Lembro-me do dia em que o bispo Manoel Pestana Filho foi apresentado aos católicos e a toda sociedade anapolina, em substituição a dom Epaminondas de Araújo. Estava implantada a diocese de Anápolis e seu primeiro bispo, dom Epaminondas, seguia para a Paraíba, dando seqüência ao seu trabalho pastoral. Num palanque montado à frente da Igreja do Bom Jesus, o povo, tomando conta da praça na Avenida Goiás, emocionado, se despedia, carinhosamente, do bispo que saía e vibrava com o novo que chegava. Ruas enfeitadas, banda de música, coral cantando músicas sacras e muitos discursos de boas vindas. Eu estava lá.
Transcorria o ano de 1979. Exercia meu segundo mandato como deputado federal. Fazia parte da bancada do MDB. Um dos representantes do meu partido em Santos, Athiê Jorge Cury, presidente do Santos Futebol Clube, estava presente às festividades. Dele recebi as melhores referências sobre o novo anapolino que chegava. Por ser amigo de dom Manoel Pestana Filho e toda sua família, fez questão de saudar o padre, seu amigo, agora sagrado bispo. Dom Manoel foi o segundo bispo da diocese e só se afastou das funções depois de 25 anos de bispado. Afastou-se cedendo o lugar a com João Wilk, mas continuou residindo em Anápolis como bispo Emérito. Grande expoente da ala conservadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mesmo assim, foi sempre discreto nas suas ações políticas partidárias. Defensor intrasigente da vida, da família e seus valores morais e das liberdades democráticas. Pró-Vida foi idealizado e criado por ele para, principalmente, combater o aborto. Quando se debatia na Câmara dos Deputados a descriminalização do aborto, o grupo de Anápolis, liderado por dom Manoel Pestana, por meio do padre Lodi, teve papel de destaque na vanguarda anti-aborto. Em muitas ocasiões teve mais destaque nos noticiários nacionais e internacionais que os próprios parlamentares. Ficou famosa aquela cena em que padre Lodi discursava com um garotinho ao seu lado, fruto da violência sexual de um estuprador contra a mãe do garoto:
"Nesse caso, se a lei tivesse sido usada não teríamos essa criança saudável e inteligente aqui"- diziam os integrantes do Pró-Vida. Dom Manoel Pestana Filho não fazia concessão.
Como deputado, secretário da Educação ou prefeito, sempre tive boa convivência com ele. Pequena divergência ocorreu quando montamos em Anápolis o mais avançado programa de saúde da mulher, por meio do Centro Integrado da Mulher - CIM. Além de cuidar da prevenção ao câncer de mama e do cólo do útero, o CIM assistia às mulheres no seu planejamento familiar, oferecia várias modalidades de anticonceptivos e métodos aprovados pela classe médica, Anvisa e recomendados pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial de Saúde. Dentre eles o Dispositivo Intra Uterino - DIU.
Contra sua utilização no planejamento familiar, padre Lodi se insurgiu. Ganhou dimensão extraordinária e incontrolável, pondo em rsico todo o serviço prestado pelo Centro Integrado da Mulher. Especialistas em saúde da mulher, como José Aristodemos Pinotti, Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde, faziam as melhores referências e avaliações do programa. Sua extinção lançaria ao abandono e risco a vida de milhares de mulheres, principalmente de baixa renda, que dependiam dos serviços de saúde prestados pelo CIM.
Fomos, Onaide e eu, conversar com dom Manoel Pestana. Tomamos do seu café. Nos ouviu atentamente. Ao final, lhe perguntei:
- Dom Manoel, o senhor quer que a prefeitura desative o CIM?
- Não! Ele presta relevante serviço social em favor da saúde da mulher.
- Por que então essa campanha de combate sistemático aos serviços prestados por ele? O senhor é contra o planejamento familiar?
- Adhemar, somos contra o DIU, ele é abortivo! Você está aí de terno, muito bem trajado. Se ao tomar café deixar que caia no seu paletó, ninguém vai prestar atenção na elegância da sua roupa. Todos prestarão atenção na mancha deixada pelo café.
Dom Manoel Pestana Filho já tinha feito seu juízo de valor. Para ele o DIU era abortivo e tinha de ser combatido. Para não extinguir um programa de grande alcance social, programa qie já havia detectado precocemente câncer em centenas de mulheres que foram curadas pelos serviços prestados pelo CIM, enviei um projeto de lei à Câmara Municipal excluindo o DIU dos métodos de anticonceptionais fornecidos pela rede de saúde pública municipal.
Quando concorri, e não venci, a eleição de 2000 para a prefeitura de Anápolis, recebi correspondência de dom Manoel, timbrada com sinete da diocese, me parabenizando pelo trabalho realizado em favor do município, lamentando o insucesso na disputa.
Dia 8 de janeiro, no seio da sua família em Santos, dom Manoel nos deixou desta para outra morada. Tão concorrida quanto sua chegada, foi sua despedida, dia 10, na Igreja do Bom Jesus. Diferença que quando chegou a comunidade católica o saudava alegre e eufórica. Debaixo de sol escaldante, ele silenciosamente enxugava o suor que descia do rosto se misturando às lágrimas que derramava. Na sua partida, os fiéis, com soluço engasgado na garganta, derramavam lágrimas de dor e saudade. Ele, ao contrário, mostrava no semblante serenidade e alegria por estar indo ao encontro do Pai.
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sábado, 15 de janeiro de 2011
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Respeito ao povo e ao dinheiro público
Publicado na edição de 10/06/2010 do jornal Diário da Manhã
O voto do eleitor brasileiro tem sido muito mais pelo emocional que pela razão. Isso porque ninguém acredita em “proposta” de candidato. Só vamos alterar essa cultura, quando eleitor, além de votar, exigir do eleito que cumpra a palavra empenhada na campanha eleitoral.
Os japoneses estão nos dando, mais uma vez, lição de democracia e cidadania. O primeiro-ministro Yukio Hatoyama , antes de completar nove meses no cargo, foi obrigado a renunciar sob pressão popular. Hatoyama assumiu compromisso de, sendo eleito, retirar a base militar do exército americano em Okinawa, ilha no sul do Japão. No cargo, desistiu da ideia, passando a defender a presença da base em solo japonês por questão de segurança nacional. Sua mudança de comportamento revoltou a população, obrigando-o a renunciar o cargo.
Para substitui-lo, foi designado Naoto Kan, que ao contrário de Hatoyama defendeu publicamente a permanência da base militar de Okinawa. O povo aceitou sua proposta. A revolta popular não se deu pela manutenção ou retirada da base militar americana, mas sim por promessa enganosa. O japonês não aceitou ter sido enganado, exigindo sua renúncia sob pena de impingir-lhe fragorosa derrota na próxima eleição parlamentar. Seu substituto defendeu a presença da base militar americana e foi aceito pela maioria, sem nenhuma contestação. Governante tem que ter segurança nas suas propostas. Perdendo a confiança da população não merece permanecer no cargo.
Infelizmente, aqui entre nós, a maioria diz que “conversa de político e risco na água têm o mesmo valor”. Por isso que os debates políticos se aproximam cada vez mais de programas policiais, em que o denuncismo prevalece. Vence quem melhor denuncia, mais ataca e usa de expedientes ilícitos. Vence quem melhor mexe com o emocional do eleitor. Além de nada proporem, muitos, ao assumirem o cargo, destroem ou não dão manutenção às obras que seus antecessores realizaram.
O Projeto Dom Bosco, criado em Anápolis desde 1986, é ótimo exemplo dessa irresponsabilidade. Durante seu funcionamento, instruiu e encaminhou milhares de crianças e jovens à aprendizagem profissional e ao primeiro emprego. Foi fechado por Ernane de Paula e nunca mais voltou a funcionar pelas administrações que o sucederam. Para Ernane José de Paula, o programa fazia lembrar Adhemar e Onaide Santillo. Por isso teria que ser destruído. Não deixou nem um vestígio da sua existência de tantas conquistas e glórias. Todos equipamentos, máquinas e materiais que lhe pertenciam sumiram. Até a sede principal do Projeto Dom Bosco, que adquirimos da Aeronáutica, na Vila Jaiára, foi repassada à Polícia Militar para instalação de uma unidade da PM. Enquanto isso, os jovens foram jogados à rua. Hoje centenas de garotos, que poderiam estar frequentando o Projeto Dom Bosco, fazem das ruas sua moradia e das drogas e flanelinhas sua aprendizagem.
O Centro Integrado da Mulher (CIM), dirigido pelo médico Maurício Machado, dentro de uma concepção moderna e avançada, desenvolvida pela Universidade de Campinas (Unicamp), em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS), foi por nós implantado em Anápolis. Referência no atendimento à saúde da mulher, dentro e fora de Goiás. Pioneiro no serviço público goiano em prevenção de câncer de mama e colo de útero, evitou que milhares de mulheres contraíssem câncer. Apontado por médicos e entidades que militam na área como o mais importante programa de saúde da mulher em Goiás, foi reduzido a um posto de saúde por Ernane José de Paula, por ter a “cara de Adhemar e Onaide Santillo”. Inaugurado com a presença de José Aristodemos Pinotti, uma das maiores autoridades mundiais em programas de saúde da mulher, que só veio a Anápolis pelo valor do programa e seu pioneirismo em Goiás, o Centro Integrado da Mulher é apenas saudade.
Com a direção do médico Geová Leite Guedes, instalamos na Vila Jaiára o Hospital de Medicina Natural. Da mesma forma que o Projeto Dom Bosco e o CIM, foi extinto sem deixar vestígio.
Infelizmente, ainda não temos a mesma cultura política japonesa.
O voto do eleitor brasileiro tem sido muito mais pelo emocional que pela razão. Isso porque ninguém acredita em “proposta” de candidato. Só vamos alterar essa cultura, quando eleitor, além de votar, exigir do eleito que cumpra a palavra empenhada na campanha eleitoral.
Os japoneses estão nos dando, mais uma vez, lição de democracia e cidadania. O primeiro-ministro Yukio Hatoyama , antes de completar nove meses no cargo, foi obrigado a renunciar sob pressão popular. Hatoyama assumiu compromisso de, sendo eleito, retirar a base militar do exército americano em Okinawa, ilha no sul do Japão. No cargo, desistiu da ideia, passando a defender a presença da base em solo japonês por questão de segurança nacional. Sua mudança de comportamento revoltou a população, obrigando-o a renunciar o cargo.
Para substitui-lo, foi designado Naoto Kan, que ao contrário de Hatoyama defendeu publicamente a permanência da base militar de Okinawa. O povo aceitou sua proposta. A revolta popular não se deu pela manutenção ou retirada da base militar americana, mas sim por promessa enganosa. O japonês não aceitou ter sido enganado, exigindo sua renúncia sob pena de impingir-lhe fragorosa derrota na próxima eleição parlamentar. Seu substituto defendeu a presença da base militar americana e foi aceito pela maioria, sem nenhuma contestação. Governante tem que ter segurança nas suas propostas. Perdendo a confiança da população não merece permanecer no cargo.
Infelizmente, aqui entre nós, a maioria diz que “conversa de político e risco na água têm o mesmo valor”. Por isso que os debates políticos se aproximam cada vez mais de programas policiais, em que o denuncismo prevalece. Vence quem melhor denuncia, mais ataca e usa de expedientes ilícitos. Vence quem melhor mexe com o emocional do eleitor. Além de nada proporem, muitos, ao assumirem o cargo, destroem ou não dão manutenção às obras que seus antecessores realizaram.
O Projeto Dom Bosco, criado em Anápolis desde 1986, é ótimo exemplo dessa irresponsabilidade. Durante seu funcionamento, instruiu e encaminhou milhares de crianças e jovens à aprendizagem profissional e ao primeiro emprego. Foi fechado por Ernane de Paula e nunca mais voltou a funcionar pelas administrações que o sucederam. Para Ernane José de Paula, o programa fazia lembrar Adhemar e Onaide Santillo. Por isso teria que ser destruído. Não deixou nem um vestígio da sua existência de tantas conquistas e glórias. Todos equipamentos, máquinas e materiais que lhe pertenciam sumiram. Até a sede principal do Projeto Dom Bosco, que adquirimos da Aeronáutica, na Vila Jaiára, foi repassada à Polícia Militar para instalação de uma unidade da PM. Enquanto isso, os jovens foram jogados à rua. Hoje centenas de garotos, que poderiam estar frequentando o Projeto Dom Bosco, fazem das ruas sua moradia e das drogas e flanelinhas sua aprendizagem.
O Centro Integrado da Mulher (CIM), dirigido pelo médico Maurício Machado, dentro de uma concepção moderna e avançada, desenvolvida pela Universidade de Campinas (Unicamp), em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS), foi por nós implantado em Anápolis. Referência no atendimento à saúde da mulher, dentro e fora de Goiás. Pioneiro no serviço público goiano em prevenção de câncer de mama e colo de útero, evitou que milhares de mulheres contraíssem câncer. Apontado por médicos e entidades que militam na área como o mais importante programa de saúde da mulher em Goiás, foi reduzido a um posto de saúde por Ernane José de Paula, por ter a “cara de Adhemar e Onaide Santillo”. Inaugurado com a presença de José Aristodemos Pinotti, uma das maiores autoridades mundiais em programas de saúde da mulher, que só veio a Anápolis pelo valor do programa e seu pioneirismo em Goiás, o Centro Integrado da Mulher é apenas saudade.
Com a direção do médico Geová Leite Guedes, instalamos na Vila Jaiára o Hospital de Medicina Natural. Da mesma forma que o Projeto Dom Bosco e o CIM, foi extinto sem deixar vestígio.
Infelizmente, ainda não temos a mesma cultura política japonesa.
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