sexta-feira, 14 de maio de 2010

Municipalização já, para o bem das crianças

Publicado na edição de 13/05/2010 do jornal Diário da Manhã

Quando em 1985 Anápolis readquiriu sua autonomia política, depois de 12 anos de prefeitos nomeados, como candidato do PMDB à prefeitura, fui com Henrique Santillo ao Bairro Jundiaí, visitar a região. Ouvimos as reclamações dos moradores pela falta do esgoto sanitário. Do Colégio São Francisco à Vila Santa Maria de Nazareth era uma região de relevo úmido, em grande parte pantanoso mesmo. Cisterna não precisava mais que um metro para brotar água. Fossa num lugar de tanta água em poucos dias precisava de esgotamento ou construção de uma nova. O mais dramático presenciamos na Rua Visconde de Taunay, numa residência em frente ao feirão, um enorme buraco, denunciando explosão de uma fossa, em que o proprietário havia colocado carbureto para sua limpeza, como habitualmente fazia. Uma pessoa morreu e outra ficou gravemente ferida.

Tendo vencido o pleito e Henrique eleito governador em 86, elegemos para Anápolis, a construção da rede de esgoto como sua a maior prioridade. Elaborado o projeto, atendendo mais de 90% da área urbana, a obra foi realizada. Até mesmo a pequena rede já existente, cobrindo o setor central, cujo esgoto era despejado sem qualquer tratamento no Córrego das Antas, foi reconstruída. Foram milhares de quilômetros de rede. Uma moderna estação de tratamento do esgoto coletado em toda cidade foi construída às margens do Antas, próxima ao Bairro Residencial das Flores. Esgoto tratado e devolvido ao córrego. Médicos pediatras e cartórios de registro civil podem atestar que após aquelas obras caiu verticalmente a taxa de mortalidade infantil em Anápolis.

Depois desse serviço realizado em 1987, há exatamente 23 anos, nada mais foi feito. A única extensão feita de lá até aqui, foi para coletar o esgoto do Condomínio Porto Rico, no Bairro São Joaquim, que com seus mais de 600 apartamentos, todos ocupados, usava o sistema de fossa gigante, que enchia e vazava até três vezes por semana. A prefeitura arcou com a despesa da execução da obra.

Até o momento, a expansão do atendimento ao usuário tem sido apenas com ligações domiciliares. Residências construídas em lotes antes baldios, em setores servidos pelas redes principais, recebem o ramal domiciliar e são apresentadas na estatística da Saneago. A rede e os emissários utilizados são os construídos em 1987.

Impedida de utilizar dinheiro do FGTS, a maior fonte de recurso disponível para saneamento na Caixa Econômica Federal, a Saneago com sua capacidade de endividamento esgotada, se transformou, ao lado do modestíssimo Amapá, nos dois Estados que menos reduziram a quantidade de habitantes sem a coleta de esgoto, nos últimos 16 anos. Amapá reduziu em 2% e Goiás 4%. No mesmo período, a média da redução nacional nesse setor foi de 40%, segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, do Ministério do Planejamento.

A principal vítima desse descaso administrativo é a criança, com o aumento cada vez maior da mortalidade infantil. Com 17,4 crianças mortas no primeiro ano, de cada mil nascidas vivas. Goiás só não tem a maior taxa de mortalidade infantil que as regiões Norte e Nordeste. No Centro-Oeste – Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, na Região Sul; São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo – Região Sudeste, as mortes de crianças com menos de um ano de vida são em menor número que as ocorridas em Goiás.

Para que não ficasse apenas no papel o projeto federal de construção de casas Minha Casa, Minha Vida, a prefeitura de Anápolis, se endividou em mais de 56 milhões de reais, junto à Caixa Econômica Federal, repassando os recursos à Saneago. Fato semelhante aconteceu com Aparecida de Goiânia e outras cidades interioranas.

Enquanto isso a população dos bairros periféricos de Anápolis e das cidades de médio e grande portes do Estado continua bebendo água contaminada das cisternas, assistindo ao crescimento da mortalidade infantil.

Só há uma solução para evitar o colapso total: municipalização, já !

domingo, 9 de maio de 2010

Ausência de benefícios não atrapalha

Publicado na edição de 09/05/2010 do jornal Diário da Manhã

Recordar, principalmente das coisas boas que aconteceram nas nossas vidas, mesmo sendo nostálgicas, nos arremessa a emoções sempre renovadas. Embora não sendo anapolino, pois nasci em Ribeirão Preto –SP, desde de pequeno vivo em Anápolis. Lembro-me com freqüência de momentos importantes de todas as fases da minha vida. Uma de atividade intensa foi quando adolescente, jogando futebol pelo Ypiranga, no estádio Manoel Demóstenes. Não havia rotina. A todo instante acontecia um fato novo. Não saem do arquivo positivo que carrego em minhas lembranças.

Nosso campo, inaugurado em 17/05/l942, por Manoel Demóstenes Barbo de Siqueira, num terreno doado pelo fazendeiro José Gomes de Paula. Era realmente de chão batido, sem nenhum conforto para atletas e torcedores, mas era o nosso campo. Estávamos tão acostumados com sua simplicidade e precariedade, que não víamos defeito e deficiência nas suas instalações. Quando alguém surgia com a idéia de modernizá-lo a reação contrária era de todos. Nessa simplicidade existiu até 10/04/1965, quando surgiu o estádio Jonas Duarte.

No final dos anos 50 surgiu em Anápolis um técnico de análises clínicas, vindo do Rio de Janeiro, torcedor do Bangu. Para ele, Zózimo era o maior de todos os craques brasileiros. Aqui chegando se apresentou como técnico de futebol e foi logo assumindo a função no Induspina. Foi nessa condição que Abel conheceu o estádio Manoel Demóstenes. Ficou decepcionado e estarrecido com o que viu:

- Qualquer campo de várzea no Rio é gramado e possui arquibancada. Temos que fazer desse terreiro um projeto de campo de futebol. Não há justificativa para uma cidade como Anápolis, repleta de craques de primeira grandeza, jogar num lugar assim...

Decidiu em parceria com alguns comerciantes da cidade construir lance de 10 metros lineares de arquibancadas, com cinco degraus. Para impressionar os desportistas, ele próprio foi arquiteto, engenheiro, mestre de obra e pedreiro. Em três dias sua obra prima estava construída. Paredes de meio tijolo, com o vão de dois metros uma da outra, ate completar os dez metros projetados. Com tábuas de angico, de cinco centímetros de espessura, montou os cinco degraus da arquibancada. A maioria dos torcedores que só comparecia ao campo no domingo, ficou surpresa com a novidade, que não existia na semana anterior. A arquibancada foi erguida na lateral do campo, paralela à Rua Benjamim Constante, próxima a linha de fundo.

Metódico, muito organizado, Abel tomou todas as providências para que a solenidade de inauguração fosse marcante. Convidou o prefeito Municipal Hely Alves Ferreira para a inauguração. Enquanto isso a Banda Lira de Prata de Santana, executando Uberaba Esporte a pedido de Caetano, natural de Uberaba, fanático torcedor da rubra e Cidade Maravilhosa, em homenagem a Abel, fazia o espetáculo mais alegre e festivo. A medida que se aproximava o horário da partida oficial entre Ypiranga e Botafogo de Buriti Alegre, pelo campeonato goiano, o público aumentava cada vez em maior número ao lado das arquibancadas. Todos comentavam sobre a novidade, mas ninguém se dispunha a sentar-se nelas. A fita verde amarela, adquirida na tipografia e papelaria Glória, estendida por toda extensão da arquibancada, aguardava a presença do prefeito para solenemente ser descerrada.

Com o prefeito ausente o descerramento não se deu. Ao entrar em campo, o árbitro da partida designado pela Federação Goiana de Desportos, vendo aquela aglomeração foi verificar o que estava acontecendo. Viu a obra idealizada e o serviço feito por Abel. Não gostou. Sem nenhuma técnica de segurança era um perigo à integridade física dos torcedores que poderiam ser agredidos a tijoladas pelos mais fanáticos e descontrolados.Determinou sua derrubada e retirada de todo o entulho imediatamente. Só depois de totalmente demolida e o material levado para fora do estádio, a partida foi iniciada.

O que mais impressionou Abel, foi que para construir a arquibancada não contou com nenhuma ajuda, mas para derrubá-la, todos os torcedores presentes ao Manoel Demóstenes fizeram questão de participar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Lázaro da bicicleta, o locutor diferente

Publicado na edição de 03/05/2010 do jornal Diário da Manhã

O Estádio Manoel Demostenes em Anápolis, campo de chão batido, cerca de ripas em substituição ao alambrado, sem arquibancadas e banheiros, além de não possuir vestiários para os clubes e árbitros, foi palco de acontecimentos monumentais no futebol. A apresentação da Portuguesa de Desportos, no início dos anos 50, com seus ídolos, Muca, Djalma Santos, Brandãozinho, Julinho, Pinga , Nininho e tantos outros, foi um deles.

No Manoel Demostenes foram realizados jogos históricos, onde se exibiram renomados craques anapolinos e goianienses. Tambem foi lá que torcedores fizeram a diferença. Caetano, da Associação Atletica Anapolina, com seu bordão inconfundível, “óh o pé dele Carpaneda”, Teodora a dama tricolor impecávelmente vestida e sua inseparável sombrinha, além de Mané Padeiro,que muitas vezes assistia jogos do seu Anápolis, dentro do estádio, em cima da carroça-baú, cheia de pães, roscas e quitandas.

Lá, Alcemiro Rodrigues, o popular Gigante, trajando calça esporte dobrada até o meio da canela, botina de carregar pela boca, paletó azul marinho, cachecol, chapeu e guarda chuva desbotado pelo uso, se transformou no mais popular árbito de Anápolis, no amadorismo.

Campo lotado, torcedores em silêncio absoluto, assistiram no Manoel Demostenes,Glicério Mellazo, artilheiro do Ypiranga se negar a cobrar pênalti contra o Anápolis, aos 43 minutos do segundo tempo. Ficou assustado e amedrontado com a presença em campo do presidente tricolor, Juiz de Paz no Município, Joâo Bezze, que discretamente portava um 38 na cintura e indagava em vóz alta e pausada aos alvinegros: “ Quem vai bater o pênalti ?” Como ninguém se apresentou para a heróica missão, Joaquim Diogo encerrou a partida, e o pênalti só foi cobrado, com os portôes fechados ao público, três meses depois, por decisão da justiça desportiva.

Consagrado e respeitado jornalista Jayro Rodrigues da Silveira, iniciou sua carreira de comentarista esportivo na Rádio Santana de Anápolis, no Estádio Manoel Demostenes. Polêmico e discreto, Jayro nunca deixou transparecer sua simpatia e amor pela rubra, a xata. A Rádio Santana não possuia o poder e penetração da Bandeirantes de Sâo Paulo, que com sua Cadeia Verde-Amarela atingia todo Brasil, mas tinha sua cabine de madeira, toda pintada de verde-amarelo.

Enquanto Jayro Rodrigues comentava pela Rádio Santana, uma outra grande figura, essa consagrada no meio jurídico goiano, Getúlio Targino, no Manoel Demostenes, comentava pela Rádio Cultura. Os comentaristas seguiram caminhos exitósos e diferentes, mas suas emissoras tiveram o mesmo destino: fechadas que foram no período ditatorial, pelo ministro Quandt de Oliveira, da Viação e Obrás Públicas, responsável pela área das comunicações, em maio de 1975, por decisão política.

Outra figura popularíssima, que fez história marcante no Manoel Demostenes, foi Lázaro Gomes, o Lázaro da Bicicleta. Todas as tardes quando treinavam Anapolina, Anápolis, Ypiranga ou São Francisco, Lázaro chegava mais cedo, em sua bicicleta, acomodava-se ao lado da cerca de ripas e com uma latinha, geralmente de extrato de tomate, transmitia todos os lances do treino coletivo. No transcurso do treinamento, atletas se dirigiam até onde o locutor se encontrava, para esclarecer uma jogada mais polêmica. Lázaro da Bicicleta era ouvido e admirado pela garotada. Os meninos prestavam muito mais atenção no que Lázaro dizia e comentava, que nos lances dentro de campo. Lázaro da Bicicleta também faz parte da história do futebol anapolino e do estádio Manoel Demostenes.