quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Até o Exército Foi Usado Para Afastar Walmir
No PIC, do Exército em Brasília, à disposição do major Leopoldino, militar envolvido na trama para forçá-lo a renunciar ao mandato de vereador, Walmir não resistiu às pressões e torturas, assinado sua carta-renúncia. O documento ficou nas mãos de Leopoldino. Caberia a ele encaminhá-lo à Câmara Municipal de Anápolis. Teria que ser lido em plenário para que a renúncia se consumasse. Sem Walmir, com eleição de novo presidente que, com certeza, seria do grupo que fazia oposição ao prefeito Henrique Santillo, os golpistas ficaram eufóricos com a notícia que circulava nos bastidores sobre a renúncia. Só falavam na iminente cassação de Henrique Santillo. Antes que a carta-renúncia chegasse à Câmara, Walmir foi solto.
Chegando a Anápolis, ele me procurou narrando em detalhes o acontecido. Imediatamente fomos a Brasília conversar com o presidente nacional do MDB, deputado Ulysses Guimarães. Na Câmara Federal, acompanhados do deputado Anapolino de Faria, narramos a violência praticada contra Walmir Bastos, nas dependências do Exercito, tudo objetivando o afastamento de Henrique Santillo da Prefeitura. Ulysses designou o líder da bancada emedebista na Câmara, deputado Jayro Brum (RG), para que denunciasse o caso à Nação.
A repercussão nacional da denúncia impediu que o major Leopoldino encaminhasse à Câmara Municipal de Anápolis o oficio de renúncia. Com isso o vereador continuou exercendo seu mandato e, consequentemente, a presidência. Os golpistas da Arena, reforçados por adesistas do MDB, sem presidência da Câmara Municipal e com processo feito por encomenda à Policia Federal, desprovido de provas contra nós - Henrique, Adhemar e Anapolino - não tiveram a coragem de nos processar judicialmente.
Encerrado o mandato de Henrique Santillo como prefeito, o processo foi entregue ao Procurador estadual Bechara Daher, que o manteve em sua gaveta para uso posterior.
Como prefeito, Henrique Santillo, sofreu outras perseguições. Uma delas foi retenção do ICM - Imposto Sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços - pelo Governo Estadual. Nos três últimos meses da sua administração, em 1972, o prefeito não teve sua quota de 25% do ICM arrecadado em cada mês no Município, repassada pela Secretaria da Fazenda Estadual, no prazo estabelecido em lei. Com isso, sendo a maior fatia da arrecadação municipal, a Prefeitura não dispunha de recursos sequer para o pagamento do salário do funcionalismo público. Queriam desgastar e desestabilizar o prefeito. Mesmo com tantas perseguições ao longo da sua administração, Henrique Santillo continuava com grande apoio popular.
A solução para essa retenção indevida de tributos veio com sua reação imediata. Henrique determinou ao Procurador Geral da Prefeitura, Vicente de Paula Alencar, que requeresse Intervenção Federal, no Governo do Estado, por descumprimento à norma constitucional, que previa punição com intervenção federal no caso de retenção ou atraso do repasse de impostos, pertencentes aos municípios. Imediatamente as quotas de ICM retidas foram repassadas a Anápolis. Henrique se aproximava do final da sua administração superando todas as tentativas de golpe... (continua)
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
A Violência Contra Walmir Bastos
Com leucemia e saúde abalada, o presidente da Câmara, vereador Antônio Marmo Canedo-MDB pró Santillo, que mesmo debilitado pelo câncer lutava como um leão, não resistiu vindo a falecer. Walmir Bastos Ribeiro- MDB, que da mesma forma pertencia ao grupo autêntico que apoiava o prefeito, assumiu a presidência na qualidade de vice presidente eleito ao lado do presidente Marmo Canedo e Walter Gonçalves de Carvalho, secretário.
Os adversários de Henrique Santillo dentro do MDB, já haviam tentado a adesão de Walmir. Isso ocorreu num banquete realizado na casa de um dos integrantes do grupo. Na oportunidade ofereceram todo tipo de vantagens pessoais para que mudasse de posição. Não conseguindo, partiram para a perseguição e violência:
Mobilizaram órgãos da repressão para prender, torturar e levar Walmir Bastos à renúncia do mandato. Departamento de Ordem Política e Social – Dops, da secretaria Estadual de Segurança Pública e Policia Federal fizeram parte da ação. O vereador foi preso passando mais de 10 dias numa cadeia de Goiânia. Solto só após haver se comprometido que na Câmara Municipal ficaria ao lado dos três vereadores do MDB que faziam oposição a Henrique Santillo. No exercício do mandato Walmir continuou à frente da presidência da Câmara, apoiando o prefeito. Foi novamente preso por integrantes do Dops e Policia Federal. Ficou mais 15 dias totalmente incomunicável. Ganhou a liberdade depois de novamente se comprometer a deixar a liderança de Henrique Santillo. Retornando a Anápolis publicou panfleto em que denunciava à população as perseguições sofridas.
Estava distribuindo: “ Uma Voz que Não se Cala diante das Ameaças!”, nas dependências da prefeitura que funcionava na Praça do Bom Jesus, quando avistou os policiais que o prenderam nas vezes anteriores. Correu para o gabinete do prefeito Henrique Santillo, onde me encontrava. Fiquei com ele até que a noite chegasse. Escuro, ruas desertas, entrei no meu carro para lhe dar carona e fuga. Mal sentou-se ao banco do carona, quando dois policiais a paisana, fortemente armados nos deram voz de prisão. Quando me reconheceram, pois era deputado estadual, pediram mil desculpas e alegaram que o levariam para um depoimento na Policia Federal e em seguida seria liberado.
Dali o levaram para prisão onde sofreu todo tipo de humilhação, agressões e torturas. Nenhum de nós do grupo santillista sabíamos para onde fora levado. Só depois de muito tempo soubemos que se encontrava em Brasília. Continuava apanhando para que renunciasse a presidência da Câmara. Enquanto isso os 5 vereadores da Arena, mais os 3 do MDB que faziam oposição a Henrique Santillo, elegeram um novo presidente para dirigir a edilidade municipal. Assumiram a sede da Câmara, que funcionava no edifício do Clube Recreativo Anapolino, à Rua Barão do Rio Branco.
Os 7 do MDB, fiéis a Henrique Santillo, passaram a se reunir no antigo prédio da Biblioteca Pública Municipal Zeca Batista, á Praça Americano do Brasil, sob a presidência do secretário Walter Gonçalves de Carvalho. A questão foi parar na justiça... (Continua)
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Walmir Bastos conquistou os anapolinos
O período letivo já havia iniciado, quando numa determinada noite do mês de março, o professor Hely Alves Ferreira, diretor do Colégio Estadual—que no ano seguinte, 1958, seria eleito prefeito de Anápolis, para um mandato de dois anos, compareceu à nossa sala, numa aula de francês, ministrada pelo professor Geraldo Fleury, tendo em sua companhia um rapaz magrinho, bigode ralo, usando terno de linho creme e gravata borboleta. Disse que o jovem viera de Jequié, na Bahia, para estudar em Anápolis. Tratava-se de Walmir Bastos Ribeiro, que viria se transformar, num futuro não muito distante, no mais eficiente e operoso vereador que já passou pela Câmara Municipal. Figura de destaque na luta contra a ditadura militar.
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| Walmir Bastos (primeira fila, esq.) durante sessão na Câmara |
Walmir gostava de política. Seu ídolo era Vieira de Melo. Respeitado nacionalmente e que representava a Bahia, no Congresso Nacional. Já nas eleições de 1958 para o Grêmio Literário Castro Alves, fez parte da sua diretoria. O presidente era Severino Ferreira. Haviamos deixado Antesina Santana e fomos para o Colégio Estadual “José Ludovico de Almeida,” construído pelo governador Juca Ludovico, na Vila Brasil.
Na eleição de 1966, Walmir Bastos que se consagrara como grande liderança estudantil presidindo o Grêmio Castro Alves, saiu candidato a vereador. Disputou mandato enfrentando especialmente o médico Henrique Santillo, professor de Química Mineral, no científico do Colégio Estadual. Henrique era muito conceituado e querido entre os estudantes e professores. Com mais de 400 votos, Walmir ficou na quarta suplência do MDB.
No desenrolar da legislatura que se findou em 1970, Walmir, carinhosamente conhecido como Baiano, assumiu o mandato em inúmeras oportunidades. O Regimento Interno da Câmara Municipal, permitia que o titular faltando à sessão, o líder da bancada podia convocar o suplente melhor classificado presente ao recinto da Câmara para assumir a vaga. Como vereadores de cidades com menos de 100 mil habitantes não recebiam subsídios e o prefeito Raul Balduino administrava tranqüilo, sem oposição, em todas as sessões havia alguém que deixava de comparecer. Walmir gostava de política, não tinha apego a dinheiro, se fazia presente a todas as sessões, assumindo a vaga.
Fato histórico e raro mesmo, aconteceu naquele período de 1967/1970, no Legislativo anapolino. Iniciando legislatura como quarto suplente da bancada do MDB, o vereador Walmir Bastos ao final da legislatura foi efetivado titular.
No transcurso dos quatro anos, os vereadores emedebistas João Furtado de Mendonça, Adão Mendes Ribeiro, João Luiz de Oliveira e Oscar Miotto, faleceram. Com isso o baiano de Jequié terminou a legislatura em 1970, como titular.
Nas eleições de 1970, Walmir Bastos se reelegeu com expressiva votação. Seus eleitores esclarecidos e politizados eram especialmente profissionais liberais, professores e estudantes. A bancada do MDB elegeu 10 vereadores enquanto a Arena as 5 restantes. A Mesa Diretora da Câmara Municipal, para o biênio 1971/72, foi toda do MDB: Antônio Marmo Canedo, presidente; Walmir Bastos, vice-presidente; Walter Gonçalves de Carvalho, secretário...
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Queda e retorno da autonomia política
Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.
Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”
Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.
Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.
Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de 1964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Quase que o cachorro pagou o pato
No mês seguinte, veio o “pacote de abril” editado pelo presidente Geisel, eliminando do texto constitucional a eleição direta para governador. Pior, criando a escandalosa figura de um senador nomeado. O senador biônico. A mudança nas regras do jogo não foi surpresa para nós, democratas. Em Goiás, a alteração das regras eleitorais serviu apenas que fosse adiada em mais quatro anos a chegada do MDB ao governo do Estado e para que a Arena recebesse, de mão beijada, uma cadeira no Senado da República.
Para o encontro de março, as regras que valiam eram de eleições de dois senadores e governador. Tínhamos que mobilizar o pessoal para o encontro em Goiânia. As tarefas foram distribuídas entre os companheiros. Deixamos para Vicente de Paula Alencar, presidente do MDB anapolino, vereador Walmir Bastos Ribeiro e Romualdo Santillo contatos em Anápolis e região do Vale do São Patrício. À minha responsabilidade ficaram as regiões da Estrada de Ferro, Entorno de Brasília, Médio Norte Goiano e algumas lideranças de Goiânia.
Final de semana, retornando de Brasília, passei em Anápolis, convidei um amigo para irmos a Goiânia. Iríamos à casa do professor Reinaldo Pantaleão, residente do Conjunto Itatiaia, próximo ao campus da UFG. Sabia que morava naquela região, mas não em que rua e casa. Telefonei para o amigo José Moreira, o Zuza, que conhecia Pantaleão, sabia onde morava. Fomos na Variant do Moreira. Dois dos seus filhos, Éric e Ludmila nos acompanharam. Levavam seu cachorro de estimação. Assim, partimos nós cinco mais o cachorro para a visita.
Com sua costumeira fidalguia, professor Pantaleão nos recebeu se colocando pronto a formar o grupo de voluntários que trabalharia para arregimentar a plateia que lotaria as dependências da Assembleia Legislativa. Na ida à casa do professor, o tempo estava firme com muito sol. Calor intenso. Moreira fez todo o trajeto com os vidros da Variant abertos. O ar refrescou a temperatura e arejou o ambiente. Na volta fazia o mesmo calor, mas caiu de repente, chuva fina e forte. Fomos forçados a fechar todos os vidros. Á medida que as vidraças foram levantadas, o calor interno ficou insuportável.
Odor azedo exalou pelo interior do carro, para piorar a situação. Incomodado pelo o mau cheiro, Moreira gritou para os filhos que carregavam no colo, o cachorro de estimação:
– Éric e Ludmila, por favor, ao chegarem em casa, lavem esse cachorro!
– Pai, nós o lavamos hoje, minutos antes de sairmos!
– Por favor, lavem esse cachorro pelo menos duas vezes ao dia.
– É isso que fazemos! Lavamos cedo e à tarde.
– Então, quando forem dar banho nele, usem shampoo!
– Nós usamos shampoo.
A discussão entre eles continuou até chegarmos ao local onde havia deixado meu carro. Nos despedimos. Eu e o companheiro retornamos para Anápolis. Quando cheguei em casa, antes mesmo de tomar banho, telefonei para Moreira:
– Moreira, não deixe seus meninos matarem o cachorro com tanto banho, shampoo e desinfetantes. O provocador daquele odor era meu companheiro. Quando há qualquer evento político, ele transpira demais e se esquece de tomar banho.
domingo, 9 de janeiro de 2011
O conforto
O outro arenista eleito em 1970, cujo mandato terminava, era Osires Teixeira. Osires, Jonas Duarte e Jarmund Nasser compuseram as três sublegendas da Arena para enfrentar, pela vaga a ser preenchida pelo voto popular, os emedebistas Henrique Santillo e Juarez Bernardes.
Nos preparativos para a campanha eleitoral, a região mais problemática para Henrique Santillo foi o Entorno de Brasília. Juarez, por ser de Formosa, era tido como candidato natural da região. O diretório municipal do MDB de Luziânia se reuniu decidindo que, apesar de Juarez e Henrique serem do MDB, só apoiaria Juarez. Joaquim Domingos Roriz, que fora vereador, saiu candidato a deputado estadual. O MDB estava à procura de alguém que representasse o município para se contrapor a Jesus Meirelles, deputado pela Arena daquele município. Joaquim Roriz foi o escolhido para essa tarefa.
Como deputado federal, fui visitado em meu gabinete em Brasília, pelo saudoso vereador Carlos Melo, meu grande amigo e representante dos autênticos naquela cidade. Queria saber se não seria possível uma conversa nossa com Zequinha Roriz, irmão de Joaquim. Não só conversamos como acertamos apoio a Joaquim Roriz em alguns municípios que apoiaram Henrique Santillo a deputado estadual, em 1974. Imediatamente contatei companheiros dos municípios da estrada de ferro e outros mais próximos de Anápolis. O acordo político foi firmado entre nós. Em Luziânia, Henrique também teria o apoio do diretório. A ele seria dado o mesmo tratamento dispensado a Juarez Bernardes. Com a escolha de Helio Roriz, também de Luziânia, para ser suplente de Henrique Santillo o acordo ficou consolidado.
A princípio, no diretório de Luziânia, o apoio que estávamos dando à candidatura de Joaquim Roriz a deputado estadual não envolvia apoio à minha candidatura a deputado federal. Pela dedicação que tive com a candidatura de Roriz, acabei sendo apoiado naquela cidade. Recebi esmagadora votação. Henrique Santillo foi o mais votado em toda região. A dupla Henrique Santillo/Juarez Bernardes derrotou o trio arenista. Mais votado, Santillo foi aclamado senador, Juarez Bernardes o primeiro suplente e Helio Roriz segundo suplente. Joaquim Roriz e eu fomos os deputados mais votados, em Luziânia e Goiás.
Fatos marcantes e históricos aconteceram quando fui apresentar Roriz aos diretórios da região da Estrada de Ferro. A Leopoldo de Bulhões foram comigo Vicente Alencar, advogado do MDB anapolino e o vereador Walmir Bastos Ribeiro. A reunião aconteceu na casa do Ivo, por sugestão de Agenor, presidente municipal do MDB. Como tesoureiro, Ivo estava mais familiarizado com campanhas eleitorais. Fiz a apresentação do nosso indicado, ainda desconhecido do mundo político goiano, narrando suas qualidades de empresário em Brasília e fazendeiro. Falei da importância da sua eleição pelo fortalecimento da região do Entorno e da vantagem que representaria para Leopoldo Bulhões.
Enquanto fazia a apresentação, sem nenhuma cerimônia, cansado, Walmir Bastos dormia de roncar na cadeira ao fundo da sala. Aberto o debate para que os companheiros de Leopoldo Bulhões se manifestassem, Ivo falou em nome de todo diretório:
– Dr. Joaquim Domingos, nós aqui de Bulhões seguimos Adhemar e Henrique Santillo. Como o Adhemar está lhe apresentando, estamos de acordo em apoiá-lo...
– Obrigado! – agradeceu Roriz.
– Só que até agora nós os apoiamos sem pedir nenhuma ajuda financeira...
– Para que vocês querem ajuda financeira? – brincou Roriz.
– Para a gente fazer uma campanha com mais conforto!
– Rá, rá, rá, rá! – gargalhou Walmir Bastos, que acabara de acordar.
A partir daquele instante, Walmir só se referia ao ex-governador de Brasília como “Joaquim Conforto”.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Por Não Se Dobrar, Foi Perseguido
Convidado para um almoço com os emedebistas que conspiravam contra Santillo, Walmir, bom de garfo e estômago, comeu muita leitoa, churrasco de picanha e contra-filé. Bebeu whisky (18 anos) de várias marcas. Ouviu música ao vivo e recebeu infinidade de cumprimentos e tapinhas nas costas. Ao final da confraternização, seus organizadores e líderes do movimento, vendo que o vereador estava no ponto, passaram ao que lhes interessava. Apanharam assinaturas dos presentes num manifesto de contra Henrique Santillo. Ao solicitarem a assinatura de Walmir:
- Não sou golpista! Não faço jogo da ditadura! Fico com Henrique.
Desgostosos com sua atitude, Walmir passou a sofrer perseguição dos orgãos de repressão em Goiás. Foi preso pela Delegacia de Ordem Política e Social - DOPS e Exército, em Brasília.
Preso por agentes de polícia do Estado, ficou encarcerado em Goiânia por mais de duas semanas. Em liberdade, continuou exercendo normalmente seu mandato, presidindo o Legislativo. Na segunda vez, estava distribuindo panfleto sob o título: "Uma voz que não se cala diante das ameaças." Nesse panfleto, Wlamir denunciava ao povo de Anápolis as ameaças que vinha recebendo e pressão para renunciar a presidência da Câmara. Na terceira vez, estava comigo num Volkswagem, quando chegaram integrantes da Polícia Federal, fortemente armados, retirando-o do carrosob a alegação de que seria levado para prestar depoimento na sede da PF em Anápolis. Foi para o setor de investigações criminais do Exército, em Brasília, ficando preso por mais de 30 dias. Só foi solto quando assinou, ao major Leopoldino, responsável pelo inquérito, carta-renúncia do mandato. Para surtir os efeitos legais o documento teria de ser lido em sessão plenária da Câmara Municipal. O pedido de renúncia nunca apareceu. Walmir Bastos desempenhou seu mandato até o final.
Os golpistas queriam a renúncia ou afastamento do presidente, para que pudessem eleger um novo presidente para a Câmara, já que possuíam 8 dos 15 votantes. Com isso, pretendiam afastar Henrique Santillo da prefeitura. A resitência de Walmir Bastos, a toda violência contra ele, foi reconhecida por todos os democratas, como ato de bravura e heroísmo. Papel importante tiveram no desmantelamento dessas ações criminosas, Ulysses Guimarães, presidente Nacional do MDB e Jayro Brun, líder do partido na Câmara Federal.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
O Homem que Só Sabia Trabalhar em Política
Já adaptado em Anápolis, Walmir contou com a colaboração de políticos pertencentes ao PSD, dentre eles o deputado estadual Plínio Jayme, para conseguir emprego público. Seu primeiro contrato foi para prestar serviço na Telegoiás. Atenderia as reclamações que chegassem à empresa. A primeira reclamação que recebeu, sem repassá-la ao técnico responsável, foi ele mesmo aos aparelhos transmissores, mexendo em toda fiação, provocando pane em todo o sistema. Os técnicos demoraram uma semana para sanar o estrago.
Não querendo deixá-lo ao abandono, acharam melhor que fosse para a Companhia de Força e Luz, entregar os avisos e contas aos usuários. Começou bem. Até que chegou à casa de um amigo para a entrega do talão. Achou o portão do corredor aberto, adentrou à cozinha. Leu o jornal Folha de Goyas que seu amigo deixara sobre a mesa. Tomou café e por ali ficou. Quando a esposa do amigo, o viu sentado à mesa, caiu em prantos gritando por socorro. Os vizinhos vieram todos ver o que acontecia, enquanto Walmir Bastos, intrigado com tanto alvoroço, saia assustado. Foi seu primeiro e último dia de entrega de talões de energia elétrica.
Resolveram contratá-lo para trabalhar no comitê político do candidato a governador Mauro Borges. Acertaram em cheio. Nessa função ninguém era mais ativo e competente que ele. Nunca mais deixou a atividade política. Foi sete vezes vereador em Anápolis. Presidente da Câmara Municipal na fase mais difícil enfrentada pelo legislativo municipal. Preso inúmeras vezes pelos órgãos de repressão durante a ditadura militar de 1964. Organizador permanente dos Simpósios Estudantis promovidos pela Câmara Municipal de Anápolis. Era a forma de politizar os estudantes. No Legislativo municipal, o mais autêntico combatente à ditadura. Um dos heróis da resistência democrática em Anápolis. Sofreu prisões e torturas, resistindo todo tipo de violência. Não renunciou a presidência da Câmara Municipal, impedindo que afastassem pela força o prefeito Henrique Santillo, conforme plano da Arena e parte do MDB municipal.
Walmir Bastos Ribeiro disputou sua primeira eleição em 1966, pelo MDB. Não se elegeu. Seus eleitores, que eram principalmente estudantes, ficaram com Henrique Santillo. Na quarta suplência, com o falecimento dos vereadores emedebistas, Adão Mendes Ribeiro, João Furtado de Mendonça, João Luiz de Oliveira e Oscar Miotto, se efetivou.
Eleito vice-presidente da Câmara Municipal de Anápolis, mesa comandada por Antônio Marmo Canedo, na legislatura seguinte, Walmir Bastos chegou a sua presidência com a morte prematura, de Antônio Canedo. Walmir faleceu em 1994, como um dos mais valorosos políticos de Anápolis em todos tempos.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
No Passado Foi Diferente
Os companheiros do interior admiravam o trabalho que fazíamos em Anápolis. Sabiam das perseguições que sofríamos, mas não fraquejávamos. Pelos estreitos caminhos que as leis de exceção nos ofereciam resistíamos indo à frente. Não nos acovardávamos e nem temíamos os prepotentes. A cada eleição inventavam enxurrada de denúncias na tentativa de nos intimidar.
Cassação do mandato do prefeito José Batista Júnior (MDB), com a transformação do municipio em Área de Interesse à Segurança Nacional; invasão da Rádio Carajá, que havíamos adquirido do ex-deputado Plínio Jayme, pela Policia Militar do Estado, devolvendo seu comando ao antigo proprietário; fechamento da Rádio Santana que adquirimos em substituição à Carajá; prisão do bravo e saudoso vereador Walmir Bastos Ribeiro e prisões de auxiliares do ex-prefeito Henrique Santillo, não nos amedrontaram. Revigoraram nossas forças.
Em Anápolis nos fortalecíamos dia a dia com nossa pregação diária em favor das liberdades democráticas no programa radiofônico, “ O povo falou tá falado”. Fazíamos reuniões domiciliares preparando novos quadros de autênticos resistentes à ditadura. Simpósios trabalhistas e estudantis completavam nosso pacote na formação de lideranças.
No interior, mesmo com a simpatia de expressivas lideranças pela nossa atuação, questões políticas locais falavam mais alto. Essas lideranças preferiam ficar agasalhadas em sublegendas dentro da Arena a formar o MDB. No início o partido contou com adesão de posseiros, pequenos sitiantes, lavradores e trabalhadores braçais. Mesmo assim enfrentamos a resistência dos políticos locais.
Em Estrela do Norte, o caminhoneiro Hilton Lucena de Oliveira foi preso, prisão preventiva decretada pelo Juiz da Comarca, porque estava filiando eleitores ao MDB. Altivo, conhecido carroceiro da cidade, que o ajudava no trabalho de filiação, apanhou tanto da polícia que sumiu da cidade. Em Jaraguá, Militino, conceituado farmacêutico no município, juntamente com a companheira Maria filiaram gente da zona rural. Quando completaram as filiações necessárias foram ao Cartório Eleitoral para o registro dos filiados. Encontraram nas mãos do escrivão, carta renúncia assinada por cada um dos filiados. Em Mara Rosa lançamos a candidatura Zériaco, à prefeitura. A única propaganda que fez foi um cartaz com seu nome e caricatura, desenhados por sobrinho seu. Em Silvânia, Geraldo Bonfim, pequeno comerciante de secos e molhados enfrentou o poderio arenista dos Caixeta. Em Goianápolis, os vereadores emedebistas Lucas Gonçalves e João Leite de Morais tiveram os mandatos cassados por trabalharem em Anápolis. Assim surgiu e se fortaleceu o MDB.
Graças à resistência dessa gente humilde e batalhadora, Iris Rezende Machado chegou ao governo de Goiás em 1982, depois de 10 anos afastado compulsòriamente da vida política. O partido de hoje não é o mesmo do seu nascimento. Deixamos o PMDB mas não deixamos a luta. Estaremos noutra trincheira com os mesmos ideais do passado. Não nos sentiríamos confortáveis, num partido moldado na resistência democrática e que hoje pune as vozes internas que democraticamente discordam da sua prática política.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Waltinho, um exemplo de coerência política
Na primeira eleição para a Câmara Municipal de Anápolis com candidatos do MDB e da Arena, em 1966, dez dos vereadores eleitos pertenciam ao MDB, e cinco, à Arena. Foi nesse pleito que Henrique Santillo iniciou sua carreira política, sendo o vereador mais votado. Valmir Bastos, o mais dinâmico e competente vereador de todos os tempos no município, ficou na quarta suplência do MDB. Antes de encerrada a legislatura em 1970, Valmir Bastos Ribeiro se tornou titular. Quatro emedebistas – João Furtado de Mendonça, Adão Mendes Ribeiro, João Luiz de Oliveira e Oscar Miotto – faleceram durante a legislatura.
Com o falecimento de Adão Mendes Ribeiro, a maior liderança do partido em Rodrigues Nascimento, hoje Campo Limpo de Goiás, convidei Walter Gonçalves de Carvalho, morador daquele distrito e funcionário público municipal, para que se candidatasse a vereador, em 1970. Waltinho, por ser prestativo, extrovertido, desportista e profundo conhecedor de todos os moradores da região, não teve dificuldade em se eleger. Exerceu mandato de vereador por sete legislaturas. Durante 30 anos, representou o povo de Campo Limpo, na Câmara Municipal. Só deixou a vereança após a emancipação política de Campo Limpo, em 1997.
Assim que se elegeu, Waltinho chegou à secretaria da Câmara. Para a presidência, Antônio Marmo Canedo (MDB), e Valmir Bastos (MDB) para a vice presidência. Canedo faleceu no exercício do mandato. Valmir Bastos, o vice presidente, foi impedido pela maioria arenista de assumir o cargo. Para forçá-lo à renuncia, o prenderam várias vezes com a conivência das forças policiais repressoras. Como único membro da mesa presente às atividades, coube a Walter Gonçalves presidir as sessões. Evitou que afastassem, pelo golpe, o prefeito Henrique Santillo.
Os cinco arenistas, reforçados por três do MDB que eram comandados pelos adversários do prefeito dentro do partido, queriam afastá-lo das funções por meio da Câmara Municipal. Aproveitaram-se da morte de Marmo Canedo para a aplicação do golpe. Prenderam Valmir Bastos, sob a alegação de não ser ele preparado para exercer a presidência. Elegeram ilegalmente o mais idoso para comandar a mesa, montando processo fajuto contra Henrique Santillo. Sete vereadores leais ao prefeito passaram a se reunir no prédio da antiga biblioteca Zéca Batista, na Praça Americano do Brasil, sob a presidência de Waltinho. Os golpistas se reuniam no prédio da Câmara Municipal, situado à Rua Barão do Rio Branco. O juiz Clementino de Alencar considerou como única e legal a Câmara presidida pelo secretário, Walter Gonçalves de Carvalho. Pressionaram e o ameaçaram de todas as formas, mas Waltinho não se intimidou. A tudo resistiu. Só se afastou da presidência quando Valmir Bastos foi libertado. Essa é uma página importante da história escrita pela resistência democrática em Goiás.
Com a emancipação política de Campo Limpo de Goiás, Waltinho teve que se afastar da atividade política anapolina, ficando na cidade que sempre lhe apoiou. Como prefeito municipal, tem se constituído em extraordinário administrador. Ao assumir o posto em 1° de janeiro de 2009, encontrou uma prefeitura desorganizada. Concurso público municipal, realizado pelo antecessor alguns dias antes de deixar o cargo, efetivou os comissionados. Não lhe restou espaço para nomear sequer seus secretários. Com habilidade, dentro do seu espírito de homem público experiente e democrata, Waltinho é hoje aplaudido por todos. Com minoria na Câmara Municipal, tem vencido todos os obstáculos com o apoio total da população. Em quase todas as sessões da Câmara Municipal, uma multidão comparece se transformando na bancada do prefeito. Graças a isso, os entraves políticos vão sendo resolvidos. Waltinho já é reconhecido como o prefeito que possui a maior bancada de apoio: o povo. A população faz parte da sua administração.
sábado, 22 de maio de 2010
Queda e retorno da autonomia política
O 28 de agosto de 1973 aparentava ser um dia como outro qualquer. Muito sol, ventava bastante, quando cheguei à Assembléia Legislativa, em Goiânia, para a sessão plenária , que seria realizada pela manhã. A diferença, a novidade, ocorreu em seguida quando fui informado por um telefonema de Brasília, que José Batista Júnior, prefeito de Anápolis, acabara de ter seu mandato cassado, direitos políticos suspensos por 10 anos. O vice prefeito Milton Alves Ferreira não fora cassado, mas impedido de tomar posse, pois no mesmo ato assinado pelo general Emilio Garrastazu Médici, nomeava o engenheiro Irapuan Costa Júnior, como primeiro prefeito nomeado de Anápolis, que naquele dia foi transformada em Área de Interesse à Segurança Nacional.
Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.
Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”
Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.
Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.
Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de l964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.
terça-feira, 2 de março de 2010
Cronologia da Violência
Primeiro de abril de 1964: Após ter sido eleito o primeiro presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis pelo voto direto, Adhemar Santillo é destituído do cargo pelos integrantes do golpe que destituiu o Presidente da República João Goulart.
Maio de 1964: Adhemar Santillo é preso juntamente com médico Fuad Siad, acusados de pertencerem ao movimento clandestino Ação Popular (AP). Responderam a inquérito policial na Secretaria de Segurança Pública de Goiás.
Junho de 1964: Adhemar Santillo responde a Inquérito Policial Militar (IPM), comandado pelo Exército Brasileiro. Conclusão do IPM: não é encontrado nada que possa incriminá-lo.
Junho de 1964: Adhemar é impedido de trabalhar como radialista na Rádio Carajá de Anápolis ou qualquer outra emissora de radiodifusão da cidade pelo coronel Izacir Telles.
Agosto de 1964: Por determinação do coronel Epitácio de Brito, chefe de gabinete militar do governador Ribas Jr., Romualdo Santillo é preso por haver escrito no jornal Correio Braziliense, em sua coluna diária “O Que Se Comenta”, notícia em que fazia crítica à postura do coronel. Com seus jantares diários realizados no Palácio das Esmeraldas em Goiânia, o coronel buscava apoio a uma possível candidatura ao governo do Estado pela UDN, nas eleições que aconteceriam em 1965.
Dezembro de 1966: Henrique Santillo, eleito vereador da Câmara Municipal de Anápolis, deixou de ser diplomado pelo Juiz Eleitoral Manuel Luis Alves, sob a acusação de ser fichado como comunista na G2 da Polícia Militar de Minas Gerais. Henrique Santillo foi diplomado e empossado quando o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Goiás, em vista de documentos oficiais buscados por Adhemar em Belo Horizonte e acostados ao processo, atestou não ser Henrique fichado naquela corporação.
1969: Candidato a prefeito de Anápolis pelo MDB, Henrique Santillo teve seu registro de candidatura, diplomação e posse impugnados pelos adversários, sempre com denúncias e documentos falsos. A Justiça Eleitoral não deu provimento a nenhuma das denúncias, mandando-as ao arquivo.
Janeiro de 1971: Encerradas as eleições de 1970, Anapolino de Faria foi o candidato a Deputado Federal mais votado em Anápolis e Adhemar o mais votado para a Assembléia Legislativa. Integrantes do MDB do município, contrários aos Santillo, denunciaram Henrique Santillo, Anapolino de Faria e Adhemar Santillo à Polícia Federal, acusando-os de prática de corrupção eleitoral naquelas eleições. Foi designado o delegado Jesus Lisboa para a realização do inquérito que, concluído, ficou engavetada na Procuradoria Geral do Estado.
Janeiro de 1971: Dos quinze vereadores que compunham a Câmara Municipal de Anápolis, foram eleitos em 1970 dez pertencentes ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e cinco da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Foram eleitos para a mesa diretora da Camâra, biênio 1971/1972, Antônio Marmo Canedo como Presidente, Walmir Bastos Riberio como vice-Presidente e Walter Gonçalves de Carvalho como Secretário, todos emedebistas e santillistas. Antônio Marmo Canedo faleceu no exercício da Presidência. Para substituí-lo, foi efetivado Walmir Bastos.
1972: Com a morte de Antônio Marmo Canedo, três vereadores do MDB (Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sergio Sobrinho), não ligados a Henrique Santillo, passaram a votar de acordo com os cinco arenistas em oposição ao prefeito. Os adversários lutaram para que Walmir Bastos, Presidente da Câmara, aderisse à ala do MDB oposicionista a Henrique. Não conseguiram e passaram a perseguí-lo com auxílio dos órgãos de repressão, comandados pela Polícia Federal e Delegacia da Ordem Política Social do Estado, sendo preso por três vezes consecutivas. A última prisão de Walmir foi a mais violenta, pois foi retirado sob mira de metralhadoras de dentro do carro em que Adhemar lhe dava uma carona. Foi conduzido à Brasília e dele foi exigido que renunciasse à Presidência da Câmara e ao seu mandato de Vereador. Se cumprida, essa exigência abriria a vaga do Presidente da Câmara Municipal de Anápolis para os opositores ao prefeito. Com isso, usariam o documento do inquérito feito pela Polícia Federal e afastariam Henrique Santillo da Prefeitura. Das duas vezes anteriores, Walmir suportou todas as pressões. Dessa vez, contudo, não resistiu às torturas psicológicas e físicas. Acabou assinando sua renúncia ao mandato e entregou-a ao major Leopoldino, chefe da carceragem em que se encontrava nas dependências do Exército Brasileiro em Brasília. Alertado pelo Deputado Estadual Adhemar Santillo, o presidente nacional do MDB, Deputado Federal Ulysses Guimarães, denunciou a trama à nação e o documento assinado por Walmir Bastos à base da tortura nunca chegou a Câmara Municipal de Anápolis. Walmir cumpriu seu mandato até o final, o mesmo acontecendo com o Prefeito Henrique Santillo.
1 de fevereiro de 1973: Na madrugada do dia em que José Batista Jr. tomaria posse substituindo Henrique Santillo na prefeitura de Anápolis, policiais militares do estado invadiram os estúdios e transmissores da Rádio Carajá, pertencentes aos santillistas desde 1967, alegando cumprir ordens do Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL). Afastaram os santillistas da sua direção, devolvendo-a ao seu antigo proprietário, Plínio Jayme.
Maio de 1973: Adversários do médico Henrique Santillo exigiram da direção nacional do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) seu descredenciamento daquele instituto, com o objetivo de forçá-lo a mudar-se de Anápolis ou abandonar a luta oposicionista. Algum tempo depois, médicos anapolinos forçaram o INPS a rever a punição, com Henrique sendo recredenciado.
Agosto de 1973: Sete meses após sua posse, o prefeito José Batista Jr. teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos, com base no Ato Institucional n°5 (AI-5), pelo Presidente Emílio Garrastazu Médici. No mesmo dia, o município de Anápolis foi considerado área de Interesse à Segurança Nacional e o engenheiro Irapuan Costa Jr. nomeado Prefeito.
Setembro de 1973: Adversários dos Santillo, com auxílio da Polícia Federal e do DOPS estadual, prenderam vários integrantes do MDB de Anápolis, dentre eles ex-secretários do prefeito Henrique Santillo e líderes comunitários, levando-os para as dependências do DOPS em Goiânia. O objetivo era arrancar, sob pressão e tortura, denúncias contra Henrique e Adhemar Santillo. A trama só foi desfeita quando o Advogado Vicente Alencar, acompanhado de Adhemar, entregou pessoalmente ao Ministro do Exército, Orlando Geisel, completo relatório dos planos escusos que estavam acontecendo em Goiás.
Maio de 1974: Por determinação do Procurador de Justiça do Estado, o inquérito elaborado pela Polícia Federal em 1971 contra Henrique e Adhemar Santillo foi encaminhado ao Ministério Público de Petrolina, para que apresentasse denúncia contra os dois, com a finalidade de afastá-los da disputa eleitoral daquele ano. O Promotor Decil de Sá Abreu negou-se a fazer a denúncia e o processo foi encaminhado à comarca de Anápolis. Ali, o Ministério Público apresentou a denúncia, que não foi recebida pelo Juiz Eleitoral Clementino Alencar. Caso o juiz a aceitasse, os dois irmãos não poderiam disputar a eleição para Deputado Estadual e Federal como disputaram, pois a lei das inelegibilidades impedia registro de candidatura pela simples aceitação da denúncia pelo Judiciário para esse tipo de crime eleitoral.
25 do Maio de 1975: Rádio Santana Ltda., pequena emissora de rádio-difusão com 250 Watts de potência, adquirida pelos Santillo depois da invasão da Rádio Carajá, foi fechada por determinação expressa do Ministro das Comunicações Quandt de Oliveira. Deixava de ir ao ar o programa noticioso “O Povo falou, tá Falado”, que, desde 1967, era apresentado por Romualdo e Adhemar Santillo.
Os Simpósios na Câmara de Anápolis
– Com um sol de rachar, como o de hoje, você não acha que é exagero andar de guarda-chuva?
– Um homem prevenido vale por dois!
Essa era a tática do Zé.
Sempre com o seu guarda-chuva, Zé Bigode, fiel emedebista, ajudava na preparação do grande encontro no Cine Santana, para o qual estavam sendo esperados grandes nomes nacionais, inclusive Ulysses Guimarães.
Mas não havia nenhuma nuvem mais carregada no horizonte e a expectativa era de grande sucesso no “Simpósio Estudantil”, evento que aconteceria logo mais à noite.
Walmir Bastos Ribeiro e Walter Gonçalves de Carvalho, dois dos mais destacados vereadores do MDB na Câmara Municipal de Anápolis, anualmente realizavam o “Simpósio Estudantil”, trazendo Deputados e Senadores do MDB.
O fato de ser Deputado Federal facilitava-me trazer para debates em Anápolis os parlamentares mais atuantes e conhecidos nacionalmente. Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Freitas Nobre, Odacyr Klein, João Gilberto, Lyzâneas Maciel, Jaison Barreto e Marcos Freire, dentre outros, participaram dos simpósios realizados pela Câmara Municipal.
Com a eleição de Henrique Santillo para o Senado, em 1978, e minha reeleição a Deputado Federal, Walmir e Valtinho faziam questão de ampliar o alcance do Simpósio. Deixaram de acontecer no auditório da Câmara, na Praça 31 de Julho, para serem realizados no Cine Santana. Num deles, o conferencista seria o Presidente Nacional do MDB, Deputado Ulysses Guimarães.
Neste dia à tarde, tempo claro e sol escaldante, o Zé Bigode, apareceu com guarda-chuva, causando admiração aos companheiros que preparavam o local:
– Zé, isto aí é guarda sol ou guarda chuva?
– Guarda-chuva. Um homem prevenido vale por dois! Respondeu firme o Zé Bigode. Essa era a tática do Zé.
À noite, o simpósio quase não se concretizou pela forte chuva que começou por volta das 18 horas, só terminando depois da meia-noite. O cinema lotado, apesar da chuva, teve como motivação a presença de Ulysses Guimarães, a grande figura nacional que simbolizava a esperança dos brasileiros.
Vieram caravanas e simpatizantes de inúmeras cidades vizinhas, lotando o cinema, mesmo com o aguaceiro que caía sobre a cidade.
Noutra oportunidade, os convidados eram o Deputado Freitas Nobre e o Senador Jaison Barreto. Deixei Brasília logo à tarde, chegando mais cedo para recepcioná-los. Henrique discursaria no final da tarde em sessão do Senado, não teve como acompanhá-los. Solicitou ao Ivo, seu motorista, que os trouxesse a Anápolis.
Realizando o Seminário, inclusive com a presença de Sodino Vieira, grande líder emedebista de Quirinópolis, levamos nossos convidados para jantar na churrascaria Gaúcha, da Rua Manoel D’Abadia. Ivo, o motorista dos visitantes de Brasília, havia feito sua refeição mais cedo, ficando num barzinho ao lado da churrascaria. Ao terminarmos o jantar, por volta da meia-noite, acompanhamos os visitantes até o carro do Senado que os levaria para Brasília.
Ivo, chamado para assumir o comando do carro, se ajoelhou de frente ao pára-choque traseiro, acendeu um fósforo, clareando ainda mais a placa do carro. Sem compreender o que se passava perguntei:
– Que é isso Ivo?
– Quero ver se o nosso carro é esse mesmo!
Percebemos que os drinques após o jantar fizeram o motorista perder a noção, não conseguindo identificar o carro oficial sob sua responsabilidade.
O Senador Jaison Barreto, com toda camaradagem, desprovido de vaidade e compreendendo a situação disse:
– Ivo, se você não se incomodar eu dirijo o carro!
Já caindo no banco traseiro, Ivo ainda teve tempo de colocar a cabeça para o lado de fora da janela do carro e vomitar pela primeira vez, dizendo:
– Aceito!
O Senador Jaison Barreto dirigiu o carro oficial até Brasília, levando o Deputado Freitas Nobre e o motorista às suas residências.
Segundo o Senador e o Deputado, dirigir até Brasília não foi nada, difícil foi ficar por muito tempo debaixo do chuveiro de água quente, para apagar os sinais das indisposições estomacais do Ivo durante a viagem.
Mas para os anapolinos que ouviram o Senador Jaison e o Deputado Freitas Nobre, o Simpósio foi um sucesso!
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Visitas e imprevistos
Uma das cobranças que o eleitor mais faz é a presença do político.
Ainda que o seu trabalho legislativo ou executivo seja bem realizado, ainda que o seu desempenho no cargo atenda a expectativa do eleitor, a presença em sua casa, nos aniversários, encontros religiosos, culturais e esportivos é sempre notada como fator positivo da vida política.
Em campanhas eleitorais, os convites para reuniões são variados. Sempre procuramos atender os companheiros, independentemente do credo religioso confessado.
Em vários desses encontros aconteciam fatos interessantes. No momento traziam constrangimento, mas com o passar do tempo eram vistos com naturalidade.
Visita ao Mário
Foi assim numa visita ao Mario Santana, irmão do saudoso Bertolino Santana, que dirigia seu trabalho espiritual num terreiro localizado no Bairro São José. Convidados para uma festa de aniversário do terreiro, lá estávamos com o vereador Walmir Bastos Ribeiro.
Para iniciar a reunião, Mário encheu uma cuia, metade de uma pequena cabaça ou coité, com cachaça e o ritual era passar a vasilha de mão em mão entre os presentes. Cada um que a recebia tomava um gole e passava a cuia adiante.
Quando chegou a vez de Walmir Bastos, sem ter prestado atenção no ritual, bebeu todo o conteúdo. Constrangido, mas sem qualquer comentário, Mário encheu novamente a cuia e a cerimônia continuou.
Uns dez minutos depois, quebrando toda a solenidade que o ato exigia, Walmir Bastos suando bastante, voz arrastada, gritou:
– Já é hora da música, vamos dançar, gente, até o churrasco ficar pronto! Antes vamos aos discursos das autoridades.
Mário demorou um pouco para recobrar o controle da solenidade, mas terminou a reunião logo em seguida.
Visita ao Benício
Em outra oportunidade, com Onofre Quinan, Henrique Santillo e José Batista Jr., fomos a uma festa no Centro do Benício, localizado na Rua Mauá, onde havia seguidores e muitos visitantes. Ficamos sentados em roda, enquanto no centro do salão os números especiais eram apresentados pelos integrantes do ”Centro Espírita do Benício”.
Benício, com sua coroa de rei, sentado na cadeira mais elevada do recinto, gesticulava dizendo-nos alguma coisa que, no entanto, não era por nós compreendida. Interpretávamos seus gestos como sinal de satisfação pela quantidade de visitantes e alegria de todos.
Depois de tentar em vão comunicar-se conosco à distância, desceu do seu pedestal, passou a mão num enorme facão niquelado, parecido com uma grande adaga e caminhou em nossa direção. A sua atitude nos levou a pensar que era parte do ritual. Benício atravessou todo o salão e resoluto aproximou-se do local onde encontrávamos. Ao nos alcançar, parou e estático em frente a Onofre Quinan, que se encontrava com as pernas cruzadas, gritou:
– Descruzê! Descruzê! Descruzê!
Onofre só teve tempo de dar um pulo para trás, quase caindo da cadeira, enquanto a lâmina tocava o piso, levantando faísca.
Visita ao Raimundinho
Outro grande amigo nosso era o Raimundinho, responsável por trabalhos espirituais num pequeno salão comercial, ao lado de sua casa, no Bairro Boa Vista. Fomos visitá-lo em companhia de Inês, filha de Donana e Laurindo, companheiros políticos da região, com José Batista Jr. e Walmir Bastos. Ao chegarmos ficamos mais afastados, num canto do salão. Raimundinho atendia a um carregador de caminhão, homem forte, que estava bastante concentrado, totalmente trêmulo. Sem vaga ao nosso lado, o Walmir foi sentar-se no banco da frente, ao lado do homem em transe, que falava frases desconexas, resfolegando muito. O vereador olhou para trás em nossa direção e deu uma sonora gargalhada, quebrando totalmente a solenidade e a seriedade do ato. Raimundinho não perdeu a serenidade, mas o estivador virou-se de frente, aparentemente enfurecido, caindo de costas para o chão, dando um “bico” de pé direito por baixo do assento em que o vereador se encontrava. A força foi tamanha que levantou o Walmir alguns palmos para o ar, que caiu estatelado ao chão, mas levantou-se em seguida, apavorado, gritando:
– Valei-me senhor do Bonfim, valei-me senhor do Bonfim!
Não havia janela no recinto e a única porta existente havia sido trancada após nossa chegada. As luzes estavam apagadas e Walmir ficava tateando a parede. Só se acalmou quando a porta foi aberta e ele saltou para fora, saindo em desabalada carreira. Fomos encontrá-lo bem longe, suado, assustado, sem olhar para trás.
Visita ao pastor Jaconias
Homem de muita fé e fiel servo cristão era o senhor Jaconias Cavalcante, pai do ex-vereador José Escobar Cavalcante. Pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, dirigia os trabalhos de evangelização na igreja da Vila Santa Maria de Nazareth. Cidadão politizado, estava sempre atento aos acontecimentos políticos em Goiás e no Brasil. Gostava muito de política e do MDB, mas seu tempo era dedicado aos trabalhos da igreja.
Escobar, candidato a vereador, contou com o apoio decisivo do pastor Cavalcante, como era conhecido pelos irmãos. Num culto de quarta-feira, o pastor convidou Escobar para visitar a igreja, preparando os irmãos para o evento. No momento da apresentação, o pastor Cavalcante falou das virtudes do filho e de suas boas qualidades. Finalmente, disse que, embora o filho não comparecesse regularmente aos cultos, era um bom cristão. Com a palavra dada ao visitante, Escobar foi claro:
– Meus irmãos, tudo a respeito da minha vida foi dito pelo meu pai. Coloco a vida dele, amada por todos vocês em testemunho à minha própria vida. Gosto muito do trabalho que ele realiza pela evangelização dos perdidos e desesperados. Mas é meu dever dizer que me “amarro” mesmo é no espiritismo!
O pastor e a congregação, em estado de total espanto, deram a visita por encerrada, sem maiores comentários.
Visita do Anapolino
Anapolino de Faria, candidato a Deputado Federal, corria o interior do estado e eu, candidato a Deputado Estadual, fazia o trabalho em Anápolis com reuniões e visitas.
Naquela noite aconteceria uma reunião na Vila João Luiz de Oliveira, a qual Anapolino compareceria vindo de um encontro em Nerópolis.
Tudo estava acertado para uma boa reunião, quando um imprevisto ocorreu na tarde daquele dia. Aconteceu uma tragédia vitimando um rapaz vizinho da família que nos receberia e todos os moradores estavam abalados. Não havia clima para realização do encontro.
Fomos todos os companheiros prestar solidariedade à família enlutada. Solicitamos ao Zé Maneco, um dos organizadores do encontro, que ficasse no local para informar aos companheiros que chegassem o motivo da suspensão da reunião.
Por volta das nove da noite, sem saber do ocorrido, Anapolino de Faria chegou de Nerópolis estacionando seu automóvel em frente à multidão presente ao velório. Saiu do carro ao encontro de Zé Maneco que se deslocava para avisá-lo do acontecido.
Antes de ter tempo para pronunciar uma única palavra Zé Maneco ouviu a exclamação de Anapolino:
– Hei, Zé Maneco! Isso é que é liderança! Isso aqui não é reunião, isso já é comício.
E passou a cumprimentar efusivamente cada uma das pessoas até que foi puxado de lado pela camisa, quando Zé Maneco pode esclarecer tudo.
Direção perdida
Chefinho, o Sr. Messias Antônio Ribeiro, fazendeiro no Matão, nos seus últimos anos de vida passou a morar em Anápolis. Emedebista convicto, nos acompanhou em todas as disputas políticas de que participamos. Toda sua família sempre esteve ao nosso lado.
Chico Mineiro, um dos mais destacados lideres do MDB em Ouro Verde, antigo Matão, chefe de família numerosa e trabalhadora, era seu cunhado. Os filhos de Chico Mineiro além de numerosos sempre só lhe deram alegria pela correção de vida de todos eles.
Num domingo à tarde, três deles participavam de uma partida de sinuca, numa venda no Sapato Arcado, em frente à fazenda do Sr. Antônio Garcia, na estrada que liga Anápolis a Ouro Verde. Dois jovens que também participavam da partida se desentenderam com os filhos do Chico, terminando em troca de murros, pontapés e pauladas. Os rapazes do Chico Mineiro bateram mais que apanharam. Foram trazidos para Anápolis para fugirem de qualquer flagrante, sendo feita a queixa na polícia.
Em Anápolis, Zoroastro Vieira Braga, o Zuruca, Tonho Gaguinho e Chefinho foram até ao bairro JK, onde deixaram os rapazes.
Como eu e Vicente Alencar estávamos no interior do Estado, chegamos a Anápolis à noite e recebemos a informação pelo Romualdo que Chico Mineiro precisava falar conosco, urgentemente. Não sabíamos o endereço onde se encontravam no bairro JK. Fomos atrás do Zuruca, não o encontramos, havia saído. Partimos para o Mercado JK onde encontramos Tonho Gaguinho, bem embriagado:
– Tonho, os homens foram levados por vocês para onde?
– Homens? Que homens?
O recurso foi tirar o Chefinho do seu descanso
Vicente Alencar, Romualdo, Chefinho e eu rodamos umas quatro vezes todas as ruas do bairro JK e nada de encontrarmos a residência onde eles estavam. Chefinho dizia:
– Suba para cá, vire para lá, passe para a esquerda, vira para a direita...
Não houve jeito. O recurso foi deixarmos para melhor oportunidade.
Vicente Alencar ainda sugeriu que retornássemos à Praça do Bom Jesus para que Chefinho se situasse melhor. Foi o que fizemos.
Quando chegamos à Praça do Bom Jesus, muito movimentada e lotada com o término da missa, fonte luminosa funcionando; já havíamos esquecido que Chefinho não conseguiria reconhecer o local onde à tarde ele, Zoroastro Vieira Braga e Tonho Gaguinho deixaram o compadre Chico. Chefinho que estava quieto, sem trocar uma só palavra em todo trajeto até a praça principal de Anápolis, indagou bastante preocupado:
– Que lugar é esse?
Ficou claro que tínhamos que deixar para o outro dia a procura por Chico naquelas ruas do Bairro JK, sem asfalto, tomadas pela poeira e sem iluminação pública.
Tecnologia avançada na cozinha
Em 1977, a eleição para o Senado teria sublegendas, dois candidatos do mesmo partido disputariam a vaga. Henrique não havia ainda se decidido, mas já era o candidato indicado para representar o grupo autêntico do MDB, enquanto que os conservadores indicaram Juarez Bernardes.
Visitei os diretórios das cidades que representava como Deputado Federal, trabalhando para a candidatura de Henrique. Em minhas viagens, levei Vicente de Paula Alencar, até aquele momento, defensor ferrenho da candidatura de Henrique Santillo.
Em Uruana, cidade a qual representava na Câmara Federal, fomos em primeiro lugar na casa do Sr. Agenor Moreira, ex-prefeito da cidade e grande líder emedebista. Lá estava também seu genro Custódio, que nos acompanhou às demais lideranças.
Quando deixamos a residência de José Gomes, partindo para a casa de outro companheiro, Custódio fez questão de nos mostrar a casa onde foi usada a primeira panela de pressão no Município. O autor da façanha foi um cerealista muito conceituado na cidade e que, pelo menos uma vez por semana, levava cereais para atacadistas anapolinos e, no retorno, levava as encomendas feitas pelos uruanenses.
Numa das suas idas e vindas a Anápolis, passou pela Casa Violeta, na Praça do Bom Jesus, quando assistiu a explanação de um vendedor da loja falando sobre a maior invenção do homem para a cozinha, a panela de pressão:
– Com esse aparelho, não há galinha, por mais velha de seja, que resista a temperatura.
Gostou do que viu e ouviu, comprando a panela para quatro litros. Logo toda população ficou sabendo que o “mais avançado instrumento da tecnologia moderna para uso na cozinha” havia chegado à cidade. Aproveitou para convidar compadres e amigos para domingo, após a missa das 9, irem à sua casa, porque enquanto os ‘truqueiros’ disputassem uma partida, um galo de mais de três anos seria cozido na panela de pressão.
Quando a disputa começou, a panela foi levada ao fogão a lenha estrategicamente instalado na cozinha. Antes mesmo que a primeira trucada acontecesse numa das mesas, a cozinheira, dona da casa, disse em voz alta ao chegar à porta:
– Gente a panela tá furada!
Surpresa geral. Os mais curiosos deixaram o jogo e foram à cozinha. Puderam ver e ouvir o barulho do vapor que saia pela válvula da panela. Decepcionado, o anfitrião já acertou para o domingo seguinte, no mesmo local e horário, a disputa do ‘truco’ e o uso da panela.
Segunda-feira bem cedo foi a uma oficina de conserto de utensílios domésticos, narrando o acontecido ao oficial, experiente no ramo. Não conhecia aquele instrumento, mas era visível que vazava no centro da tampa. Na mesma hora passou a mão no aparelho de solda a oxigênio, deu uma lixada na parte interna da tampa, reforçando o local da válvula com substanciosa camada de solda:
– Ela pode até vazar em outro lugar. Nesse nunca mais!
Domingo, horário combinado, lá estavam os ‘truqueiros’. Enquanto isso, para não decepcionar, os convidados o fogão foi aceso mais cedo, com angico bem sequinho.
Iniciada a partida pelos truqueiros na sala, o galo carijó, o mais antigo da região, foi dentro da panela, para o fogo.
– Truco... Truco...
– Seis milho, ladrão...
A algazarra e o barulho ensurdecedor só não conseguiram abafar o estrondo que veio da cozinha com a tampa da panela voando como um foguete, deixando estrago no telhado e pedaços do carijó presos as telhas.
VISITA A LEOPOLDO DE BULHÕES
Joaquim Roriz, candidato a deputado estadual e eu, candidato a reeleição de deputado federal, fizemos juntos várias visitas na região da estrada de ferro para que ele fosse apresentado aos companheiros de Pires do Rio, Vianópolis, Orizona e Leopoldo de Bulhões.
Para o encontro em Leopoldo de Bulhões cheguei acompanhado do advogado Vicente de Paula Alencar e o vereador Walmir Bastos Ribeiro, aguardando Joaquim Roriz na casa do presidente do MDB local, o amigo Agenor Gontijo.
Por volta das duas da tarde chovia fino deixando a rua tomada pelo lamaçal. Vicente Alencar calçava botina nova de solado sintético, garantindo ser a última novidade contra derrapagens. Apressou-se a atravessar a lama da rua para alcançar a porta de entrada da casa de Agenor, bem escorregadia pelo lodo formado por alguns dias de chuva permanente. Firmou o pé direito na ponta da calçada escorregadia e imediatamente deu uma deslizada levando um tombo que o deixou sentado no chão:
- Não dá para a gente acreditar em mais nada! Me disseram que a botina fixava em pista escorregadia como um ímã.
Vicente precisou de toalhas e algum tempo para limpar-se. Quando Roriz chegou, com Vicente já recuperado, continuamos nosso roteiro nos dirigindo a outra cidade da região.
Foi uma reunião de liderança na qual apresentei Joaquim Roriz que até então era conhecido como Joaquim Domingos, falando das suas qualidades pessoais e políticas. Estavam todos ao par do apoio de Luziânia à candidatura do Henrique ao Senado. Outra vantagem em apoiar Joaquim, era o fato dele ser da região, o que garantia sua presença para ajudar os companheiros, o que foi ratificado na fala do próprio. Em nome do diretório falou o tesoureiro:
- Dr. Joaquim Domingos, nós aqui sempre apoiamos os irmãos Santillo...
- Vocês vão continuar apoiando os irmãos Santillo, atalhou Roriz, nós de Luziânia agora estamos juntos com eles, também...
- Pois é, Doutor Joaquim, sempre estivemos com eles porque nunca nos faltaram com apoio e também pelo nosso amor ao MDB. Mas nunca pedimos um cruzeiro para eles, sempre os apoiamos de forma relevante, de graça.
- Muito bem!. Parabéns pela luta de vocês! ressaltou Roriz.
- É, mas agora a gente vai precisar de um dinheirinho....
- Para que que vocês precisam de dinheirinho? brincou Roriz.
- Prá fazer uma campanha com mais conforto.
Walmir Bastos que parecia estar cochilando num canto da sala, soltou sua tradicional gargalhada, sonora e inconfundível, levando todos a rirem também. Walmir, grande amigo de Roriz, a partir daquele momento todas as vêzes que se referia a Roriz, dizia:
- Joaquim conforto...
