinte o encontro seria no Bairro Feliz, lugar famoso por reunir muita gente nos movimentos do MDB. Luiz Henrique da Silveira, prefeito de Joinvile, Santa Catarina, meu colega de Câmara e grande amigo, estava em Brasília e a meu convite iria participar do grande movimento político que estava sendo programado. Queria também retribuir minha ida a Joinvile, em sua campanha para prefeito.

Luiz Henrique chegou ao aeroporto Santa Genoveva às oito da noite e foi levado por um companheiro nosso ao Bairro Feliz.

Não havia praticamente ninguém, mas subimos na carroceria do caminhão à espera do público. Vimos chegando do final da rua um pequeno grupo, constituido de seis a oito cabos eleitorais, vestidos com camisetas contendo nomes de Roriz, Adhemar e Henrique, que carregavam cartazes e gritando bem ritimado:

- Goiás é feliz com Henrique, Adhemar e Roriz.

Goiânia tem sono tranqüilo, com Roriz e os Santillo...

Fizemos nova programação, insistindo que Dagmar mobilizasse mais gente:

- Podem se preparar, quarta-feira vamos arrebentar no Palmito e Novo Mundo. Naquela região o vereador Luciano Pedroso, leva de 1 mil a 1 mil e quinhentas pessoas por comício.

Na quarta-feira chegamos uns quinze minutos mais tarde que o combinado. Dagmar negociava naquele instante a apresentação de um trio sertanejo que sempre oferecia os seus serviços às nossa reuniões. Nunca havia dado certo, naquele dia autorizamos a contratação para animar a platéia.

A quantidade de pessoas era extraordinária. Não estavam lá os mil que Luciano Pedroso levava em seus comícios, mas havia de 400 a 500 pessoas. Ercílio Matias, eleito prefeito de Petrolina, tempos depois, discursava e a platéia não parava de aumentar. Hilton Lucena, motorista do Henrique passou pelo local e ficou impressionado:

- Adhemar, o Henrique está no Jardim America, com o vereador Benvindo Lopo e a platéia não é a metade dessa. Vou lá para trazer ele para cá.

Foi anunciada a palavra de Joaquim Domingos Roriz, a platéia aumentava cada vez mais. Roriz aproveitou e cumprimentou demoradamente cada companheiro de palanque vendo que o público ficava cada vez maior. Terminados os cumprimentos, apareceram duas senhoras no fundo do comício, carregando melancia num dos braços e segurando uma panela de pressão com a outra mão:

- Zé! Oh Zé, a distribuição de brindes é ali em cima!

Chiquinho de Castro, como prefeito nomeado de Goiânia, estava realizando um comício no bairro. Durante toda a semana sua equipe de assessoramento distribuiu bilhetes numerados para sorteio de prêmios. Com a advertência das mulheres, nosso público saiu em desabalada carreira, morro acima, nos deixando mais uma vez só com os integrantes do palanque e o conjunto de música nordestina, que havíamos contratado.

Ainda assim, fomos muito bem votados naquelas eleição.

Os Simpósios na Câmara de Anápolis

– Com um sol de rachar, como o de hoje, você não acha que é exagero andar de guarda-chuva?

– Um homem prevenido vale por dois!

Essa era a tática do Zé.

Sempre com o seu guarda-chuva, Zé Bigode, fiel emedebista, ajudava na preparação do grande encontro no Cine Santana, para o qual estavam sendo esperados grandes nomes nacionais, inclusive Ulysses Guimarães.

Mas não havia nenhuma nuvem mais carregada no horizonte e a expectativa era de grande sucesso no “Simpósio Estudantil”, evento que aconteceria logo mais à noite.

Walmir Bastos Ribeiro e Walter Gonçalves de Carvalho, dois dos mais destacados vereadores do MDB na Câmara Municipal de Anápolis, anualmente realizavam o “Simpósio Estudantil”, trazendo Deputados e Senadores do MDB.

O fato de ser Deputado Federal facilitava-me trazer para debates em Anápolis os parlamentares mais atuantes e conhecidos nacionalmente. Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Freitas Nobre, Odacyr Klein, João Gilberto, Lyzâneas Maciel, Jaison Barreto e Marcos Freire, dentre outros, participaram dos simpósios realizados pela Câmara Municipal.

Com a eleição de Henrique Santillo para o Senado, em 1978, e minha reeleição a Deputado Federal, Walmir e Valtinho faziam questão de ampliar o alcance do Simpósio. Deixaram de acontecer no auditório da Câmara, na Praça 31 de Julho, para serem realizados no Cine Santana. Num deles, o conferencista seria o Presidente Nacional do MDB, Deputado Ulysses Guimarães.

Neste dia à tarde, tempo claro e sol escaldante, o Zé Bigode, apareceu com guarda-chuva, causando admiração aos companheiros que preparavam o local:

– Zé, isto aí é guarda sol ou guarda chuva?

– Guarda-chuva. Um homem prevenido vale por dois! Respondeu firme o Zé Bigode. Essa era a tática do Zé.

À noite, o simpósio quase não se concretizou pela forte chuva que começou por volta das 18 horas, só terminando depois da meia-noite. O cinema lotado, apesar da chuva, teve como motivação a presença de Ulysses Guimarães, a grande figura nacional que simbolizava a esperança dos brasileiros.

Vieram caravanas e simpatizantes de inúmeras cidades vizinhas, lotando o cinema, mesmo com o aguaceiro que caía sobre a cidade.

Noutra oportunidade, os convidados eram o Deputado Freitas Nobre e o Senador Jaison Barreto. Deixei Brasília logo à tarde, chegando mais cedo para recepcioná-los. Henrique discursaria no final da tarde em sessão do Senado, não teve como acompanhá-los. Solicitou ao Ivo, seu motorista, que os trouxesse a Anápolis.

Realizando o Seminário, inclusive com a presença de Sodino Vieira, grande líder emedebista de Quirinópolis, levamos nossos convidados para jantar na churrascaria Gaúcha, da Rua Manoel D’Abadia. Ivo, o motorista dos visitantes de Brasília, havia feito sua refeição mais cedo, ficando num barzinho ao lado da churrascaria. Ao terminarmos o jantar, por volta da meia-noite, acompanhamos os visitantes até o carro do Senado que os levaria para Brasília.

Ivo, chamado para assumir o comando do carro, se ajoelhou de frente ao pára-choque traseiro, acendeu um fósforo, clareando ainda mais a placa do carro. Sem compreender o que se passava perguntei:

– Que é isso Ivo?

– Quero ver se o nosso carro é esse mesmo!

Percebemos que os drinques após o jantar fizeram o motorista perder a noção, não conseguindo identificar o carro oficial sob sua responsabilidade.

O Senador Jaison Barreto, com toda camaradagem, desprovido de vaidade e compreendendo a situação disse:

– Ivo, se você não se incomodar eu dirijo o carro!

Já caindo no banco traseiro, Ivo ainda teve tempo de colocar a cabeça para o lado de fora da janela do carro e vomitar pela primeira vez, dizendo:

– Aceito!

O Senador Jaison Barreto dirigiu o carro oficial até Brasília, levando o Deputado Freitas Nobre e o motorista às suas residências.

Segundo o Senador e o Deputado, dirigir até Brasília não foi nada, difícil foi ficar por muito tempo debaixo do chuveiro de água quente, para apagar os sinais das indisposições estomacais do Ivo durante a viagem.

Mas para os anapolinos que ouviram o Senador Jaison e o Deputado Freitas Nobre, o Simpósio foi um sucesso!