domingo, 27 de fevereiro de 2011

Quando senador virou cabaça

Nas eleições gerais de 1986, Romualdo Santillo disputou a reeleição à Assembleia Legislativa. Para não criar embaraços ao irmão Henrique Santillo, candidato do PMDB ao governo do Estado, restringiu bastante sua base de apoio. Dentre os prefeitos que o apoiaram estavam Rubens Sales (Novo Brasil) e Antônio Cunha (Nova Glória).

Em Nova Glória, para entregar à população os benefícios recebidos, Antônio Cunha programou uma série de inaugurações. Romualdo havia conseguido, junto ao governador Onofre Quinan, recursos para asfaltamento urbano da cidade. Henrique Santillo não pôde comparecer. Iram Saraiva, candidato ao Senado, estava na região Sudoeste do Estado. Irapuan Costa Júnior, candidato à outra vaga ao Senado, representou seus companheiros Henrique e Iram. Romualdo foi à frente participando de toda festa. Muita gente, foguetórios e banda de música. Em cada parada o prefeito fazia questão de agradecer a colaboração “desse baluarte da política em Goiás, Romualdo Santillo.”

A amizade entre eles era antiga. No início dos anos 60, os dois e Altair Garcia Pereira, o Braguinha, promoviam shows com cantores populares em Anápolis. Braguinha e Romualdo abandonaram a carreira de empresários de artistas quando levaram prejuízo com a “Noite dos Astros e Estrelas”, em que contrataram Miltinho, Carlos Gonzaga, Celi Campello e um punhado de cantores famosos. Ficaram decepcionados com o fracasso do evento. Cunha seguiu em frente, pelo menos para mais um espetáculo.

Passava por Goiânia Pépe Ávilla e seus Mariachis. Grande atração internacional que percorria o Brasil. Contratou o conjunto. Noite enluarada e céu estrelado prometiam show com grande assistência.

Romualdo pouco antes do final foi ao local. Cunha estava na portaria:

- E aí Cunha, veio muita gente assistir o show?

- Já entraram na bilheteria, até agora, 4 mil e 500 cruzeiros.

- Então essa é a arrecadação! Daqui para a frente não rende mais nada...

- É verdade !

- Quanto você está pagando para o Pépe Ávilla?

- Todo o gasto ficou em 10 mil cruzeiros!

- Deeez mil cruzeiros? Você está perdendo esse dinheirão, Cunha ?

- É, mas o povo tá gostando. Veja quanta alegria!!!

Esse era o Cunha, agora prefeito de Nova Glória. Nunca foi apegado a dinheiro. Seu prazer sempre foi alegrar o povo.

No final da tarde, já com Irapuan Costa Júnior presente, foi iniciada a concentração política na principal praça da cidade. Cunha determinou ao mestre de cerimônia que desse a palavra a quem quisesse falar. Lista de oradores, infindável. Todos queriam externar seu apoio aos candidatos. Para que não houvesse privilégio, o prefeito orientou que os oradores fossem chamados por ordem alfabética. Simão, líder do prefeito na Câmara Municipal, conhecido pela sua inflamada oratória, ficaria para o final. Enquanto não chegava sua vez, fazia percurso palanque – bar da esquina e vice versa. Quando foi chamado estava no trajeto bar-palanque. Subiu às pressas auxiliado por um assessor do prefeito. Microfone às mãos, aplaudido pela multidão, saudou um por um os visitantes. Não se esqueceu de fazer referência a Romualdo Santillo, o “grande benfeitor de Nova Glória.” Por último, se dirigiu a Irapuan:

- Irapuan, você é a dignidade em pessoa! (palmas e muito bem). Mais que ninguém deve receber o voto do povo goiano para o Senado (mais aplausos e muito bem!)

- Senadoooor é figura importante! Geeente, senador é uma cabaça! Senador é uma cabaça... cabaça, cabaça!

O povão que lotava a praça foi à loucura. Extasiado, batia palmas e gritava, "Muito bem! É isso aí Simão..."

- É isso messssmo meu povo. Senador é uma cabaça. Insistia o vereador.

Quanto mais as pessoas riam, mais Simão repetia, senador é uma cabaça. Romualdo gritando “muito bem, Simão. Muito bem...” Tirou o microfone da sua mão enquanto a multidão continuava eufórica. Já fora do palanque, escorado em Romualdo, o vereador continuou:

- Não é deputado? Senador não é uma cabaça?

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Porto Seco de Anápolis, aposta que deu certo

Um grupo de empresários goianos tomou decisão arrojada quando participou da concorrência pública para a exploração da Estação Aduaneira do Interior –EADI de Anápolis. No início era apenas uma ideia. Praticamente um tiro no escuro. Os portos secos existentes pelo interior do Brasil funcionavam precariamente. Alguns meses antes da licitação do Porto Seco de Anápolis, a licitação da Estação Aduaneira de Brasília foi lançada e ninguém se interessou em participar. Os custos com construção de prédios, graneleiros e malha ferroviária seriam altíssimos. Tivesse sido instalado, o de Goiás estaria inviabilizado.

Como prefeito, acompanhei todos os passos para a instalação da Estação Aduaneira de Anápolis. Estivemos algumas vezes no gabinete do secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, em Brasília. Queríamos a concorrência pública. O governador Maguito Vilela defendeu nossa solicitação para que o Porto Seco fosse instalado em Anápolis.

Voltamos à Receita Federal solicitando alteração na portaria que, inicialmente, não permitia importar ou exportar produtos a granel. Realizada a concorrência pública e ampliadas as atribuições da futura aduaneira, só um grupo se interessou, participou e venceu a licitação.

A portaria estabelecia que a Eadi ficaria no Daia ou suas proximidades. Teria que contar com área administrativa, graneleiros, amplo pátio de estacionamento e rede férrea ligando à rede ferroviária federal. Investimento orçado em alguns milhões de reais.

Pelo empresário Gilson do Amaral Brito, fomos informados que o Ministério dos Transportes leiloaria o patrimônio da RFF instalado no Daia. Imóvel contando com a linha férrea, graneleiros, prédio administrativo, pátio para estacionamento. Dispunha de toda infraestrutura exigida pela Receita Federal. Com pouco investimento, estaria apto a abrigar a aduaneira. Era necessária uma ação política junto ao presidente da Rede Ferroviária, no Rio de Janeiro. A participação do ministro da Justiça, Iris Rezende Machado, foi decisiva. Defendeu o interesse de Anápolis junto ao ministro dos Transportes, Eliseu Padilha.

Fomos ao Rio de Janeiro conversar com o presidente da RFF, Eliseu Rezende. Me acompanharam Air Ganzarolli, vice-prefeito, e o procurador municipal Roldão Cassemiro. Ficou decidido que a rede não leiloaria seu imóvel em Anápolis. O temor era de que, com o leilão, algum grupo de fora arrematasse o imóvel. Isso inviabilizaria a instalação da aduaneira. Ao mesmo tempo acertamos que o imóvel seria alugado à prefeitura e repassado ao grupo vencedor da concorrência, que arcaria com as despesas. Ficou assim viabilizada sua instalação. No final do governo Maguito Vilela, a Rede Ferroviária Federal permutou com o Estado seu patrimônio em Anápolis pela dívida de ICMS que tinha com o Tesouro estadual. O Porto Seco está instalado num imóvel público do Estado.

Edson Tavares, superintendente da Estação Aduaneira, afirma que o Porto Seco de Anápolis é hoje o 3º maior do Brasil dentre os 62 existentes. 90% das atividades da Eadi anapolina são com importações e 10% em exportações. Importações de máquinas e equipamentos, automóveis, peças para veículos e insumos químicos farmacêuticos para os laboratórios de Anápolis, Aparecida de Goiânia e Goiânia representam 96% das suas atividades. A receita do Porto seco tem aumentado ano após ano. Em 2006 foram US$ 243 milhões; 2007, US$ 526 milhões; 2008, US$ 1 bilhão; 2009, US$ 1,11 bilhão e 2010, US$ 2,05 bilhões.

Tem servido como grande atrativo para a vinda de investidores a Goiás. A Caoa/Hyundai, além das facilidades fiscais que lhe foram oferecidas pelo Estado, levou em conta a presença da aduaneira anapolina. O vice-presidente de administração e country manager Brasil da Yamana, Arão Portugal, da Mineração Maracá Indústria e Comércio, instalada no município goiano de Alto Horizonte, confirma isso ao afirmar: “Desenhamos um sistema logístico voltado para o modal ferroviário e o Porto Seco de Anápolis foi determinante em nossa estratégia, tendo em vista sua excelência operacional.”

Sinto-me orgulhoso de ter participado dessa grande obra que está revolucionando o crescimento econômico de Goiás.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Raul Balduíno e o MDB (Final)

Vencida a eleição de 1965, Raul Balduíno deu início à sua administração. Combatido tenazmente pelos adversários, o prefeito não se deixou abater. Contando com significativa maioria na Câmara Municipal, quando o MDB elegeu dez dos quinze vereadores em 1966, teve tranquilidade para administrar. Henrique Santillo ao lado de Laudo Puglisi, João Furtado de Mendonça, João Luiz de Oliveira, Adão Mendes Ribeiro, Amador Abdalla, Raimundo de Oliveira Lima, Homero Batista, Oscar Miotto e Walmir Bastos transformaram o clima no Legislativo no mais favorável possível ao prefeito.

Durante quase todos os quatro anos de mandato os vereadores trabalharam sem remuneração. Quando os antigos partidos foram extintos, dando lugar a Arena e MDB, a legislação eleitoral foi alterada, só permitindo remuneração para os vereadores em cujos municípios houvessem no mínimo 100 mil habitantes. A população anapolina, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, não havia chegado aos 100 mil. Mesmo assim, foi a mais produtiva de todas as legislaturas na avaliação de jornalistas e analistas políticos.

Com pequenos recursos e inúmeros problemas a resolver, Raul deu grande impulso ao desenvolvimento municipal. Foi na sua administração que se realizou a primeira Feira da Amostra da Indústria Anapolina – Faiana. O evento aconteceu no parque de exposição agropecuária. A indústria em Anápolis era pequena, se concentrando mais nas máquinas de beneficiar arroz e cerâmicas. Fora disso, algumas outras de pequena dimensão. Com a Faiana, a economia municipal se despertou para a excelente posição geográfica da cidade, própria mesmo para se transformar em grande pólo industrial. Coração do Brasil, entroncamento das regiões Sul e Norte.

Ao suceder Raul Balduíno, o prefeito Henrique Santillo não só deu continuidade às feiras industriais, como considerou de utilidade pública, para efeito de desapropriação, a área de terra onde hoje se encontra instalado o Daia. Leonino Caiado, governador do Estado, desapropriou a área e instalou a primeira industria no local, pela Lei de incentivos fiscais nº 7.700: a fábrica de azulejos Cecrisa, atual Cemina. No governo Irapuan Costa Júnior foi edificado o Daia, o mais completo Distrito Industrial do Estado. O distrito industrial se consolidou com a Lei Fomentar, na administração Iris Rezende e Produzir, no governo Marconi Perillo.

Raul Balduíno construiu os primeiros conjuntos habitacionais de Anápolis, com financiamento do Banco Nacional de Habitação – BNH. O Conjunto Raul Balduíno, ao lado do Estádio Jonas Duarte e Vila Formosa. Na sua administração o Estádio dos Amadores, o Zéca Puglisi, foi construído. Vereador Laudo Puglisi (MDB), autor da lei propondo sua construção. A meu pedido, à época presidente da Liga Anapolina de Desportos, construída a sede própria da LAD, nas dependências do novo estádio. O primeiro Pronto Socorro da cidade, obra de Raul Balduíno, transformado mais tarde por Jamel Cecílio, em Hospital Municipal. Dotou zona rural municipal de infraestrutura, com abertura e conservação de estradas, construção de pontes e mata-burros. Auxiliou os pequenos proprietários rurais com açudes, cascalhamento de currais e estradas vicinais. Além da escola Elzira Balduíno, no Bairro Maracanã, fortaleceu com mais escolas os bairros e zona rural. Fez administração admirável e de grande alcance social.

Ao final da sua administração, tinha preferência pela candidatura do delegado de polícia Thales Reis à prefeitura. Thales, genro do coronel Achiles de Pina, grande líder da política municipal. Raul se dobrou à vontade da maioria da população que queria Henrique Santillo. Apoiou Santillo, tendo Thales Reis como seu vice-prefeito. Poderia ter ingressado na Arena, como normalmente faziam os políticos, principalmente ocupantes de cargo Executivo. Preferiu filiar-se ao MDB, mesmo depois da cassação de Iris Rezende Machado, prefeito de Goiânia, em 1969. Era o mais cotado para ser o vice de Iris Rezende Machado ao governo de Goiás nas eleições de 1970. Com a cassação de Iris e a eleição para o governo, transformada em eleição indireta pela Assembleia Legislativa, foi candidato ao Senado, ao lado de Gerson de Castro Costa e Pedro Ludovico Júnior. A Arena elegeu os três senadores, Osires Teixeira, Benedito Ferreira e Emival Caiado. Nas vagas deixadas por Juscelino Kubitschek, Pedro Ludovico e José Feliciano Ferreira. Três vagas porque Ludovico e Juscelino haviam sido cassados enquanto José Feliciano terminava seu mandato. Raul Balduino de Souza foi muito importante na luta dos brasileiros pela queda da ditadura.