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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Hilton Lucena e Altivo - Exemplos a serem seguidos

Ser oposição no período da Ditadura Militar dependia de coragem, idealismo e muito amor à Democracia. Era difícil para parlamentares e prefeitos exerceram seus mandatos. As perseguições eram constantes e infundáveis. A organização do MDB em alguns municípios era quase que impossível.

Certa vez, numa madrugada, em pleno ano de 1971, fui acordado pelo Romas, Chico Maneco, Eduardo Jorge e outros integrantes do Diretório Municipal do MDB de Estrela do Norte. Hilton Lucena, hoje trabalhando no Tribunal de Contas do Estado e Altivo tiveram prisão preventiva decretada pelo Juiz de Direito local. As Alegações para o Juiz decretar a prisão foram que eles estavam filiando pessoas ao MDB e que se não fossem presos poderiam fugir do município. Foi a primeira vez que percorri a Belém Brasília após a cidade de Ceres.

Chegamos a Estrela do Norte, eu e Dr. Hiram Bezze, no dia seguinte. Fomos direto à cadeia pública, encontrando Hilton, na única cela existente naquele presídio juntamente com outro presidiário, que dias antes havia matado quatro crianças à machadada, no vizinho município de Mutunópolis. Com nossa presença, sabendo que recorreríamos ao Tribunal de Justiça o Juiz relaxou a prisão, colocando nossos "subversivos" em liberdade.

Com nossa ida ao então Médio Norte e o sucesso da missão, passamos a ser procurados pelos companheiros que se sentiam injustiçados. Alguns meses após fui chamado pelo Jair Sapateiro, pessoa humilde que se dispunha a fazer parte do MDB de Formoso. A Arena local era comandada por Felipe Cardoso, o Felipão, pai do atual Deputado Marcos Cardoso. Felipão era líder e bastante querido do povo formosense. Para lá me acompanhou o Dr. Vicente Alencar, um dos mais importantes advogados de Goiás contra a ditadura militar.

Quando andávamos pelas avenidas e ruas de Formoso, o Jair nos relatou o que, no seu entendimento, era falha gravíssima do sistema eleitoral daquela cidade:

– Eu chamei vocês aqui para que denunciem a esculhambação do sistema eleitoral aqui em Formoso.
– Qual é o problema? Indagamos.
– Trago como exemplo o que está acontecendo com meu Título Eleitoral.
– O que está acontecendo? Perguntei:
– Meu Título está com a fotografia de outra pessoa.
– Mas o nome é o seu, não é Jair? Disse Alencar.
– Não. O nome também é de outra pessoa.
– Você já votou com esse Título? Perguntamos.
– Não. Ele é novo!
– Então, Jair vá ao Cartório Eleitoral, deixe lá o Título que está em seu poder e peça ao escrivão o seu, porque você está com Título de outro eleitor.

Assim foi feito e tudo voltou à normalidade, em Formoso.

Quando precisamos hoje, políticos com ou sem mandatos, não resistindo aos favores oficiais dos governantes buscando, a qualquer pretexto forma de adesão, temos que voltar as nossas vistas e atenções ao passado, para rendermos nossas homenagens a companheiros como Altivo e Hilton Lucena, pela coragem e destemor que sempre demonstraram em sua conduta de cidadão e político. Contamos com muita gente como eles, para derrubarmos a ditadura.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Volks da Nilda Mota

Cansada, suando muito, a Vereadora Nilda Mota só falava, quase chorando:

– Não dá, não dá para virar!

Até que desistiu.

Então solicitei ao meu fiel companheiro:

– Tião, por favor, faça a manobra no carro!

Era um Volks, tipo fusca, que eu havia enviado para que a Vereadora Nilda Mota, liderança que despontava de forma extraordinária, fizesse o trabalho político de visitas na região de Formoso. E este foi um dos acontecimentos.

Com a decisão tomada por Henrique de se candidatar a Deputado Estadual, enfrentei a campanha de Deputado Federal em 1974.

Visitei os diretórios do MDB no vale do São Patrício, Médio Norte, Estrada de ferro e Região de Anápolis. Carlos Wilson, Tião Borges, o Tião Gordo, Vicente Alencar e Hiran Bezze eram meus companheiros. Sempre revezava com um deles nas minhas constantes viagens.

Certa feita em Formoso, na residência do Firmino, antigo morador daquele município e amigo de longas datas de meu pai, marquei uma reunião. Nas primeiras horas de uma terça-feira quente, típica da região norte do estado, entrando no recinto da reunião, fui recebido por um participante, já com um copo de pinga pura do alambique artesanal:

– Aqui a gente recebe as pessoas importantes oferecendo cachaça, da melhor! Pode tomar que é pura.

Não querendo fazer feio, mesmo depois de ter bebido copo de leite e comido pão com manteiga naquela hora, recebi o copo e tomei a dose que me havia oferecido.

A todo instante o bêbado aparecia com o copo cada vez mais cheio, me estendendo a mão e passando para mim. Para me livrar, levava o braço para trás, passando o copo para o Tião Borges, que tomava um pouco e jogava a restante fora. Só assim me foi possível fazer a estréia em Formoso, sem sair carregado ou cambaleando. Em compensação, terminada a reunião o Tião Gordo não sabia nem em que cidade estávamos.

Chegamos a Trombas, ainda Distrito de Formoso, Nilda Mota Lucindo, a maior líder feminina do Médio Norte, Vereadora mais votada proporcionalmente de todos os tempos em Formoso, estava organizando encontro a céu aberto, na principal praça do local. Havia grande gameleira, que, com sua sombra, abrigava uma multidão do sol escaldante.

O Deputado Estadual Juarez Magalhães, candidato à reeleição, e eu, apoiados por Nilda Mota e o diretório do MDB de Formoso, havíamos lhe enviado um Volkswagen, usado, muito ruim de mecânica.

No instante de fazer a manobra para que o alto-falante abrigado no teto do fusca ficasse de frente para a platéia, Nilda não conseguia de forma alguma virar o carro. Cansada, suando muito a Vereadora só falava, quase chorando:

– Não dá, não dá para virar!

Até que desistiu. Então, solicitei ao meu fiel companheiro:

– Tião, por favor, faça a manobra no carro!

Da mesma forma, Sebastião Borges, com toda sua habilidade de motorista, não conseguiu manobrar o Volks. Exausto por tentar tantas manobras sem sucesso, bem mais forte que Nilda, Tião Gordo agarrou no pára-choque do carro virando-o para o sentido que queríamos.

Só assim ficamos sabendo que o Volks que havíamos mandado para a Vereadora fazer a campanha no município só andava em linha reta.

Trabalhando todos os dias, o tempo todo, Nilda Mota fez de Lázaro Barbosa, Juarez Magalhães e eu, os mais votados naquele município. Seu carisma, simpatia e liderança contagiavam a todos que a conheciam. Morreu em conseqüência de um atropelamento na Avenida Universitária, quando descia do ônibus do qual retornava da Faculdade de Direito de Anápolis, a FADA, para sua casa, no inicio da Vila Santa Isabel.

Nilda Mota Lucindo morreu sem ver a Avenida Universitária duplicada por mim enquanto prefeito e nem mesmo participou do governo do seu querido MDB, pois a posse de Iris Rezende Machado, em 1983, foi na mesma época do acidente que a vitimou.

Percalços pelo caminho

Os processos jurídicos com o objetivo de nos afastar da vida política, propostos pelos nossos adversários políticos, foram apenas uma parte das dificuldades que enfrentamos.

Em inúmeras reuniões que Henrique Santillo e eu participávamos com grupos de estudantes, trabalhadores, produtores rurais, profissionais liberais e intelectuais em Anápolis e Goiânia, discutindo os rumos para o país, grupos esquerdistas de variadas tendências se reuniam numa mesma roda, em busca de projeto comum.

Obedecíamos àquela máxima do presidente nacional do MDB, Ulysses Guimarães, “estamos dentro de uma casa hermeticamente fechada e para abrí-la precisamos unir forças, sem distinção ideológica, para que cada um siga seu rumo depois que a porta estiver aberta”. Mesmo com profundas diferenças de pensamento, os grupos se mantinham unidos em busca do objetivo final, a derrubada da ditadura implantada em 1964 e o retorno à democracia.

Também não nos descuidávamos dos contatos com lideranças interioranas e nestas situações os percalços eram muitos.

Orizona

Sempre me senti entusiasmado com o contato com pessoas simples e amigas, como Pedro Pimentel, tesoureiro do MDB em Orizona, que nos acompanhou pelo interior do município visitando proprietários e trabalhadores rurais.

Certa vez, chovia forte, tornando as estradas municipais escorregadias e de difícil acesso. Na volta à cidade, após uma dessas visitas, a camionete do Pimentel, grudada no barro, nos obrigava a empurrá-la, enquanto o motorista manobrava o veículo e dizia com o maior contentamento:

– Quando contar que o futuro governador de Goiás, Henrique Santillo, empurrou meu carro em pleno lamaçal, tendo a roupa e o corpo cobertos pelo barro, ninguém vai acreditar!

De outra feita estávamos voltando da cidade de Orizona, quando o Vicente Alencar falou:

– Chegamos pessoal!

Meio atordoados, Henrique e eu fomos nos despertar já fora do carro.

Olhamos em volta, estava tudo escuro. Nem sinal de alguma construção que nos lembrasse a nossa cidade, Anápolis.

Esta situação aconteceu em plena campanha de 1974 para eleições de Deputados Estaduais, Federais e Senador.

Haveria um grande comício em Orizona.

Companheiros se mobilizaram durante muito tempo para que as lideranças de todo município se fizessem presentes. Lázaro Barbosa, candidato emedebista ao Senado era a figura mais esperada e sua presença aos eventos do partido era certeza de grande público.

Em Orizona a situação apresentava-se mais emocionante, porque o candidato a Senador dizia em todas as cidades por onde passava que havia nascido em Orizona, embalado num cesto de taquara. Aliás, pude acompanhar Lázaro Barbosa quando estava em Anápolis dizendo que era familiarizado com a cidade porque parte da sua infância a passara no distrito de Souzânia. Chegando a Itapaci, Lázaro fazia questão de alardear que residira durante muito tempo na Ponte Funda. Já em Petrolina conhecia todas as lideranças e região, pois trabalhara durante muitos anos na prefeitura local.

Era difícil uma região que Lázaro não fizesse a citação “dessas ruas poeirentas que pisei descalço quando criança”.

Acompanhado de Vicente Alencar e seu irmão Alexandre, seguimos no carro de Henrique Silva de Anápolis à Orizona. Comício grande, Lázaro muito assediado pelos eleitores, a cidade envaidecida com a presença do filho ilustre. Falaram todas as lideranças locais e visitantes até que por volta da meia-noite encerramos os discursos dando inicio ao show com cantores locais.

Sidon, integrante do MDB local, convidou-nos para um churrasco em sua casa. Alegando compromisso logo cedo no dia seguinte, Lázaro agradeceu e retornou à Goiânia. Nós ficamos e fomos atender a gentileza do Sidon.

Churrasco assado na hora, a conversa rolando, quando olhamos no relógio, passava das três da madrugada.

Na hora da saída, Henrique Silva e eu já fomos descartando a responsabilidade de dirigir. Foi quando eu chamei Vicente Alencar de lado e disse:

– Vicente, nós todos estamos sem condição de dirigir. O mais descansado é seu irmão Alexandre. Vamos entregar o volante para ele?

– Eu de olhos fechados sou melhor motorista que meu irmão descansado! Me ajudem a chegar até o carro que eu faço a gente chegar a Anápolis! Falou Vicente convicto.

Deixamos Vicente se acomodar no banco do motorista. Fiquei ao seu lado, no assento dianteiro, enquanto Alexandre e Henrique ficaram no banco traseiro.

Vicente Alencar não corria mais que quarenta quilômetros por hora, atropelando todos os buracos que encontrava pela estrada de chão. Seguros de que aquela velocidade não nos traria problemas maiores, fomos pegando no sono, enquanto Alexandre recitava poesias de sua autoria, para evitar o sono do nosso motorista. Só acordamos quando Alencar disse em tom vitorioso:

– Chegamos pessoal!

Meio atordoados, Henrique e eu fomos acordar já fora do carro. Olhamos em volta, estava tudo escuro e nada nos lembrava a nossa cidade, Anápolis.

– Chegamos onde Vicente?

– Em Anápolis!

– Quem disse que estamos em Anápolis?

– Olha a Praça Bom Jesus, gente!

– Que Praça Bom Jesus, Vicente! Nós estamos na Praça da Matriz de Silvânia.

Fizemos todo esforço para ficarmos acordados até chegarmos a Anápolis, sempre atentos ao nosso “motorista”.

Mara Rosa

– Será que erramos o endereço? Perguntei já preocupado.

Estávamos procurando a fazenda na qual uma grande concentração aconteceria. Depois da reunião, um churrasco nos esperava, como havíamos combinado algum tempo antes.

Desconfiados de que alguma coisa não dera certo, fomos entrando cautelosamente.

Com desencontros, devido à dificuldade de comunicação, temor de perseguição aos emedebistas, ainda assim, percorremos o estado de Goiás em busca de fortalecer o partido e de consolidar o nosso trabalho. Não foi tarefa fácil, pois com mínimos recursos financeiros, cortando o estado de sul a norte, leste e oeste num Fusca, a missão era penosa, mas gratificante.

Outra vez o amigo Tonico Leão, residente em Mara Rosa, norte do estado, bem próximo à Amaralina, nos convidou para uma grande confraternização política em sua casa, num certo dia 30. Dizia que tinha reservado duas novilhas para o grande churrasco. O compromisso daquele dia seria exclusivamente o grande evento. Saímos cedo de Anápolis. Foram quatro horas de viagem. Chegamos ao local do grande encontro e não havia o menor sinal de concentração política.

– Será que erramos o endereço? Perguntei já preocupado.

Ao nos aproximarmos da casa, apareceu Tonico sonolento:

– Hei gente, quanta satisfação em receber vocês!

– Tudo bem, Tonico?

– Tudo bem! Ali estão as novilhas que vão morrer dia 30.

Entendemos que o dia era mesmo 30, porém o mês era, por certo, outro.

Enfrentamos a viagem de volta com toda a caravana esfomeada.

Paramos num boteco de estrada para saborear pão com algumas latas de sardinha e assim, Henrique, seu cunhado Edward, seu filho Carlos Henrique, meu filho André Luís e eu, voltamos para Anápolis.

Estrela do Norte

Além das confusões de datas de reuniões, outras dificuldades eram desafio para a formação do partido oposicionista.

Filiar eleitores ao MDB era missão quase que impossível.

Até prisão os nossos companheiros enfrentaram, como Hilton Lucena, em 1971, na cidade de Estrela do Norte, quando foi preso por ordem do Juiz daquela Comarca. Hilton foi preso por estar filiando eleitores no MDB, ficou na única cela existente na cadeia pública local, juntamente com um maníaco que havia matado cruelmente quatro crianças em Mutunópolis, dias antes.

Seu colega Altivo sofreu tanta pressão da polícia por estar acompanhando Hilton que se mudou do município antes mesmo que chegássemos lá com o advogado Hiram Bezze, para defendê-los.

Foi a maior violência que presenciamos e denunciamos naquela época.

Nossa presença foi suficiente para que o Juiz relaxasse a prisão de Hilton Lucena, sem necessidade de apelarmos para o Tribunal de Justiça, com habeas corpus.

Outras arbitrariedades, contudo, continuaram acontecendo.

Jaraguá

Objetivando estruturar o Diretório Municipal do MDB de Jaraguá, obtive colaboração do companheiro Militino, farmacêutico conceituado naquela cidade. Militino ficou responsável para fazer filiações dos interessados em compor a oposição naquele município. O companheiro buscou apoio na zona rural com amigos fazendeiros e trabalhadores, uma vez que no setor urbano era quase impossível conseguir alguma inscrição ao MDB. As assinaturas foram conseguidas nas mais variadas regiões até que houvesse o número legal para organização do Diretório.

Todo satisfeito, Militino foi ao cartório eleitoral registrar os filiados no MDB. Surpresa total. Praticamente todos filiados haviam enviado oficio ao juiz eleitoral pedindo o cancelamento de inscrição.

Foram inúmeras as situações inusitadas que vivemos, mas valeu a pena!